“Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.” (Mateus 16.18)
Este é um dos textos mais debatidos de todo o Novo
Testamento, não apenas por sua densidade teológica, mas também pelas diferentes
leituras que historicamente foram propostas em torno da expressão “esta pedra”. Uma leitura cuidadosa do próprio
fluxo do texto, contudo, ajuda a esclarecer o seu sentido dentro do contexto
imediato da fala de Cristo.
A leitura atenta do texto revela uma distinção intencional
feita pelo próprio Senhor. Cristo se dirige a Pedro em segunda pessoa,
afirmando: “tu
és Pedro”, utilizando o nome dado ao apóstolo como parte da
interlocução direta.
Contudo, quando passa a falar do fundamento sobre o qual a
igreja seria edificada, há uma mudança significativa na forma de referência: de
um lado, Cristo se dirige diretamente a Pedro em segunda pessoa: “tu és Pedro”; de outro, ao tratar do fundamento, Ele
utiliza uma expressão demonstrativa: “sobre esta
pedra”.
Esse deslocamento da referência pessoal para uma designação
demonstrativa já sugere uma mudança de foco no próprio discurso. O peso da
frase não recai automaticamente sobre a pessoa de Pedro, mas se volta para
aquilo que imediatamente antecede a declaração de Pedro feita acerca de Cristo:
a confissão de que Jesus é “o Cristo, o Filho do
Deus vivo”.
Esse contraste é ainda reforçado pela própria forma da
linguagem empregada no texto original, em que a distinção entre o nome de Pedro
e a expressão usada para “pedra” impede
uma identificação simples e automática entre os dois elementos do versículo.
Essa leitura encontra paralelo no próprio testemunho
apostólico posterior. O mesmo Pedro, em sua epístola, identifica Cristo como a Pedra Angular Viva, rejeitada pelos homens, mas
eleita e preciosa diante de Deus (1 Pedro 2.4-6). Outros autores
apostólicos seguem a mesma linha, afirmando que não há outro fundamento além
daquele que já está posto, que é Cristo.
Portanto, o texto não estabelece uma transferência de
fundamento para a pessoa de Pedro, mas aponta para a centralidade de Cristo
confessado como o verdadeiro alicerce da igreja.
A relevância dessa leitura ultrapassa o debate exegético
imediato e alcança diretamente a compreensão da própria natureza da igreja ao
longo da história. Quando o fundamento é corretamente identificado como Cristo,
o Filho do Deus vivo, a estrutura eclesiológica que se ergue sobre esse
alicerce permanece fiel ao testemunho apostólico.
Contudo, quando o fundamento é deslocado para outra
realidade, seja ela uma pessoa, uma instituição ou uma sucessão de autoridade
desvinculada da confissão acerca de Cristo, toda a construção subsequente sofre
inevitavelmente distorção em sua base.
Isso se torna especialmente importante ao tratarmos do tema
da igreja como povo da nova aliança e corpo visível de Cristo. A igreja não é
uma realidade construída sobre fundamentos humanos, mas sobre o próprio Cristo
confessado e revelado nas Escrituras. Por isso, a compreensão correta do
fundamento não é um detalhe menor, mas determina diretamente a natureza, a
identidade e a continuidade da própria igreja.
É justamente a partir do entendimento de que Cristo é o
fundamento da igreja que se compreende como a obra da salvação nunca se
restringe ao indivíduo isolado, mas sempre resulta na formação de um povo. Ao
tratar da salvação, a Escritura nunca descreve Deus formando apenas indivíduos
desconectados entre si. Essa mesma realidade é desenvolvida em 1 Pedro 2.4,
onde os crentes são apresentados como “pedras vivas”,
integradas a um edifício espiritual edificado sobre um único fundamento -
Cristo. Nesse sentido, a própria natureza da igreja impede qualquer compreensão
isolada da fé cristã: ninguém é igreja em sentido pleno de forma individual e
autônoma.
Desde o princípio, o Senhor chama um povo para Si. A
redenção não termina numa experiência religiosa privada, confinada à
interioridade do homem; ela conduz pecadores reconciliados à comunhão do povo
da aliança reunido em torno de Cristo.
Essa realidade já aparece claramente no Antigo Testamento.
