Entre todas as instituições
divinas relacionadas ao culto e à vida do povo de Deus, poucas foram tão
debatidas ao longo da história da igreja quanto o Dia do Senhor. Alguns
sustentam que o quarto mandamento foi completamente abolido na Nova Aliança.
Outros defendem que nenhuma mudança ocorreu entre a observância judaica do
sábado e a prática cristã posterior. Há ainda aqueles que tratam a separação de
um dia para Deus como mera tradição eclesiástica sem fundamento moral
permanente.
Alguns aspectos relacionados à
reunião pública da igreja, à comunhão dos santos e aos meios de graça já foram
amplamente desenvolvidos nos Temas 45 e 46. Da mesma forma, questões
relacionadas à autoridade de Cristo sobre o culto e os limites da autoridade
eclesiástica foram tratadas nos Temas 44 e 47. Nosso objetivo aqui será
concentrar-nos especificamente na doutrina do Dia do Senhor, em seu fundamento
bíblico, desenvolvimento histórico-redentivo e significado para a igreja da
Nova Aliança.
1. O fundamento criacional do
dia santo
- a queda;
- a formação de Israel;
- a aliança mosaica;
- toda distinção cerimonial posterior.
Um dia separado para Deus.
Esse fato possui enorme
importância teológica. O princípio de um dia santo não surge de uma necessidade
cultural, nacional ou cerimonial. Ele nasce da própria ordem criada por Deus.
Por essa razão, a tradição
reformada historicamente reconheceu que o fundamento do Dia do Senhor é
criacional antes de ser implementado como código de lei por meio de Moisés. A
partir disso, não podemos entender o sábado apenas como um código legal
restrito à nação de Israel e posteriormente abolido na Nova Aliança. Tampouco
podemos reduzi-lo a uma simples norma civil ou cerimonial. Seu fundamento
repousa na própria ordem criada por Deus, razão pela qual o princípio de um dia
separado para o Senhor permanece relevante para o Seu povo em todas as épocas
da história da redenção.
2. O Sinai não criou o sábado,
mas o revelou
Contudo, isso não significa que
toda a humanidade possuísse, desde Adão, o mesmo grau de revelação positiva e
explícita que posteriormente seria entregue a Israel. O próprio Neemias esclarece
essa questão: “O teu santo sábado lhes fizeste
conhecer...” (Ne 9.14).
Precisamos valorar em muito a
fala de Neemias. Ele reconhece que Deus concedeu ao Seu povo um conhecimento
especial, explícito e pactual do sábado por intermédio de Moisés. Portanto, o
Sinai não cria o princípio moral do dia santo. O Sinai o revela formalmente. O
Sinai o incorpora à Lei Moral escrita. O Sinai o regulamenta para o povo da
aliança.
Essa compreensão harmoniza-se
perfeitamente com o ensino de Paulo: “Estes mostram
a norma da lei gravada no seu coração...” (Rm 2.15). Assim como os
demais princípios da Lei Moral possuíam raízes anteriores à sua codificação
mosaica, também o princípio do dia santo já estava presente na ordem criada por
Deus.O que ocorre no Sinai é uma ampliação e formalização dessa revelação.
Por isso, o fundamento do quarto
mandamento não é a saída do Egito, não é uma cerimônia levítica, não é uma
sombra tipológica. O próprio Decálogo remete novamente à criação: “Porque, em seis dias, fez o SENHOR os céus e a terra...”
(Êx 20.11).
3. Emaús e a inauguração do
Dia do Senhor
Na última Páscoa celebrada com
Seus discípulos, Cristo instituiu a Ceia do Senhor em substituição ao antigo
rito pascal. Naquela ocasião declarou: “Porque
vos digo que, desde agora, não mais beberei do fruto da videira, até que venha
o reino de Deus.” (Lc 22.18). A Ceia foi estabelecida no
contexto da inauguração do Reino.
Após Sua ressurreição, no próprio
primeiro dia da semana, encontramos o conhecido episódio dos discípulos no
caminho de Emaús. Primeiramente, Cristo lhes expõe as Escrituras: “E, começando por Moisés, discorrendo por todos os Profetas,
expunha-lhes o que a seu respeito constava em todas as Escrituras.”
(Lc 24.27). Posteriormente: “Tomando ele o pão,
abençoou-o e, tendo-o partido, lhes deu.” (Lc 24.30). A
linguagem empregada por Lucas é a mesma utilizada na instituição da Ceia. Veja:
“E, tomando um pão, tendo dado graças, o partiu...”.
(Lc 22.19). Essa é o mesmo tipo de linguagem utilizada para expressar o momento
da ceia em outros textos do NT.
“Enquanto
comiam, tomou Jesus um pão, e, abençoando-o, o partiu, e o deu aos discípulos,
dizendo: Tomai, comei; isto é o meu corpo.” (Mt 26.26)
“E
perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas
orações.” (At 2.42)
“No
primeiro dia da semana, estando nós reunidos com o fim de partir o pão...”
(Atos 20.7)
“Porventura,
o cálice da bênção que abençoamos não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão
que partimos não é a comunhão do corpo de Cristo?” (1 Co 10:16)
- No primeiro dia da semana:
- Cristo reunido com Seus discípulos;
- expõe as Escrituras;
- parte o pão.
