“Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra
edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.”
(Mateus 16.18)
A doutrina da igreja ocupa posição central nas Escrituras
porque a redenção nunca é apresentada apenas em termos individualistas. Deus
não salva pessoas isoladamente para uma espiritualidade autônoma e privada, mas
chama para Si um povo pactual reunido em torno de Sua presença, de Sua Palavra
e de Seu governo. Desde o Antigo Testamento até a consumação final, a revelação
bíblica apresenta Deus formando uma comunidade santa para Si. A igreja,
portanto, não surge como instituição secundária da história da redenção, mas
como expressão visível do próprio propósito eterno de Deus em Cristo.
Essa realidade aparece já nas promessas feitas a Abraão. O
Senhor não promete apenas salvar indivíduos dispersos, mas constituir uma
descendência, uma nação santa e um povo pertencente à aliança (Gn 12.1–3;
17.7). O Novo Testamento interpreta diretamente a igreja como continuidade
desse povo da aliança agora reunido em Cristo sob a nova aliança. Por isso,
Pedro aplica à igreja títulos originalmente dirigidos a Israel: “raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de
propriedade exclusiva de Deus” (1Pe 2.9). Um mesmo povo sendo
reunido ao longo da história da redenção e sendo conhecido de maneira cada vez
mais clara e plena na progressividade da revelação divina até a consumação plena
com o retorno de Cristo.
A igreja não é mero agrupamento sociológico de pessoas
religiosas. Ela é a assembleia dos chamados de Deus. O termo grego ἐκκλησία (ekklesia)
carrega precisamente essa ideia de convocação pública. Contudo, isso não
significa, como alguns afirmam equivocadamente, que a própria palavra
literalmente queira dizer “chamados para fora” no sentido de rejeição de
reuniões solenes, assembleias visíveis ou mesmo da existência de locais
destinados ao culto público. Embora o termo seja formado pelos elementos gregos
ἐκ (“para fora de”) e καλέω (“chamar”), seu uso histórico, tanto no mundo grego
quanto nas Escrituras, refere-se principalmente a uma assembleia oficialmente
convocada. Na Septuaginta, por exemplo, ἐκκλησία
é frequentemente utilizada para traduzir a congregação reunida de Israel diante
de Deus. O foco do termo não está na negação da reunião visível, mas exatamente
no oposto: trata-se de um povo convocado por Deus para reunir-se publicamente
diante dEle. Assim, a igreja não é definida pelo isolamento individualista nem
pela rejeição da assembleia solene, mas pela reunião pactual do povo chamado
por Deus para viver em comunhão, adoração e submissão à Sua Palavra. O próprio
Cristo afirma: “edificarei a minha igreja”
(Mt 16.18). A igreja pertence a Cristo porque foi comprada por Seu sangue (At
20.28), sustentada por Sua intercessão e governada por Sua autoridade soberana.
O próprio Cristo afirma: “edificarei
a minha igreja” (Mt 16.18). A igreja pertence a Cristo porque foi
comprada por Seu sangue (At 20.28), sustentada por Sua intercessão e governada
por Sua autoridade soberana. A própria linguagem utilizada por Cristo aponta
para reunião, edificação e ajuntamento, e não para dispersão individualista do
povo de Deus. O Senhor não salva homens para permanecerem isolados uns dos
outros, mas para incorporá-los a um corpo visível reunido em Seu nome. Desde o
Antigo Testamento, Deus sempre tratou com um povo congregado diante dEle; e no
Novo Testamento, essa realidade alcança sua expressão mais plena na igreja
reunida em Cristo. Por isso, a obra do Redentor não consiste em destruir a
assembleia do povo de Deus, mas precisamente em edificá-la continuamente ao
longo da história, até sua consumação final na glória.
Ao longo da história da teologia reformada, tornou-se
fundamental distinguir entre igreja visível e igreja invisível. Essa distinção
não cria duas igrejas separadas, mas dois aspectos da mesma realidade
redentiva.
Ao mesmo tempo, as Escrituras também falam constantemente de
uma igreja visível. Ela consiste na comunidade histórica e pública daqueles que
professam a verdadeira fé juntamente com seus filhos. Essa profissão, porém,
não significa automaticamente que todos os que a fazem sejam verdadeiramente
regenerados. A profissão pode ser ortodoxa em seu conteúdo e ainda assim não
expressar a realidade espiritual do coração. O homem pode confessar verbalmente
verdades corretas acerca de Cristo sem jamais ter sido unido a Ele pela fé
salvadora.
