sábado, 26 de agosto de 2017

Culto Pagão

Sermão para ordenação pregado em Março de 2006 no presbitério Centenário na Igreja Presbiteriana do Jaraguá em Belo Horizonte.

Texto Básico
Romanos 12.1-2
1  Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional.
  1. E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.

Existe uma ideia oposta ao "culto racional" a que Paulo tenta demonstrar aqui neste texto. Essa ideia contrária podemos chamar de um culto pagão.
    O termo “pagão” tem por significado básico aquilo que é da terra, aquilo que seja natural da terra. No contexto religioso, tem por significado aquilo, ou alguém que ainda não sofreu alguma mudança radical pela chegada do evangelho. Culturas que ainda não receberam, ou não aceitaram o evangelho de Jesus Cristo como sendo a verdade, e ainda continuam a adorar qualquer divindade que seja natural, ou que tenha haver com elementos da natureza, inclusive o homem, são consideradas pagãs.
Os cultos pagãos se dirigem a várias entidades, tantas que não se pode enumerar. A cultura pagã chegou a adorar mais de 300 milhões de deuses em uma única religião. Existem deuses para serem adorados de todos os gostos, e de todos os desígnios, tantos quantos forem os desígnios do coração humano.
    O conceito a respeito do que era considerado pagão começou a mudar com o surgimento, no século XVIII, com a chegada do Iluminismo. Um movimento cultural-sociológico e filosófico que adentrou o mundo para não mais sair. Foi assim chamado pelo seu conceito de que as novas técnicas de se adquirir o conhecimento iluminariam as consciências, até então obscuras.
Na era medieval que perdurou até bem próxima à reforma não se discutia a existência ou não de Deus, simplesmente era crida a sua existência, e ainda: entre o que era considerado pagão e o que era considerado sagrado eram muito bem distintos.
Hegel, que foi expoente do iluminismo, disse que tudo o que existe deveria ser experimentado, e provado pela razão humana. Como Deus não pode ser experimentado desta maneira por aqueles que não nasceram de novo, a existência de Deus foi posta em discussão. Desta forma aquilo que antes era considerado pagão, passou a ser visto com outros olhos, os olhos da razão humana.  
    A partir deste movimento mudou-se a maneira de pensar. Não existe mais única verdade, pois se a verdade deve ser experimentada, então a experiência de cada um provará, ou não esta ou aquela verdade somente para aquele que a experimentou. Um sorve um conceito de modo diferente de outro, assim um único conceito passa a ter dois níveis de aceitação, e por conseguinte, dois níveis de entendimento.
    Este pensamento está na igreja de Jesus Cristo, sua noiva, a igreja invisível, não a triunfante, mas na militante. Até a idade média não havia disputas teológicas acirradas em torno da sagrada Escritura dentro da igreja, nem quanto ao culto que se deveria prestar a Deus. A discussão existente era da Igreja Católica, (universal), Apostólica contra os pagãos. Muitos erros foram cometidos nesta grande disputa surgida antes da reforma, um dos erros foram as Cruzadas. Em nome de Deus, homens com a promessa de perdão de todos os pecados, inclusive os que haveriam de cometer ainda, mataram, e mataram, e mataram, os que eram considerados pagãos.
    Após o evento da Reforma tudo mudou, não só dentro da igreja, mas o embrião do iluminismo que colocou em cheque os absolutos, bem como os paradigmas do que era pagão e do que era sagrado, morreram ali. A Igreja com os seus dogmas absolutos foram colocados em dúvida. Os reformadores tinham a intenção de voltar às Escrituras, voltar a absoluta verdade da Palavra de Deus. Um efeito colateral deste movimento põe abaixo todo o sonho da reforma.
Por que os reformadores discordaram da Igreja Católica, voltando-se para a Escitura, outros se acharam no mesmo direito de discordar dos reformadores; uma avalanche, sem precedentes, de novas religiões e denominações começaram a surgir, cada uma com sua verdade. É claro que muitos dos  reformadores não queriam dividir a Igreja, pelo contrário queriam reforma-la, e não dividi-la multiplicando a interpretação bíblica e os modos de culto de forma exponencial.
Nesta miscelânea de interpretações surge um grupo que disse: “Vamos estudar a Palavra com afinco a fim de obter uma linha de interpretação mais coerente com a própria Palavra, bem como traçar um paradigma de culto”. Como resultado do estudo de cento e cinqüenta doutores e mestres na palavra que perdurou quase sete anos surge a Confissão de Fé de Westminster, que nada mais é do que uma direção para interpretar a Palavra de forma mais consistente e coerente com ela própria.
A história nos ensina que esta linha de interpretação está caindo desacreditada, isso por que cada um tem a sua verdade, cada um tem sua linha de interpretação da Escritura, cada um tem a sua hermenêutica, cada um interpreta o que quer, cada um cultua a Deus do jeito que quer, cada um vive a vida do jeito que se sente melhor e interpreta a Escritura de mesma forma. Não existe mais parâmetro de interpretação, estamos no cerne do racionalismo de Kant, não existe mais absoluto, não existe mais verdade, o que existem são verdades.
Como resultado desta história, os cultos ocorrem nas igrejas de modo completamente diverso. Mas qual a verdadeira essência do culto a Deus? É pular? Gritar? Chorar? Bater palmas?  Ficar plácido? Em silêncio? Demonstrar contrição? O verdadeiro ato de culto qual é? Tenta-se responder a estas questões da mesma forma que Hegel propôs: com base na experiência: “...mas o fulano sentiu isso!”; “...esta menina vivencia isso todos os dias dela lá na missão...”; “eu fui muito abençoado com isso, e espero que você também seja...” O culto a Deus tendo a experiência como parâmetro de interpretação para a vida dos crentes não passa de uma aberração. É claro que as pessoas têm, e devem ter experiências pessoais com Deus, mas estas experiências não podem ser nunca o modelo de culto, ou ainda, regra de vida para outros.  
Paulo isso ao escrever sua carta aos Romanos fala sobre isso..quando ele roga não pela misericórdia de Deus, mas por causa da misericórdia que Deus teve de nossas vidas salvando-nos de nossa perdição causada pelos nossos pecados... Por isso é que devemos nos atentar a uma vida santa e inabalável diante de Deus que é  o nosso  culto devido à Deus. Todas as nossas ações, toda nossa  vida deve ser centrada em demonstrar a gratidão pela misericórdia de Deus, através de nossas ações e nossa moral que devem estar sintonizadas uma com a outra, e que estas provém de Deus, não de nós mesmos. Cf. cap. 11.30-36  30 Porque assim como vós também, outrora, fostes desobedientes a Deus, mas, agora, alcançastes misericórdia, à vista da desobediência deles, 31 assim também estes, agora, foram desobedientes, para que, igualmente, eles alcancem misericórdia, à vista da que vos foi concedida. 32 Porque Deus a todos encerrou na desobediência, a fim de usar de misericórdia para com todos. 33 Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! 34 Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro? 35 Ou quem primeiro deu a ele para que lhe venha a ser restituído? 36 Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!
Muitos tem uma vida moral exemplar, contudo sem nenhum fundamento, são simplesmente moralistas. Paulo adverte que este fundamento deve ser o reconhecimento da misericórdia que Deus teve de nós. E aqueles que tem essa moral vazia jamais poderão cultuar a Deus de forma correta, de forma decente. Não terão temor de Deus, muito menos pela sua Palavra. Por que a moral em que baseiam suas vidas é uma moral infundada, sem raízes.
Muitos dos ouvintes de Paulo a quem ele endereçou a carta, aos romanos, viviam sob a regência de uma vida não regenerada, e possuidores de uma moral avassaladora que impunha pesos à vida de outros que estes não podiam suportar. Por isso a advertência feita por ele no cap. 11. 6.  E, se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça
Paulo lembra no cap. 11.2 Deus não rejeitou o seu povo, a quem de antemão conheceu. Ou não sabeis o que a Escritura refere a respeito de Elias, como insta perante Deus contra Israel, dizendo: Senhor, mataram os teus profetas, arrasaram os teus altares, e só eu fiquei, e procuram tirar-me a vida.  Elias havia se oposto à sua nação, por que a religião e o culto a Deus haviam desaparecido de vez do meio de Israel. O erro de Elias foi de condenar toda a nação excetuando a ele mesmo. E Deus falou que não, que havia um fiel remanescente.
Paulo fala que as obras não conduzem à salvação. Uma vida cheia de moralidade sem fundamento leva ao inferno. Mas quando a vida é uma vida de culto a Deus e a moralidade vem por causa da transformação gerada pelo Espírito de Deus, aí temos uma verdadeira vida, um verdadeiro culto.  podemos até distinguir dois tipos de culto:
1. Um é a minha vida centrada em Deus e nas suas Leis como reconhecimento da misericórdia de Deus,
2. e o outro culto é continuação deste primeiro, que o momento em que todos os crentes se reúnem em um determinado local onde juntos expressarão a glória de Deus. Nesta noite não vamos enfocar um tipo de culto, mas culto como acabamos de definir, a vida e o momento quando nos reunimos, por que um é extensão do outro, não tenho como desvencilhar um do outro, pois são a mesma coisa. Mas este culto não pode ser feito de qualquer maneira.  Então qual o princípio de culto que agrada a Deus?                                                                                                                                            
1 - O culto deve ser racional
  1. Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional.