Além disso, Lucas registra que
foi precisamente naquele momento que “se lhes
abriram os olhos” (Lc 24.31). O texto não apresenta o
reconhecimento ocorrendo durante a caminhada nem imediatamente após a exposição
das Escrituras, mas no contexto do partir do pão. Logo em seguida os discípulos
recordam como seus corações ardiam enquanto Cristo lhes expunha as Escrituras
(Lc 24.32). Palavra e partir do pão aparecem novamente unidos em uma mesma
cena, ambos ministrados pelo próprio Cristo ressurreto; e ambos no primeiro dia
da semana, domingo, o dia da ressurreição.
A partir desse momento, a igreja
passará a reunir-se regularmente nesse mesmo dia para ouvir a Palavra e
participar da comunhão do corpo de Cristo.
Não se trata de uma mudança
arbitrária promovida pelos apóstolos.
É o próprio Senhor ressurreto
conduzindo Seu povo à realidade da nova criação.
4. O Dia do Senhor e os meios
de graça
- o dever de congregar (Hb 10.24-25);
- a comunhão dos santos;
- a centralidade do culto público;
- a administração da Ceia do Senhor;
- a edificação mútua do corpo de Cristo.
Por essa razão não repetiremos
aqui toda a argumentação anteriormente apresentada.
Basta observar que a prática
apostólica, a partir do exemplo de Cristo, demonstra que o primeiro dia da
semana tornou-se o momento ordinário da reunião da igreja.
Lucas registra: “No primeiro dia da semana, estando nós reunidos com o fim de
partir o pão...” (At 20.7); Paulo emenda: “No primeiro dia da semana, cada um de vós ponha de parte...”
(1Co 16.2); João assinala: “Achei-me em espírito,
no dia do Senhor...” (Ap 1.10).
A expressão utilizada por João
demonstra que o primeiro dia da semana já possuía identidade própria entre as
igrejas.
Era o Dia do Senhor.
O dia especialmente dedicado ao
culto cristão.
Esse entendimento é reforçado
também pelo desenvolvimento histórico-linguístico do termo. Na tradição latina,
especialmente na Vulgata de Jerônimo, a expressão grega kyriakē hēmera (Ap
1.10) é traduzida como dies dominicus,
literalmente “dia do Senhor”. A
partir desse uso consolidado, o primeiro dia da semana passou a ser
identificado na prática da igreja como o “dia dominical”, termo que evoluiu nas
línguas modernas para “domingo” (do latim dies
dominicus, “dia do Senhor”).
Assim, não se trata de uma designação posterior desvinculada do texto bíblico,
mas de uma continuidade histórica da compreensão eclesiástica de que o “dia do Senhor” de Apocalipse 1.10 corresponde ao
primeiro dia da semana, já observado como dia regular de reunião e culto pelas
igrejas apostólicas.
5. Obras de necessidade e
misericórdia
Uma das maiores distorções históricas relacionadas ao dia santo foi o legalismo farisaico. Os líderes religiosos haviam transformado o mandamento divino em um sistema sufocante de proibições humanas. Cristo combateu repetidamente esse erro. Quando Seus discípulos colheram espigas no sábado, Jesus respondeu: “O Filho do Homem é senhor do sábado.” (Mt 12.8). Em outra ocasião afirmou: “Logo, é lícito, nos sábados, fazer o bem.” (Mt 12.12)
As curas realizadas por Cristo no
sábado não representavam violação do mandamento. Representavam sua correta
interpretação. O dia santo jamais foi instituído para impedir atos de
misericórdia. Jamais foi instituído para impedir obras de necessidade. Jamais
foi instituído para produzir sofrimento.
Ao contrário.
O sábado foi feito para benefício
do homem. O princípio permanece válido para o Dia do Senhor. A separação do dia
não elimina:
- atos de misericórdia e compaixão;
- cuidados relacionados à preservação da vida e da saúde;
- necessidades providenciais e inadiáveis da existência humana;
- serviços indispensáveis ao bem-estar público, especialmente os ligados à saúde, segurança e ordem social.
O que se proíbe é a transformação do dia santo em simples continuação da rotina comum.
Esse repouso definitivo ainda não
foi plenamente alcançado. A igreja continua peregrina, continua enfrentando
lutas, continua vivendo em um mundo caído. Mas cada Dia do Senhor funciona como
uma antecipação do descanso futuro, assim como a Ceia antecipa as bodas do
Cordeiro, o Dia do Senhor antecipa o descanso eterno da nova criação.
Por essa razão, a observância do
Dia do Senhor nunca deve ser vista como mero dever externo. Ela é um sinal
semanal da esperança cristã, pois em cada reunião da igreja proclama:
- Cristo ressuscitou.
- Cristo reina.
- Cristo voltará.
- E o descanso definitivo ainda nos aguarda.
Conclusão
1.
O Dia do Senhor não nasceu da tradição humana.
2.
Não nasceu da autoridade de concílios.
3.
Não nasceu de convenções eclesiásticas.
4.
Seu fundamento encontra-se na criação.
5.
Sua revelação foi formalizada no Sinai.
6.
Sua administração foi transformada pela
ressurreição de Cristo.
7.
Sua observância foi praticada pela igreja
apostólica.
8.
Sua consumação aponta para o descanso eterno
prometido ao povo de Deus.
Por isso, ao reunir-se no Dia do
Senhor, a igreja não apenas cumpre um mandamento. Ela celebra a criação, a
redenção, a ressurreição, a nova criação. E antecipa, ainda que
imperfeitamente, o glorioso descanso que aguarda todos aqueles que pertencem ao
Senhor da Igreja.
Rev.
Júlio Pinto