domingo, 10 de maio de 2026

Devocional para as mães em 09/05/26

 A maternidade redimida pela graça de Deus

 1Timóteo 2.15 “Todavia, será preservada através de sua missão de mãe, se ela permanecer em fé, amor e santificação, com bom senso.

Introdução

Em um tempo no qual praticamente todas as datas comemorativas acabam sendo utilizadas como instrumentos ideológicos ou comerciais, muitos olham para o Dia das Mães apenas como mais uma ocasião moldada pelo mercado, pela sentimentalização superficial ou por agendas culturais específicas. Contudo, há algo muito mais profundo acontecendo em nossa sociedade. À medida que projetos, discursos e até legislações avançam buscando redefinir estruturas fundamentais da civilização, percebe-se também uma tentativa progressiva de eliminar da consciência coletiva princípios que têm fundamento nas próprias Escrituras. E tais princípios começam a ser desconstruídos pela mudança do significado das palavras. Não é sem motivo que três termos profundamente bíblicos vêm sendo constantemente atacados: família, pai e mãe. Quando os conceitos são esvaziados, a própria ordem criada por Deus torna-se obscurecida diante dos homens. Assim, aquilo que realizamos hoje não se trata de uma celebração sentimental de uma data do calendário, mas uma afirmação pública e piedosa da verdade estabelecida por Deus desde a criação: a dignidade, a vocação e a honra da mãe segundo as Escrituras.

A maternidade, nas Escrituras, não é apresentada como mero fenômeno biológico, nem como simples construção social; ela pertence à própria ordem criada por Deus. Antes da queda, o Senhor entregou ao homem e à mulher o mandato criacional: “Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra...” (Gn 1.28). A vocação maternal, portanto, não nasce da maldição, mas da bênção original da criação. A mulher foi criada por Deus para participar, de modo singular, da propagação da vida humana e da edificação do lar.

Entretanto, após a entrada do pecado no mundo, aquilo que fora dado como bênção passou a ser acompanhado de dor: “Multiplicarei sobremodo os sofrimentos da tua gravidez; em meio a dores darás à luz filhos” (Gn 3.16). A maternidade permanece santa em sua instituição, mas agora marcada pelas consequências da queda. A alegria da geração da vida convive com sofrimento, fadiga, temor e lágrimas.

É exatamente nesse contexto que as palavras de Paulo em 1Timóteo 2.15 devem ser compreendidas. O apóstolo não ensina que a mulher é salva por gerar filhos, como se a maternidade fosse meio de justificação diante de Deus. Antes, ele mostra que, mesmo em uma esfera marcada pela queda, Deus continua operando Seus propósitos de graça, santificação e preservação espiritual.

1. A maternidade pertence ao propósito original da criação

Desde o princípio, Deus dignificou a mulher ao inseri-la no mandato da multiplicação da vida. A maternidade não é acidente histórico, mas expressão da sabedoria do Criador. Em uma cultura que frequentemente trata filhos como peso ou obstáculo à realização pessoal, as Escrituras reafirmam que os filhos são herança do Senhor (Sl 127.3).

A mulher, em seu chamado maternal, participa de algo profundamente santo: cooperar, debaixo da soberania divina, na continuidade da raça humana e na formação de novas gerações para a glória de Deus.

Isso não significa que toda mulher necessariamente será mãe biológica, pois a própria Escritura honra igualmente mulheres piedosas que não tiveram filhos. Contudo, significa que a maternidade, em sua essência, continua sendo uma vocação honrada por Deus e jamais deve ser desprezada pela igreja.

2. A queda trouxe dores àquilo que Deus criou bom

A mesma maternidade que nasceu em meio à bênção agora é atravessada pelas marcas do pecado. As dores mencionadas em Gênesis não se limitam ao parto físico; elas alcançam toda a experiência da maternidade em um mundo caído.

Há dores no gerar, dores no cuidar, dores no educar e dores no ver filhos se desviarem do Senhor. Muitas mães carregam cansaços invisíveis, orações silenciosas e sofrimentos profundos que quase ninguém percebe.

Entretanto, o texto bíblico mostra que a queda não anulou o propósito de Deus. O pecado feriu a criação, mas não destruiu o chamado divino. É precisamente em meio às dores que a graça de Deus se manifesta sustentando, fortalecendo e santificando Seu povo.

É esta graça de Cristo, operando soberanamente, que transforma aquilo que foi marcado pela maldição em instrumento de perseverança e amadurecimento espiritual.

3. A preservação da mulher está em perseverar na fé, e não apenas no exercício externo da maternidade

Quando Paulo afirma que a mulher “será preservada através de sua missão de mãe”, ele imediatamente acrescenta: “se ela permanecer em fé, amor e santificação, com bom senso”. O foco do texto não é o simples ato biológico de gerar filhos, mas a perseverança espiritual no chamado que Deus concedeu.

A maternidade, isoladamente, não salva ninguém. Muitas mulheres são mães sem conhecer a Cristo. A verdadeira preservação está em viver diante de Deus com fé perseverante, amor sincero e vida santificada.

Paulo mostra que o chamado doméstico, tantas vezes desprezado pelo mundo, pode tornar-se poderoso instrumento de piedade cristã. O cuidado do lar, a instrução dos filhos, a perseverança nas pequenas tarefas diárias e a fidelidade silenciosa são vistos pelo Senhor como serviço santo.

Em um tempo que valoriza apenas aquilo que é público, visível e grandioso, Deus honra também a fidelidade escondida.