Os cultos de hoje mudaram extremamente em relação ao passado, no tocante a essência, no tocante a abrangência. Os cultos não são para exaltar Cristo e seu sacrifício. Não se prega sobre o pecado; não se fala em santificação; mas se prega uma mensagem positivista, onde temos de ser curados, temos de ser melhores pais, melhores maridos, melhores filhos; temos de ter mais dinheiro, afinal somos filhos do Rei; enfim entroniza-se o culto enfatizando como devemos sair melhores do que somos; melhores do que realmente podemos ser.
Não que isso não seja possível, ou impossível, mas a tônica do culto passou a exaltar o que o homem pode ser, e não o que ele realmente é em vista do Criador: Seres humanos “totalmente depravados” carentes da glória de Deus, como pecadores que somos. A imagem do “eu melhor” é exaltada diminuindo a glória de Deus. As pessoas vão aos cultos com sentimentos egocêntricos tentando adorar a Deus à sua própria maneira, segundo sua própria cultura, como se o culto a Deus fosse uma manifestação cultural, e não um ato público onde Deus mesmo já determinou na Escritura como este culto deva ser feito.   
Mas durante o culto, ao som das músicas os ouvidos embalam timbres ao sistema nervoso que impulsionam mãos e pés; e o culto começa a parecer uma libertação de adrenalina retida, inclusa, recalcada, tirando o foco da adoração a Deus para focalizar aquilo que “eu gosto”, “aquilo que me satisfaz”, sendo que o que Deus procura não é a expressão física de louvor, ele procura verdadeiros adoradores que o adorem em “Espírito e em verdade”. João 4:23  Mas vem a hora e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque são estes que o Pai procura para seus adoradores.  
Desta feita, tudo mais é supérfluo, é exagero e se torna desprezível. O que importa é a essência e não a exteriorização de impulsos hormonais, ou a expressão do próprio gosto pessoal, a que muitas vezes somos enganados a crer que esses agradam a Deus, quando na verdade estamos imitando o mundo na sua forma de colocar para fora tudo aquilo que lhes agrada.
Estamos imitando ao mundo, seja cantando, seja ritmando, pulando, exaltando, colocando para fora tudo aquilo que poderia me deixar mais pesado e me tornando mais leve, leve por que pus para fora tudo o que estava sentindo, e não o que realmente sou, e o que Cristo é.
O culto de louvor e adoração à Deus, como bem lembrado, certa vez, por um irmão hoje pela manhã, “o culto não pode ser feito com os mortos, por que os mortos não louvam a Deus”. Desta forma, quando o culto solene acontece, este culto não tem o objetivo de agradar ao visitante ou ao membro. O culto é o encontro do noivo, Cristo, com a sua igreja viva, a noiva.
Imagine a cena: Cristo, o noivo, no altar aguardando sua igreja, a noiva chegar. De repente alguém lhe diz que a noiva está às portas para entrar e se encontrar com Ele. Existe então uma expectativa no coração do noivo. Ele quer ver sua noiva linda, vestida de branco, com véu sobre a cabeça demonstrando todo o respeito que Ele merece entrar pelas portas da igreja; e de forma singular desfilar amorosamente e com todo o recato e pureza. Mas quando ela aparece na porta, ela está seminua, mostrando partes íntimas de seu corpo. Entra pela igreja dançando, fazendo malabarismos, e de repente dá um salto mortal e cai de pé ao lado do noivo. Que modo de se apresentar a Cristo?
A Bíblia nos dá exemplos de pessoas que eram tidas como servas de Deus inserir elementos estranhos no culto.   o falar do incenso estranho.
LEVÍTICO  10.1. Nadabe e Abiú, filhos de Arão, tomaram cada um o seu incensário, e puseram neles fogo, e sobre este, incenso, e trouxeram fogo estranho perante a face do SENHOR, o que lhes não ordenara. O problema não era o fato de trazer incenso diante do Senhor. O culto para o AT continha este elemento que era o incenso. O problema residiu na não observância de Nadabe e Abiú de fazer o culto conforme Deus havia preceituado de forma clara. Os dois irmãos quiseram simplesmente trazer uma pequena inovação ao culto modificando um pouquinho o culto, mudando apenas, talvez, o perfume do incenso, um novo cheiro apenas. Foram mortos, por que Deus requer que o nosso culto seja conforme Ele requer, e não da forma que achamos que Ele queira.
O culto a Deus não precisa de elementos adicionais da cultura, ou da tradição, nada disso, mas unicamente que tenhamos vida santa diante de Deus. Um “culto racional fundamentado na vida de adoração a Deus onde o termo racional é logikov  - que concorda com a razão, que segue a razão) lóogiken, é um culto lógico de uma vida coerente com aquilo que professa ser, coerente com a razão que se possui da verdade bíblica.
É sobre estas coisas que Paulo falou em Romanos 8.4,5;  “que não andemos segundo a carne, mas segundo o Espírito de Deus que habita em nós”.
Esta é a essência do viver de adoração à Deus e que deve ser trazida para o momento de culto. Culto fala não de como eu gosto cantar ou louvar, mas culto trata de como Deus quer que vivamos e o cultuemos a Ele. Desde o princípio da Criação Deus mostrou ao homem quem Ele era, o que Ele fez, com a intenção de fornecer ao homem a própria maneira de como se relacionar com Deus e esta forma é obedecendo.
Deus nos deu regras para a viver...e da mesma maneira regras de como realizar um culto em adoração à Deus... observe que é bem diferente daquilo que Isaías disse: ISAÍAS  29.13. O Senhor disse: Visto que este povo se aproxima de mim e com a sua boca e com os seus lábios me honra, mas o seu coração está longe de mim, e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, que maquinalmente aprendeu, quando afirmo que Deus nos deu regras para o culto eu não estou falando de regras humanas, mas a própria maneira de culto que Deus exige de forma clara e expressa na Escritura de como deva ser esse culto. Isaías aponta para a distorção destas regras bem como Jesus dizendo que os fariseus haviam distorcido o culto, distorcido os mandamentos divinos transformando-os em tradicionalismo humano invalidando a Palavra de Deus. Colocando a tradição, a cultura acima do que está preceituado na própria Escritura, pervertemos o culto.
Lembremos que Paulo nos adverte que o culto, a adoração, o viver cristão não deve ira além daquilo que está escrito na Palavra:
I CORINTIOS  4.6. Estas coisas, irmãos, apliquei-as figuradamente a mim mesmo e a Apolo, por vossa causa, para que por nosso exemplo aprendais isto: não ultrapasseis o que está escrito; a fim de que ninguém se ensoberbeça a favor de um em detrimento de outro.
Quando nós inserimos manifestações de qualquer espécie que não estão preceituadas de forma clara na Escritura sobre tudo o que se pode realizar em um culto eu estou ultrapassando a Escritura... Quando eu começo a dar significados diferentes às palavras fora do contexto histórico bíblico, eu estou indo além da Escritura... Quando eu começo a querer viver segundo a tradição humana que fere a Escritura estou indo além da Escritura... Sabe como isso é chamado por aí? "Estamos engessados.."
Quando eu quero fazer o culto à minha maneira e começo a usar como argumento de que o culto a Deus não pode ser engessado, deve ser mais livre, mais solto... isso demonstra uma clara rebeldia às próprias regras que a Escritura trás sobre como Deus deseja ser adorado. E a manifestação é sobre como eu acho que deve ser o culto. Em outras palavras: vou adorar a Deus da minha maneira, por que eu sou assim. É desta forma que você, cristão evangélico, pratica a idolatria, por que você NÃO faz a adoração de acordo com o Deus revelado na escritura, E CONFORME DEUS REQUER, mas pratica a adoração e faz o culto conforme você quer. Ou seja, você é idólatra de si mesmo. Seu culto não é nem um pouco diferente dos milhões de cultos pagãos existentes pelo mundo afora.  
Quando Paulo afirma “não ultrapasseis o que está escrito” a própria Escritura nos põe limites... gessos.. Quando Deus afirmou: Sede santos como eu sou Santo... Deus mesmo afirmou. Em outras palavras Ele afirma: “vocês tem limites para o que devem fazer em um culto, em uma vida de adoração...”
O nosso limite, a nossa linha divisória, a nossa cerca que tem o aviso: "Perigo não ultrapasse" ou o nosso gesso que limita o que podemos fazer, é a lei de Deus que mantêm este aviso para nossa própria segurança. A linha divisória marca o limite entre o viver santo, e o viver profano... o gesso que limita nossos movimentos é para que nossa essência pecaminosa que é o nosso osso quebrado no Jardim do Éden,  nos mantenha de pé diante de Deus; a cerca que diz cuidado, não ultrapasse, é a cerca que nos protege de não viver em pecado, e nos protege de tentar agradar a Deus à nossa própria maneira. É a cerca que nos impede de realizar um culto pagão mesmo que seja como pequenas modificações como fizeram Nadabe e Abiú, ao invés de realizar um culto de fato consagrado ao Senhor.  
Ao escrever para os coríntios Paulo fala acerca do uso dos dons dentro da igreja. No capítulo 12.7   “A manifestação do Espírito é concedida a cada um visando a um fim proveitoso.”  Nada que possa a vir acontecer no culto poderá ser descartável, tudo tem de ter uma serventia. Quando estivermos em um culto, pergunte-se a si mesmo. O que estamos fazendo agora pode ser descartado do culto? Se pode algo que fazemos pode ser descartado, então nosso culto pode ser reestruturado, e melhorado. Melhorado não no sentido de acrescentar mais coisas, contudo deixar somente os elementos essenciais fazerem parte do culto.
E se algo que queremos implementar no culto, é algo que podemos afirmar que isso NÃO é essencial, NÃO é básico no culto à Deus, então não devemos inserir no culto.
Na igreja de Corinto tinham pessoas que falavam em línguas, e outros em profecias. Para esses, Paulo advertiu que só poderiam falar em línguas dentro da igreja se houvesse intérprete; e se houvesse uma reunião solene com visitantes, lhes era proibido falar em línguas como se vê em I Co  14.23 - Se, pois, toda a igreja se reunir no mesmo lugar, e todos se puserem a falar em outras línguas, no caso de entrarem indoutos ou incrédulos, não dirão, porventura, que estais loucos?”.  
E para aqueles que profetizavam, em Corinto, havia a regra que cada um esperasse a sua vez, não poderiam falar todos ao mesmo tempo. Por que ambos tinham domínios de suas faculdades mentais enquanto profetizavam ou oravam em línguas. Não se entra em um êxtase no qual não se tem um domínio da própria razão. 14.32 “Os espíritos dos profetas estão sujeitos aos próprios profetas;” no culto a racionalidade do ser humano não fica apagada.
Cf. 14.40 - O culto enfim deve ser feito com decência e com ordem, ou seja tem de ser racional.