Deus separa Israel dentre as nações, estabelece Sua aliança, concede Sua lei,
institui culto, sacerdócio, assembleia e governo do povo. A linguagem bíblica
constantemente apresenta Israel como congregação do Senhor, herança santa e
povo pertencente a Deus.
Inclusive, é extremamente significativo perceber que Pedro
aplica diretamente à igreja linguagem originalmente pronunciada por Deus aos
pés do Sinai. 1 Pedro 2.9, Pedro afirma: “Vós,
porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade
exclusiva de Deus...” Percebam que Pedro aplica à igreja a mesma
linguagem de Êxodo 19.5-6, quando Deus declara acerca de Israel: “... sereis minha propriedade peculiar dentre todos os
povos... vós me sereis reino de sacerdotes e nação santa.”
Pedro não trata a igreja como realidade apartada da história
da redenção anteriormente revelada. Pelo contrário. Ele mostra a continuidade
do povo pactual de Deus agora reunido em Cristo sob a nova aliança. Dentre todos
os outros assuntos relacionados à Escritura, é só mais uma comprovação da
Revelação Progressiva de Deus nas diferentes administrações da aliança, antes e
depois da primeira vinda de Cristo.
Por isso, a igreja do Novo Testamento não surge como ruptura
da história redentiva, mas como seu desenvolvimento sob a plenitude da obra de
Cristo. Há progressividade na revelação bíblica, mas essa progressão jamais
abandona a realidade de um povo reunido, identificado e separado para Deus na
história. Desde a congregação de Israel, passando pela igreja apostólica, até
alcançar sua consumação final, a revelação divina continuamente apresenta o
Senhor formando para Si uma assembleia santa.
Paulo escreve em Efésios 2.19: “Assim,
já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois da
família de Deus.” Perceba a dimensão coletiva da linguagem
apostólica. O evangelho não apenas reconcilia o homem com Deus; ele também
incorpora o crente à família da fé.
E a própria expressão “família”
já desfaz a ideia moderna de uma espiritualidade isolada, autônoma e sem
vínculo concreto com o povo de Deus. Família, nas Escrituras, nunca descreve
indivíduos desconectados vivendo cada um sua experiência particular sem
convivência real, cuidado mútuo, disciplina, comunhão e vida compartilhada. A
linguagem familiar pressupõe proximidade, pertencimento e convivência dentro da
casa de Deus.
Inclusive, o próprio retrato bíblico da família
frequentemente aparece associado à mesa e à comunhão do povo da aliança. No
Salmos 128, o salmista descreve a bênção da casa pactual dizendo: “... teus filhos, como rebentos da oliveira, à roda da tua
mesa.” (Salmo 128.3). A imagem retrata convivência, unidade e
comunhão dentro da casa do Senhor. Essa mesma dimensão comunitária permanece
presente na vida da igreja do Novo Testamento. Quando Paulo trata da ceia em 1
Corintios 11, ele fala repetidamente da igreja reunida:
“quando vos reunis”;
“quando vos reunis no mesmo lugar”;
e “para comer”.
Esse ponto se torna especialmente importante diante da
mentalidade religiosa contemporânea. Tornou-se comum imaginar uma
espiritualidade construída sem compromisso com igreja local, sem vida
comunitária e sem submissão aos meios que Cristo estabeleceu para edificação do
Seu povo. Muitos falam de fé como experiência estritamente pessoal, quase como
se Cristo pudesse ser separado da comunidade que Ele mesmo comprou com Seu
sangue.
Entretanto, o Novo Testamento descreve exatamente o
contrário. O Senhor ressuscitado não apenas salva indivíduos; Ele reúne um
povo, sustenta esse povo e governa esse povo ao longo da história.
Por isso a Escritura utiliza imagens profundamente ricas
para descrever a igreja. Ela é chamada de corpo de Cristo, noiva de Cristo, casa de Deus, templo do
Espírito Santo, e povo adquirido para Sua glória. Cada uma dessas figuras
revela uma dimensão da relação entre Cristo e Sua igreja.
Quando Paulo fala do corpo de Cristo 1 Corintios 12, ele
destrói qualquer noção de independência espiritual absoluta. O corpo não é
formado por um único membro isolado. Há diversidade, interdependência e serviço
mútuo. No corpo de Cristo, os santos são chamados a carregar fardos uns dos
outros, a corrigirem-se mutuamente, a suportarem-se em amor, e a crescerem
juntos na fé. A vida cristã nunca foi pensada como peregrinação solitária.
