(1
Coríntios 12.27)
A doutrina da comunhão dos santos ocupa posição central na
compreensão bíblica da igreja. Ela não descreve simplesmente relacionamentos
humanos desenvolvidos entre pessoas que compartilham interesses religiosos
semelhantes, nem se reduz a amizade, convivência social ou participação em
atividades eclesiásticas. A comunhão dos santos é uma realidade espiritual
produzida pela união que todos os verdadeiros crentes possuem com Cristo e, por
consequência, uns com os outros.
Desde o princípio da história da redenção, Deus nunca tratou
Seu povo como indivíduos isolados. Ao chamar Abraão, o Senhor não prometeu
apenas salvar um homem, uma tribo, ou mesmo nação, mas constituir uma
descendência, um povo pertencente à Sua aliança (Gn 12.1-3; 17.1-8).
Contudo, a promessa abraâmica possuía alcance muito maior do
que a formação de Israel segundo a carne. O próprio Senhor declarou: “em ti serão benditas todas as famílias da terra”
(Gn 12.3). O Novo Testamento interpreta essa promessa como anúncio antecipado
da inclusão dos gentios na mesma aliança da graça mediante a fé em Cristo.
Paulo afirma que Deus “preanunciou o evangelho a
Abraão: Em ti serão abençoados todos os povos” (Gl 3.8),
identificando Cristo como o Descendente prometido em quem essa bênção
encontraria seu cumprimento definitivo (Gl 3.16).
Por essa razão, todos os que pertencem a Cristo são também
considerados descendência de Abraão e herdeiros segundo a promessa (Gl 3.29). A
igreja neotestamentária não surge, portanto, como um povo distinto daquele que
Deus prometera formar em Abraão, mas como a manifestação mais plena da mesma
comunidade pactual agora reunida dentre judeus e gentios sob o senhorio do
Messias.
É exatamente isso que Paulo desenvolve ao afirmar que Cristo
derrubou a “parede de separação ... e fez dos dois
povos um só homem novo... por intermédio
da cruz... já não sois estrangeiros e
peregrinos, mas concidadãos dos santos...” (Ef 2.11-22). Da mesma
forma, quando Cristo veio ao mundo, não morreu apenas para reunir pecadores
dispersos individualmente, mas para congregar um só povo redimido. João
registra essa verdade ao afirmar que Cristo morreria “não somente pela nação, mas também para reunir em um só corpo
os filhos de Deus, que andam dispersos” (Jo 11.49-52).
A comunhão dos santos (igreja visível), portanto, constitui
uma das expressões visíveis do cumprimento dessa antiga promessa feita a
Abraão, pois nela homens e mulheres de toda tribo, língua, povo e nação são
reunidos em um único corpo, participando da mesma fé, da mesma salvação e da
mesma herança em Cristo. (Ap 5.9-10; Ef 4.4-6).
A comunhão dos santos, desta feita, não surge da iniciativa
humana. Ela nasce da obra soberana de Deus em Cristo. Antes de sermos unidos
uns aos outros, fomos unidos ao próprio Senhor. A comunhão horizontal é consequência
da comunhão vertical. O vínculo entre os crentes não é produzido pela afinidade
natural, mas pela graça redentora. Justamente por isso, as Escrituras também
ensinam que ninguém pode reivindicar legitimamente comunhão com Deus enquanto
vive deliberadamente apartado da comunhão de Seu povo. O amor aos irmãos não
produz a união com Cristo, mas a manifesta. A comunhão horizontal não é a causa
da comunhão vertical, mas sua evidência necessária, pois aquele que foi
verdadeiramente unido ao Senhor é igualmente unido àqueles que pertencem ao
mesmo corpo. Como escreve o apóstolo João: “Se
alguém disser: Amo a Deus, e odiar a seu irmão, é mentiroso” (1Jo
4.20). Assim, a comunhão dos santos torna-se uma das expressões visíveis da
realidade invisível da união com Cristo.