  1. – Não tomem o molde do mundo
E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.
   
Perceba que vimos ao final do ponto anterior que sendo o culto racional devemos filtrar aquilo que vem do mundo natural, do que é mundano, daquilo que é pagão, cultural e o nosso filtro é a Escritura usando a razão. O culto não pode tomar a forma do mundo, para que não se torne um culto irracional, e desprezível, mundano, pagão.
A palavra século aqui, neste versículo, é a mesma palavra para mundo. Paulo está dizendo: “E não vos conformeis com este mundo
Paulo fala deste tema a ponto de suplicar aos romanos que se diferenciem do mundo, que se diferenciem de sua época de seu mundo cf. 12.1-2.  Isso ele suplica por que se tomarmos o molde do mundo, o molde da tradição, o molde da cultura, o nosso culto já não é racional, já não podemos adorar em espírito e em verdade, estaremos adorando conforme a ideia do mundo, não conforme os limites traçados na própria Escritura.
A tomada dos moldes, ou seja, conformar, tomar a forma do mundo pela igreja, e esta pelos seus membros, conformar-se (i.e., mente e caráter de alguém) ao padrão de outro, (moldar-se de acordo com), destrói a centralidade do evangelho porque o “mundo jaz no maligno”; e o que aceitamos do mundo, da cultura dentro da igreja, se pensamos da mesma forma que o mundo, ou se tentamos chegar à verdade da mesma maneira que o mundo tenta, isso é ácido corroendo aos poucos a fé, a verdadeira fé, corrompendo até a forma de se ler a Palavra de Deus.
Fazer algo dentro da igreja por que o culto fica bonito aos nossos olhos, ou por que a tal igreja está fazendo e se tornou sucesso, ou costume, a cultura, ou a prática da igreja x ou y, não deve ser o nosso modelo, por que este modelo somente deve ser Cristo e a sua Palavra revelada: não vá além do que está escrito. Paulo novamente alerta:
Paulo aos Colossenses 2:8  “Cuidado que ninguém vos venha a enredar com sua filosofia e vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens, conforme os rudimentos do mundo e não segundo Cristo;”
Quando olhamos para o Novo Testamento, não vemos um culto solene sequer que nos sirva de exemplo para as badernas a que chamam de culto nos nossos dias. Os cultos de hoje cada dia mais estão se parecendo com espetáculos musicais, onde existe uma banda que toca e se veste nos mesmos moldes do mundo, e então o chamado ministro de louvor age como se fosse um animador de auditório. “E fique em pé, e levante a mão, agora bata palmas”. Não se vê este tipo de coisa na bíblia... se vê nos programas de auditório, no Silvio Santos, no programa do Gugu, do Ratinho, seja lá de quem for, e onde for, menos na Escritura.  Estamos trazendo o mundo para dentro da Igreja. Não estamos inserindo rudimentos do mundo no culto à Deus?
Os modelos que vemos de cultos solenes mostradas no Novo Testamento eram calmos, sem expressões exageradas, ou até mesmo desordenadas, como se alguém precisasse de por para fora algum sentimento recalcado. Parece que foram ao consultório do psicólogo e ouviram dele que não se deve guardar sentimentos, mas pô-los para fora. Realmente isso deve ter o seu valor, mas o culto não é lugar disso.
Não encontramos muito menos na bíblia, alguma demonstração de libertação de adrenalina nos cultos do Novo Testamento. O culto solene é lugar de louvar a Deus, e louvar a Deus é exaltá-lo pregando e cantando seus atributos, e não os nossos. Adorar a Deus é viver uma vida santa diante de Deus e esta tem de ser para o verdadeiro cristão a única motivação necessária para vir à Igreja aos domingos e louvar a Deus com todo entusiasmo.
Se você acha que precisa de motivação na hora do culto para louvar a Deus, tem algo errado. A luz vermelha se acende como alerta de que seu foco de adoração e seu foco de motivação para o culto estão fora daquilo que Deus requer de cada um de nós.
Se você não sente motivação para louvar a Deus da forma mais simples possível, até mesmo acapela, ou seja, sem instrumento algum, recomendo fortemente que você comece a vasculhar sua vida e ver como anda sua vida diante de Deus. Se você sente vontade de adorar ,ou mais animado, só se houver aquele " animador de auditório, ou aquela banda"; Veja se não tem um pecado escondido por aí. Perceba se não tem um pecado que não foi confessado... Ou caia na real e tente ver se a conversão que você passou não foi uma conversão psicológica ao invés de uma conversão espiritual.
Temos culto no NT, onde se cantou apenas um hino após a exposição da Escritura e mais nada, como vemos na última ceia de Cristo em Marcos 14.26. quando ao término da ceia, cantaram um hino e saíram. Simples e objetivo.
Estamos falando de culto, mas afinal o que é? latreuw latreuo
de latris (criado assalariado); TDNT-4:58,503; v

