terça-feira, 6 de janeiro de 2026

A verdade incômoda sobre nós mesmos


Há verdades que não nos ferem por serem falsas, mas por serem verdadeiras. A doutrina da depravação total pertence a essa categoria. Ela não nasce do pessimismo psicológico, nem do gosto por sistemas severos, mas da leitura honesta das Escrituras à luz da realidade humana tal como ela se apresenta diante de Deus.

A resistência a essa doutrina raramente é exegética em sua raiz mais profunda. Ela é, antes, moral e existencial. O homem moderno (e não apenas o moderno) tolera ser fraco, mas não tolera ser incapaz; aceita ser doente, mas não aceita estar morto. A Escritura, contudo, insiste em nos descrever não como pacientes que aguardam ajuda, mas como cadáveres que precisam ser ressuscitados.

Quando Paulo escreve aos efésios que estávamos “mortos em nossos delitos e pecadosEfésios 2:1, ele não está usando uma metáfora poética vazia. No contexto imediato, a morte é explicada como escravidão: “nos quais andastes outrora, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade do arEfésios 2:2, vivendo “segundo as inclinações da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentosEfésios 2:3. No contexto do livro, essa morte é contrastada com a ação soberana de Deus que vivifica: “mas Deus, sendo rico em misericórdia… estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com CristoEfésios 2:4–5. E no contexto de toda a Escritura, a morte espiritual apontada em Gênesis 2–3, onde a ruptura com Deus precede toda degeneração moral visível: “no dia em que dela comeres, certamente morrerásGênesis 2:17, seguida da alienação, culpa e fuga da presença divina Gênesis 3:7–10.

Aqui surge a primeira objeção: “morto não significa incapaz; significa apenas separado”. O problema é que essa distinção não nasce do texto, mas de uma necessidade teológica externa a ele. Na Escritura, separação de Deus nunca é neutra; ela é sempre corrupção, cegueira e escravidão, como se vê em Isaías 59:2as vossas iniquidades fazem separação entre vós e o vosso Deus” e em Romanos 1:21–24, onde a separação resulta em obscurecimento do entendimento e entrega às próprias paixões. O homem separado não flutua em autonomia moral, ele cai.

 

O testemunho da consciência bíblica

 

O Salmo 51 não é uma reflexão abstrata sobre a natureza humana, mas uma confissão nascida do colapso moral de Davi. Quando ele reconhece: “Eu nasci na iniquidade, e em pecado me concebeu minha mãeSalmo 51:5, não está transferindo culpa para sua origem biológica, mas confessando que o seu adultério e homicídio (2 Samuel 11) não foram acidentes isolados. Eles brotaram de uma fonte mais profunda, anterior às escolhas pontuais, algo que o próprio Jeremias expressa ao dizer: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corruptoJeremias 17:9.

O Salmo 14, citado por Paulo em Romanos 3, não descreve ateus militantes, mas homens religiosos, sociais, politicamente organizados. Ainda assim, o diagnóstico é abrangente: “Não há quem faça o bem, não há nem um sequerSalmo 14:3. Paulo, no contexto de Romanos, não está construindo um exagero retórico, mas fechando todas as saídas possíveis - judeus e gentios, religiosos e irreligiosos - ao afirmar: “Não há justo, nem um sequer; não há quem entenda, não há quem busque a DeusRomanos 3:10–11, concluindo que “todos se extraviaramRomanos 3:12, para que “toda boca se cale, e todo o mundo seja culpável diante de DeusRomanos 3:19.

A objeção comum aqui é: “Isso descreve atos, não natureza”. Mas Paulo faz exatamente o oposto: ele parte dos atos para provar a condição. A árvore é conhecida pelo fruto, como ensinou o próprio Cristo Mateus 12:33–35. Se nenhum homem busca a Deus, não é porque lhe faltam informações, mas porque lhe falta disposição interior, conforme Paulo já havia declarado: “o pendor da carne é inimizade contra DeusRomanos 8:7.

 

Jesus e a falência da vontade humana

Poucos textos são tão decisivos quanto as palavras de Cristo em João 6: “Ninguém pode vir a mim, se o Pai, que me enviou, não o trouxerJoão 6:44. O verbo não indica permissão externa, mas capacidade interna. No contexto imediato, Jesus está explicando a incredulidade de pessoas que viram milagres João 6:2, 14, ouviram sua pregação João 6:26–40 e ainda assim o rejeitaram João 6:60–66. No contexto do Evangelho, João já havia afirmado que “a luz veio ao mundo, mas os homens amaram mais as trevas do que a luzJoão 3:19. E no contexto bíblico global, amar as trevas não é ignorância, é inclinação moral, como também afirma Romanos 1:32.

A resposta habitual é dizer que Deus “atrai” a todos igualmente, e que alguns simplesmente resistem, apelando frequentemente a textos como João 12:32atrairei todos a mim”. A pergunta pertinente é esse “todos” se refere a quem? E é o próprio Cristo distingue claramente entre os que são dados ao Filho e os que permanecem incrédulos: “Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mimJoão 6:37 e “há alguns de vós que não creem… porque não sois dos que me foram dados” João 6:64–65. O texto não apresenta duas vontades igualmente capazes reagindo de modos diferentes, mas uma vontade humana incapaz sendo eficazmente trazida pelo Pai.

 

O diálogo honesto com Arminius

 

É precisamente aqui que muitos se surpreendem: Jacob Arminius jamais afirmou que o homem, em seu estado natural, possui capacidade moral de crer sem a graça. Pelo contrário, Arminius escreveu explicitamente que, sem a graça preveniente dada, o homem não pode pensar, querer ou fazer o bem espiritual, reverberando textos como João 15:5sem mim nada podeis fazer” e 1 Coríntios 2:14 o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus”. Para ele, a queda afetou profundamente o entendimento, os afetos e a vontade, em consonância com Efésios 4:17–18. E quando feito participante dessa regeneração, ele ainda não pode pensar, querer ou fazer o bem sem o auxílio contínuo da graça divina.

Tal menção de Arminius pode ser vista em The Works of James Arminius, Vol. 1 (tradução de James Nichols e W.R. Bagnall), e pode ser encontrada em https://www.andrews.edu/~toews/classes/sources/modern/Arminius%20I.htm?utm

Nessa obra, no capítulo sobre O Livre-Arbítrio do Homem (The Free–Will of Man), Arminius escreve claramente: “But in his lapsed and sinful state, man is not capable, of and by himself, either to think, to will, or to do that which is really good; but it is necessary for him to be regenerated and renewed … by God in Christ through the Holy Spirit …”

Esta passagem é considerada a declaração mais explícita de Arminius sobre a incapacidade humana sem a graça, e é usada até hoje por teólogos para mostrar que o arminianismo clássico afirma uma incapacidade radical do homem pecador para o bem espiritual sem intervenção divina; ainda que Arminius veja essa graça como preveniente e resistível, em contraste com o entendimento reformado de graça eficazmente irresistível.

Onde Arminius diverge não é no diagnóstico da doença, mas no modo como o remédio é aplicado. Ele sustenta que a graça é oferecida a todos de forma restauradora da capacidade, podendo ser resistida, apelando a textos como Atos 7:51 “sempre resistis ao Espírito Santo” e Mateus 23:37. A tradição reformada responde que, se todos recebem igualmente essa restauração, a diferença final repousa novamente no homem. Tal pensamento é algo que a Escritura se recusa a permitir, pois afirma com respeito a aplicação da graça que “não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdiaRomanos 9:16. Ainda assim, é importante reconhecer: o arminianismo clássico não é um retorno ao otimismo pelagiano, mas uma tentativa sincera de preservar responsabilidade humana sem negar a gravidade da queda.

Essa honestidade histórica é essencial, porque mostra que a depravação total não é uma caricatura calvinista, mas um reconhecimento compartilhado, ainda que desenvolvido de formas distintas.

 

Uma visão mais acurada em Mateus e em Atos - A resistência que revela a doença, não a cura frustrada

 

Há uma diferença decisiva entre resistir a um chamado e frustrar uma ressurreição. Confundir essas duas realidades é um erro antigo, recorrente e profundamente humano. Ele nasce do desejo de preservar algum espaço de autonomia moral no homem caído, ainda que as Escrituras insistam em nos descrever como mais doentes do que gostaríamos de admitir.

A doutrina da depravação total não afirma que o homem sempre resiste da mesma forma, nem que toda resistência tenha o mesmo objeto. Ela afirma algo mais básico e mais incômodo: que o coração humano, separado de Deus, é estruturalmente inclinado à rejeição da verdade quando esta o confronta. Essa rejeição se manifesta historicamente na recusa da Palavra, na perseguição dos profetas, no desprezo pela revelação. Mas ela não é apresentada na Escritura como a frustração de uma graça regeneradora em ação; é, antes, a evidência de que tal graça ainda não foi concedida.

É exatamente aqui que se encontra o erro comum na leitura de textos como Atos 7:51 e Mateus 23:37. Ambos falam de resistência. Nenhum deles fala de regeneração frustrada. Vamos trabalhar essa questão em quatro movimentos.

 

1.       Identificando corretamente o objeto da resistência

 

Quando Estêvão acusa seus ouvintes de resistirem ao Espírito Santo, ele não está descrevendo uma operação interna da graça sendo impedida no último instante. O próprio discurso define o que significa essa resistência: a rejeição contínua dos mensageiros de Deus ao longo da história de Israel.