As próprias Escrituras alertam repetidamente para essa
distinção entre confissão externa e realidade interna: “Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está
longe de mim” (Mt 15.8). Da mesma forma, Paulo afirma que “nem todos os de Israel são, de fato, israelitas”
(Rm 9.6), demonstrando que a pertença visível à comunidade da aliança não
equivale necessariamente à regeneração verdadeira. Um exemplo prático e bíblico
é o de Simão, o mágico, onde lemos dele em Atos 8:13 “O próprio Simão abraçou a fé; e, tendo sido batizado,
acompanhava a Filipe de perto, observando extasiado os sinais e grandes
milagres praticados.” Para logo depois dele mostrar seus frutos,
ouvir de Pedro: “O teu dinheiro seja contigo para
perdição, pois julgaste adquirir, por meio dele, o dom de Deus. Não tens parte
nem sorte neste ministério, porque o teu coração não é reto diante de Deus. Arrepende-te,
pois, da tua maldade e roga ao Senhor; talvez te seja perdoado o intento do
coração; pois vejo que estás em fel de amargura e laço de iniquidade.”
(Atos 8:20-23)
É nessa esfera visível da igreja que:
- a Palavra é pregada;
- os sacramentos são administrados;
- a disciplina é exercida;
- o culto é celebrado;
- e o governo da igreja é estabelecido.
Essa distinção é necessária porque a própria Bíblia
reconhece que, dentro da esfera visível da aliança, coexistem crentes
verdadeiros e falsos professos. O próprio Cristo ensina isso na parábola do
joio e do trigo (Mt 13.24–30). Ambos crescem juntos no campo até o juízo final.
Da mesma forma, a rede lançada ao mar recolhe peixes bons e ruins (Mt
13.47–50). Nem todos os que pertencem externamente ao povo visível pertencem
verdadeiramente ao Senhor em sentido regenerador.
O Novo Testamento inteiro confirma essa realidade. Judas
participou do colégio apostólico sem jamais possuir fé salvadora verdadeira.
Simão, o mágico, foi batizado externamente e ainda assim Pedro declarou que seu
coração não era reto diante de Deus (At 8.13–23). João afirma claramente: “saíram de nós, mas não eram dos nossos” (1Jo
2.19). Isso demonstra que a presença visível na igreja não garante
automaticamente regeneração verdadeira.
Contudo, a existência de hipócritas ou falsos convertidos
nunca anulou a natureza santa da igreja enquanto povo da aliança e nem mesmo concedeu
ao cristão uma autonomia para que ele rejeitasse o congregar. A presença do
joio não elimina a existência do trigo. Pelo contrário, a própria existência
dessa mistura temporária confirma precisamente o ensino de Cristo acerca da
condição peregrina da igreja neste mundo caído.
Isso também ajuda a compreender corretamente o ensino
bíblico sobre o reino de Deus. Muitas vezes, o Novo Testamento utiliza
linguagem do reino de maneira visível e histórica. O joio aparece “no reino” (Mt 13.41). Os ramos infrutíferos estavam
externamente ligados à videira (Jo 15.2). Isso demonstra que a esfera visível
do reino não se confunde perfeitamente com a eleição eterna conhecida apenas
por Deus.
Essa realidade possui profundas implicações contra o
individualismo espiritual moderno. Tornou-se comum em nossos dias a tentativa
de separar Cristo da igreja, como se fosse possível possuir comunhão verdadeira
com o Cabeça desprezando o corpo. Muitos afirmam amar Cristo enquanto rejeitam
sistematicamente:
- a comunhão visível;
- o culto público;
- a submissão à liderança pastoral;
- os sacramentos;
- e a vida comunitária da igreja.
Entretanto, tal espiritualidade autônoma é estranha às
Escrituras. O próprio Cristo vinculou ordinariamente o cuidado de Seu povo à
igreja visível. Foi à igreja que Ele confiou:
- a pregação do evangelho;
- a administração dos sacramentos;
- a disciplina;
- e o pastoreio do rebanho.
Por isso, a tradição reformada sempre entendeu corretamente
a famosa expressão: “fora da igreja não há salvação”. Essa frase não
significa que a instituição eclesiástica possua poder automático de salvar
homens, nem que todos os membros visíveis estejam regenerados. O sentido
correto é que Deus ordinariamente salva e preserva Seu povo mediante os meios
de graça confiados à igreja visível. Desprezar deliberadamente a comunhão da
igreja significa desprezar os instrumentos que o próprio Cristo estabeleceu
para edificação de Seu povo.
Isso corrige igualmente dois extremos perigosos. O primeiro
é o romanismo sacramentalista, que praticamente identifica mecanicamente igreja
visível e salvação, como se a participação institucional produzisse
automaticamente graça salvadora. O segundo é o individualismo moderno, que
reduz a fé cristã a experiência subjetiva privada sem qualquer necessidade real
da igreja visível.
