“Assim como nos escolheu nele antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade,... nele, digo, no qual fomos também feitos herança, predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade,"(Efésios 1.4-5,11)
“Pois aos que de antemão
conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu
Filho...” (Romanos 8.29)
“Logo, tem ele misericórdia de
quem quer e também endurece a quem lhe apraz.” (Romanos 9.18)
É espantoso quando alguém que se
diz cristão, principalmente "evangélicos" afirmarem não haver
predestinação e que tal doutrina é heresia. Esqueceram de avisar isso aos
escritores bíblicos que tratam recorrentemente ao tema. O fato de negarem a
existência da doutrina, não é a falta de provas bíblicas, mas é a falta de
compreensão e, pior, falta de humildade.
A predestinação refere-se ao decreto eterno de Deus relacionado ao destino final das criaturas racionais, especialmente no que diz respeito à salvação. Na tradição reformada, o termo predestinação é frequentemente usado em sentido amplo para designar o decreto eterno de Deus acerca do destino final das criaturas racionais, compreendendo dois aspectos distintos: eleição e reprovação. Assim, iremos tratar essa doutrina em conformidade com a teologia reformada nesses dois aspectos: eleição e reprovação.
1. Eleição
A eleição é o ato soberano pelo qual Deus, antes da fundação do mundo, escolheu em Cristo um povo para a salvação, não por causa de méritos previstos, obras futuras ou qualquer qualidade encontrada no homem, mas exclusivamente segundo o beneplácito da Sua soberana vontade e para louvor da Sua graça.
Isso significa que a origem da
salvação não repousa na resposta humana considerada no âmbito da aplicação da
redenção (ordo salutis), mas no eterno decreto de Deus (decretum
aeternum), pelo qual Ele ordenou soberanamente toda a obra da salvação em
Cristo.
A Escritura afirma que fomos
escolhidos “antes da fundação do mundo” (Ef 1.4). A eleição divina, portanto,
precede não apenas qualquer obra ou mérito humano, mas a própria existência do
homem. Disso decorre a completa exclusão de toda pretensão de glória humana na
salvação. Ninguém é salvo por possuir maior sabedoria, sensibilidade espiritual
ou superioridade moral, tampouco porque, autonomamente, decidiu aceitar a
Cristo. A salvação é inteiramente fruto da graça soberana de Deus. A própria
resposta de fé do eleito não constitui a causa da eleição, mas seu resultado;
ele crê e vem a Cristo porque, desde a eternidade, foi escolhido pelo Pai e
eficazmente chamado pelo Espírito Santo.
E aqui chegamos a uma discussão
histórica extremamente importante dentro da teologia cristã.
Ao longo dos séculos, muitos
afirmaram aceitar a predestinação, mas negaram que ela estivesse fundamentada
exclusivamente no decreto soberano de Deus. Em vez disso, ensinaram que Deus
predestina com base naquilo que prevê acerca do homem, especialmente prevendo
quem creria no futuro.
Essa interpretação ficou
especialmente associada, séculos depois, ao pensamento remonstrante/arminiano,
embora discussões semelhantes já existissem anteriormente em formas menos
desenvolvidas.
O texto central desse debate é
Romanos 8.29: “Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou
para serem conformes à imagem de seu Filho...”.
A pergunta é: o que significa “conheceu
de antemão”?
A interpretação bíblica precisa
estar alinhada à uma exegese que considere os significados dos termos conforme
a própria Escritura costuma fazer uso deles. Assim, entende-se que esse “conhecer”
não significa mera previsão intelectual de acontecimentos futuros, como se Deus
simplesmente olhasse a história antecipadamente para descobrir quem creria.
Nas Escrituras, frequentemente “conhecer”
possui sentido relacional, eletivo e pactual.
Por exemplo:
“De todas as famílias da terra,
somente a vós outros vos conheci...” (Amós 3.2)
“Nunca vos conheci, apartai-vos
de mim..." (Mateus 7.23)
Obviamente, nesses casos, “conhecer”
não significa simples informação mental, porque Deus conhece intelectualmente
todas as pessoas. O termo aponta para relacionamento, escolha e amor pactual.