Aplicações

Aos ímpios e falsos crentes

Há muitos que desprezam a ordem criada por Deus e tratam os papéis estabelecidos pelo Senhor como algo vergonhoso ou ultrapassado. Contudo, rejeitar a sabedoria do Criador é rebelar-se contra o próprio Deus. A cultura moderna tenta separar identidade, vocação e criação, mas as Escrituras chamam homens e mulheres a se submeterem humildemente ao Senhor.

Além disso, nenhuma maternidade, por mais sacrificial que pareça, pode reconciliar alguém com Deus. Somente Cristo salva pecadores.

À mulher cristã

Talvez suas dores sejam silenciosas. Talvez você carregue exaustão, medo, culpa ou sensação de insuficiência. O Senhor, porém, vê cada lágrima escondida. A maternidade não é invisível diante de Deus.

Permaneça em fé, amor e santificação. Cristo não apenas salva sua alma; Ele sustenta diariamente seu chamado. O evangelho alcança também as tarefas ordinárias da vida doméstica.

À igreja

A igreja deve honrar a maternidade sem transformá-la em idolatria, e também acolher com amor mulheres que não possuem filhos. O valor da mulher não está meramente na capacidade biológica de gerar, mas em sua união com Cristo.

Ao mesmo tempo, a igreja precisa resistir à mentalidade do mundo que despreza o lar, os filhos e a vocação doméstica. O Senhor continua operando Sua graça através de famílias piedosas e da transmissão fiel da verdade às próximas gerações.

Conclusão

A história da maternidade nas Escrituras começa com bênção, atravessa a dor da queda e encontra sua esperança definitiva em Cristo. O mesmo Deus que disse “crescei e multiplicai-vos” é aquele que prometeu redenção à humanidade logo após o pecado.

Não é sem significado que, logo após a queda, Deus tenha prometido que da descendência da mulher viria Aquele que pisaria a cabeça da serpente (Gn 3.15). Em Cristo, o Redentor prometido, aquilo que o pecado marcou com dor torna-se também palco da manifestação da graça soberana de Deus.

Assim, a maternidade cristã não é mero dever natural, mas vocação santificada pela esperança do evangelho. Em meio às dores, permanece a promessa: a graça de Deus continua sustentando Seu povo até o fim.

Rev. Julio Pinto 

Tema 26 - A Providência de Deus: Ele preserva, governa e dirige todas as coisas

Tu conservas em vida a todos, e o exército dos céus te adora.” (Neemias 9.6)

 Nele, digo, no qual fomos também feitos herança, predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade.” (Efésios 1.11)

 Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder...” (Hebreus 1.3)

 Após tratarmos da criação, o próximo passo é compreender que Deus não abandonou o universo após trazê-lo à existência. Ele nao é o "grande relojoeiro" ou o "grande arquiteto" que criou toda essa maravilha e a abandonou à própria sorte. 

 O Deus das Escrituras não é um criador distante que apenas iniciou os mecanismos do universo para depois afastar-se dele. A Bíblia apresenta Deus continuamente ativo em Sua criação. A isso chamamos providência.

A providência é a obra contínua de Deus pela qual Ele:

·        preserva todas as coisas;

·        governa todas as coisas;

·        e dirige todas as coisas ao fim que determinou.

E ainda,

·        Nada existe independentemente dEle.

·        Nada permanece existindo sem Seu poder.

·        E nada ocorre fora do Seu governo soberano.

 A providência divina é consequência necessária da própria criação. Se Deus criou todas as coisas e somente Ele possui vida em Si mesmo, então toda a realidade criada permanece continuamente dependente dEle. Por isso a Escritura afirma que Cristo sustenta “todas as coisas pela palavra do seu poder” (Hebreus 1.3).

O universo não possui autonomia. A criação inteira continua existindo porque Deus continuamente a sustenta. Isso inclui: 

·        os céus;

·        a terra;

·        os reis;

·        as nações;

·        os animais;

·        os ciclos da natureza;

·        a vida humana;

·        e até os acontecimentos que os homens consideram pequenos ou aleatórios.

Nada escapa à providência divina.

A Escritura declara que: “O coração do homem pode fazer planos, mas a resposta certa dos lábios vem do Senhor.” (Provérbios 16.1)

E também:

A sorte se lança no regaço, mas do Senhor procede toda decisão.” (Provérbios 16.33)

Isso não significa que Deus seja autor do pecado ou moralmente responsável pela maldade dos homens. A Escritura mantém simultaneamente duas verdades: a primeira na qual Deus governa soberanamente todas as coisas; e a segunda é a de que o homem permanece moralmente responsável por seus atos. O maior exemplo disso é a própria crucificação de Cristo.

Pedro declara que Jesus foi entregue: “pelo determinado desígnio e presciência de Deus” (Atos 2.23) e, ao mesmo tempo, afirma que homens ímpios foram culpados por crucificá-lo.

Isso nos mostra que o mesmo evento ocorreu: segundo o decreto soberano de Deus e mediante atos verdadeiramente pecaminosos dos homens. A providência divina não anula responsabilidade humana. Ela estabelece o governo absoluto de Deus sobre uma criação real, histórica e moral.

A providência também destrói completamente a ideia do “mero acaso”. Os homens usam a palavra “acaso” para descrever eventos cuja causa desconhecem. Mas, diante de Deus, não existem fatos desgovernados, independentes ou caóticos. O Deus da Escritura governa desde o levantar dos impérios até a queda de um pardal. Foi exatamente isso que Cristo ensinou: “Não se vendem dois pardais por um asse? E nenhum deles cairá em terra sem o consentimento de vosso Pai.” (Mateus 10.29)

Isso traz profundo consolo ao crente. Porque significa que a história não está fora de controle, de mesma forma o sofrimento não é autônomo e, para Sua glória, o mal não triunfará soberanamente. A providência garante que Deus conduz todas as coisas para o fim que determinou em Sua sabedoria perfeita. E isso inclui até mesmo circunstâncias difíceis. Por isso Paulo declara: “Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus...” (Romanos 8.28) Isso não significa que todas as coisas sejam boas em si mesmas. O pecado continua sendo pecado. O sofrimento continua sendo sofrimento. A dor continua sendo real. Mas Deus é tão soberano que governa até mesmo os males da história para cumprir Seus propósitos santos.