1) servir por salário
2) servir, ministrar, os deuses ou seres humanos. Usado tanto para escravos como para homens livres
2a) no NT, prestar serviço religioso ou reverência,
2b) desempenhar serviços religiosos, ofertar dons, louvar a Deus na observância dos ritos instituídos para seu louvor e  adoração
2b1) dos sacerdotes, oficiar, cumprir o ofício sacro

Paulo recomenda veementemente aos coríntios que o culto a Deus deve ser algo ordeiro, sem exageros, que deve haver um comportamento que não cause espanto para ninguém, especialmente para os que ainda não se converteram. (Cf. I Co capítulos 11 a 14, principalmente em 1 Coríntios 14:40  Tudo, porém, seja feito com decência e ordem.)
O culto deve ser algo tão solene, que Paulo quando recomendou aos Coríntios acerca das mulheres que não estavam usando o véu, disse que o problema não era o uso ou não do véu. A questão central era que a falta do véu estava causando mal estar nos homens, e nas mulheres que não abdicaram de usá-lo. E isto nós vemos no capítulo 11. 16 nos mostra que o motivo não era espiritual, mas de “costume”.   
As mulheres que não estavam usando o véu estariam sendo confundidas com prostitutas. O que aquelas mulheres que não estavam usando o véu faziam era trazer para dentro da igreja um comportamento que aflorava no mundo, estavam se moldando ao mundo, moldando-se à cultura local, e isso não fazia parte do costume da Igreja.
Algumas mulheres da cidade de Corinto haviam se rebelado contra o uso do véu por que era sinal de submissão ao marido. A questão que estamos discutindo aqui, neste momento, não é a validade, ou não, da submissão, mas que estavam trazendo um modelo do mundo para dentro da igreja. Esta é a questão.
O princípio que podemos aprender aqui é que se existe algo no culto que para uns não tem nada de mais, para outros pode causar escândalo.  E se pode causar escândalo ao próximo então o culto passa a ser pedra de tropeço ao invés de abençoar. Se comer carne de sacrifício pode causar escândalo ao meu irmão, então não devo comer carne por causa da consciência dele, não da minha.
Romanos 14:21  É bom não comer carne, nem beber vinho, nem fazer qualquer outra coisa com que teu irmão venha a tropeçar ou se ofender ou se enfraquecer.
Sabemos que todas as coisas pertencem a Deus, e que tudo que ele abençoou ninguém pode dizer o contrário. Por isso, se eu deixar de fazer algo, mesmo que eu goste e me faz sentir bem, e que irá fazer com que meu irmão, ou meu próximo não fique escandalizado, então é melhor eu deixar de fazer, do que fazer o que quero e escandalizar a meu irmão.
E se proceder de maneira mais amena no culto vai abençoar ao meu irmão, eu devo abdicar de fazer aquilo que acho que não tem nada a ver do que servir de pedra de tropeço para ele.

Conclusão
Qual então o modelo ideal de culto?
A bíblia não nos dá um modelo de culto. Apenas nos mostra elementos que são essenciais no culto.
O salmo 50 nos mostra que a centralidade do culto está quando Deus fala. A Palavra de Deus é a centralidade no culto. Muitos concordam com essa idéia, a imensa e grotesca maioria dos pastores evangélicos de todas as linhas concordam com isso; contudo não é o que acontece na prática, pois nos cultos de suas igrejas, canta-se uma hora e prega-se quinze minutos.
O primordial elemento do culto é a pregação.
Outro elemento que podemos ver é a questão do perdão dos pecados. Lembrar do sacrifício de Cristo na cruz é admitir seus pecados e pedir perdão por eles. Como vemos na pregação de Pedro no Templo após a cura de um coxo. O foco não foi a cura do coxo, mas o anuncio do evangelho e logo após ouvida a pregação, Pedro enfatizou o arrependimento dos pecados. Conforme vemos em Atos 3.19.   Este elemento do culto é o momento de contrição pelos pecados.
A música também faz parte do culto, não por si só, mas com a intenção de louvar e glorificar a Deus, e não a nós mesmos como nos mostra o  Salmo 40.3. E como vimos hoje pela manhã, o louvor é quando eu me levanto e louvo a Deus pelo que Ele é, e não pelo que Ele pode fazer por mim, o que Ele pode me dar. E isso, não da minha maneira, mas da maneira prescrita na Escritura.
Como já vimos em I Coríntios o culto deve ter uma ordem e Mateus 26.30 nos mostra que os cânticos fazem parte desta ordem, não que a música deve vir por último, mas que ela é um dos elementos do culto e não o principal deles.
Como anda nosso culto a Deus? Tem sido do modo que eu gosto? Do modo que minha igreja está acostumada? Do modo que a igreja gosta? Ou tenho me baseado na Palavra? Sabem por que muitos cultos não mudam mesmo que o dirigente da igreja sabe da verdade? Por que dá trabalho, e não vai influenciar na minha salvação ou na do próximo. Será mesmo?
Quando termina o culto solene eu fico satisfeito comigo mesmo? Quando termina o culto o membro sai de lá satisfeito com ele mesmo? Se o culto satisfaz a mim, ou o membro de minha igreja, e nós não saímos do culto com a verdadeira noção de que sou pecador carente e necessitado de Deus, se eu não reconheço que sou miserável, pobre cego e nu diante da grandiosidade de Deus, então o meu culto tem sido um culto pagão, porque é um culto que exalta o homem e não a Deus. Então temos de repensar no nosso conceito de culto.
E como anda a nossa vida cúltica? Nossa adoração a Deus? Estamos satisfeitos com o andar de nossa santificação? Também hoje pela manhã vimos que a adoração a Deus é o modo como eu me curvo diante da santidade de Deus, como eu vivo uma vida de servo diante de Deus, é como eu demonstro que de fato Cristo é Senhor em todas as áreas de minha vida.
Pregação, arrependimento, louvor, não deve ser o que me motiva para viver durante a semana. É justamente o inverso. O viver de adoração a Deus durante a semana, minha vida devocional com Deus em meu lar, sozinho em casa, ou no convívio com a família, é que deve nos levar a repensar as nossas vidas a maneira como nos comportamos, e isso tem que trazer modificações nos nossos padrões de comportamento, na nossa atitude diante de Deus, diante do meu próximo; modificações no nosso modo de pensar, e modificações naquilo que fazemos. E esta deve ser tão somente nossa motivação, único fator motivador para chegar ao culto, e por mais simples que este culto aconteça, eu esteja tão motivado pelo viver com Cristo, que saio da igreja tendo a certeza de que Deus recebeu a devida adoração e louvor ao seu nome, e certo de que Seu nome foi glorificado conforme Ele mesmo requer, pela mediação de Cristo, pelos méritos de Cristo, somente.  
Quando procedemos desta forma, vivendo uma vida santa de adoração a Deus e chegamos ao culto solene de modo a exercer um culto racional, lógico, que é uma vida coerente com aquilo que se diz ser, e me alegro em satisfazer a vontade de Deus e não a minha no momento de culto, Paulo nos diz que isso é o que vai nos mostrar de fato e muito mais do que isso, vai fazer com que nós vivenciemos, experimentemos a boa perfeita e agradável vontade de Deus.