O Espírito, nas Escrituras, não fala de modo abstrato. Ele fala por meio de homens enviados, por meio de palavras inspiradas, por meio de advertências concretas. Resistir ao Espírito, nesse contexto, é resistir à Palavra que Ele coloca na boca dos profetas. É isso que Neemias reconhece ao afirmar que Deus advertiu Israel “pelo seu Espírito, por intermédio dos profetasNeemias 9.30. É isso que Zacarias denuncia quando diz que o povo endureceu o coração para não ouvir as palavras enviadas “pelo Espírito, mediante os profetasZacarias 7.12.

Estêvão não altera esse padrão. Ele o confirma.

Homens de dura cerviz e incircuncisos de coração e de ouvidos, vós sempre resistis ao Espírito Santo; assim como fizeram vossos pais, também vós o fazeis. Qual dos profetas vossos pais não perseguiram? Eles mataram os que anteriormente anunciavam a vinda do Justo, do qual vós agora vos tornastes traidores e assassinos, vós que recebestes a lei por ministério de anjos e não a guardastes.Atos 7:51-53

A resistência não é mística; é histórica. Não é invisível; é pública. Não acontece no interior secreto da alma; acontece na praça, no templo, no apedrejamento dos enviados de Deus.

Esse dado é crucial: o texto fala de rejeição da revelação, não de frustração da regeneração.

 

2.       Respeitando o contexto histórico-pactual dos textos

 

Atos 7 não é um tratado sobre conversão individual. É uma acusação profética contra a história de infidelidade de um povo que recebeu privilégios espirituais singulares e respondeu com rebelião reiterada. O fio condutor do discurso não é a mecânica da graça, mas a constância da rejeição.

O mesmo ocorre em Mateus 23. Jesus não está descrevendo o momento interno em que uma alma quase regenerada resiste à graça preveniente. Ele está pronunciando juízo contra uma liderança que sistematicamente fechou o Reino diante dos homens. O lamento sobre Jerusalém nasce da rejeição histórica dos profetas, da violência contra os enviados, da recusa coletiva ao chamado ao arrependimento.

Quando Cristo diz “quantas vezes quis eu ajuntar”, Ele está falando como o Deus da aliança que, ao longo dos séculos, convocou, advertiu, chamou e exortou. Ajuntar, aqui, não é sinônimo de regenerar; não chega nem perto. É chamar o povo de volta aos termos da aliança. A resistência, portanto, não é à aplicação eficaz da graça, mas ao chamado externo e histórico de Deus.

Ignorar esse pano de fundo é deslocar o texto de seu terreno próprio e forçá-lo a responder perguntas que ele não pretende responder.

 

3.       Distinguindo revelação resistível de graça eficaz

 

A Escritura é absolutamente clara em afirmar que a Palavra pregada e ensinada pode ser resistida. Profetas podem ser perseguidos. Advertências podem ser desprezadas. Convites podem ser rejeitados. Essa resistência, porém, nunca é apresentada como prova de que a graça que vivifica mortos falhou em seu propósito.

Aqui está o ponto onde a doutrina da depravação total se mostra decisiva. Se o homem estivesse apenas debilitado, seria plausível imaginar uma graça que restaura capacidades e aguarda a cooperação final da vontade humana. Mas se o homem está morto em seus delitos e pecados, então o problema não é de resposta atrasada, mas de vida ausente.

A Escritura não descreve a regeneração como uma tentativa divina sujeita à aprovação humana. Ela a descreve como um ato criador, comparável ao surgimento da luz nas trevas. Quando Deus decide conceder um coração novo, Ele não pede permissão à resistência do antigo coração; Ele o remove. “Dar-lhes-ei um só coração, espírito novo porei dentro deles; tirarei da sua carne o coração de pedra e lhes darei coração de carneEzequiel 11:19

Portanto, textos que falam de resistência à Palavra não enfraquecem a doutrina da depravação total. Eles a confirmam. Eles mostram como o homem age quando deixado à sua própria condição: ele resiste, rejeita, endurece-se.

 

4.       Aplicando a mesma chave hermenêutica de forma consistente

 

O erro de Arminius nesses textos não está na seriedade com que ele trata a graça, mas na inconsistência com que distingue seus modos de operação. Ele lê Atos 7 e Mateus 23 como se toda obra do Espírito fosse necessariamente regeneradora, quando a própria Escritura distingue entre revelação externa e renovação interna.

A Escritura, lida com atenção ao seu próprio vocabulário e aos seus contextos históricos e literários, não autoriza a identificação automática entre toda ação do Espírito Santo e a regeneração do pecador. Pelo contrário, ela apresenta de modo consistente o Espírito atuando real e objetivamente sobre homens não regenerados. Podemos exemplificar tais obras do Espírito como que: falando por meio de profetas ímpios como Balaão, capacitando reis rejeitados como Saul, concedendo dons, convencendo do pecado, advertindo pela Palavra e chamando externamente à obediência; tudo isso sem que essas operações impliquem mudança interior da natureza caída. Essa distinção não enfraquece a doutrina da depravação total; antes, a sustenta. Se o homem, mesmo exposto à verdade inspirada, convencido do pecado e beneficiado por operações externas do Espírito, permanece resistente, endurecido e espiritualmente morto, então o problema não está na falta de estímulos divinos, mas na corrupção radical do coração humano. Assim, a Bíblia preserva simultaneamente a realidade da ação do Espírito e a incapacidade moral do homem caído, deixando claro que somente a obra soberana e eficaz da regeneração que é distinta do chamado externo, da convicção e da capacitação, pode vencer a escravidão do pecado. É justamente essa distinção que protege a doutrina da depravação total de reduções simplistas e impede que a resistência humana a operações externas do Espírito seja confundida com uma suposta frustração da graça salvadora.

Quando essa distinção é perdida, a resistência histórica passa a ser interpretada como fracasso soteriológico; o que torna a divindade do Espírito duvidosa por ser Ele interpretado de forma divergente do Pai e do Filho – Todo Poderoso – Gênesis 17.1, Apocalipse 1.8. O chamado rejeitado torna-se graça frustrada. A culpa humana desloca-se sutilmente para uma insuficiência divina.

Embora a Escritura não formule o atributo da onipotência do Espírito Santo em linguagem abstrata ou confessional, ela o afirma de modo concreto ao atribuir-lhe obras que, no próprio testemunho bíblico, pertencem exclusivamente ao poder ilimitado de Deus. Desde o princípio, o Espírito é apresentado como agente criador e vivificador: “o Espírito de Deus pairava sobre as águasGênesis 1.2 e “o Espírito de Deus me fezJó 33:4, linguagem que o insere diretamente no exercício do poder criador que traz o ser à existência. Essa mesma potência divina é vista não apenas no ato inicial da criação, mas na sua preservação contínua, pois “envias o teu Espírito, eles são criados, e assim renovas a face da terraSalmos 104:30, atribuindo-lhe a sustentação constante da vida, algo que exige poder infinito. De modo ainda mais explícito, a Escritura relaciona o Espírito à ressurreição dos mortos (a mais elevada manifestação da onipotência divina) ao afirmar que “o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos… vivificará também os vossos corpos mortaisRomanos 8:11, trazendo à tona a promessa veterotestamentária: “porei em vós o meu Espírito, e vivereisEzequiel 37:14. Finalmente, ao tratar da regeneração como novo nascimento soberano o “nascer do Espírito”, em João 3:5–8, a Bíblia descreve o Espírito realizando uma obra criadora no interior do homem espiritualmente morto, paralela ao ato criador original. Assim, sem recorrer a definições filosóficas, a Escritura afirma a onipotência do Espírito ao atribuir-lhe a criação, a preservação, a vivificação e a regeneração, obras que ela mesma reconhece como próprias e exclusivas do Deus todo-poderoso.

A leitura reformada, ao contrário, mantém intactas as categorias bíblicas. Ela afirma que Deus fala de muitos modos, chama por meio de muitos meios, e que o homem, em sua depravação, resiste a todos eles. Mas afirma também que, quando Deus decide salvar, Ele não apenas chama; Ele cria. Ele não apenas convida; Ele ressuscita.

 

A resistência como evidência, não como exceção

 

Atos 7 e Mateus 23 não são textos problemáticos para a doutrina da depravação total. Eles são ilustrações vívidas dela. Eles mostram o que o homem faz diante da luz quando permanece entregue a si mesmo. Eles revelam um padrão contínuo, não uma exceção lamentável.

A resistência ali descrita não aponta para uma graça quase bem-sucedida, mas para um coração plenamente coerente com sua condição caída. E é justamente por isso que a esperança do evangelho não repousa na diminuição dessa resistência, mas na intervenção soberana de Deus que, quando quer, transforma inimigos em filhos, rebeldes em adoradores, mortos em vivos.

 

Negar isso pode tornar o discurso mais palatável. Mas aceitar isso torna a graça verdadeiramente graciosa.

 

Pelágio e o espelho da controvérsia

 

Pelágio, por sua vez, representa o ponto de ruptura. Para ele, o homem nasce moralmente neutro; o pecado é imitação, não corrupção; a graça é auxílio externo, não necessidade interna. O problema dessa visão não é apenas bíblico, mas existencial. Ela não explica por que o mal é universal, persistente e resistente mesmo diante da revelação divina, algo que Paulo atribui diretamente a Adão: “por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morteRomanos 5:12, e que ele reafirma ao dizer que “pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadoresRomanos 5:19.

Agostinho venceu o debate não por retórica, mas porque leu as Escrituras com realismo pastoral. Ele sabia, por experiência e por exegese, que o homem não peca apenas porque aprende a pecar, mas porque ama pecar, conforme Jesus afirmou: “Todo aquele que comete pecado é escravo do pecadoJoão 8:34. E amar algo é mais profundo do que escolher ocasionalmente; é ser governado por uma inclinação, como Tiago descreve ao dizer que cada um é tentado “pela sua própria cobiçaTiago 1:14.