Aqui também é importante tratar de uma expressão muito difundida na teologia moderna: “graça comum”.

Historicamente, essa formulação foi desenvolvida especialmente por Abraham Kuyper, no contexto do neocalvinismo holandês. A ideia procura explicar como Deus manifesta bondade, ordem e restrição do mal também entre homens não regenerados.

Existe, de fato, uma verdade bíblica importante nisso: 

·        Deus restringe o mal;

·        Deus concede benefícios temporais;

·        Deus sustenta a ordem do mundo;

·        e homens ímpios ainda podem praticar certos bens relativos em termos civis e sociais.

 Contudo, é preciso salientar que a própria providência divina explica isso. Por isso, é extremamente necessário cuidado com a expressão “graça comum”.

Porque, na Escritura, a graça aparece fundamentalmente ligada à redenção.

·        A graça salva.

·        A graça justifica.

·        A graça santifica.

·        A graça glorifica.

Quando Paulo fala da graça de Deus, ele está tratando da ação salvadora de Deus em Cristo. Por isso, muitos teólogos reformados entenderam que talvez seja mais preciso falar:

·        de bondade comum;

·        misericórdia temporal;

·        paciência divina;

·        ou providência restritiva;

do que propriamente de “graça” em sentido redentivo.

Porque os réprobos realmente recebem:

·        vida;

·        sustento;

·        chuva;

·        alimento;

·        ordem social;

·        talentos;

·        e longanimidade divina.

Mas continuam debaixo da condenação de Adão enquanto permanecem fora de Cristo.

A Escritura jamais fala da graça de Deus como algo meramente neutro ou não salvífico. Isso é importante porque protege a centralidade da redenção. A graça bíblica não é mera benevolência genérica. Ela é favor salvador concedido soberanamente em Cristo ao Seu povo.

 Aqui também é necessário acrescentar um equilíbrio importante. O fato de Deus conceder benefícios temporais aos ímpios não significa ausência de ira divina sobre eles. A Escritura não apresenta o homem natural como estando em neutralidade diante de Deus enquanto vive nesta vida. Pelo contrário, afirma claramente que a ira divina já repousa sobre ele. Cristo declara: “...sobre eles permanece a ira de Deus...” (João 3.36). Observe que o texto não fala apenas de uma ira futura, mas de uma condição presente. O homem fora de Cristo já se encontra judicialmente condenado diante de Deus.

Paulo igualmente afirma que “a ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens” (Romanos 1.18). Essa ira já se manifesta na própria história por meio do juízo de abandono judicial. Repetidas vezes Romanos 1 declara: “Deus os entregou...” (Romanos 1.24, 26, 28). Ou seja, uma das formas mais severas da ira divina consiste em Deus entregar o homem aos seus próprios pecados, paixões, corrupções e endurecimento moral. O homem deseja o pecado e Deus o abandona cada vez mais às consequências do próprio pecado. Isso já é manifestação presente do juízo divino.

Ao mesmo tempo, a Escritura também ensina que a plena consumação dessa ira ainda está por vir. Paulo afirma que o homem impenitente “... segundo a tua dureza e coração impenitente, acumulas contra ti mesmo ira para o dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus,” (Romanos 2.5). Existe, portanto, uma ira presente e uma ira futura. A ira já repousa sobre o ímpio agora, mas será plenamente revelada no juízo final.

Isso é fundamental para não compreendermos erroneamente a bondade providencial de Deus. O fato de os ímpios:

·        respirarem;

·        prosperarem;

·        receberem alimento;

·        constituírem famílias;

·        desenvolverem cultura;

·        ou desfrutarem de muitos benefícios temporais;

não significa reconciliação com Deus nem suspensão de Sua justiça. A própria longanimidade divina tem propósito moral. Paulo pergunta: “Ou desprezas a riqueza da sua bondade, e tolerância, e longanimidade, ignorando que a bondade de Deus é que te conduz ao arrependimento?” (Romanos 2.4). A paciência de Deus deveria conduzir o homem ao arrependimento. Porém, permanecendo impenitente, o homem continua debaixo da ira divina mesmo enquanto desfruta dos benefícios temporais da providência.

Por isso, dentro da teologia reformada, muitos preferem compreender essas manifestações não como “graça” em sentido redentivo, mas como:

·        bondade providencial;

·        misericórdia temporal;

·        longanimidade divina;

·        e restrição soberana do mal.

A graça salvadora pertence à união com Cristo. Somente nEle a ira de Deus é removida. Fora de Cristo, o homem permanece simultaneamente:

·        sustentado pela providência divina;

·        moralmente responsável diante de Deus;

·        e judicialmente debaixo de Sua ira.

E é exatamente isso que torna o evangelho tão glorioso: Cristo não veio apenas melhorar a condição do homem, mas livrar pecadores da justa ira de Deus. Ainda assim, mesmo a bondade temporal de Deus para com os ímpios serve aos Seus propósitos soberanos na história.

 A providência divina também deve produzir temor. Porque o mesmo Deus que preserva e sustenta o mundo também julgará o mundo. Os homens frequentemente vivem como se fossem autônomos, independentes e senhores do próprio destino. Mas a providência revela que toda criatura vive continuamente diante do governo do Criador.