1. O que é a comunhão dos santos
Historicamente, a igreja confessou essa verdade no Credo
Apostólico ao declarar: “Creio na comunhão dos santos”. Essa expressão não
significa, primeiramente, comunhão com santos falecidos, nem invocação daqueles
que já partiram desta vida, como posteriormente desenvolveu a teologia romana.
O sentido bíblico da expressão aponta para a participação comum de todos os
santos nas bênçãos de Cristo e na vida do Seu corpo.
Quando o Novo Testamento utiliza o termo “santos”, ele não se refere a uma elite espiritual
excepcional, mas ao conjunto dos crentes separados por Deus para Si. Paulo
escreve “aos santos que vivem em Éfeso”
(Ef 1.1), “aos santos em Cristo Jesus que vivem em
Filipos” (Fp 1.1) e emprega linguagem semelhante em diversas outras
cartas. Todos os regenerados são santos porque foram santificados em Cristo.
Aliás, o uso predominante do termo, santos,
nas Escrituras refere-se precisamente aos crentes vivos que compõem a igreja de
Cristo em sua peregrinação terrena.
Essa santidade que é atribuída aos santos não decorre de uma
canonização posterior nem de méritos extraordinários, mas da obra santificadora
de Deus realizada em todos aqueles que pertencem a Cristo. Mesmo quando a
Escritura menciona os santos já glorificados, jamais os apresenta como objeto
de invocação religiosa ou mediação espiritual, mas simplesmente como membros do
mesmo povo redimido, mas que, agora, se encontra na presença do Senhor.
Assim, a comunhão dos santos consiste na participação comum
de todos os crentes na mesma salvação, no mesmo Salvador, no mesmo Espírito, na
mesma fé e na mesma herança eterna.
Paulo expressa essa unidade quando escreve: “Há somente um corpo e um Espírito, como também fostes
chamados numa só esperança da vossa vocação; há um só Senhor, uma só fé, um só
batismo; um só Deus e Pai de todos.” (Ef 4.4-6)
Observe como toda a estrutura da unidade cristã está
fundamentada na própria obra de Deus. Não se trata de mera cooperação humana. A
comunhão dos santos existe porque Deus a criou.
2. A união com Cristo como fundamento da comunhão
O fundamento da comunhão dos santos não é a igreja em si
mesma, mas Cristo. A própria linguagem utilizada por nosso Senhor em João 15
demonstra isso. Cristo se apresenta como a videira verdadeira e Seus discípulos
como os ramos: “Eu sou a videira; vós, os ramos.
Quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto.” (Jo 15.5). Observe
o critério estabelecido pelo Senhor. Os ramos não estão unidos primeiramente
entre si. Todos estão unidos à videira. É precisamente essa união comum com
Cristo que produz a comunhão entre os crentes.
Essa mesma verdade aparece em Efésios 1.22-23: “E pôs todas as coisas debaixo dos pés, e para ser o cabeça
sobre todas as coisas, o deu à igreja, a qual é o seu corpo, a plenitude
daquele que a tudo enche em todas as coisas.” A igreja é corpo
porque Cristo é cabeça. Sem união com Cristo não existe igreja, não existe
comunhão dos santos, não existe nem participação verdadeira na vida do povo de
Deus.
Por essa razão, a comunhão dos santos não pode ser reduzida
à convivência externa na igreja visível. Muitas pessoas frequentam a mesma
congregação, participam das mesmas atividades e até professam a mesma fé
externamente sem jamais terem sido unidas a Cristo pela regeneração. A
verdadeira comunhão dos santos pertence, em sua essência, àqueles que foram
efetivamente incorporados ao Salvador pela obra do Espírito Santo.