Em Romanos 8.29, o “conhecer de
antemão” não se refere à mera previsão passiva de decisões humanas futuras,
mas ao conhecimento pactual, amoroso e eletivo de Deus para com Seu povo, do
qual decorre a predestinação.
Existe, de fato, uma ironia
inevitável quando alguém afirma que a predestinação é “heresia”, porque o
problema deixa de ser meramente interpretativo e passa a tocar diretamente a
linguagem explícita das próprias Escrituras.
Os autores bíblicos não evitam o
tema. Pelo contrário: tratam dele de forma recorrente e natural.
Termos como:
·
eleição
·
predestinação
·
chamados
·
escolhidos
·
determinados
·
endurecimento
·
propósito de Deus
·
de antemão conheceu
aparecem continuamente,
especialmente em Paulo, mas também em João, Lucas e Pedro. O debate histórico
nunca foi sobre a existência da doutrina, mas sobre:
·
sua natureza
·
sua base
·
e sua relação com a responsabilidade humana
Mesmo tradições que rejeitam a
compreensão reformada clássica normalmente admitem alguma forma de
predestinação, porque não há como esconder o que o próprio vocabulário bíblico demonstra
claramente.
O problema frequentemente surge
quando o homem mede a doutrina não pela revelação bíblica, mas pela sua reação
emocional a ela. Romanos 9 é extremamente revelador nesse ponto. Paulo não
suaviza a soberania divina para evitar objeções humanas; ao contrário, ele
antecipa as objeções justamente porque sabe a profundidade e complexidade daquilo
que ele que acabou de ensinar.
Observe:
“Há injustiça da parte de Deus?”(Romanos
9.14)
“De que se queixa ele ainda?”
(Romanos 9.19)
Essas perguntas só fazem sentido
por dois motivos: 1. Porque a predestinação é um fato. 2. Porque Paulo
realmente ensinou não apenas acerca de que a predestinação é um ato da
soberania divina, mas por ela ser um ato fundamentado em uma soberania divina muito mais profunda, não uma mera previsão passiva dos atos humanos.
E a resposta do apóstolo não é
recuar, mas lembrar a distância entre Criador e criatura: “Quem és tu, ó
homem, para discutires com Deus? Porventura pode o objeto perguntar a quem lhe
fez: Por que me fizeste assim?” (Romanos 9.20)
Por isso, historicamente, a
teologia reformada sempre insistiu que essa doutrina exige duas coisas ao mesmo
tempo, o rigor bíblico e humildade reverente. Porque há um perigo duplo:
·
rejeitar o que a Escritura afirma claramente
·
ou tratar o tema friamente, como mera
especulação filosófica
A predestinação não foi revelada
para alimentar orgulho intelectual, mas para humilhar o homem e exaltar a graça
de Deus. Foi exatamente isso que levou Agostinho de Hipona, João Calvino e toda
a tradição reformada a insistirem tanto na humildade diante da revelação
divina. Porque, no fim, a doutrina da eleição não engrandece o homem,
engrandece a graça e isso fere o orgulho humano.
Portanto, a eleição não é baseada na fé prevista do homem, mas a própria fé é fruto da eleição divina. Isso harmoniza-se com todo o argumento paulino. Se Deus escolhesse com base em algo previsto no homem, então, em última instância, a diferença decisiva entre salvos e perdidos estaria nos próprios atos desse homem, e não na graça soberana. Nesse caso, a causa distintiva última entre salvos e perdidos repousaria finalmente no próprio homem, e não na graça soberana de Deus. Mas Paulo insiste exatamente no contrário: “Assim, pois, não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia.” (Romanos 9.16).
2. Reprovação.
Ao mesmo tempo em que a Escritura apresenta a eleição, ela também fala de reprovação. Quando Paulo afirma que Deus “tem misericórdia de quem quer e endurece a quem lhe apraz... Ou não tem o oleiro direito sobre a massa, para do mesmo barro fazer um vaso para honra e outro, para desonra? Que diremos, pois, se Deus, querendo mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita longanimidade os vasos de ira, preparados para a perdição”, ele mostra que Deus age soberanamente também no juízo.