Isso muda completamente a maneira como enxergamos a vida. Não existe um momento neutro sequer na vida; não há nenhuma história neutra; nada nos informa que o sofrimento é neutro; nem tampouco devemos achar que a nossa própria existência é neutra. Tudo ocorre sob os olhos de Deus. Coram Deo

E isso deve conduzir o conduz o crente à confiança, à humildade, à perseverança e à adoração. Porque, afinal de contas, o universo não está entregue ao caos. O Deus que criou todas as coisas também governa todas as coisas e tem conduzido e ainda conduzirá toda a história ao fim que determinou para a manifestação da Sua glória.

 

Rev. Júlio Pinto

sábado, 9 de maio de 2026

Tema 25 - A Criação: Deus trouxe todas as coisas à existência pela Sua Palavra

 “No princípio, criou Deus os céus e a terra.” (Gênesis 1.1)

Pela fé, entendemos que foi o universo formado pela palavra de Deus, de maneira que o visível veio a existir das coisas que não aparecem.” (Hebreus 11.3)

Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez.” (João 1.3)

 

Chegamos à obra da criação, tema que ainda pertence acerca da Doutrina de Deus.

A criação é o ato livre, soberano e poderoso pelo qual Deus trouxe todas as coisas à existência pela Palavra do Seu poder.

A Escritura começa exatamente com essa declaração majestosa: “No princípio, criou Deus os céus e a terra.

Antes da criação, nada existia além do próprio Deus. Não havia matéria eterna, energia pré-existente, forças independentes ou qualquer realidade autônoma coexistindo com Ele. Se houvesse algo eterno além de Deus, então isso também possuiria caráter absoluto e independente, deixando de ser mera criatura.

Em última análise, haveria outro princípio eterno ao lado de Deus. E aquilo que é eterno, absoluto e independente torna-se objeto último de reverência e explicação da realidade. A Escritura, porém, rejeita completamente essa possibilidade. Somente Deus é eterno em Si mesmo.

Toda a realidade criada depende dEle. Isso também distingue a fé cristã de concepções panteístas, como a de Baruch Spinoza, que entendia Deus não como um Criador distinto do universo, mas como a própria substância eterna da qual todas as coisas seriam expressão. Na revelação bíblica, Deus não é o universo, nem o universo é extensão do ser divino. O Criador é distinto da criação e soberano sobre ela. Somente Deus é eterno.

Por isso, a tradição cristã passou a usar uma expressão para mostrar aquilo que a Escritura afirma de que Deus criou todas as coisas a partir daquilo que não existia, ou seja: ex-nihilo - isto é, “do nada”. (Hebreus 11.3)

Isso não significa que o “nada” fosse algum tipo de substância da qual o universo foi formado. Significa exatamente o contrário: Deus não utilizou matéria prévia para criar. O universo inteiro passou a existir exclusivamente pelo poder da Sua vontade.

Deus falou - e todas as coisas vieram à existência.

Isso distingue radicalmente a cosmovisão bíblica de muitas concepções antigas e modernas.

A Escritura rejeita:

·        Qualquer ideia de evolução;

·        a ideia de matéria eterna;

·        a noção de que o universo seja uma extensão do próprio ser divino;

·        ou qualquer conceito de criação como simples organização de algo já existente.

Deus não moldou um universo prévio. Ele trouxe o próprio ser das coisas à existência.

E essa criação ocorre por meio da Sua Palavra. “Disse Deus...” - e assim se desenvolve toda a narrativa de Gênesis.

O universo não nasce do acaso, nem da necessidade, nem de processos independentes de Deus. Ele existe porque Deus quis que existisse.

E isso revela algo profundo sobre o próprio Criador.

A criação não surge de carência em Deus. Deus não criou porque estivesse solitário, incompleto ou necessitado da criatura. O Deus trino já possuía, eternamente, perfeita plenitude em Si mesmo.

A criação é fruto da Sua vontade livre e sábia.

Além disso, a Escritura mostra que a criação é obra do Deus Triúno.

O Pai cria pelo Filho e no poder do Espírito.

João afirma que todas as coisas foram feitas por intermédio do Filho. E Gênesis 1.2 já apresenta o Espírito de Deus pairando sobre a face das águas. Portanto, toda a Trindade está envolvida na obra criadora.

A criação também revela a glória de Deus. Os céus manifestam Sua grandeza. A ordem do universo testemunha Sua sabedoria. A complexidade da vida aponta para Seu poder. E, como Paulo declarou em Atenas, é no próprio Deus que “vivemos, e nos movemos, e existimos” (Atos 17.28). Isso significa que a criação inteira depende continuamente do Criador. O universo não possui existência autônoma nem significado independente de Deus. Toda a realidade criada testemunha, consciente ou inconscientemente, a glória Daquele que a trouxe à existência.

Isso significa que o universo não é autônomo nem possui significado em si mesmo. A criação existe para refletir a glória do Criador.

E isso traz profundas implicações.

Primeiro, produz humildade. Somos criaturas, não autônomos. Isso destrói a ilusão moderna de independência absoluta. O homem não possui existência em si mesmo, não define autonomamente sua própria natureza e não é o centro último da realidade. Vivemos em um universo que não nos pertence e cuja existência não depende da vontade humana. A própria vida é dom de Deus. Cada respiração, cada capacidade e cada aspecto da existência dependem continuamente do Criador. Reconhecer isso é o início da verdadeira humildade. Foi exatamente essa verdade que Paulo proclamou em Atenas ao afirmar que “nele vivemos, e nos movemos, e existimos” (Atos 17.28). A criatura jamais pode ocupar o lugar do Criador sem cair em rebelião e idolatria.