3. Um corpo e muitos membros
A metáfora mais desenvolvida da comunhão dos santos aparece
em 1 Coríntios 12. A igreja de Corinto enfrentava divisões, rivalidades e exaltação
indevida de determinados dons espirituais. Em resposta, Paulo utiliza a figura
do corpo humano para demonstrar a unidade orgânica da igreja. “Porque, assim como o corpo é um e tem muitos membros, e todos
os membros, sendo muitos, constituem um só corpo, assim também com respeito a
Cristo.” (1Co 12.12)
O apóstolo prossegue demonstrando que a diversidade dos
membros não destrói a unidade do corpo. Pelo contrário, a torna possível. O
olho não pode dizer à mão: “Não preciso de ti”.
A cabeça não pode dizer aos pés: “Não preciso de vós”.
Cada membro possui função distinta, mas todos participam da mesma vida.
Essa realidade corrige dois erros extremamente comuns. O
primeiro é o individualismo espiritual. O segundo é a uniformidade eclesiástica.
O individualismo afirma que o cristão pode viver independentemente do corpo. Enquanto
que a uniformidade eclesiástica exige que todos exerçam exatamente as mesmas
funções. Paulo rejeita ambos. A igreja não é composta por indivíduos autônomos,
mas também não é composta por cópias idênticas umas das outras. Ela é um corpo
vivo, organizado e harmonioso sob o governo de Cristo.
4. A comunhão dos santos na história da redenção
A comunhão dos santos não começou no Novo Testamento. Ela
possui raízes em toda a história da redenção. Os crentes do Antigo Testamento e
os crentes do Novo Testamento não constituem dois povos distintos de Deus. Como
vimos anteriormente, existe um único povo da aliança sendo reunido
progressivamente ao longo da história.
Paulo utiliza a figura da oliveira em Romanos 11 para
demonstrar essa continuidade. Os gentios convertidos não recebem uma nova
árvore, são enxertados na mesma oliveira. Aquelas promessas feitas aos
patriarcas continuam encontrando cumprimento no mesmo povo redimido.
De igual modo, Hebreus 11 apresenta uma longa galeria de
santos do Antigo Testamento e conclui afirmando: “Ora,
todos estes que obtiveram bom testemunho por sua fé não obtiveram, contudo, a
concretização da promessa, por haver Deus provido coisa superior a nosso
respeito, para que eles, sem nós, não fossem aperfeiçoados.” (Hb
11.39-40). O texto demonstra que existe uma única comunidade redimida
aguardando a consumação final. A comunhão dos santos atravessa toda a história
da redenção.
5. A comunhão da igreja visível e da igreja invisível
A comunhão dos santos também nos ajuda a compreender
corretamente a relação entre igreja visível e igreja invisível. A igreja
invisível consiste na totalidade dos eleitos de Deus independente de localização
geográfica ou temporal. A igreja visível consiste na comunidade histórica
daqueles que professam a verdadeira fé juntamente com seus filhos.
Essas duas realidades não são idênticas, mas estão
intimamente relacionadas. Nem todos os que pertencem externamente à igreja
visível pertencem verdadeiramente a igreja invisível (a Cristo). Contudo, os
verdadeiros santos vivem ordinariamente dentro da igreja visível. Por essa
razão, a comunhão dos santos não deve ser concebida de maneira puramente
mística ou invisível.
A comunhão se manifesta concretamente no culto, na membresia,
na vida comunitária, na participação dos meios de graça, no serviço mútuo, na
edificação recíproca. Cristo não salva Seus eleitos para permanecem isolados, Ele
os incorpora ao Seu corpo.
6. Igreja militante e igreja triunfante
A Escritura também apresenta a igreja sob duas condições
distintas. Existe a igreja militante e existe a igreja triunfante. A igreja
militante corresponde aos crentes que ainda peregrinam neste mundo, lutando
contra o pecado, a carne e as tentações. A igreja triunfante corresponde aos
santos que já partiram desta vida e estão na presença do Senhor.
O autor de Hebreus mostra
essa realidade quando escreve: “Mas tendes chegado ao monte Sião e à cidade do Deus vivo, a
Jerusalém celestial, e a incontáveis hostes de anjos, e à universal assembleia
e igreja dos primogênitos arrolados nos céus.” (Hb 12.22-23). Os
santos glorificados continuam pertencendo ao mesmo povo redimido.