 

O coração do problema - e da esperança

 

A depravação total não afirma que o homem é tão mau quanto poderia ser, mas que nenhuma dimensão do seu ser permanece intocada pela queda, que todas as suas faculdades foram corrompidas pelo pecado. A razão pensa, mas pensa enviesada (Romanos 1:21); a vontade escolhe, mas escolhe cativa (Romanos 6:17); os afetos desejam, mas desejam desordenadamente (Gálatas 5:17). O homem continua humano, racional e responsável; e é justamente por isso que é culpável perante Deus, como afirma Romanos 1:20.

Paradoxalmente, essa doutrina não diminui a graça; ela a engrandece. Se o homem estivesse apenas doente, Cristo seria um médico Marcos 2:17. Mas estando morto, Cristo é ressurreição: “Eu sou a ressurreição e a vidaJoão 11:25. O evangelho não é uma proposta de melhora, mas um ato criador, conforme Paulo declara: “Se alguém está em Cristo, é nova criação2 Coríntios 5:17. A fé não é o último passo de um homem saudável, mas o primeiro sinal de vida de alguém que foi vivificado: “pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de DeusEfésios 2:8–9.

Negar isso pode soar mais gentil, mais palatável, mais aceitável aos “dias delicados”. Mas a Escritura não nos foi dada para preservar nossa autoestima, e sim para nos conduzir à verdade; ainda que ela nos humilhe antes de nos curar João 8:32...e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.

E somente quem reconhece a profundidade da queda é capaz de se maravilhar, sem reservas, com a grandeza da graça: “onde abundou o pecado, superabundou a graçaRomanos 5:20.

 

Um diálogo com a ciência moderna.

 

A Escritura revela a condição do homem com clareza que nenhuma ciência humana consegue igualar. O coração humano, segundo a Palavra, não é apenas falível ou confuso; é radicalmente corrupto, escravizado ao pecado, e incapaz de buscar a Deus por si mesmo (Rm 3:10-12; 3:23). Psicologia e psicanálise, embora úteis para compreender comportamentos e traços da personalidade, frequentemente se desviam desse diagnóstico absoluto. Ao interpretar o pecado como traumas reprimidos, conflitos inconscientes ou mecanismos de defesa emocional - como propõe Sigmund Freud em A Interpretação dos Sonhos (1900) e sua teoria do id, ego e superego - estas distinções humanas reduzem a gravidade da corrupção humana a sintomas, negligenciando a dimensão ontológica e moral do pecado. Carl Jung, ao analisar o inconsciente coletivo e arquétipos, busca revelar padrões de comportamento e forças simbólicas internas, mas ainda trata o homem em termos de processos psíquicos estruturais, e não como um ser moral e espiritualmente depravado diante de Deus. Adler, com sua psicologia individual, enfatiza a compensação e a busca de superioridade, mas novamente confina o problema à esfera emocional e social, desviando-se do diagnóstico bíblico: o homem é totalmente depravado em seu interior, incapaz de pensar, querer ou fazer o bem que seja aceitável a Deus sem intervenção divina Romanos 8:7; Salmo 51:5.

Imagine um jovem angustiado, que busca conforto em sessões intermináveis de análise de sonhos e comportamentos passados, convencido de que, se compreender suas emoções e traumas, encontrará paz. Ele organiza padrões, escreve reflexões e descobre tendências ocultas, mas, à medida que o analista aponta mecanismos de defesa, permanece incapaz de amar a Deus, de se arrepender verdadeiramente ou de obedecer à Sua lei. Esta cena ilustra precisamente a limitação do enfoque psicológico: útil para organizar pensamentos, mas incapaz de tocar o coração morto.

Quando psicólogos ou psicanalistas interpretam a resistência humana à verdade como simples “negação do inconsciente” ou “mecanismo de defesa emocional”, correm o risco de reduzir a depravação a um problema psicológico contingente, negando sua dimensão ontológica, moral e espiritual. A Escritura, ao contrário, não descreve o pecado como um sintoma a ser tratado, mas como uma doença universal e letal: “não há justo, nem um sequerRomanos 3:10. Toda obra de conversão - toda regeneração - surge da soberania divina do Espírito, que age independentemente das capacidades humanas naturais (João 3:5–8; Tito 3:5; Ezequiel 36:26).

A análise psicológica também falha quando tenta traduzir a linguagem bíblica de “coração duro”, “mente rebelde” ou “espírito inclinado ao mal” em metáforas terapêuticas, como se bastasse uma consciência esclarecida ou um autoconhecimento profundo para modificar a natureza caída. Essa hermenêutica secular, expressa em correntes de psicoterapia cognitivo-comportamental moderna - que enfatizam reestruturação de crenças e mudança de padrões de pensamento - corre o risco de transformar a verdade absoluta da Escritura em conselhos adaptativos ou técnicas comportamentais, tirando-a de seu contexto literário, histórico e teológico. Textos como Atos 7:51, em que o povo resiste ao Espírito Santo, ou Romanos 1:18–32, em que a ira de Deus se manifesta sobre a impiedade humana, não falam de traumas reprimidos ou de bloqueios psíquicos, mas de um coração morto, rebelde e incapaz de se submeter à lei de Deus.

Considere uma mulher que frequenta grupos de aconselhamento secular, onde aprende a valorizar sua autoestima, a identificar padrões limitantes de pensamento e a desenvolver assertividade. Ela experimenta progresso emocional, organização de sentimentos e até maior confiança social. No entanto, ao retornar à sua vida interior, permanece incapaz de amar a Deus com todo o coração, de confiar plenamente no Salvador ou de subjugar a própria natureza pecaminosa. Esta experiência demonstra, de forma viva, a limitação do “autoajuda espiritual” e da psicologia aplicada isoladamente: a cura definitiva da alma não depende da percepção de padrões emocionais, mas da regeneração espiritual concedida pelo Espírito Santo.

Mesmo o conceito moderno de “autoestima” ou “valorização pessoal”, tão exaltado em correntes de psicologia humanista, como as propostas por Carl Rogers com sua ênfase na autoatualização e no crescimento do self, não confronta a raiz da depravação. Ele pode até amenizar sintomas, oferecer conforto ou organizar emoções, mas não cria vida espiritual nem produz arrependimento verdadeiro, pois a Escritura deixa claro que a transformação do homem só ocorre quando o Espírito Santo atua soberanamente, dando novo coração e espírito novo (Ezequiel 36:26; 2Coríntios 5:17).

Portanto, o aconselhamento bíblico, confessional, reafirma que a Palavra é suficiente para o cuidado da alma, que o Espírito Santo é o único capaz de transformar corações mortos e que todo recurso humano, psicológico ou psicanalítico, embora útil para compreender sintomas, é incapaz de produzir salvação ou cura verdadeira. A depravação total não é mera questão de interpretação ou perspectiva emocional: é uma realidade absoluta, universal e radical, da qual somente Cristo, pela obra do Espírito, pode libertar.

Em suma, a Escritura não precisa ser ajustada às interpretações humanas; ao contrário, ela corrige, delimita e reorienta todas as tentativas humanas de compreender o homem. Quando Freud fala de repressões, Jung de arquétipos ou Rogers de autorrealização, eles podem descrever facetas da experiência humana, mas não diagnosticam a raiz da condição caída nem oferecem remédio capaz de regenerar. A linguagem secular, por mais elaborada, permanece relativa e limitada. A Bíblia, porém, revela o homem em sua totalidade moral e espiritual, e o Espírito Santo, com poder criador e vivificante, é o único capaz de transformar corações que, de outra forma, permaneceriam mortos, rebeldes e incapazes de responder a Deus.

 

Nem Arminius, nem Pelágio, nem Floyd nem Jung ou Rogers, nenhum outro, mas apenas o Espírito Santo falando na Escritura.

Em face de toda essa reflexão, permanece claro que a depravação total do homem não é uma abstração teológica nem um julgamento exagerado, mas uma realidade bíblica, universal e inescapável. O coração humano, por mais instruído, emocionalmente equilibrado ou socialmente adaptado que pareça, permanece corrompido, rebelde e incapaz de buscar a Deus por si mesmo (Romanos 3:10-12; 3:23). Os textos que narram a resistência a profetas ou à Palavra inspirada, como Atos 7:51 e Romanos 1:18–32, demonstram que a rebeldia humana não se reduz a conflitos psicológicos ou a bloqueios emocionais; trata-se de uma morte espiritual profunda, frente à qual toda tentativa humana de correção, seja filosófica, psicológica ou moral, permanece insuficiente.

A ação do Espírito Santo, evidenciada nas Escrituras, confirma e ilumina esse diagnóstico: Ele fala, convence, capacita, inspira, mas não há indício de que o homem caído, sem regeneração, possa obrigatoriamente corresponder à Sua obra. As resistências registradas na Bíblia não são falhas de uma graça preveniente limitada, como sustenta Arminius, mas manifestações da depravação radical do coração. Mesmo quando o Espírito atua externamente (sobre Balaão, Saul ou sobre Israel) não se observa regeneração, apenas a confirmação da incapacidade do homem de se submeter a Deus por si mesmo. Somente a intervenção soberana e eficaz do Espírito pode produzir o novo nascimento, capaz de transformar o morto em vivo, o rebelde em adorador, e o rebelde endurecido em instrumento de glória (João 3:5–8; Ezequiel 36:26; 2Coríntios 5:17).

O confronto com a ciência moderna reforça ainda mais a suficiência da Escritura. Freud, Jung, Adler e correntes contemporâneas de psicologia e psicanálise podem nomear padrões, explicar sintomas, organizar experiências e propor conselhos práticos, mas não possuem autoridade nem poder para restaurar o coração humano, nem para gerar arrependimento ou fé salvadora. Quando a linguagem secular tenta reinterpretar “coração duro”, “espírito rebelde” ou “resistência à Palavra” como problemas psicológicos ou emocionais, ela deturpa a verdade absoluta da Escritura, oferecendo soluções incompletas, que aliviam sintomas, mas não salvam a alma.