Segundo, produz dependência. Tudo o que existe continua dependendo de Deus para subsistir. A criação não possui autonomia operacional diante do Criador. O universo não funciona como uma máquina independente que Deus apenas colocou em movimento. A Escritura afirma que todas as coisas continuam sendo sustentadas pelo poder divino. O autor de Hebreus declara que Cristo está “sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder” (Hebreus 1.3). Isso significa que não apenas a origem do universo depende de Deus, mas também sua continuidade momento após momento. Se Deus retirasse Seu poder sustentador, toda a criação deixaria imediatamente de existir. Isso também corrige o pensamento deísta, que imagina um deus distante, ausente e não envolvido com sua criação. O Deus das Escrituras é transcendente, mas também continuamente presente em Seu governo providencial sobre tudo o que criou.

Terceiro, produz reverência. O mundo não é comum ou independente, é obra das mãos de Deus. A criação inteira carrega as marcas da sabedoria, poder e majestade do Criador. Os céus anunciam Sua glória, e toda a ordem da criação testemunha continuamente acerca dEle. Isso significa que o universo não deve ser tratado com banalidade, nem o homem deve viver como se estivesse em uma realidade neutra ou sem significado. Toda a existência aponta para Deus e exige uma resposta moral da criatura. Romanos 1 afirma que os homens são indesculpáveis justamente porque a própria criação revela claramente o poder eterno e a divindade de Deus. Portanto, viver sem reverência diante do Criador não é mera ignorância intelectual, é supressão culpada da verdade revelada na própria criação.

Quarto, sendo Deus o Criador, Ele determina não apenas a finalidade de cada coisa criada, mas também o fim de todas elas. A história não caminha de forma aleatória ou indefinida. O mesmo Deus que trouxe todas as coisas à existência também determinou o desfecho da criação e da própria história humana. Por isso a Escritura descreve o fim desde o princípio. Daniel anuncia o estabelecimento definitivo do Reino de Deus, e Apocalipse revela a consumação final de todas as coisas sob o governo de Cristo. Como declara o Senhor: “Lembrai-vos das coisas passadas da antiguidade: que eu sou Deus, e não há outro, eu sou Deus, e não há outro semelhante a mim; que desde o princípio anuncio o que há de acontecer e desde a antiguidade, as coisas que ainda não sucederam; que digo: o meu conselho permanecerá de pé, farei toda a minha vontade;” (Isaías 46.9-10). O universo criado possui origem, propósito e consumação determinados pelo próprio Criador.

Quinto, sendo Deus o Criador, isso é motivo mais que suficiente para exigir adoração e louvor de todas as criaturas. O salmista convoca toda a criação ao louvor exatamente porque todas as coisas pertencem Àquele que as fez: “Vinde, adoremos e prostremo-nos; ajoelhemos diante do Senhor, que nos criou” (Salmos 95.6). A criação não existe para a exaltação de si mesma, mas para glorificar o Deus que lhe deu existência.

Sexto, sendo Deus o Criador, o próprio Cristo, ao encarnar-se, veio revelar e anunciar esse Deus verdadeiro. A Escritura afirma acerca do Filho: “Por isso Deus, o teu Deus, te ungiu...” (Hebreus 1.9). E o Deus anunciado por Cristo é exatamente o Deus revelado desde Gênesis. Jesus confirmou a criação ex-nihilo, confirmou o universo criado pela Palavra divina, confirmou a criação do homem e da mulher desde o princípio e tratou os eventos de Gênesis como história verdadeira (Mateus 19.4). Isso possui uma implicação inevitável: não é coerente afirmar crer em Cristo apenas em aspectos morais ou espirituais enquanto se rejeita o próprio testemunho que Ele deu acerca de Deus, da criação e das Escrituras. Se Cristo é verdadeiro, então Seu testemunho também o é. E, se seu testemunho acerca de Deus e da criação é falso, então crer em seu ensino moral ou espiritual é incoerente. E o Cristo revelado nos evangelhos não anunciou um deus imaginário, impessoal ou simbólico, mas o Deus Criador revelado desde o princípio. Foi esse Deus transcendente, distinto da criação e soberano sobre ela, que Cristo revelou ao mundo e ensinou Seu povo a adorar “em espírito e em verdade” (João 4.24).

E aqui é importante fazer uma distinção fundamental.

Criar não é o mesmo que sustentar.

Deus não apenas trouxe o universo à existência; Ele continua sustentando todas as coisas. O mundo não segue funcionando independentemente após ter sido criado. A criação permanece continuamente dependente do poder de Deus. E essa sustentação é atribuída explicitamente a Cristo. O autor de Hebreus declara que o Filho está “sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder” (Hebreus 1.3). Isso significa que o universo não apenas foi criado por meio dEle, mas também continua existindo, sendo preservado e governado por Seu poder soberano. Por isso, a existência inteira é contingente - somente Deus possui existência em Si mesmo.

Portanto, a doutrina da criação não fala apenas sobre a origem do universo, mas sobre nossa relação com Deus. Somos criaturas vivendo em um universo que pertence integralmente ao seu Criador.

E isso significa que:

·        nossa vida pertence a Deus

·        nossa existência depende de Deus

·        e nosso propósito encontra-se em Deus

·        A criação começa com Deus, e encontra nEle o seu sentido final.

 

 Uma parábola acerca de toda a existência

 Muitos céticos, ateus e outras linhas ideológicas afirmam sua posição por não verem lógica em uma religião fundamentada no relato de Gênesis 1 e 2. Então, propomos uma parábola (já conhecida de muitos).