Contudo, isso não significa que devam ser invocados,
consultados ou transformados em mediadores. A Escritura permanece afirmando: “Porquanto há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os
homens, Cristo Jesus, homem.” (1Tm 2.5). A comunhão dos santos não
elimina a mediação exclusiva de Cristo, ela existe precisamente por causa dela.
7. A consumação da comunhão dos santos
A comunhão dos santos somente alcançará sua expressão
perfeita na consumação final. Hoje a igreja ainda enfrenta divisões, fraquezas,
pecados remanescentes e limitações próprias da condição peregrina. Mas a
Escritura aponta para o dia em que toda a família de Deus estará reunida diante
do trono.
João vislumbrou essa realidade e a descreveu em Apocalipse: “Depois destas coisas, vi, e eis grande multidão que ninguém
podia enumerar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, em pé diante do
trono e diante do Cordeiro.” (Ap 7.9). Aquilo que hoje
experimentamos parcialmente será então conhecido em sua plenitude.
Essa realidade também corrige um erro cada vez mais comum em
nossos dias: a ideia de que os defeitos da igreja visível justificariam seu
abandono. É verdade que a igreja terrena ainda convive com fraquezas, pecados
remanescentes, imaturidades, injustiças e até mesmo escândalos produzidos por
homens pecadores. Contudo, essa nunca foi uma realidade desconhecida nas
Escrituras. As igrejas do Novo Testamento enfrentaram divisões (1Co 1.10-13),
casos graves de imoralidade (1Co 5.1-2), falsos mestres (Gl 1.6-9), hipocrisia
(Gl 2.11-14), favoritismo (Tg 2.1-4) e inúmeras outras imperfeições. Ainda
assim, em nenhum momento os apóstolos instruíram os crentes a abandonarem a
comunhão visível da igreja. A resposta bíblica nunca foi deserção, mas reforma;
nunca abandono, mas perseverança; nunca isolamento espiritual, mas compromisso
renovado com a verdade, a santidade e a edificação do corpo de Cristo.
A própria existência de pecadores dentro da igreja não
invalida sua natureza como povo da aliança; muito antes pelo contrário, o
próprio Cristo declarou que “os sãos não precisam de
médico, e sim os doentes” (Mc 2.17). A igreja não é reunião de
homens perfeitos, mas assembleia de pecadores alcançados pela graça e que ainda
se encontram em processo de santificação. Da mesma forma, Cristo já havia
ensinado que o joio e o trigo cresceriam juntos até o tempo da colheita (Mt
13.24-30).
A presença de imperfeições na igreja não demonstra que ela
fracassou, mas confirma exatamente aquilo que as Escrituras sempre afirmaram
acerca de sua condição peregrina neste mundo caído. Quem abandona a comunhão da
igreja por causa das imperfeições de seus membros acaba exigindo da igreja
presente aquilo que o próprio Deus reservou para a igreja futura e glorificada.
Em muitos casos, essa postura aproxima-se perigosamente da mentalidade daqueles que, em vez de permanecerem na comunhão do povo de Deus lutando por sua edificação e reforma, se afastam do corpo visível de Cristo. Não sem razão, João registra acerca dos que abandonaram a comunhão: “Saíram do nosso meio, mas não eram dos nossos” (1Jo 2.19). O padrão bíblico não é o abandono da igreja por causa de suas imperfeições, mas a perseverança na comunhão dos santos até que Cristo complete Sua obra. E é somente na igreja glorificada que:
- Não haverá divisões.
- Não haverá pecado.
- Não haverá morte.
- Não haverá separação.
Por isso, a comunhão dos santos não é um detalhe secundário
da vida cristã. Ela é fruto da união com Cristo, expressão visível da obra do
Espírito Santo e antecipação da glória futura que aguarda todo o povo da
aliança.
Soli Deo Gloria.
Rev. Júlio Pinto