A própria estrutura das igrejas apostólicas confirma isso.
Em diversos momentos da primeira carta aos coríntios, Paulo o utiliza
expressões como: “Quando vos reunis na igreja...”
(1 Coríntios 11.18) e “Quando, pois, vos reunis
no mesmo lugar...” (1 Coríntios 11.20). Essas expressões revelam
algo extremamente importante: a igreja apostólica possuía reunião pública
identificável, comunhão objetiva e vida coletiva concreta. O Novo Testamento
não descreve cristãos vivendo sua fé de maneira isolada e desconectada da assembleia
dos santos.
Ao longo de 1 Coríntios, Paulo regula a administração da
ceia (1 Coríntios 11.23-29); o exercício dos dons (1 Coríntios 12–14), a ordem
no culto público (1 Coríntios 14.26-40), a disciplina eclesiástica (1 Coríntios
5.1-13), a coleta para os santos (1 Coríntios 16.1-2), a instrução doutrinária
da congregação (1 Coríntios 15) e organização prática da vida comunitária (1
Coríntios 16.15-16). Nada disso faria sentido se a igreja fosse apenas
realidade invisível sem expressão histórica concreta.
A imagem da noiva aponta para outro aspecto igualmente
importante. Em Efésios 5.25, Paulo afirma: “Cristo
amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela.”. Cristo não morreu
para formar uma coletividade religiosa vaga e sem expressão concreta na
história. Ele redimiu um povo que lhe pertence, unido a Ele e unido entre si. A
igreja aparece nas Escrituras como objeto do amor pactual de Cristo, sendo
preparada para o dia em que será apresentada gloriosa diante dEle.
Essa verdade também ajuda a corrigir uma concepção bastante
difundida em nossos dias: a ideia de que alguém pode viver normalmente apartado
da igreja visível e, ainda assim, considerar irrelevante a comunhão ordinária
do povo de Deus. O Novo Testamento jamais descreve a vida cristã como
experiência construída à margem da assembleia dos santos.
Pelo contrário. A igreja aparece constantemente como o
ambiente ordinário onde Cristo:
·
anuncia Sua Palavra (Romanos 10.14-17; 2 Timóteo
4.1-2);
·
fortalece Seu povo (Atos 2.42; Efésios 4.11-16);
·
ministra os sacramentos (Mateus 28.19; 1
Coríntios 11.23-26);
·
corrige pecados (Mateus 18.15-17; 1 Coríntios
5.1-5);
·
consola os aflitos (2 Coríntios 1.3-4; 1
Tessalonicenses 5.11);
·
e amadurece espiritualmente os santos
(Colossenses 1.28; Efésios 4.13-15).
Isso não significa atribuir poder salvífico autônomo à
instituição eclesiástica. A salvação pertence inteiramente ao Senhor. Contudo,
o próprio Cristo decidiu agir ordinariamente por meio dos instrumentos que Ele
estabeleceu para edificação do Seu povo reunido. A Palavra é pregada na igreja;
os sacramentos são administrados na igreja; a disciplina ocorre na igreja; a
comunhão dos santos é exercida na igreja.
Foi exatamente por isso que a tradição reformada reconheceu
historicamente certas marcas fundamentais da verdadeira igreja como a fiel
exposição das Escrituras, a correta administração dos sacramentos e a disciplina
eclesiástica exercida segundo a Palavra de Deus.
Essa compreensão também esclarece por que o Novo Testamento
trata com seriedade o abandono deliberado da comunhão dos santos. O apóstolo na
carta aos Hebreus afirma em 10.25: “Não deixemos de
congregar-nos, como é costume de alguns...”. O autor de Hebreus não
trata a reunião da igreja como adorno da vida cristã. O afastamento contínuo da
comunhão era visto como sintoma perigoso de esfriamento espiritual e
progressivo endurecimento do coração. Esses elementos não são descartáveis para
a verdadeira vida cristã. Eles fazem parte da maneira como Cristo cuida de Seu
povo neste mundo.
Ao mesmo tempo, a Escritura não idealiza a igreja visível
como se ela já estivesse livre de problemas nesta era. O próprio Novo
Testamento apontou divisões, falsos mestres, escândalos, esfriamento espiritual
e corrupção doutrinária.