Que Deus tenha misericórdia de nós. 

domingo, 25 de junho de 2017

Contra argumento a Marcos Granconato pelo Batismo Infantil

BATISMO INFANTIL É ENSINADO NA ESCRITURA? 

                
               
           Antes de começar a examinar o texto de Granconato acerca do batismo infantil, quero deixar claro que não sou de origem presbiteriana, apesar de meu pai ter sido em sua juventude. Mas, já nasci dentro de um contexto batista reformado, portanto, anti-pedobatista; por isso, fui batizado aos doze anos. Assim permaneci até a minha mocidade. Quando de fato fui direcionado por Deus a assumir um compromisso com Ele, me dirigi a uma igreja presbiteriana a fim de aprender com aqueles irmãos.
            Nessa igreja não havia muito compromisso com a doutrina presbiteriana, não havia fidelidade deles no compromisso feito em sua ordenação que disseram crer que Confissão de Fé de Westminster é um princípio de interpretação fiel da Escritura; é uma igreja solta, sem firmeza doutrinária e influenciada por doutrinas batistas, arminianas e até mesmo pentecostais, assim até hoje, infelizmente. Como meninos agitados por todo e qualquer vento de doutrina. Mas, foi através do estudo da Escritura e observando a fundo o que os irmãos de Westminster criam e por que criam que hoje posso dizer com segurança que creio que o batismo infantil é bíblico e ordenado por Deus.     
            A base de toda a argumentação, assim como a construção de uma casa, deve ser sólida. A partir dela se constrói todo o restante do discurso. Assim o argumento é construído usando-se premissas. As premissas são as proposições de suporte que, quando tomadas juntas, supostamente levam à conclusão.
             O fato de um argumento ser construído de forma lógica, pode torná-lo válido, mas isso não quer dizer que a conclusão seja verdadeira. Não é verdadeira no sentido de que os argumentos não se alinham para levar àquela conclusão; mas a conclusão não é verdadeira uma vez que uma de suas premissas não possui base fundamental para aquela situação, ou simplesmente é falsa.
               Um argumento para ter validade ele precisa ser um argumento onde as premissas levam inevitavelmente à conclusão. Em tal argumento, a conclusão é verdadeira somente se as premissas forem verdadeiras. Contudo, é possível um argumento ser válido e, todavia falso. Se as premissas são falsas, mas o argumento é estruturado de uma forma que, se as premissas forem assumidas como verdadeiras, levaria inevitavelmente à conclusão, então o argumento seria falso, mas válido.
             Se a base não é sólida, se há tijolos podres na parede, tudo se desmorona. Entretanto, o argumento pedobatista não é único. Como Granconato ressalta, basicamente são três argumentos. Mas aqui quero alinhavar esses três argumentos não com base na tese de que se deve batizar crianças, mas alinhavá-lo a um texto com base em uma determinação clara em um texto bíblico.
          O pastor Marcos Granconato é batista, consequentemente anti-pedobatista. O mesmo escreveu um mini artigo e postou na página de sua igreja: Igreja da Redenção e tido por alguns como argumento definitivo contra o pedobatismo. Ao que parece é parte de um livro publicado.
            A história desta argumentação é, ao longo dos séculos, uma história de tentativas de derrubar o argumento proposto pelos reformadores de que as crianças, devem sim, ser batizadas. O ônus da prova está com eles.
             Este pequeno texto visa demonstrar, que assim como Granconato, outros tentaram, e outros tantos voltarão a tentar derrubar a doutrina reformada do batismo infantil. Como se ela, dentre outras, fossem heranças malditas da Reforma Protestante que deixou escapar sombras da Igreja Católica ao se desvincular dela. Como se houvesse uma certa relutância nos reformadores em não quererem se afastar demais das doutrinas defendidas por eles mesmos no passado.  De sorte que, hoje, muitos que se declaram de linha reformada, na verdade são contra ela.
            Granconato já inicia sua argumentação com a afirmação de que o Batismo infantil foi um desvio logo na igreja dos primeiros séculos. Assim argumenta:

De fato, já no século 2 há evidências de que os cristãos batizavam seus bebês, uma vez que criam no batismo como uma forma de remissão de pecados, capaz de garantir a salvação das vítimas de morte prematura. Esse chocante desvio do ensino apostólico é encontrado poucas décadas depois de concluído o Novo Testamento.[i]

            O argumento para contrastar devidamente com a base que justificaria o não batismo dos infantes deveria partir do mesmo ponto principal que os que não batizam usam, o argumento bíblico. Esse dado histórico não se constitui na base do pedobatismo, antes, é um tijolo na parede.
            Da mesma maneira o argumento se constitui em uma falácia, pois já define que a igreja em seu começo, já havia se “desviado do ensino apostólico”. Vê-se que aqui, seu argumento partiu de seu pressuposto de que havia um desvio, não argumentou com base em nenhum texto bíblico.
             O argumento de Granconato começa a ser construído comparando tijolo histórico ao invés do alicerce, refutando o tijolo ao invés do alicerce. Caso a base bíblica dos pedobatistas fosse falsa, aí sim, o tijolo poderia ter sido levado em conta também para mostrar toda a fragilidade da estrutura.
Logo em seguida ele usa o seguinte argumento:
“Menno pesquisou diligentemente as Escrituras e considerou seriamente a questão, mas não pôde encontrar nada sobre o batismo infantil. Ele chegou à conclusão de que “todos estavam equivocados sobre o batismo infantil... como Menno Simons descobriu, não há nenhum fundamento bíblico que favoreça essa prática.”[ii]