Portanto, a Escritura permanece soberana, suficiente e autoritativa. Todo diagnóstico humano, por mais elaborado que seja, só encontra seu remédio verdadeiro no Evangelho. Como observou A. W. Pink, negar a gravidade da doença impede que se valorize o remédio; assim também, reduzir a depravação do homem a questões psicológicas ou emocionais obscurece a necessidade da graça soberana de Deus. A depravação total não é teoria; é realidade vivida, experimentada e confirmada em cada coração humano. Somente Cristo, pela obra do Espírito Santo, pode transformar essa condição, tornando o impossível do homem possível, e fazendo com que corações endurecidos se voltem para a glória de Deus.





quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

O meio não pode ser um fim em si mesmo.

Quando o calendário se aproxima do Natal, a igreja é naturalmente levada a recordar o mistério do Verbo que se fez carne. E ainda que os dias e as datas não nos governem a consciência, pois “um faz diferença entre dia e dia, outro julga iguais todos os dias” (Rm 14.5). Assim, somos convidados, mais uma vez, a contemplar o coração do evangelho. Não o fazemos porque um dia específico foi ordenado para tal, mas porque o Cristo que nasceu é o mesmo que viveu, padeceu, morreu, ressuscitou e há de vir.

Lucas, ao registrar a pregação de Pedro, nos conduz para além da manjedoura. Em Atos, ouvimos que Jesus foi “entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus” (At 2.23). Nada em sua história foi acidental. Nem o nascimento humilde, nem os anos silenciosos em Nazaré, nem a cruz vergonhosa, nem o túmulo vazio. Tudo já estava determinado no conselho eterno de Deus. O Cristo que veio ao mundo veio com um propósito claro: dar a sua vida em resgate por muitos (Mc 10.45).

Por isso, a fé cristã sempre soube distinguir entre o que Deus ordenou explicitamente e o que Ele não prescreveu. O Senhor, em sua Palavra, nos deu um dia para ser guardado: o Dia do Senhor, o domingo, o sábado cristão, memorial semanal da ressurreição (Lc 24.30; Ap 1.10; At 20.7). Esse é o único dia explicitamente separado para culto e descanso santo. As demais datas podem servir à reflexão, mas não se impõem à consciência da igreja. Pois aprendemos que aquilo que Deus não ordenou claramente, ou que não pode ser deduzido com segurança das Escrituras, não deve governar a vida do povo de Deus (Dt 12.32; Cl 2.16–17).

Ainda assim, quando a igreja se reúne à Mesa do Senhor, somos lembrados de que a Ceia não se restringe a um único momento da história redentiva. “Todas as vezes que comerdes este pão e beberdes o cálice, anunciais a morte do Senhor, até que Ele venha” (1Co 11.26). Anunciamos sua morte, sim; mas essa morte pressupõe sua encarnação. Não há cruz sem nascimento, nem ressurreição sem vida vivida em perfeita obediência. Na Ceia, confessamos todo o Cristo: o que encarnou se fazendo homem, o que sofreu, o que morreu, o que ressuscitou e o que retornará em glória.

O Natal, portanto, não é o centro; é o caminho. O presépio aponta para o Calvário. A criança envolta em faixas antecipa o corpo envolto em panos no sepulcro. O cântico dos anjos prepara o silêncio da sexta-feira e a explosão de alegria do primeiro dia da semana. Como escreveu o apóstolo: “Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores” (1Tm 1.15). Veio, para morrer. Morreu, para ressuscitar. Ressuscitou, para justificar. E voltará, para consumar.

Assim, ao recordarmos o nascimento, não nos detemos nele. Olhamos adiante, para o propósito maior da vinda do Filho. Pois o nascimento foi o meio escolhido pela sabedoria divina; a morte e a ressurreição foram a finalidade eterna. “Importava que o Cristo padecesse e ressuscitasse dentre os mortos ao terceiro dia” (Lc 24.46). E nisso repousa nossa esperança, nossa fé e nossa vida.


Deus abençoe a todos.


Rev. Julio Pinto

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

O SOLA SCRIPTURA E A HERMENÊUTICA DESIGREJADA


A doutrina do Sola Scriptura não é mero conceito abstrato ou argumento acadêmico. É a pedra angular sobre a qual a igreja reformada se sustenta, o alicerce firme que Cristo mesmo comparou à casa construída sobre a rocha: “Todo aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as pratica, será comparado a um homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha” (Mt 7.24). Não se trata apenas de ouvir ou admirar a Palavra, mas de submeter-se a ela com obediência perseverante. Construir sobre a areia, reinterpretando a Escritura segundo experiências subjetivas, opiniões pessoais ou “iluminação interior”, é firmar-se no efêmero e se expor à ruína.

Contudo, a história mostra que a tentação de subverter este princípio é antiga e persistente. Desde a serpente no Éden até as seitas gnósticas e desigrejadas modernas, sempre houve quem buscasse relativizar, reinterpretar ou complementar a Palavra de Deus segundo critérios humanos. A hermenêutica desigrejada é o fruto amargo desta presunção: a Escritura permanece, mas sua autoridade é relativizada; a verdade é proclamada, mas apenas como sugestão, no máximo um adendo; e a igreja, criada para ensinar e preservar a fé, é transformada em um laboratório de opiniões individuais.

 Este artigo se propõe a examinar a Escritura em sua própria luz, mostrando que o Sola Scriptura não é abstração teórica, mas disciplina espiritual: é o alicerce sólido que protege a igreja do erro, sustenta a fé e garante que a casa do crente permaneça firme, mesmo em meio às tempestades do engano e da confusão.


 1.       Os Princípios do Sola Scriptura na Escritura


Antes de analisar distorções ou heresias, é necessário firmar-se no fundamento. Os princípios do Sola Scriptura não são invenções humanas, mas ordens divinamente inscritas, desde Moisés até João. Cada registro, cada “está escrito” (gr. gegraptai), aponta para a mesma verdade: Deus se comunica de forma definitiva e permanente. Entender esses princípios é compreender que a Escritura não é apenas fonte de doutrina, mas instrumento de disciplina, advertência e vida. O que está escrito não é sugestão; é norma. E o que é norma deve ser lido, ensinado e obedecido, sem manipulações, sem interpretações desvinculadas do contexto, e sempre à luz do próprio Cristo que a encerra e a sela.

 

a. A ordem de se deixar escrito

Desde o Éden, a Palavra de Deus foi o critério do juízo, mas a partir de Moisés, ela se tornou também o registro do juízo. O Deus que fala é o Deus que escreve. “Então disse o Senhor a Moisés: escreve isto para memória num livro” (Êx 17.14). O verbo hebraico kathab não sugere mero registro burocrático, mas uma inscrição solene, um testemunho permanente da vontade divina. A revelação, portanto, nasce com a intenção de ser preservada, não reinventada.

Deuteronômio 5.22 reforça o mesmo princípio: Deus escreveu com o Seu próprio dedo as palavras da aliança e, tendo-as falado, não acrescentou mais nada. Há aqui um gesto teológico: o limite da fala divina é o próprio Deus, não o entusiasmo humano. A Escritura é completa porque procede de um Deus que não precisa “atualizar” o que disse.

Josué, ao renovar o pacto, “leu todas as palavras da lei, a bênção e a maldição” (Js 8.34). Ele não improvisou, não reinterpretou à luz de experiências espirituais pessoais, não convocou um sínodo para decidir o que significava o texto. Ele apenas leu, e isso bastou. A leitura pública da Escritura é o antídoto mais antigo contra a hermenêutica da presunção.

 Isaías, em tom de ironia divina, recebe a ordem: “Agora vai, escreve isso numa tábua perante eles, e num livro registra-o, para que fique até o último dia, para sempre e perpetuamente” (Is 30.8). O profeta é mandado a registrar a obstinação do povo, pois até a rebeldia precisa ser lembrada por escrito; talvez porque a memória religiosa humana é seletiva demais quando o pecado é seu próprio tema. Jeremias recebe ordem semelhante: “Escreve num livro todas as palavras que te falei” (Jr 30.2). Nenhum oráculo é confiado à subjetividade da lembrança. A inspiração não depende do humor do profeta, mas do comando do Autor.

 

b. O uso distorcido da palavra inspirada

 O primeiro a citar a Escritura foi o diabo. “Está escrito”, disse ele ao próprio Verbo encarnado (Mt 4). Satanás inaugurou a exegese desigrejada: uma hermenêutica sem contexto, sem reverência, sem submissão à comunidade dos santos. Ele usa o texto inspirado como bisturi para ferir o próprio Autor. E o método não envelheceu. A serpente do deserto continua atualizando seus blogs teológicos, oferecendo ao público ansioso “novas leituras” da mesma velha mentira: “É assim que Deus disse?”

Cristo responde não com uma experiência mística, nem com uma “releitura pastoral”, mas com outro “está escrito”. O Senhor não debate a Escritura; Ele a cita. Ele não a transcende; Ele se submete. Na tentação do deserto, o Verbo de Deus vence o diabo pela Palavra de Deus — o que é uma ironia digna de nota.

 

c. O atestado de inspiração

 A autoridade do “está escrito” percorre o Novo Testamento como um fio de ouro atravessando o tecido da revelação. Em Mateus 2.5, as Escrituras definem o local do nascimento do Messias. Em Mateus 4.4, fundamentam a ética do pão e da obediência. Em Lucas 22.44-46, sustentam o drama da cruz. Em Atos 15.15, determinam o consenso doutrinário da igreja. Em Romanos 1.17, justificam a fé; em 3.10, a condenação; em 9.13, a eleição; em 12.19, a justiça; em 15.4, a esperança.