 A teoria do bolo

 Depois de um dia de trabalho você chega em casa, abre a porta e, chegando na cozinha, se depara com um belo e suculento bolo de chocolate enfeitado com cerejas. Contudo, a imagem lhe causa estranheza e você não sabe de onde veio, nem quem o fez. Então, você se propõe a um exercício intelectual de lógica para elaborar teorias sobre como aquele apetitoso produto chegou até ali. Você desenvolve duas teorias.

Teoria 01 – Um monte de coincidências.

Na primeira teoria, você imagina que um caminhão de entrega de supermercado estava descendo a ladeira de sua rua. De repente, um menino atravessa à frente do caminhão e, para não atropelar o menino, o motorista dá um golpe no volante e perde o controle do veículo.

O veículo começa a capotar ladeira abaixo. No baú do caminhão estavam todo tipo de produtos de supermercado. Dentre eles, havia um pacote de farinha de trigo que se estourou e uma porção determinada se separou do restante do pacote. Ali também havia leite líquido que também se abriu e separou uma quantidade exata e proporcional à quantidade do trigo que também se havia separado, e misturaram-se. Havia também cartelas de ovos que se abriram e quebraram apenas alguns ovos, uma quantidade exata que se misturou à massa previamente formada pelo trigo e pelo leite.

Enquanto isso, o caminhão continuava rolando ladeira abaixo. No baú do caminhão também havia chocolate em pó e fermento que se abriram e se misturaram em uma proporção exata aos três primeiros elementos que já haviam formado uma massa. Enquanto isso, o caminhão rolava ladeira abaixo e aquela massa continuava sendo misturada e batida.

Havia ali, também, um pacote de açúcar que se arrebentou e se misturou numa quantidade exata, nem para mais, nem para menos, à massa que se formava ali. O caminhão continuava capotando e misturando a massa.

Ainda no baú do caminhão tinha uma forma de bolo e, por acaso, em uma das cambalhotas do caminhão a massa prévia se enfiou dentro dela, mas não antes de um pouco de manteiga e trigo terem untado a forma.

De repente, o caminhão para de capotar bem em frente à sua casa e pega fogo; o bolo assa. E, preso nas ferragens acima do bolo, estava um vidro de cerejas que se quebra com o calor e, após o bolo assado, as cerejas caem em cima dele.

Chega o corpo de bombeiros, apaga o fogo e acha o bolo assado. O bombeiro, estupefato com a façanha, pega o bolo e, como estava de frente à sua casa, entra e coloca o bolo no balcão de sua cozinha como prova do feito inédito.

Mas, não contente com essa teoria que você idealizou de como o bolo chegou até ali, você pensa em outra.

 

Teoria 02 – O Confeiteiro

Alguém que sabia fazer um bolo, conhecia a proporção exata de cada elemento, misturou esses elementos na ordem certa, untou a forma, assou o bolo no tempo certo, tirou do forno, enfeitou com cerejas e o colocou em cima de seu balcão.

A primeira teoria é uma parábola para explicações naturalistas da existência cheias de expressões que apontam para algo irracional, coincidências aleatórias, algo que não condiz com aquilo que chamamos de lógica. Veja, a teoria do bolo já é irracional para um produto que não tem mais do que dez elementos.

Se levarmos esse raciocínio a um dos seres vivos mais simples, uma ameba, por exemplo, encontramos uma complexidade infinitamente superior. E, ao considerarmos o ser humano, a complexidade biológica, genética e informacional torna-se incomparavelmente maior. Não se trata apenas da existência de componentes, mas da organização precisa, interação coordenada e funcionalidade contínua de sistemas inteiros atuando simultaneamente.

Se já parece irracional atribuir a existência ordenada de um simples bolo a eventos aleatórios, quanto mais irracional se torna atribuir:

·        vida

·        consciência

·        racionalidade

·        leis físicas

·        ordem matemática

·        linguagem

·        informação genética

·        e estrutura moral

a processos cegos, desgovernados e não inteligentes.

 

A segunda teoria aponta para aquilo que muitos descrevem como Design Inteligente. Em tudo o que observamos diariamente, a própria realidade aponta racionalmente para intenção, ordem, propósito e inteligência.

E isso não é estranho à Escritura.

Romanos 1 afirma que os atributos invisíveis de Deus são claramente reconhecidos por meio das coisas que foram criadas. O Salmo 19 declara que “os céus proclamam a glória de Deus”. E o próprio universo testemunha continuamente acerca de um Criador sábio e poderoso.

Isso não significa que o homem seja salvo apenas observando a criação. A revelação natural é suficiente para tornar o homem indesculpável, mas não suficiente para salvá-lo. A salvação vem somente por meio da revelação especial de Deus nas Escrituras e em Cristo.

Ainda assim, a criação inteira permanece como testemunha constante da existência, poder e sabedoria do Criador.

Crer que o universo possui um Criador não é irracional.

Irracional é imaginar complexidade sem inteligência, ordem sem mente, informação sem origem racional e propósito sem propósito algum.

A criação aponta para o Criador. E a Escritura revela quem esse Criador é.

 


Rev. Júlio Pinto

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Tema 24 - A Predestinação: a eleição soberana de Deus na obra da salvação

Assim como nos escolheu nele antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade,... nele, digo, no qual fomos também feitos herança, predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade,"(Efésios 1.4-5,11)

Pois aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho...” (Romanos 8.29)

Logo, tem ele misericórdia de quem quer e também endurece a quem lhe apraz.” (Romanos 9.18)

 A doutrina dos decretos de Deus, ainda nos conduz a uma das verdades mais profundas e solenes das Escrituras: a predestinação.