          Essa é um tipo de falácia do tipo “argumentum ad novitatem”, sendo um apelo para aceitação do argumento tendo como base a novidade trazida por Menno. Como se a novidade no entendimento bíblico fosse base para sua interpretação fidedigna que ninguém havia tido antes.
           O mesmo tipo de argumento se vê nos Adventistas, quanto à questão do sábado. O argumento adventista ganhou força, ali, dizendo que a igreja por muitos séculos se viu obscura da verdade e que a novidade trazida por Joseph Bates, que dava importância à guarda do sábado, e depois endossado por Ellen White como uma doutrina que, se não observada, conduziria ao inferno. 
           Posteriormente Granconato afirma que a base bíblica para o pedobatismo é o texto de Atos 16.27-34. Assim diz: “O primeiro desses argumentos (e talvez o mais popular) é construído a partir da história narrada em Atos 16.27-34, referente à conversão do carcereiro de Filipos e seus familiares.”. Essa é uma outra falácia, a do tipo “dicto simpliciter”. Ou seja, argumenta dizendo que a argumentação pedobatista se baseia nesse texto por, talvez, ser a mais popular. O que não está nem mesmo próximo da verdade. Esse texto de Atos a que ele se refere, é uma parte do argumento dos pedobatistas como prova de que o pedobatismo foi praticado pela igreja primitiva, o texto não é o fundamento doutrinário, apenas ajuda na sua comprovação.
             As pessoas que geralmente fazem uso desse texto, Atos 16.27-34, o fazem em redes sociais, em debates abertos, etc. o que não significa dizer que esse texto faz parte da base argumentativa dos pedobatistas de uma forma isolada. Volto a dizer, não é a base, é comprovação histórica. E, analisado fora do contexto de toda a argumentação, obviamente se desvanece como aconteceria com qualquer outra doutrina verdadeira.
Em seguida ele expõe a teologia do pacto como base argumentativa dos pedobatistas e, até mesmo, em suas palavras, merece uma maior atenção.
“É o caso do argumento relativo ao Pacto. Os pedobatistas entendem que, assim como os bebês dos israelitas eram circuncidados pelo fato de seus pais pertencerem ao pacto entre Deus e a nação judaica (Gn 17.10-14), da mesma forma os bebês dos crentes devem ser batizados, uma vez que seus pais, desde o dia em que se converteram, tornaram-se participantes do mesmo pacto por intermédio da fé em Cristo (Gl 3:7, 29).”[iii].
Digamos que esta, seria outra parte do argumento do alicerce básico, o texto bíblico que aponte a prática pedobatista como sendo ela requerida. Sim, a teologia do pacto é de fato a base teológica para o batismo infantil. Mas, isso precisa ser visto dentro do todo.
Levemos esse ponto um pouco mais adiante com respeito ao uso de uma referência teológica, Louis Berkhoff.
O teólogo reformado Louis Berkhof (1873-1957) diz expressamente: “Os filhos dos crentes são batizados porque estão no pacto, independentemente da questão se já são ou não regenerados”.[6] Levando esse raciocínio às últimas consequências, muitos de seus expoentes têm insistido, inclusive, no direito que os bebês, filhos de pais crentes, têm de participar até mesmo da ceia (!).

E Granconato contra argumenta:

Se essas crianças realmente fazem parte da aliança, dizem, sendo por isso batizadas, por que impedi-las de participar da eucaristia que, como o batismo, é também um símbolo pactual?
        
             Esse é outra argumentação falaciosa, desta feita do tipo: “reductio ad absurdum”. Onde, de forma arbitrária e subjetiva, pega o pensamento do autor e o leva ao absurdo sem considerar que o absurdo encontrado pode conter um erro de lógica. Com respeito a isso, adianto, Paulo é bem claro: “...quem come e bebe sem discernir o corpo, come e bebe juízo para si” porque só podem participar da ceia quem é batizado, mas nem todos os que são batizados podem participar da ceia.
Mais uma vez a parte é considerada como todo:
Retomando a defesa do batismo infantil, os pedobatistas afirmam que no passado o símbolo do pacto foi a circuncisão, mas, como ela foi anulada (Gl 5.2, 6; 6.15), o batismo a substituiu. Assim, de acordo com essa visão, o batismo infantil é o correspondente cristão da circuncisão judaica. Essa conexão entre circuncisão e batismo é defendida especialmente com base em Colossenses 2.11-12.

                 Aqui, de fato, a visão geral do pedobatismo é vista, mas seu ensino distorcido. Ele afirma: “...o batismo infantil é o correspondente cristão da circuncisão judaica”. Esta questão será melhor vista quando tratarmos desse ponto.
Objeções levantadas por Gangronato.
Primeiro: a noção de que a participação dos pais crentes no Novo Pacto autoriza o batismo de seus filhos, da mesma forma que a participação dos pais israelitas no Velho Pacto impunha-lhes o dever de circuncidar seus bebês merece grave objeção. Isso porque o bebê israelita não era circuncidado porque seus pais eram israelitas. Ele era circuncidado porque, sendo filho de judeus, “ele próprio” era israelita. A “causa direta” da circuncisão do bebê judeu não estava nos pais, mas no próprio bebê, no fato de ele mesmo ser um judeu. Ora, não é esse o caso dos filhos dos crentes. Estes não nascem crentes, inexistindo neles próprios qualquer razão para que recebam o batismo. De fato, se o filho do israelita nascia israelita e, por isso, era circuncidado, o filho do cristão, por sua vez, não nasce cristão, não havendo razão nenhuma para ser batizado.

           Esta contra argumentação nasce do pilar que afirma que uma criança era circuncidada em Israel, não por que era filha de um israelita, mas por que a própria criança era um israelita. Esse é um argumento que deve ser desprezado, pois essa não é a base da argumentação pedobatista com respeito à circuncisão.
             O selo do pacto não era com uma nação do que diz respeito a territoriedade, língua, etc. Percebemos que este selo se tratava de um selo de aspecto espiritual, não de nacionalidade quanto à carne.
Tal fato é facilmente percebido em um único texto, o que dizer de vários?
O cerne da aliança.
Gênesis 17:7  “Estabelecerei a minha aliança entre mim e ti e a tua descendência no decurso das suas gerações, aliança perpétua, para ser o teu Deus e da tua descendência. Gênesis 17:9-11  Disse mais Deus a Abraão: Guardarás a minha aliança, tu e a tua descendência no decurso das suas gerações.  Esta é a minha aliança, que guardareis entre mim e vós e a tua descendência: todo macho entre vós será circuncidado.  Circuncidareis a carne do vosso prepúcio; será isso por sinal de aliança entre mim e vós.”

                    A aliança proposta por Deus, de fato alcançaria a descendência de Abraão. Mas aqui, de fato, Deus propõe apenas a descendência segundo a carne? Por que esta é a proposta de contraponto daqueles que argumentam contra a ideia de que o batismo não é a continuidade da circuncisão na Nova Aliança.
                      A circuncisão era, para os judeus, um sinal que os fazia lembrar de que todos que descendiam de Adão, e pela própria semente reproduziam a corrupção provocada na queda. A amputação desta parte do membro era para mostrar que esta herança precisava ser lembrada. O lado positivo do ato, era de que a promessa dada a Abraão, através de sua descendência todas as nações seriam abençoadas:[iv] “...em ti serão benditas todas as famílias da terra...”. A semente bendita prometida ao Diabo que lhe pisaria a cabeça, seria da descendência de Abraão, é a “semente de vida e salvação, é Jesus Cristo”[v]. Como bem entoou Maria a respeito do Messias que era gerado em seu ventre: “Amparou a Israel, seu servo, a fim de lembrar-se da sua misericórdia a favor de Abraão e de sua descendência, para sempre, como prometera aos nossos pais.” (Lucas 1:54-55).
                      Esse sinal de fé poderia ser posto em qualquer homem que quisesse assumir, para sua casa, a fé concernente ao mesmo, não somente ao povo de Israel. Quando Moisés recebeu de Deus a incumbência da instituição da páscoa ele ouve a advertência: “...Esta é a ordenança da Páscoa: nenhum estrangeiro comerá dela.” (Êxodo 12:43). Entretanto havia uma possibilidade de o estrangeiro participar: “Porém, se algum estrangeiro se hospedar contigo e quiser celebrar a Páscoa do SENHOR, seja-lhe circuncidado todo macho; e, então, se chegará, e a observará, e será como o natural da terra; mas nenhum incircunciso comerá dela.” (Êxodo 12:48). Seria ponto pacífico a páscoa ter sido substituída por outro sacramento da Nova Aliança? Ceia? Mas participar da “Ceia” no AT, era necessário ser circuncidado. E isso por qualquer pessoa que abraçasse o sinal do pacto por meio da circuncisão, então poderia participar da páscoa.
              Da mesma forma, Jesus, ao ver que os discípulos impediam de as crianças chegarem até Ele advertiu: Mateus 19:14  “Jesus, porém, disse: Deixai os pequeninos, não os embaraceis de vir a mim, porque dos tais é o reino dos céus.” Isso coloca as crianças como integrantes da igreja, mas não pode ser levada à conclusão de que estão salvas, não é esse o ponto de discussão aqui. Vemos que Jesus ao falar do reino dos céus, expõe também parábolas para exemplificar como a parábola dos Talentos, ou das dez virgens.
Todas as parábolas mostram que no Reino dos Céus haverão pessoas serão salvas e outras não. Como afirma: Mateus 25:1  “Então, o reino dos céus será semelhante a dez virgens...”  Veja que o a definição de semelhança do Reino não é apenas com as que foram salvas na parábola, mas semelhança do Reino é com todas elas. Dizendo com isso que o Reino dos Céus é com respeito à igreja visível, não com respeito à igreja invisível.
            A outra questão da circuncisão como não sendo meramente uma marca genealógica nacionalista é encontrada em vários textos. Quando Moisés falava acerca da escolha de Deus aos descendentes de Israel, seria justo afirmar pelo argumento anti pedobatista de que a circuncisão seria o que diferenciaria Israel de outros povos. Fisicamente sim, mas essa não era a premissa essencial. Essa marca requeria outra:
·         “Circuncidai, pois, o vosso coração e não mais endureçais a vossa cerviz.”  (Deuteronômio 10:16).  
·         Circuncidai-vos para o SENHOR, circuncidai o vosso coração, ó homens de Judá e moradores de Jerusalém, (Jeremias 4:4).
·         Homens de dura cerviz e incircuncisos de coração e de ouvidos, vós sempre resistis ao Espírito Santo  (Atos 7:51)
            Veja que Pedro faz uma asseveração quanto ao batismo e o iguala à mesma ideia da circuncisão: “...a qual, figurando o batismo, agora também vos salva, não sendo a remoção da imundícia da carne, mas a indagação de uma boa consciência para com Deus, por meio da ressurreição de Jesus Cristo;” (1 Pedro 3:21). O que se percebe é que a circuncisão em nada é inferior ao batismo. Pois, ambas não dão valor ao rito externo. Os sinais são diferentes na aparência, mas são iguais na sua essência.
         Indo um pouco mais nesse aspecto da nacionalidade, vejamos o que Paulo fala da descendência de Abraão.
“...nem por serem descendentes de Abraão são todos seus filhos; mas: Em Isaque será chamada a tua descendência.  Isto é, estes filhos de Deus não são propriamente os da carne, mas devem ser considerados como descendência os filhos da promessa.” (Romanos 9:7-8)