O apóstolo não fala “conforme o Espírito me revelou ontem à noite”, mas “como está escrito”. O princípio formal da fé cristã é textual, não intuitivo. Até a correção eclesiástica em 1 Coríntios 4.6 se ancora no “para que em nós aprendais a não ir além do que está escrito”. O mesmo Espírito que inspirou a Escritura não inspira acréscimos.

Atos 1.20 demonstra que até os Salmos, poemas devocionais, são normativos para a prática da igreja. Pedro lê Davi como se Davi tivesse escrito diretamente à assembleia de Jerusalém. O cânon é o mesmo; apenas o tempo mudou. O mesmo princípio é aplicado por Paulo em Efésios 5.19 e em Colossenses 3.16.

E quando João, em Apocalipse, cita e alude ao Antigo Testamento em quase cada linha (mais de 500 alusões ao AT), ele não está inovando; está confessando que a revelação final é a reverberação das antigas. A nova aliança não corrige a anterior; ela a consuma.

 

2. O erro hermenêutico em invalidar os ensinos de Cristo para a igreja neotestamentária

 

O Cristo que ordenou “ide” também ordenou “ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho mandado” (Mt 28.20). A comissão é pedagógica, não experimental. A igreja é chamada a ensinar o que recebeu de Cristo, não o que sente. E essa foi a doutrina ensinada para a igreja pelos apóstolos.

O erro hermenêutico dos desigrejados modernos consiste em amputar a continuidade entre os Evangelhos e as Epístolas, como se Paulo houvesse corrigido Cristo. É uma ironia teológica: os mesmos que afirmam ler “somente a Bíblia” tratam as palavras do Senhor da Igreja como se fossem obsoletas para a Igreja.

A doutrina dos apóstolos é a doutrina de Cristo, porque os apóstolos foram instruídos pelo Espírito de Cristo. Nenhum apóstolo contradisse seu Mestre, mas muitos leitores contradizem ambos.

Tiago, por exemplo, não se opõe a Paulo; ele o explica. A carta de Tiago é escrita “às doze tribos que se encontram na Dispersão” (Tg 1.1). A linguagem é figurada: as doze tribos representam o Israel espiritual, a igreja composta de crentes regenerados, não o Israel étnico. O conteúdo da epístola confirma isso: ele trata de fé, obras, provações, sabedoria e comunhão; temas eclesiais, não nacionalistas.

Podemos estender em muito como Tiago é tão inspirado, e escreveu para a igreja neotestamentária, quanto qualquer outro texto apostólico. Mas vamos nos ater brevemente ao tópico da fé. O ensinamento de Tiago acerca da fé não se limita à relação entre crença e obras; ele começa no capítulo 1, enfatizando a fé provada pelas adversidades: “Meus irmãos, tende grande gozo quando cairdes em várias tentações; sabendo que a prova da vossa fé produz perseverança” (Tiago 1.2-3). A fé verdadeira não é estática, nem meramente intelectual; ela se manifesta e se fortalece em meio às provações. É na pressão do mundo e na pressão da carne que a fé mostra seu valor genuíno.

Paulo, ao citar Habacuque, declara: “O justo viverá pela fé” (Rm 1.17; Gl 3.11; Hb 10.38). Aqui, a fé é confiança radical na justiça de Deus, sustentando o crente em toda circunstância, inclusive nos tempos de provação. Tiago não contradiz Paulo; ele complementa o ensino paulino mostrando como a fé se evidencia na vida prática e perseverante do crente. A fé não é apenas uma certeza interna, mas uma força dinâmica que opera em obediência, obras coerentes e resistência às tentações.

A fé que não se traduz em obras ou perseverança é, nas palavras de Tiago, “morta em si mesma” (2.17). Ela se assemelha a um corpo sem alma; aparência de vida, mas sem substância. Puritanos como John Owen comentam que a fé verdadeira é inseparável das obras: não porque as obras justifiquem, mas porque a fé que não produz frutos é “espírito morto e vaidoso”.  Richard Baxter acrescenta que a fé autêntica revela-se no amor ativo ao próximo e na prática fiel da Palavra de Deus.

Assim, o capítulo 1 de Tiago nos ensina que a fé é tanto confiança quanto resistência, tanto certeza quanto prática. Integrada com o ensino paulino e com o eco do profeta Habacuque, a carta de Tiago nos apresenta uma fé viva, perseverante e visível, que sustenta o crente e glorifica a Deus.

Os hereges antigos negaram a carta de Tiago porque não suportavam sua teologia do fruto; os modernos a distorcem porque não suportam sua teologia da obediência. Ambas as negações brotam da mesma raiz: o desprezo pela autoridade da Palavra escrita.

A aceitação universal da epístola pela igreja não foi um gesto político, mas o reconhecimento de que ela se harmoniza perfeitamente com os evangelhos e com Paulo. Onde o homem vê contradição, Deus revela coerência.

 

3. A semente antiga da distorção

 

Como já dizia Salomão: “Não há nada novo debaixo do sol”. Assim, toda heresia é velha; só muda o disfarce. A serpente no Éden inaugurou o ofício de exegeta autônomo: “É assim que Deus disse?” (Gn 3.1). A dúvida hermenêutica foi o primeiro pecado. Desde então, toda tentativa de “reler” a Palavra sem submeter-se a ela é um salto do mesmo bote venenoso.

Na tentação de Cristo, o diabo citou o Salmo 91 fora de contexto. Em Atos e nas epístolas, a seita judaizante também distorcia a lei para minar a graça (At 15; Gl 3). Os gnósticos dos tempos de João alegavam possuir uma “iluminação interior” que os tornava independentes da Palavra escrita. João responde com a mais dura simplicidade: “Quem não traz esta doutrina não o recebais em casa” (2Jo 10).

A história eclesiástica registra o mesmo padrão: toda seita nasce de um texto tirado do corpo da Escritura e erguido contra o resto. O herege é o primeiro a dizer “eu tenho minha leitura”. A ortodoxia, por sua vez, é humilde: lê com a igreja, lê com os séculos, lê de joelhos.

 

4. Seitas posteriores que aderiram ao princípio gnóstico e antinomiano

 

Do gnosticismo primitivo nasceram mil filhotes espirituais. Os novacianos, os montanistas, os anabatistas radicais, os místicos antinomianos: todos beberam da mesma fonte: a Escritura reinterpretada pela “iluminação interior”.

O Sola Scriptura protestante foi a resposta a essa confusão, mas o “espírito desigrejado” a ressuscita em nova embalagem. O argumento é sempre o mesmo: “O Espírito me disse”, “eles estão presos à velha Aliança”, “eles estão debaixo da maldição”; não enxergam as nuances da Lei e suas aplicabilidades distintas entre os Testamentos; são cegos guiando cegos. E o resultado é o mesmo: o Espírito contradiz a si mesmo em cada esquina, em cada live, em cada canal de vídeo, em cada postagem que sempre aponta para algo tenebrosamente egocentrista: “Deus me revelou algo novo hoje”.

A ironia é amarga: a geração que mais fala do Espírito é a que menos suporta o que o Espírito escreveu.

 

5. O Sola Scriptura x Escritura + “iluminação interior”

 

O princípio da Reforma não foi “somente a Escritura e a minha opinião sobre ela”, mas “somente a Escritura como norma de toda fé e prática”. O Sola Scriptura não autoriza o isolamento espiritual; ele o proíbe. A Escritura é suficiente, mas não é subjetiva.

A “iluminação interior” é um ministério do Espírito para compreender o que já foi revelado, não para competir com a revelação. A mesma luz que ilumina o texto não apaga o texto. Quando alguém diz “Deus falou comigo”, a única pergunta legítima é: “E estava escrito onde?”

Os desigrejados modernos, herdeiros da antiga serpente, dizem crer no Sola Scriptura, mas o praticam como “Sola Experientia”. A igreja, para eles, é dispensável; o texto, maleável; a tradição, opressora; e a comunhão, opcional. Reivindicam liberdade, mas acabam escravos da própria interpretação.

O Sola Scriptura puritano, porém, não é libertinagem hermenêutica; é disciplina espiritual (2 Coríntios 10.5). A Palavra é lâmpada, não lanterna de acampamento pessoal. A mesma Escritura que nos dá acesso a Cristo também nos prende à comunhão dos santos.

O Espírito que inspirou o texto não inspira deserção. O que Ele uniu — Palavra e Igreja, não separe o individualismo pós-moderno.

 

6. A permanência e o selo da Escritura

 

A fé cristã não repousa sobre uma revelação em aberto, mas sobre uma Palavra selada. Judas exorta a igreja a “batalhar diligentemente pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos” (Jd 3). O advérbio grego hapax destrói qualquer pretensão de revelação progressiva além de Cristo e de seus apóstolos. A fé foi entregue “uma vez por todas”; nem revisável, nem ampliável, apenas preservável.

Pedro, por sua vez, declara que fomos “regenerados não de semente corruptível, mas incorruptível, mediante a palavra de Deus, a qual vive e permanece para sempre” (1Pe 1.23). A Escritura não é apenas inspirada; é incorruptível, permanente. O que é vivo não precisa ser atualizado.

O autor de Hebreus sela a argumentação: “Havendo Deus antigamente falado muitas vezes e de muitas maneiras aos pais pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho” (Hb 1.1-2). A revelação não apenas culmina em Cristo; ela se encerra n’Ele. O Filho é a Palavra final de Deus ao mundo. E quando o mesmo Cristo ressurreto dita a João as últimas palavras do Apocalipse, o selo é posto: “Se alguém lhes acrescentar alguma coisa, Deus lhe acrescentará as pragas que estão escritas neste livro” (Ap 22.18).