É espantoso quando alguém que se diz cristão, principalmente "evangélicos" afirmarem não haver predestinação e que tal doutrina é heresia. Esqueceram de avisar isso aos escritores bíblicos que tratam recorrentemente ao tema. O fato de negarem a existência da doutrina, não é a falta de provas bíblicas, mas é a falta de compreensão e, pior, falta de humildade.

A predestinação refere-se ao decreto eterno de Deus relacionado ao destino final das criaturas racionais, especialmente no que diz respeito à salvação. Na tradição reformada, o termo predestinação é frequentemente usado em sentido amplo para designar o decreto eterno de Deus acerca do destino final das criaturas racionais, compreendendo dois aspectos distintos: eleição e reprovação. Assim, iremos tratar essa doutrina em conformidade com a teologia reformada nesses dois aspectos: eleição e reprovação. 

1. Eleição

A eleição é o ato soberano pelo qual Deus, antes da fundação do mundo, escolheu em Cristo um povo para a salvação, não por causa de méritos previstos, obras futuras ou qualquer qualidade encontrada no homem, mas exclusivamente segundo o beneplácito da Sua soberana vontade e para louvor da Sua graça.

Isso significa que a origem da salvação não repousa na resposta humana considerada no âmbito da aplicação da redenção (ordo salutis), mas no eterno decreto de Deus (decretum aeternum), pelo qual Ele ordenou soberanamente toda a obra da salvação em Cristo.

A Escritura afirma que fomos escolhidos “antes da fundação do mundo” (Ef 1.4). A eleição divina, portanto, precede não apenas qualquer obra ou mérito humano, mas a própria existência do homem. Disso decorre a completa exclusão de toda pretensão de glória humana na salvação. Ninguém é salvo por possuir maior sabedoria, sensibilidade espiritual ou superioridade moral, tampouco porque, autonomamente, decidiu aceitar a Cristo. A salvação é inteiramente fruto da graça soberana de Deus. A própria resposta de fé do eleito não constitui a causa da eleição, mas seu resultado; ele crê e vem a Cristo porque, desde a eternidade, foi escolhido pelo Pai e eficazmente chamado pelo Espírito Santo.

E aqui chegamos a uma discussão histórica extremamente importante dentro da teologia cristã.

Ao longo dos séculos, muitos afirmaram aceitar a predestinação, mas negaram que ela estivesse fundamentada exclusivamente no decreto soberano de Deus. Em vez disso, ensinaram que Deus predestina com base naquilo que prevê acerca do homem, especialmente prevendo quem creria no futuro.

Essa interpretação ficou especialmente associada, séculos depois, ao pensamento remonstrante/arminiano, embora discussões semelhantes já existissem anteriormente em formas menos desenvolvidas.

O texto central desse debate é Romanos 8.29: “Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho...”.

A pergunta é: o que significa “conheceu de antemão”?

A interpretação bíblica precisa estar alinhada à uma exegese que considere os significados dos termos conforme a própria Escritura costuma fazer uso deles. Assim, entende-se que esse “conhecer” não significa mera previsão intelectual de acontecimentos futuros, como se Deus simplesmente olhasse a história antecipadamente para descobrir quem creria.

Nas Escrituras, frequentemente “conhecer” possui sentido relacional, eletivo e pactual.

Por exemplo:

De todas as famílias da terra, somente a vós outros vos conheci...” (Amós 3.2)

Nunca vos conheci, apartai-vos de mim..." (Mateus 7.23)

Obviamente, nesses casos, “conhecer” não significa simples informação mental, porque Deus conhece intelectualmente todas as pessoas. O termo aponta para relacionamento, escolha e amor pactual.

Em Romanos 8.29, o “conhecer de antemão” não se refere à mera previsão passiva de decisões humanas futuras, mas ao conhecimento pactual, amoroso e eletivo de Deus para com Seu povo, do qual decorre a predestinação.

Existe, de fato, uma ironia inevitável quando alguém afirma que a predestinação é “heresia”, porque o problema deixa de ser meramente interpretativo e passa a tocar diretamente a linguagem explícita das próprias Escrituras.

Os autores bíblicos não evitam o tema. Pelo contrário: tratam dele de forma recorrente e natural.

Termos como:

·        eleição

·        predestinação

·        chamados

·        escolhidos

·        determinados

·        endurecimento

·        propósito de Deus

·        de antemão conheceu

aparecem continuamente, especialmente em Paulo, mas também em João, Lucas e Pedro. O debate histórico nunca foi sobre a existência da doutrina, mas sobre:

·        sua natureza

·        sua base

·        e sua relação com a responsabilidade humana

Mesmo tradições que rejeitam a compreensão reformada clássica normalmente admitem alguma forma de predestinação, porque não há como esconder o que o próprio vocabulário bíblico demonstra claramente.

O problema frequentemente surge quando o homem mede a doutrina não pela revelação bíblica, mas pela sua reação emocional a ela. Romanos 9 é extremamente revelador nesse ponto. Paulo não suaviza a soberania divina para evitar objeções humanas; ao contrário, ele antecipa as objeções justamente porque sabe a profundidade e complexidade daquilo que ele que acabou de ensinar.

Observe:

Há injustiça da parte de Deus?”(Romanos 9.14)

De que se queixa ele ainda?” (Romanos 9.19)

Essas perguntas só fazem sentido por dois motivos: 1. Porque a predestinação é um fato. 2. Porque Paulo realmente ensinou não apenas acerca de que a predestinação é um ato da soberania divina, mas por ela ser um ato fundamentado em uma soberania divina muito mais profunda, não uma mera previsão passiva dos atos humanos.