             Isaque e Ismael receberam a circuncisão. Os dois, naturalmente, eram herdeiros de sangue, filhos de Abraão. Entretanto, apenas um foi levado em consideração, porque? A circuncisão externa marcaria um povo externamente, mas a marca externa, como visto em textos anteriores, requer também uma marca interna. Esta, para Deus, de fato é a marca que os faziam ser seus descendentes, e por conseguinte, herdeiros da promessa.
             Desta forma, Granconato está certo ao afirmar que: “Isso porque Colossenses 2.11-12 fala claramente da circuncisão do coração e do batismo do crente na morte de Cristo, ou seja, trata de realidades espirituais e não de ritos externos.” Entretanto, quando Paulo faz uso da equidade da essência com uso das palavras: “Nele, também fostes circuncidados” em 2:11 falando acerca do modo como foram circuncidados e trouxeram o seu simbolismo através do batismo mostrando uma realidade espiritual, ele aponta a equiparação dos dois ritos.  Isso não tem como ser evitado. Dizer que não existe a equiparação é amputar o texto.
               No texto referido de Colossenses, a temática dos versículos 11 ao 17 é uma séria advertência ao judaísmo que rondava a igreja de Colossos, juntamente com aspectos pagãos. Um sincretismo judaico/pagão. Paulo combatia aqui a sombra desse sincretismo rondando a igreja de Colossos. Aqui ele alerta para que os irmãos não se deixassem circuncidar literalmente, para não se ensoberbecerem na carne. (v.23).
Então Paulo afirma que de fato eles já haviam sido circuncidados com uma circuncisão que se sobrepunha a qualquer rito externo.

“Colossenses                                              
Rito judaico
Obra do Espírito Santo 
    (não de mãos)
                 
Operação manual (pequena cirurgia)
Interna, do coração. Ver Rm 2.28,29 Fp 3.2,3
                   
externa

O despojar e o lançar fora   
 (note o prefixo em apekdysei
da totalidade de vossa nature-
za pecaminosa (=”o corpo da
carne”), no seu aspecto santifi-
cante a ser realizado progressi-
vamente
            
Remoção do excesso de pele
Cristã
(“A circuncisão de Cristo”, isto é, a circuncisão
que é vossa por causa da
vossa união vital com Cristo”[vi]

Abraâmica e mosaica


            Entretanto, Paulo não encerra sua descrição da circuncisão da que o povo na igreja de Colossos já havia recebido, e continua: “...tendo sido sepultados, juntamente com ele, no batismo, no qual igualmente fostes ressuscitados...” (Colossenses 2:12).  A questão pertinente é por qual motivo Paulo faz uma conexão entre “no batismo” com “igualmente fostes ressuscitados com Cristo”? Claramente, aqui, Paulo exclui qualquer tipo de misticismo, ou valor espiritual quanto ao rito do batismo em si mesmo. Da mesma maneira que não há conexão intrínseca entre o ato do batismo e a condição do coração daqueles que se submetem ao rito e dizem crer no evangelho. A base está no que Paulo assevera a seguir: “...mediante a fé no poder de Deus que o ressuscitou dentre os mortos.” (Colossenses 2:12). Ao ouvir o evangelho, o homem deve entregar-se totalmente a Deus, cujo poder ressuscitou a Cristo dos mortos.
            Desta feita, onde encaixar a ideia “no vosso batismo”? Paulo desqualifica a circuncisão neste texto como ato pertinente à Nova Aliança, e no seu lugar qualifica o batismo como rito para esta dispensação. Da mesma forma se vê que em Romanos 4.11 sobre a circuncisão ser um sinal do selo, o mesmo é para o batismo. Em Colossenses, o batismo é o sinal e selo da nossa união mística com Cristo, e de que agora fazermos parte de sua descendência prometida a Abraão, da descendência que seria abençoada em todas as nações, por meio do Descendente de Eva.
            Granconato sai do texto de Colossenses e se volta ao texto de Atos no concílio da igreja em Jerusalém para tratar da circuncisão.
         O que chama a atenção no curso dos debates em Jerusalém é a preleção de Pedro contra a necessidade da circuncisão (At 15.6-11). Ele havia batizado todos aqueles gentios que tinham se convertido na casa de Cornélio (At 10.47-48). Ora, se para ele o batismo correspondesse à circuncisão exigida pelos seus oponentes, por que não fez essa alegação em seu discurso? Por que Pedro não disse: “Meus irmãos, os gentios foram circuncidados sim, mas pelo novo método que é o batismo!”. Nenhum outro momento da história bíblica seria mais apropriado para enunciar esse ensino e calar de vez a boca dos cristãos judaizantes. [vii]

.           Com base em que Granconato arguiu Pedro de não ter feito essa exposição nesse texto? Quem é Granconato para arguir a inspiração de Pedro não ter dito tal coisa? Ele simplesmente não colocou porque o Espírito não o inspirou a colocar tal exposição. Pedro não era obrigado a falar. Simplesmente isso.
           