A revelação não é um fluxo contínuo; é um rio que chegou ao mar. O cânon é o memorial escrito da fala divina, fechado não por medo, mas por plenitude.

Aqueles que clamam por “novas palavras do Espírito” esquecem que o Espírito já falou, e ainda fala, nas Escrituras e tão somente nelas. Quem ignora o que “está escrito” jamais compreenderá o que Deus diz.

 

Notas

 

·        Cf. John Calvin, Institutas da Religião Cristã, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 80–81.

·        Cf. John Owen, The Works of John Owen, Vol. III, Edinburgh: Banner of Truth Trust, 1965, p. 234–236.

·        Cf. Richard Baxter, The Reformed Pastor, London: James Nisbet, 1830, p. 47–49.

·        Cf. Thomas Watson, A Body of Divinity, Edinburgh: Banner of Truth Trust, 1958, p. 12.

·        Cf. Samuel Rutherford, Lex, Rex, Edinburgh: Robert Ogle, 1843, p. 93.

·        Cf. Martin Luther, De Servo Arbitrio, São Leopoldo: Sinodal, 1998, p. 211–214.

 

 

 

 

 

domingo, 19 de outubro de 2025

Paulo e a Lei na carta aos Gálatas

 O texto que se segue é uma resposta à uma mensagem postada em um grupo de whatsapp. Este grupo possui, dentre seus membros, desigrejados que desprezam a Lei a todo e qualquer custo sem diferenciar seus aspectos. Usaram a passagem onde Paulo usa, como figura, Hagar e Sara,  como "prova" do seu pensamento de Graça x Lei. De que a Lei foi COMPLETAMENTE ABOLIDA e de que nos resta apenas a graça. 

Segue a resposta. 


Ops... A figura de escrava x livre é uma figura que Paulo faz uso para exemplificar a Lei. Mas que Lei? A de Moisés? A que veio séculos mais tarde após Abraão? 

A lei expressa é a lei, genericamente falando? Ou se trata de uma lei específica em aspectos específicos para fins específicos? Essas nuances da Lei não podem ser ignoradas. Há nitidez expressa na descrição dessas nuances da Lei, mesmo que não houvessem termos técnicos na época para diferenciá-las. É justamente aí que recaiu o erro e o pecado dos fariseus pois, para eles, a lei era uma coisa só e tudo se aplicava civilmente e apenas à Israel como nação. Eles não enxergavam essas diferenças entre uma lei e outra, entre um aspecto e outro. Foi exatamente aí que Cristo lhes mostrou a essência do erro no texto das "sete antíteses" onde usa a expressão "ouvistes o que foi dito pelos antigos... Eu porém vos digo".  A ideia não é confronto com a Lei mas confronto com o entendimento parcial que os fariseus tinham da Lei, não discernindo nelas suas aplicações em três dimensões distintas. Jesus mostrou que a lei não tinha apenas de aplicação civil, era muito mais que isso, era espiritual também. É diante dessa mesma questão que Paulo não apenas fala no contexto de Gálatas 4, mas de TODA A CARTA. 


Paulo começa em 1.10 distoando em não ser escravo de homens mas "escravo de Cristo". Pergunto, escravo de Cristo, como assim? Ele não é livre? Servo, escravo não vive debaixo de um Senhor que possui suas regras e valores?  Bem, guarde essa pergunta. 

Ele ainda diz que esse status de servo de Cristo ele o recebeu por meio do evangelho revelado por Jesus 1.12.

Ele ainda fala de seu passado no judaísmo e de como era "zeloso na tradição de seus antepassados" TRADIÇÃO. V1.14.

Após isso, ele faz um relato histórico, inclusive afirmando que esteve com o APOSTOLO TIAGO, IRMAO DO SENHOR, o mesmo que escreveu a Epístola que leva seu nome. Aqui é um testemunho sobre a origem de Tiago, una isso ao que Paulo tbm diz na carta aos Efésios 2.20-21 falando do fundamento da igreja primitiva. 

Continuando com Gálatas. Nesse relato histórico, Paulo fala do constrangimento de Tito em ter de cumprir a Lei devido a falsos irmãos que procuravam um pretexto para lhes fazer mal. Mas que Lei? Que tipo de lei? Era um ritual, o da circuncisão. 

Paulo prossegue contando como os outros apóstolos lhe aceitaram como apóstolo.

Segue contando acerca da dissimulação de Pedro em determinada ocasião, por ele ter temido os judeus. É nesse episódio ele ratifica o que já era conhecido e ensinado desde o AT, de que ninguém, nunca foi, justificado por obras da Lei, nem no NT nem no AT. Por isso já exclamava o salmista: *Salmos 6:4 Volta-te, SENHOR, e livra a minha alma; salva-me por tua graça.*

E, nesse mesmo raciocínio segue até o final do capítulo 2.  

No capítulo 3 Paulo continua desenvolvendo seu raciocínio perante os Gálatas que estavam buscando aquilo que nem os crentes do AT criam, apenas os judeus insensatos como os fariseus que não enxergavam que a lei nunca se tratou de mera aparência. E de que a salvação SEMPRE foi pela graça. No AT, criam nos méritos do Messias que viria, no NT crendo nos méritos do Messias que já veio. AT e NT se unem com o foco nos méritos de Cristo. 

Aqui, Paulo começa usar Abraão como exemplo em 3.6 quando já, naquele tempo, o evangelho lhe foi anunciado. Ele creu antes que houvesse sido enviada a Lei Mosaica e isso "lhe foi imputado para a justiça". 

E no versículo 9, Paulo une todos os crentes como sendo aqueles que tivessem a mesma fé dele. 

Por isso a imprecação: *Gálatas 3:10 Todos quantos, pois, são das obras da lei estão debaixo de maldição; porque está escrito: Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas escritas no Livro da lei, para praticá-las.* Por isso nenhuma alma, em tempo algum, foi salva por ter praticado a lei, isso é e sempre foi impossível desde a queda em Gênesis. Por isso o salmista não cria que poderia cumprir a Lei na sua integralidade e ser salvo, antes cria somente na salvação pela graça. E, Paulo segue esse argumento até o vs 14, onde expõe que, desde antes da Lei, como Abraão, todos sempre foram salvos pela fé em Cristo. Por isso ele argumenta que a Lei vinda por Moisés não invalidou a promessa da graça, pelo "DESCENDENTE" que ele identificou como sendo Cristo. 

A partir desse ponto, 3.19, Paulo mostra para o que a Lei foi dada por meio de Moisés. Ele diz que a Lei foi "adicionada" que em seu significado quer dizer que ela foi JUNTADA em outra coisa como uma companhia devido ao pecado. Ou por causa do pecado. Por isso ele afirma ainda mais: *Galatas 3:21 É, porventura, a lei contrária às promessas de Deus? De modo nenhum! Porque, se fosse promulgada uma lei que pudesse dar vida, a justiça, na verdade, seria procedente de lei.* E de que promessas são essas que ele fala aqui? As mesmas que,  anteriormente, ele diz sobre a salvação pela graça por meio da de em Cristo, em 3.16. Mas, aqui ele mostra a razão da Lei entregue a Moisés da qual ele começou a dizer no versículo 19. *Galatas 3:22 Mas a Escritura encerrou tudo sob o pecado, para que, mediante a fé em Jesus Cristo, fosse a promessa concedida aos que crêem.* Paulo não está se referindo a uma condição apenas da igreja neo testamentária, ele fala desde a entrega da Lei por Moisés. Ele fala da Lei para deixar evidente que todos, em todo lugar e tempo desde a queda, estamos debaixo do pecado. E o que isso tem a ver com as leis que, na prática, só serviram à nação de Israel, como as leis de aplicações civis apenas, oud as leis de aplicações culticas daquele tempo como os rituais, sacrifícios e mediações humanas de perdão por meio de um sacerdote? Absolutamente NADA! 

 Então, Paulo mostra que, pelo fato de a Lei, não toda, (tira-se leis que se aplicavam especialmente à Israel enquanto nação e as leis que só foram aplicáveis com respeito ao culto daquele tempo) mas ele fala da Lei que mostra a realidade do pecado na vida do ser humano. Sobre esta lei, ele diz: *"Galatas 3:24 De maneira que a lei nos serviu de aio para nos conduzir a Cristo, a fim de que fôssemos justificados por fé."* Duas coisas. A primeira já era vista antes mesmo da promulgação da Lei por Moisés, a justificação sempre foi pela fé e pela fé somente. O apóstolo citou Abraão como exemplo disso. A graça é, não somente  anterior à Lei, mas a sobrepõe. E, sobrepor não é no sentido de anular, mas no sentido aplicado por Paulo *"nos serviu de aio...". Aio, é a palavra grega para PEDAGOGO, Que serve de guia, instrutor. A lei nos serviu de guia, professora, para nos conduzir a Cristo. Volto a frisar, Paulo não está falando de Lei no sentido amplo, genérico, incluindo rituais e ética civil, mas fala daquela que "encerrou... sob o pecado" mostrou o pecado, tornou  o pecado evidente. É disso que o mesmo apóstolo fala em Romanos7.  "...eu não teria conhecido o pecado se a Lei não tivera dito, não cobiçarás...". Conhecendo o que é e vendo, irrevogavelmente, o pecado na própria vida, não há escapatória, a Lei nos conduz à crer somente em Cristo para salvação... E nos faz ansiar como o salmista: "salva-me por tua graça". Por isso não permanecemos mais debaixo do peso condenatório da lei que expõe a culpa, justamente o que, aquele que não se ver livre dela, no juízo ouvirá: "apartai-vos de mim os que práticais a iniquidade". Ali não importará qual a posição, ou a própria falta de reconhecimento do pecado, a condenação é certa e muitos ali serão condenados tendo passado a vida toda sem reconhecer sua própria condição diante de Deus. Mas se espantarao, pois acharam que toda a vida estavam cultuando, profetizando, falando em línguas como se tais coisas fossem expressão do culto verdadeiro. 