As cartas às igrejas no livro de Apocalipse entre os
capítulos 2 e 3 mostram congregações enfrentando graves pecados. Algumas haviam
tolerado falsos ensinos, falsos mestres, outras perderam zelo, outras se
tornaram espiritualmente indiferentes. Isso significa que a presença de falhas
dentro da igreja não constitui argumento para abandoná-la. Pelo contrário.
Demonstra a necessidade contínua de correção e reforma da igreja segundo as
Escrituras.
O próprio Cristo, ao dirigir-Se às igrejas da Ásia, não
ordena que os santos abandonem a comunhão visível por causa das corrupções
existentes. Em vez disso, Ele repreendeu, chamou ao arrependimento, corrigiu, disciplinou
e conclamou as igrejas à perseverança. Isso pode ser observado em: Apocalipse
2.1-7; Apocalipse 2.12-17; Apocalipse 2.18-29; Apocalipse 3.1-6; Apocalipse
3.14-22.
O mesmo princípio aparece em outras partes do Novo
Testamento. Mesmo diante de graves problemas em Corinto, o apóstolo Paulo não
instrui os crentes fiéis a abandonarem a igreja, mas trabalha pela sua correção.
Vemos isso em textos como: 1 Coríntios 1.10-13; 1 Coríntios 3.1-3; 1 Coríntios
5.1-13; 1 Coríntios 11.17-22; 2 Coríntios 2.6-8.
Da mesma forma, as exortações apostólicas constantemente
apontam para direção oposta ao abandono da igreja visível. Ele insiste em preservação
da unidade (Efésios 4.1-6); na restauração do faltoso (Gálatas 6.1); no exercício
da disciplina (Mateus 18.15-17); na perseverança conjunta na comunhão (Hebreus
10.24-25) e na edificação do corpo por meio de homens vocacionados e dotados de
dons para este fim (Efésios 4.11-16). A resposta bíblica para os pecados da
igreja não é o abandono da igreja, mas sua contínua reforma à luz da Palavra de
Deus.
A própria Reforma Protestante não nasceu de desprezo pela
igreja, mas do esforço de restaurar a centralidade do evangelho, da Palavra e
da fidelidade bíblica. Em Lutero, esse movimento se expressa inicialmente como
tentativa de reforma interna da igreja visível; em Calvino, como reconhecimento
de que a corrupção doutrinária atingia tal profundidade que exigia a
constituição de comunidades reformadas segundo o padrão das Escrituras, ainda
sem negar o princípio da verdadeira igreja onde a Palavra permanece.
Outro ponto importante envolve a continuidade entre o povo
de Deus no Antigo Testamento, a igreja apostólica e a igreja glorificada. Israel
jamais foi descrito como povo invisível e disperso sem forma histórica
concreta. O Senhor estabeleceu uma assembleia pública, um culto estruturado, o sacerdócio,
uma liderança reconhecida, a disciplina, as festas solenes bem como um local
determinado para adoração. A congregação da antiga aliança era visível na
história.
Da mesma forma, a igreja apostólica também aparece reunida:
·
ouvindo a Palavra (Atos 2.42; Atos 20.7; 1 Coríntios
11.7; 14.26)
·
celebrando os sacramentos (Mateus 28.19; 1
Coríntios 11.23-26)
·
exercendo comunhão (Atos 2.42; Atos 4.32-35; 1
Coríntios 11.7; 14.26)
·
cultuando coletivamente (Atos 20.7; 1 Coríntios
11.7; 14.26; Colossenses 3.16)
·
vivendo sob cuidado pastoral (Atos 20.28; 1
Pedro 5.1-3)
Curiosamente, alguns tentam transformar justamente o período
presente da história redentiva numa espécie de exceção radical, como se Israel
no Antigo Testamento fosse visível; a igreja glorificada na eternidade também
fosse visível; mas a igreja entre a primeira e a segunda vinda de Cristo
devesse existir apenas de forma dispersa, individualizada e praticamente sem
expressão comunitária concreta.
Entretanto, a própria Escritura aponta exatamente na direção
oposta. Em Apocalipse 21, a igreja glorificada aparece simbolizada como cidade
santa: “Vi também a cidade santa, a nova Jerusalém,
que descia do céu...” (Apocalipse 21.2). A figura é coletiva,
pública e visível. A redenção culmina num povo reunido diante do Senhor.