As Escrituras rejeitam ambos os erros. Nem todos os que
estão visivelmente na igreja pertencem espiritualmente a Cristo; mas também
ninguém possui direito de desprezar a comunhão visível do povo da aliança sob
pretexto de espiritualidade pessoal superior ou de imperfeição na igreja
visível.
Essa compreensão também esclarece por que a igreja visível possui marcas identificáveis. A tradição reformada historicamente reconheceu três marcas principais da igreja verdadeira:
- a pregação fiel da Palavra
- a administração correta dos sacramentos;
- e o exercício legítimo da disciplina eclesiástica.
Esses elementos não produzem uma perfeição absoluta da
igreja neste mundo. A igreja permanece militante, peregrina e sujeita a
fraquezas enquanto aguarda a consumação final. Contudo, onde essas marcas da
igreja verdadeira – a pregação fiel da Palavra, a administração correta dos
sacramentos e o exercício disciplinar – estão presentes, ali se reconhece a
verdadeira igreja de Cristo, ainda que marcada por imperfeições. Nesse sentido,
a Confissão de Fé de Westminster distingue, na sua eclesiologia, igrejas mais
puras e igrejas menos puras: ambas pertencem verdadeiramente à igreja visível
de Cristo, porém diferem quanto ao grau de fidelidade na manifestação dessas
marcas. Assim, são chamadas “mais puras” aquelas igrejas nas quais tais marcas
são mais claramente preservadas e biblicamente ordenadas; e “menos puras”
aquelas em que essas mesmas marcas permanecem, porém de forma mais obscurecida,
irregular ou menos conforme às Escrituras.
Essa distinção conduz naturalmente à compreensão da igreja
militante e da igreja triunfante.
A igreja militante corresponde ao povo de Deus ainda
peregrinando neste mundo sob conflito espiritual contínuo. Ela luta
diuturnamente contra o pecado, contra o mundo, contra Satanás, e contra falsas
doutrinas.
Já a igreja triunfante corresponde aos santos glorificados
na presença de Deus. Diferentemente da ideia de “sono da alma”, as Escrituras
apresentam os santos falecidos em plena consciência diante do Senhor. Em Apocalipse
6.9–10, as almas dos mártires clamam conscientemente diante do altar celestial.
Da mesma forma Moisés e Elias aparecem conscientes na transfiguração (Mt
17.1–3); o ladrão na cruz recebe a promessa: “Hoje
estarás comigo no paraíso” (Lc 23.43); e Paulo afirma o desejo de “partir e estar com Cristo” (Fp 1.23).
Assim, a morte separa temporariamente alma e corpo, mas não
aniquila a consciência do povo de Deus. O corpo “dorme” (1 Co 11.30; Dn 12.2;
Jó 7.21; Jo 11.11-14) na sepultura, “no pó da terra”,
aguardando a ressurreição, enquanto o espírito permanece consciente diante do
Senhor.
Mesmo assim, igreja militante e triunfante não constituem
dois povos distintos, mas um único povo redimido em diferentes estágios da
história da redenção. Cristo possui uma só igreja, um só corpo e um só rebanho
(Ef 4.4–6; Jo 10.16).
Essa unidade também atravessa toda a história bíblica. Não
existe um povo de Deus no Antigo Testamento e outro completamente distinto no
Novo. Há uma única oliveira pactual (Rm 11). Os santos da antiga aliança foram
salvos pelo mesmo Cristo prometido que agora foi plenamente revelado no
evangelho. A diferença não está na substância da salvação, no foco objetivo da
fé (Jó 19.25; Hb 12.1-2), mas no grau de revelação histórica.
Por isso, a igreja do Novo Testamento não surge como
substituição absoluta de Israel em termos de criação de um povo totalmente novo
e desconectado da antiga aliança. Antes, ela representa a continuação e
expansão do único povo pactual de Deus agora reunido sob a plenitude da nova
aliança em Cristo.
Tudo isso revela uma verdade frequentemente esquecida:
Cristo não salva homens para isolamento espiritual, mas para inserção concreta
em Seu corpo visível na história. O cristianismo bíblico jamais foi religião de
individualismo autônomo. O mesmo Senhor que concede fé também reúne Seu povo:
- em torno da Palavra;
- dos sacramentos;
- da oração;
- da disciplina;
- e da comunhão dos santos.
Até a consumação final, a igreja permanece como povo
peregrino neste mundo, sustentado pelo próprio Cristo. As portas do inferno não
prevalecerão contra ela porque sua preservação não depende da força humana, mas
da fidelidade daquele que a comprou com Seu próprio sangue e prometeu habitar
eternamente no meio do Seu povo.
Rev. Júlio Pinto