Paulo continua e em 3.28 ele mostra algo que não tem nada a ver com igualitarismo sacerdotal ou de dons, mas fala que todos os que estão debaixo da cruz, igualmente serão salvos, não importa origem ou sexo. 

Então entre a figura, novamente, de Abraão no capítulo 4. E, retoma, novamente, a figura de servos, escravos e senhores que ele fez no início da carta. Ele mostra o aspecto impositivo da Lei através da figura do tutor. Mas, de novo? Da lei num aspecto universal, e atemporal ou daquelas leis com aplicabilidades distintas em um tempo e etinia específicas? Então, ele mostra que tendo vindo Cristo não se está mais debaixo da Lei como um escravo, mas que atingiu o status de filho. Na prática, como isso funciona? Por que somos filhos não existem regras? Não existem ordens? Tudo está liberado? Convenhamos, só os hipócritas como os fariseus acreditam numa coisa dessas. Pois, certamente, nenhum deles aceitaria um filho , literalmente, desregrado, ou seja , sem regras. Levando isso à figura da esposa da qual Paulo fiz ser uma figura da igreja. Qual esposo, em sua sã consciência, aceitaria uma noiva desmedida, desregrada, imprudente, despudorada? Certamente nenhum, Cristo como O SANTO, definitivamente também não. 

Voltando ao texto de Gálatas. Paulo ainda no início do capítulo 4 fala da transitoriedade da lei. Mas ele não fala de qualquer aspecto da lei, ele aplica um exemplo claro do que ele está dizendo. *Galatas 4:10 Guardais dias, e meses, e tempos, e anos.* Isso é um nítido exemplo da aplicabilidade cerimonial da Lei. Então, Paulo fala de sua condição de doença física e do amor que os Gálatas nutriam por ele. E o faz isso apelando aos seus primeiros leitores daquela carta, para que eles não dessem ouvidos àqueles que os pressionavam a voltar aos rudimentos, aos ritos, às cerimônias da lei. E é nesse contexto que Paulo passa a usar a figura de Sara e Hagar. A lei aqui foi exemplar e nítida em que a figura da escrava e da liberta foram usadas, das cerimônias, dos rituais. 


A bíblia distingue três aspectos da lei: 


* Ela é espiritual. Rom7:14 Porque bem sabemos que a lei é espiritual; eu, todavia, sou carnal, vendido à escravidão do pecado. E nesse contexto de Romanos Paulo usa como exemplo para representar a espiritualidade da a cobiça, que é parte do Decálogo. 

* A lei possui outro aspecto, é cerimonial. Numbers 9:14 Se um estrangeiro habitar entre vós e também celebrar a Páscoa ao SENHOR, segundo o estatuto da Páscoa e segundo o seu rito, assim a celebrará; um só estatuto haverá para vós outros, tanto para o estrangeiro como para o natural da terra. RITO é ritual, algo físico, palpável. Não se trata de algo espiritual como aquilo que Paulo aponta em Romanos. 

* Mas também possuía um aspecto civil. Um exemplo é *“Quem ferir alguém, de modo que este morra, certamente será morto. Porém, se não lhe armou cilada, mas Deus lho permitiu cair nas mãos, designarei um lugar para onde ele fugirá. Se alguém, porém, vier premeditadamente contra o seu próximo para matá-lo à traição, até mesmo do meu altar o tirarás, para que morra.”* 

(Êxodo 21:12–14)

É uma lei de Natureza civil: Trata-se de um caso jurídico, uma norma de direito penal e processual, que prevê distinção entre homicídio doloso e culposo, punição e direito de refúgio. Sua  aplicação era civil: Essa lei regulava o funcionamento da justiça entre cidadãos, e não o culto religioso ou uma cerimônia. 


Desta maneira, Paulo, em Gálatas, está mostrando que a escravidão da lei na qual era necessário um sacerdote entrar no Santo dos Santos a fim de obter perdão, ou de haver cerimônias e rituais que apontassem para Cristo, ou de haver regras teocráticas impostas a uma nação como lei civil, tais coisas não são próprias de uma igreja compostas por cidadãos de "todas as nações" é a promessa feita a Abraão: "... Em ti serão benditas todas as nações...". 

Paulo caminha para o desfecho. " Foi para a liberdade que Cristo vos chamou...". Liberdade de quê? Da lei que é espiritual e aponta o pecado, ou para a lei que restringia o culto, a adoração a uma nação? E novamente Paulo usa a figura da circuncisão, e o que é a circuncisão senão um outro  exemplo de lei ritual, cerimonial? Quem assim ouvisse aos judaizantes que infernizavam a igreja da Galácia, estariam abandonando a Cristo, "...da graça decaistes...".

 Mas Paulo não para nesse argumento que ele estende até o versículo 12. 

Ele trás peso ao argumento da liberdade cultica em Cristo e restringe a mesma liberdade da qual ele afirmou anteriormente dizendo: Galatians 5:13 A liberdade é limitada pelo amor

Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade; porém não useis da liberdade para dar ocasião à carne; sede, antes, servos uns dos outros, pelo amor.... E conduz seu pensamento no relacionamento mostrando aquele mesmo aspecto em que Cristo resumiu a segunda parte do Decálogo, a aplicabilidade da lei , espiritual, no amor ao próximo, do quinto ao décimo mandamento, ele diz: *Galatas 5:14 Porque toda a lei se cumpre em um só preceito, a saber: Amarás o teu próximo como a ti mesmo.*

E exorta para que vivam uma vida santa, uma vida, de fato, espiritual, qdo afirma: *Galatas 5:16 Digo, porém: andai no Espírito e jamais satisfareis à concupiscência da carne.*

E o versículo 17 aponta para a prática da lei espiritual como fruto do espírito, ou seja, como resultado de uma vida que já nasceu de novo. Ele diz: 


*Galatas 5:17 Porque a carne milita contra o Espírito, e o Espírito, contra a carne, porque são opostos entre si; para que não façais o que, porventura, seja do vosso querer.* "Não façais o que seja... do vosso querer" traduz exatamente o pecado que habita no homem e ao invés dele ouvir a voz do Espírito, ele ouve a voz do próprio querer e torna a prática do pecado evidente em sua vida.

 Paulo toma aqui seu próprio argumento que ele usa na carta aos Romanos. Ele diz: *Galatad 5:18 Mas, se sois guiados pelo Espírito, não estais sob a lei.* Ele fala da lei, mas não fala da lei espiritual conforme o Decálogo, ele fala da "lei do pecado" "da Lei da carne" é exatamente o mesmo argumento que ele diz em *Romanos 7:21-23 Então, ao querer fazer o bem, encontro a lei de que o mal reside em mim. Porque, no tocante ao homem interior, tenho prazer na lei de Deus; mas vejo, nos meus membros, outra lei que, guerreando contra a lei da minha mente, me faz prisioneiro da lei do pecado que está nos meus membros.*


Por isso, em Gálatas o verso 19 ele já começa dizendo: "as obras da carne são...". E, aqui segue uma lista de exemplos de pecados  que estão na mesmíssima categoria do Decálogo e todos eles depreendem do Decálogo.

1º Mandamento — “Não terás outros deuses diante de mim.”

Relacionados: Idolatria, feitiçarias

Idolatria: adorar ou confiar em algo além de Deus.

Feitiçarias: tentativa de manipular o espiritual sem depender do Senhor, confiando em forças ou poderes estranhos a Deus

2º Mandamento — “Não farás para ti imagem de escultura...”

Relacionados: Idolatria, feitiçarias (práticas de culto pagão)

A idolatria frequentemente se manifesta por meio de imagens ou rituais proibidos.

A feitiçaria também envolve culto ilícito a falsos deuses.


3º Mandamento — “Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão.”

Relacionados: Feitiçarias, discórdias religiosas, facções (no contexto espiritual)

Feitiçarias e falsos cultos profanam o nome de Deus ao atribuir-lhe poderes ou intenções estranhas.

Facções religiosas também podem usar o nome de Deus em vão para justificar divisões.


4º Mandamento — “Lembra-te do dia de sábado para o santificar.”

Relacionados: Glutonarias, bebedices, dissoluções

O desprezo pelo descanso santo e pela adoração reverente reflete-se na entrega ao prazer carnal e à falta de moderação.

5º Mandamento — “Honra teu pai e tua mãe.”

Relacionados: Inimizades, discórdias, iras, porfias (contendas)

A quebra da autoridade e respeito começa no lar e se expressa em rebeldia e conflitos sociais.

Tais atitudes violam o princípio de honra e submissão ordenado por Deus.


6º Mandamento — “Não matarás.”

Relacionados: Inimizades, iras, dissensões, facções, invejas

Cristo ensinou que o ódio e a ira já são uma forma de assassinato do coração (Mt 5:21–22).

Invejas e dissensões são sementes do homicídio espiritual e moral.


7º Mandamento — “Não adulterarás.”

Relacionados: Prostituição, impureza, lascívia

Pecados de natureza sexual, contrários à pureza e fidelidade estabelecidas por Deus para o matrimônio.

Lascívia inclui toda conduta indecente e libertina.


8º Mandamento — “Não furtarás.”