Desde Israel no Antigo Testamento, passando pela igreja
apostólica, até alcançar a consumação final em Apocalipse, a revelação bíblica
mantém continuamente diante de nós a realidade de um povo identificado, reunido
e separado por e para Deus.
Esse tema também se relaciona diretamente aos meios de
graça. O Senhor decidiu agir ordinariamente por meio de instrumentos concretos
estabelecidos por Ele mesmo. Por isso o Novo Testamento dá centralidade: à
pregação (1Coríntios 1.18-24; 2 Timóteo 4.2); ao batismo (Mateus 28.19; 1Coríntios
1.14-16); à ceia do Senhor (1 Coríntios 11.23-29 cf. Mateus 26.26; Marcos
14.22; Lucas 22.19; Lucas 24.30-31, Atos 20.7); à oração pública (Atos 1.14; Atos
2.42; Atos 4.24-31; Atos 12.5; Atos 13.2-3; 1 Timóteo 2.1-2; Colossenses 4.2) ;
à leitura das Escrituras (Êxodo 24.7; Deuteronômio 31.11-13; Josué 8.34-35; Neemias
8.1-8; Lucas 4.16-21; Atos 13.14-15; Colossenses 4.16; 1 Tessalonicenses 5.27; 1
Timóteo 4.13; Apocalipse 1.3) e à comunhão dos santos (No Antigo Testamento: Êxodo
19.5-6; Levítico 23.1-3; Deuteronômio 16.16-17; Salmo 122.1-4; Salmo 133.1-3; Neemias
8.1-3; Neemias 10.28-39. No Novo Testamento: Atos 2.41-47; Atos 4.32-35; Atos
5.12; Atos 6.1-7; Romanos 12.4-13; 1 Coríntios 12.12-27; 1 Coríntios 14.26-40; Efésios
2.19-22; Efésios 4.1-16; Hebreus 10.24-25).
Em Atos 2.42 lemos: “E
perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas
orações.” Esse retrato da igreja primitiva apresenta uma comunidade
firmada na doutrina, na adoração, na dependência de Deus e faziam isso “na comunhão”.
Um argumento sólido aqui precisa separar duas coisas que
muitas vezes são confundidas: circunstância histórica e norma teológica.
A igreja primitiva, especialmente no primeiro século, não
possuía ordinariamente edifícios próprios de culto por razões amplamente
reconhecidas:
·
A rejeição inicial de muitos judeus à mensagem
apostólica limitava o acesso das comunidades cristãs às sinagogas em expansão
pós-Páscoa.
·
A perseguição romana, em diferentes
intensidades, tornava a organização pública e estável de propriedades cristãs
algo arriscado e, em certos períodos, impossível.
Além disso, a própria natureza missionária inicial da igreja
apostólica fazia com que ela se reunisse frequentemente em casas (Atos 2.46;
Romanos 16.5; Colossenses 4.15). No entanto, concluir disso que a igreja não
necessita de locais próprios de reunião hoje é um salto lógico que não se
sustenta.
O ponto central é que o Novo Testamento descreve a ausência
de edifícios como consequência histórica, não como princípio teológico
normativo. Em nenhum momento os apóstolos transformam essa limitação
circunstancial em doutrina sobre o culto cristão. Pelo contrário, o que se vê é
a ênfase na reunião ordenada da igreja como corpo visível, independentemente do
espaço físico utilizado.
Ou seja, a igreja primitiva não era “anti-estrutura”, nem
“anti-local de culto”; ela era uma igreja em condição histórica adversa, ainda
não havia desenvolvido plenamente formas fixas de institucionalização espacial,
porque estava em fase missionária inicial sob perseguição, sob restrição social
e política. Além disso, o próprio desenvolvimento posterior da história da
igreja - já nos séculos II e III - mostra comunidades cristãs adquirindo
espaços próprios para reunião, à medida que as condições sociais permitiam, sem
qualquer indicação de que isso fosse considerado uma ruptura com a prática
apostólica.
Portanto, o argumento de que “a igreja primitiva não tinha
templos, logo o templo não é necessário hoje” confunde a necessidade teológica
(o que Cristo instituiu) com limitação histórica (o que as circunstâncias
permitiam).