E a resposta do apóstolo não é recuar, mas lembrar a distância entre Criador e criatura: “Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus? Porventura pode o objeto perguntar a quem lhe fez: Por que me fizeste assim?” (Romanos 9.20)

Por isso, historicamente, a teologia reformada sempre insistiu que essa doutrina exige duas coisas ao mesmo tempo, o rigor bíblico e humildade reverente. Porque há um perigo duplo:

·        rejeitar o que a Escritura afirma claramente

·        ou tratar o tema friamente, como mera especulação filosófica

A predestinação não foi revelada para alimentar orgulho intelectual, mas para humilhar o homem e exaltar a graça de Deus. Foi exatamente isso que levou Agostinho de Hipona, João Calvino e toda a tradição reformada a insistirem tanto na humildade diante da revelação divina. Porque, no fim, a doutrina da eleição não engrandece o homem, engrandece a graça e isso fere o orgulho humano.

Portanto, a eleição não é baseada na fé prevista do homem, mas a própria fé é fruto da eleição divina. Isso harmoniza-se com todo o argumento paulino. Se Deus escolhesse com base em algo previsto no homem, então, em última instância, a diferença decisiva entre salvos e perdidos estaria nos próprios atos desse homem, e não na graça soberana. Nesse caso, a causa distintiva última entre salvos e perdidos repousaria finalmente no próprio homem, e não na graça soberana de Deus. Mas Paulo insiste exatamente no contrário: “Assim, pois, não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia.” (Romanos 9.16).

2. Reprovação. 

Ao mesmo tempo em que a Escritura apresenta a eleição, ela também fala de reprovação. Quando Paulo afirma que Deus “tem misericórdia de quem quer e endurece a quem lhe apraz... Ou não tem o oleiro direito sobre a massa, para do mesmo barro fazer um vaso para honra e outro, para desonra? Que diremos, pois, se Deus, querendo mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita longanimidade os vasos de ira, preparados para a perdição”, ele mostra que Deus age soberanamente também no juízo.

A reprovação não significa que Deus force homens inocentes ao pecado ou condene ao inferno pessoas moralmente neutras. Toda a humanidade, em Adão, encontra-se caída, culpada e condenada. Se Deus deixasse de salvar a todos, Ele continuaria perfeitamente justo. Portanto, a eleição é graça. A condenação é justiça.

Na eleição, Deus intervém salvadoramente. Na reprovação, Deus deixa o homem em seu estado de pecado e o julga justamente por isso. Isso preserva simultaneamente: a soberania de Deus, a responsabilidade humana e a perfeição da justiça divina.  

Por isso, essa doutrina frequentemente provoca objeções no coração humano. E vimos, em Paulo, que isso não é novidade.  Por isso ele antecipa a reação: “de que se queixa ele ainda?”. A resposta do apóstolo não é diminuir a soberania divina, mas lembrar a diferença absoluta entre o Criador e a criatura. Deus não deve satisfações ao homem.

No entanto, essa doutrina não foi dada para produzir desespero, especulação ou arrogância espiritual. Pelo contrário. Primeiro, ela produz humildade. A salvação pertence inteiramente ao Senhor. Segundo, ela produz segurança. Aqueles que Deus escolheu em Cristo serão preservados até o fim. A obra de salvação é perfeita, porque o homem nada contribui como causa meritória de sua salvação. “...Ao Senhor pertence a salvação.” (Jonas 2.9)

Terceiro, ela produz adoração. A eleição revela a profundidade da graça divina. Não é sem razão que Lucas registra, em Atos, que “creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna” (Atos 13.48). A própria fé salvadora aparece nas Escrituras como fruto do propósito soberano de Deus.

Isso aparece de forma clara em toda a lógica do evangelho. A Escritura não apresenta Deus reagindo a alguma bondade previamente encontrada no homem, mas amando e salvando pecadores indignos. Por isso Paulo afirma: “Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores” (Romanos 5.8). O amor eletivo de Deus não nasce da virtude humana; é exatamente ele que dá origem à salvação do homem.

E, ao contrário do que muitos pensam, essa doutrina não elimina a responsabilidade humana nem elimina a necessidade da pregação do evangelho. O mesmo Deus que decretou os fins decretou também os meios. Ele salva Seu povo por meio da proclamação do evangelho, do arrependimento e da fé. Assim, ninguém pode usar a predestinação como desculpa para incredulidade ou passividade. A Escritura chama todos os homens ao arrependimento, e todo aquele que vem a Cristo jamais será lançado fora.

Além disso, é importante lembrar que não fomos chamados a investigar o decreto oculto de Deus, mas a responder à Sua Palavra revelada. A vontade decretiva de Deus pertence ao Seu conselho eterno e secreto; a vontade revelada pertence à Sua Palavra e constitui o dever de todos os homens (Dt. 29.29). A pergunta correta não é: “estou eleito?”. A pergunta bíblica é: “estou em Cristo?”. Porque todos aqueles que verdadeiramente vêm a Cristo demonstram, por isso mesmo, a operação da graça de Deus em suas vidas com frutos visíveis (santificação) da obra invisível da graça (justificação).

Portanto, a doutrina da predestinação não existe para afastar pecadores de Cristo, mas para mostrar que a salvação, do começo ao fim, pertence à graça soberana de Deus. Ela nos humilha, exalta a Deus e fortalece a esperança daqueles que confiam em Cristo.

 

Rev. Júlio Pinto


Nota: Na teologia reformada, “predestinação” é frequentemente utilizada em sentido amplo para designar o decreto eterno de Deus acerca do destino final das criaturas racionais, abrangendo dois aspectos distintos: eleição e reprovação. “Eleição” refere-se especificamente ao ato soberano pelo qual Deus escolhe, em Cristo, um povo para a salvação.