Relacionados: Invejas, facções (busca egoísta de posse ou poder)

A inveja conduz ao desejo de tomar o que é do outro.

Facções e divisões frequentemente têm motivações de ganho, status ou controle indevido.


9º Mandamento — “Não dirás falso testemunho contra o teu próximo.”

Relacionados: Discórdias, porfias, facções

A mentira, a calúnia e o espírito de contenda distorcem a verdade e minam a comunhão.

Falsos testemunhos são causas diretas de divisões e brigas.


10º Mandamento — “Não cobiçarás...”

Relacionados: Invejas, ciúmes, glutonarias, bebedices

Cobiça é o desejo desordenado de possuir ou desfrutar o que pertence a outro.

Ciúmes e invejas são expressões diretas da cobiça interior.

Glutonaria e bebedice revelam cobiça pelos prazeres do corpo.


Mas ele apresenta um contraste mostrando o fruto do Espírito, que assim como o pecado, se expressa e se vêem na esfera PRÁTICA da vida.

Os que são de Cristo, negam a carne, negam praticar o pecado através de seus corpos pois sabem que a lei , como diz Paulo, é espiritual, pois ela mostra que a raiz do pecado que aflora n carne, é a raiz espiritual do mal que o homem passou a conhecer, na própria carne, qdo comeu do fruto em Gênesis. Por isso o resultado de sua queda espiritual naquele diz, sua morte espiritual, tem efeitos carnais, e dos quais todos somos herdeiros: "... Retornamos ao pó...".

Assim Paulo prossegue para as admoestações finais.


segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Tiago e a Igreja Apostólica: uma refutação à leitura desigrejada da epístola

 

A epístola de Tiago tem sido, ao longo dos séculos, alvo de leituras distorcidas, especialmente entre aqueles que buscam justificar uma fé individualizada e desprovida de comunhão eclesiástica. Entre os desigrejados contemporâneos, um argumento recorrente consiste em afirmar que Tiago teria escrito sua carta não à Igreja do Novo Testamento, mas apenas “aos judeus”, com base na saudação inicial: “Tiago, servo de Deus e do Senhor Jesus Cristo, às doze tribos que se encontram na Dispersão, saudações” (Tg 1.1).

Entretanto, uma análise histórico-gramatical séria revela que essa leitura é superficial e anacrônica. O contexto do Novo Testamento, a gramática do texto e o papel pastoral de Tiago no colégio apostólico demonstram que sua epístola é, de fato, dirigida à Igreja de Cristo; o novo Israel espiritual, formado por judeus e gentios regenerados em uma só fé.

1. A linguagem simbólica das “doze tribos”

O termo “as doze tribos da Dispersão” não é um limite étnico, mas uma metáfora teológica. Tiago utiliza a linguagem de Israel não como referência ao povo nacional, mas à Igreja como o Israel espiritual de Deus (Gl 6.16). Já não se trata da descendência de Abraão segundo a carne, mas dos “filhos da promessa” (Rm 9.8).

Essa apropriação do vocabulário veterotestamentário é recorrente no Novo Testamento. Pedro faz o mesmo ao escrever “aos eleitos que são forasteiros da Dispersão no Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia” (1Pe 1.1), dirigindo-se a comunidades cristãs majoritariamente gentias. O apóstolo Paulo, por sua vez, aplica à Igreja expressões como “a circuncisão de Deus” (Fp 3.3) e “a descendência de Abraão” (Gl 3.29).

Tiago, portanto, escreve à Igreja universal sob o símbolo de Israel. A saudação inicial ecoa a linguagem profética que via o povo de Deus como “disperso”, aguardando o cumprimento da promessa messiânica. Em Cristo, esse novo Israel é reunido não geograficamente, mas espiritualmente, na comunhão do Espírito e na unidade da fé.

2. Tiago como relator e autoridade eclesiástica (Atos 15)

A hermenêutica reformada não interpreta Tiago isoladamente, mas o compreende à luz de sua função no colégio apostólico. Em Atos 15, ele aparece como relator do presbitério reunido em Jerusalém; o primeiro concílio da história da Igreja. A controvérsia girava em torno da inclusão dos gentios e da necessidade ou não da circuncisão mosaica.

Após ouvir os testemunhos de Pedro e Paulo, Tiago toma a palavra e declara:

“Irmãos, atentai nas minhas palavras... Julgo eu, pois, que não se deve perturbar aqueles que, dentre os gentios, se convertem a Deus” (At 15.13,19).

Essa expressão “julgo eu” (em grego krinō egō) não é mera opinião pessoal, mas a fórmula decisória de um presbítero que relata a resolução conciliar. Tiago fala como autoridade eclesiástica sob direção do Espírito Santo, não como um rabino independente. Sua conclusão é recebida por toda a assembleia e registrada como deliberação colegiada:

“Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós” (At 15.28).

Tiago representa, portanto, o modelo neotestamentário de liderança eclesial; uma autoridade espiritual que atua em comunhão, com presbíteros e apóstolos, em busca do consenso sob o Espírito. O mesmo Tiago que escreve sobre “a oração dos presbíteros sobre os enfermos” (Tg 5.14) é o que fala em nome da Igreja reunida e ordenada.

A sua epístola, lida à luz de Atos 15, não é o eco de um misticismo individual, mas de uma fé comunitária, disciplinada e pastoral; uma fé que une doutrina e prática, graça e ética, comunhão e responsabilidade.

3. Convergência doutrinária entre Tiago, Paulo e Pedro

A teologia reformada reconhece plena harmonia entre Tiago, Paulo e Pedro. As aparentes diferenças se dissolvem diante de uma leitura contextual.

• Paulo enfatiza a justificação pela fé diante de Deus — a fé como raiz da salvação (Rm 3.28).

• Tiago enfatiza a justificação diante dos homens; a fé como fruto da regeneração (Tg 2.18).

• Pedro harmoniza ambas ao afirmar que “a vossa fé... é provada para resultar em louvor, glória e honra” (1Pe 1.7).

Todos falam, pois, de uma mesma fé viva, que se manifesta em obediência e amor.

A unidade entre Tiago e os demais apóstolos é atestada não apenas por suas cartas, mas pelos registros históricos. Em Gálatas 2.9, Paulo menciona Tiago ao lado de Pedro e João como uma das “colunas” da Igreja. A cooperação entre eles desmente qualquer leitura que tente isolar Tiago como uma figura judaica alheia à Igreja gentílica.

Assim, a epístola de Tiago não é um manifesto nacionalista, mas um tratado apostólico de vida cristã; escrito por quem serviu de ponte entre o antigo e o novo, entre a sinagoga e a Igreja, entre a Lei e o Evangelho.

4. O testemunho eclesiástico e pastoral de Tiago

Em sua carta, Tiago descreve uma comunidade organizada e pastoralmente conduzida. Ele fala de assembleias (synagōgē, 2.2), presbíteros (5.14), confissão mútua (5.16) e disciplina espiritual (5.19–20). Cada elemento revela uma igreja visível, com estrutura, ministério e responsabilidade comunitária.

Não há, portanto, espaço na epístola para o individualismo religioso que caracteriza os desigrejados modernos. A fé que Tiago descreve é vivida em meio ao corpo, sob a Palavra e sob pastoreio. O Evangelho, para Tiago, é encarnado na comunidade, não na solidão do “eu e Deus”.

A eclesiologia que emerge de sua carta é a mesma que se vê em Atos 15: uma Igreja que delibera, ministra, ora e se submete à direção do Espírito Santo. É a mesma Igreja que Paulo exorta a manter “a unidade do Espírito pelo vínculo da paz” (Ef 4.3) e que Pedro chama de “sacerdócio real” (1Pe 2.9).

Conclusão

A leitura desigrejada da epístola de Tiago nasce de uma hermenêutica fragmentária e anacrônica. Desconsidera o contexto apostólico, ignora a simbologia teológica de Israel e despreza o testemunho histórico da Igreja primitiva.

Tiago não fala a uma religião sem corpo, mas ao corpo vivo de Cristo, espalhado entre as nações. Sua voz em Atos 15 e sua pena em Tiago 1–5 ressoam a mesma verdade: a fé cristã é comunitária, ordenada e visível. O cristianismo bíblico não é a negação da Igreja, mas a sua consumação.

O espírito desigrejado é, portanto, herdeiro direto das antigas seitas gnósticas, antinomianas e herméticas que, já nos primeiros séculos, procuravam dissolver a concretude da Igreja em um espiritualismo etéreo e elitista. Como os gnósticos, afirmam possuir uma relação imediata com Deus, desprovida de mediação pastoral ou comunitária; como os antinomianos, rejeitam a autoridade visível e o dever da obediência; e como as seitas místicas herméticas, reinterpretam as Escrituras à luz de uma experiência subjetiva, e não da fé “entregue de uma vez por todas aos santos” (Jd 3).

Afirmo, porém, que o mesmo Cristo que salva também congrega; o mesmo Espírito que regenera também edifica; e a mesma Palavra que justifica também ordena. Negar a eclesiologia de Tiago é negar o próprio Cristo, que prometeu edificar Sua Igreja (Mt 16.18).

Tiago, servo de Deus e do Senhor Jesus Cristo, fala à Igreja de todos os tempos; o novo Israel de Deus, regenerado pela Palavra e sustentado pela comunhão dos santos.

Referências Bíblicas

Tg 1.1; Tg 2.2; Tg 2.14–26; Tg 5.14–16,19–20;

At 15.13–29;

Gl 3.29; Gl 6.16; Gl 2.9;

Rm 3.28; Rm 9.8;

Ef 4.3;

Fp 3.3;

1Pe 1.1,7; 1Pe 2.9;

Jd 3;

Mt 16.18.