O Novo Testamento não estabelece a ausência de edifícios
como ideal normativo, mas sim a centralidade da igreja reunida sob a Palavra,
independentemente do espaço em que isso ocorre.
A esperança final da igreja aponta para a consumação da
redenção. O povo atualmente peregrino será plenamente glorificado. A comunhão
iniciada nesta era não será interrompida, mas elevada à sua forma perfeita na
presença imediata de Deus.
Em Apocalipse 21.2-3, essa realidade é descrita quando se
afirma: “Vi também a cidade santa, a nova Jerusalém,
que descia do céu, da parte de Deus, ataviada como noiva adornada para o seu
esposo... Eis o tabernáculo de Deus com os homens...”. A noiva, a cidade
santa, a nova Jerusalém é a Igreja redimida e glorificada. Contudo, essa
linguagem não deve ser compreendida como uma simples continuidade histórica da
igreja em seu estado institucional atual, como se apenas se prolongasse
indefinidamente a forma presente de sua organização.
Na perspectiva reformada, trata-se da consumação
escatológica do próprio povo de Deus: a igreja triunfante, plenamente redimida
e glorificada em Cristo para viver eternamente com Cristo. Aqui, é importante
reconhecer um princípio de continuidade na forma como Deus se relaciona com o
seu povo ao longo da história da redenção: o povo da aliança sempre se
manifesta de maneira pública, concreta e historicamente perceptível.
No Antigo Testamento, Israel não era uma realidade invisível
ou meramente interior, mas um povo identificável, reunido, estruturado e
reconhecível na história. No Novo Testamento, a igreja igualmente se apresenta
como comunidade reunida, dotada de ordenanças, culto e vida comum. E, na
consumação final, esse mesmo povo redimido permanece real, concreto e
glorificado - portanto, também “visível” no sentido de existência corporal
ressurreta e manifesta, já plenamente livre de corrupção e imperfeição.
Há, portanto, coerência interna na revelação bíblica: o povo
de Deus não aparece como uma realidade abstrata ou apenas espiritualizada em
algum estágio da história. Ele se manifesta, em cada etapa do plano redentivo,
de forma concreta e reconhecível - seja em Israel, na igreja apostólica ou na
igreja glorificada.
Assim, torna-se incoerente sustentar a ideia de uma fé
cristã apartada da igreja visível na presente era, como se a comunhão concreta
do povo de Deus fosse opcional ou secundária. A própria progressividade da
revelação demonstra o contrário: o Deus da aliança forma um povo real, reunido
e perceptível na história, que será finalmente consumado em glória, sem deixar
de ser o mesmo povo, agora plenamente restaurado em Cristo.
Há, portanto, verdadeira continuidade do povo da aliança, o
mesmo povo que Deus chamou, justificou e santificou em Cristo, mas também uma
descontinuidade essencial de condição. Após a consumação de todas as coisas, a
igreja deixa o estado de peregrinação, marcado por luta, imperfeição e meios
ordinários de graça, e entra na realidade consumada da glória, onde tudo o que
é parcial é finalmente aperfeiçoado.
Nesse estado final, já não se trata da igreja em sua forma
visível histórica, mas do povo de Deus consumado, perfeitamente santificado e
imediatamente diante da presença do Cordeiro. Não há mais igreja militante, nem
sacramentos como meios de edificação, nem disciplina eclesiástica, nem
mediações pastorais como as conhecemos nesta era. Há, sim, a plena comunhão com
Deus (Cristo, o próprio Tabernáculo de Deus com os homens), sem obstáculos, sem
sombras e sem necessidade de sinais, pois a realidade significada estará
plenamente presente.
Assim, a história da igreja não terminará em dispersão,
fracasso ou dissolução, mas na preservação fiel do Senhor sobre o seu povo até
o fim. A noiva será finalmente apresentada sem mancha diante do seu Senhor, e a
comunhão parcialmente experimentada agora será consumada na nova criação, em
perfeita visão e gozo da glória de Deus em Cristo.
Por isso a igreja não pode ser reduzida a mera estrutura
sociológica, a ambiente de entretenimento religioso, a mecanismo de influência
política ou a espaço de consumo espiritual.Ela é a assembleia do povo redimido,
reunido pela Palavra de Deus, sustentado pela graça de Cristo e conduzido pelo
Espírito Santo até a plena restauração de todas as coisas.
Rev. Júlio Pinto