A reprovação não significa que Deus
force homens inocentes ao pecado ou condene ao inferno pessoas moralmente
neutras. Toda a humanidade, em Adão, encontra-se caída, culpada e condenada. Se
Deus deixasse de salvar a todos, Ele continuaria perfeitamente justo. Portanto,
a eleição é graça. A condenação é justiça.
Na eleição, Deus intervém
salvadoramente. Na reprovação, Deus deixa o homem em seu estado de pecado e o
julga justamente por isso. Isso preserva simultaneamente: a soberania de Deus,
a responsabilidade humana e a perfeição da justiça divina.
Por isso, essa doutrina
frequentemente provoca objeções no coração humano. E vimos, em Paulo, que isso
não é novidade. Por isso ele antecipa a
reação: “de que se queixa ele ainda?”. A resposta do apóstolo não é
diminuir a soberania divina, mas lembrar a diferença absoluta entre o Criador e
a criatura. Deus não deve satisfações ao homem.
No entanto, essa doutrina não foi
dada para produzir desespero, especulação ou arrogância espiritual. Pelo
contrário. Primeiro, ela produz humildade. A salvação pertence inteiramente ao
Senhor. Segundo, ela produz segurança. Aqueles que Deus escolheu em Cristo
serão preservados até o fim. A obra de salvação é perfeita, porque o homem nada
contribui como causa meritória de sua salvação. “...Ao Senhor pertence a salvação.”
(Jonas 2.9)
Terceiro, ela produz adoração. A
eleição revela a profundidade da graça divina. Não é sem razão que Lucas
registra, em Atos, que “creram todos os que haviam sido destinados para a
vida eterna” (Atos 13.48). A própria fé salvadora aparece nas Escrituras
como fruto do propósito soberano de Deus.
Isso aparece de forma clara em toda
a lógica do evangelho. A Escritura não apresenta Deus reagindo a alguma bondade
previamente encontrada no homem, mas amando e salvando pecadores indignos. Por
isso Paulo afirma: “Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato
de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores” (Romanos 5.8). O
amor eletivo de Deus não nasce da virtude humana; é exatamente ele que dá
origem à salvação do homem.
E, ao contrário do que muitos
pensam, essa doutrina não elimina a responsabilidade humana nem elimina a
necessidade da pregação do evangelho. O mesmo Deus que decretou os fins
decretou também os meios. Ele salva Seu povo por meio da proclamação do evangelho,
do arrependimento e da fé. Assim, ninguém pode usar a predestinação como
desculpa para incredulidade ou passividade. A Escritura chama todos os homens
ao arrependimento, e todo aquele que vem a Cristo jamais será lançado fora.
Além disso, é importante lembrar
que não fomos chamados a investigar o decreto oculto de Deus, mas a responder à
Sua Palavra revelada. A vontade decretiva de Deus pertence ao Seu conselho
eterno e secreto; a vontade revelada pertence à Sua Palavra e constitui o dever
de todos os homens (Dt. 29.29). A pergunta correta não é: “estou
eleito?”. A pergunta bíblica é: “estou em Cristo?”. Porque todos aqueles que
verdadeiramente vêm a Cristo demonstram, por isso mesmo, a operação da graça de
Deus em suas vidas com frutos visíveis (santificação) da obra invisível da
graça (justificação).
Portanto, a doutrina da
predestinação não existe para afastar pecadores de Cristo, mas para mostrar que
a salvação, do começo ao fim, pertence à graça soberana de Deus. Ela nos
humilha, exalta a Deus e fortalece a esperança daqueles que confiam em Cristo.
Rev. Júlio Pinto
Nota: Na teologia reformada, “predestinação” é frequentemente utilizada em sentido amplo para designar o decreto eterno de Deus acerca do destino final das criaturas racionais, abrangendo dois aspectos distintos: eleição e reprovação. “Eleição” refere-se especificamente ao ato soberano pelo qual Deus escolhe, em Cristo, um povo para a salvação.