            Mas ele insiste em ser refutado:
“Quanto ao argumento construído sobre Romanos 4.11, em que a circuncisão é chamada de “selo da justiça da fé”, este também é facilmente desfeito. Conforme visto, seus proponentes afirmam que a circuncisão judaica, um selo da justiça da fé, devia ser aplicada a bebês sem fé, de modo que, segundo eles, nada pode haver de errado em fazer o mesmo com o batismo, outro selo da justiça da fé. Essa linha de raciocínio, contudo, está equivocada, pois, ao chamar a circuncisão de selo da justiça da fé, Paulo se refere à circuncisão específica de “Abraão”.”[viii]
            Creio que a afirmativa acima de que o argumento construído em Romanos 4.11 ser facilmente desfeito é injustificada. Uma vez que quando esse texto é utilizado para argumentação acerca da substituição da circuncisão pelo batismo, ele serve apenas de ponte de apoio para conduzir ao texto onde se termina a argumentação. Sem levar a cabo a análise da argumentação dos pedobatistas nesse texto o contra argumento não tem efeito.
            Da mesma forma o argumento pedobatista não considera o fato a quem a circuncisão foi feita, mas dos benefícios dela, independente em quem foi realizada. Paulo está dizendo que estes
...são selos pelos quais as promessas de Deus são de certa forma impressão em nossos corações, e a certeza da graça é confirmada. Embora eles, inerentemente, são de nenhum proveito, todavia Deus os designou para que fossem instrumentos de sua graça, e pela graça secreta de seu Espírito promovem o bem dos eleitos através de seus efeitos. Ainda que para os réprobos eles sejam símbolos inanimados e inúteis todavia retêm sempre seu poder e seu caráter... uma dupla graça foi representada pelo sinal da circuncisão. Deus prometeu a Abraão uma progênie que seria abençoada. Era através desta progênie que a salvação seria contemplada pelo mundo inteiro. Deste fato depende a promessa: “Estabelecerei minha aliança entre mim e ti e tua descendência no decurso de suas gerações, aliança perpétua, para ser o teu Deus e o de tua descendência” (Gn 17.7). Portanto, neste sinal estava inclusa a reconciliação gratuita com Deus, e a analogia correspondia ao sinal suficientemente para que os crentes pudessem olhar para a progênie prometida. Deus, de sua parte, exigia integridade e santidade de vida e mostrou pelo símbolo como isso podia ser alcançado, ou, seja: por meio da circuncisão de algo muito importante no homem que é nascido da carne, visto que toda sua natureza é corrupta. Deus, pois, instruiu a Abraão, por meio do sinal externo, a circuncidar espiritualmente a corrupção de sua carne.[ix]

       De forma parentética Moisés cita a mesma ideia; “Circuncidai, pois, o vosso coração e não mais endureçais a vossa cerviz”. (Deuteronômio 10:16). Tendo a finalidade de mostrar que uma simples cirurgia não circuncidaria o coração, ou mesmo uma pretensa conversão levasse alguém a circuncidar-se falsamente, ordenou que os recém-nascidos também fossem circuncidados. Os infantes não poderiam cumprir este mandamento.   
          Se a circuncisão era um selo da fé para Abraão no sentido de que somente poderia recebê-lo se já tivesse crido, isso seria uma lástima. A fé do qual a circuncisão era selo, só poderia, e somente ser hoje pelo batismo na vida dos que fossem eleitos, independentemente do tempo da circuncisão, ou do batismo. Não foi com Isaque? Ele foi circuncidado porque creu aos oito dias de nascido? Então por que motivo Abraão é tido como aquele que recebeu o selo da fé por meio da circuncisão? Da mesma maneira a nação de Israel que já cumpria o rito desde Abraão, muitos, poderiam de fato crer, somente após muito tempo depois de haverem sido circuncidados.  É o que vemos em Deuteronômio 30:6: “O SENHOR, teu Deus, circuncidará o teu coração e o coração de tua descendência, para amares o SENHOR, teu Deus, de todo o coração e de toda a tua alma, para que vivas.” Circuncidados na infância, mas regenerados apenas quando adultos.
          Da mesma maneira que havia na circuncisão dois momentos distintos: a cirurgia física pelo homem e a cirurgia espiritual por Deus, o mesmo se vê no batismo:  o batismo com água (físico realizado pelo homem) e a conversão (espiritual realizada por Deus).

Retornemos aos apóstolos.
            A circuncisão inseria o indivíduo, fosse israelita, fosse estrangeiro, ou escravo no corpo da Igreja Visível do AT, a nação de Israel. Mas, apenas a circuncisão do coração é que de fato o tornava participante do Israel de Deus, segundo Romanos 2:29 “ Porém judeu é aquele que o é interiormente, e circuncisão, a que é do coração, no espírito, não segundo a letra, e cujo louvor não procede dos homens, mas de Deus.” Nada garantia a entrada no Israel espiritual, exceto a circuncisão do coração promovida por Deus conforme visto em Dt 30.6.
             O mesmo é com o batismo. O batismo coloca o homem que recebe esse selo como sendo participante da igreja visível. Nada, mas absolutamente nada garante que todo aquele que é meramente batizado será salvo. E esse é o entendimento da igreja católica com respeito ao batismo infante. Para eles, esse rito coloca o infante não somente participante da igreja visível, como também da invisível. O que, até aqui, vimos, não passa de uma heresia. Mas o batismo tão somente diz que ele é membro na igreja visível como vimos na afirmação de Cristo com respeito às crianças: “...dos tais é o Reino dos Céus”.
               Mas, esta igreja invisível está inserida dentro da igreja visível. Com joio e trigo, tudo é igreja. No AT, recém nascidos e adultos entravam na igreja por meio da circuncisão. Essa trazia a promessa de que por meio da descendência todas as famílias da terra seriam abençoadas, mesmo ante toda a terra ter sido amaldiçoada (Gn 3), ali abria-se uma porta de benção. E como sinal desta benção, a circuncisão física foi instituída mostrando a promessa de misericórdia, remissão de pecados e vida eterna promovida por Deus na circuncisão do coração.
              O princípio da circuncisão permanece ainda hoje, seu rito não.  Não existe um único princípio de lei espiritual mostrado no AT que não tenha permanecido nos nossos dias. A forma de aplicação pode ter mudado em alguns, como o Shabath, princípio do descanso; bem como o sinal externo de uma aliança, e interno de uma conversão verdadeira, circuncisão e batismo.
              Paulo argumenta nesse sentido em Efésios 2 dizendo que os gentios estavam longe da salvação, porque não haviam sido circuncidados, “sem Cristo separados da comunidade de Israel, estranhos à aliança da promessa, não tendo esperança e sem Deus no mundo”. É daí é que Pedro conclui quanto ao que deveriam fazer aqueles judeus e homens de toda a parte do mundo o interpelaram após sua pregação. Ele determina: “Respondeu-lhes Pedro: Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo.” (Atos 2:38). Entretanto, a conclusão de Pedro determina quanto a quem deveria receber esse sinal da Aliança prometida: “Pois para vós outros é a promessa, para vossos filhos e para todos os que ainda estão longe, isto é, para quantos o Senhor, nosso Deus, chamar.” (Atos 2:39). A promessa da aliança foi feita também aos filhos, não apenas aos adultos:
·         Gênesis 17:7  Estabelecerei a minha aliança entre mim e ti e a tua descendência no decurso das suas gerações, aliança perpétua, para ser o teu Deus e da tua descendência.     

       Ademais, finalmente, vejamos o confronto de dois versículos que tratam exatamente de batismo e conversão.
Marcos 16:16  “Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado.” 
       Este versículo é comumente utilizado para defender o não batismo de infantes. Dizem que é necessário primeiro crer e depois ser batizado. E como crianças não podem expressar sua fé, então não podem ser batizadas.
       A primeira questão a ser tratada aqui é com respeito ao “e” encontrado entre o “crer E for batizado”. O “e” não pode ser encarado como forma de ordem cronológica, nem na língua portuguesa, nem mesmo na língua grega. O termo “e” é: και kai e sua função é que tem: “uma ação aditiva e algumas vezes também uma força acumulativa”[x]. Isso quer dizer que o “e” não tem força de ordem cronológica de eventos, mas acumulativa de eventos.
       Um exemplo fácil seria uma mãe dando ordem ao filho: “João, vá para mim na farmácia e no açougue”. Nesta ordem não implica em que João tenha necessariamente de ir primeiro na farmácia e depois no açougue. O que ele tem a fazer é ir nos dois lugares para que a ordem seja inteiramente cumprida.
       Desta feita vemos que outro versículo confronta a ideia de primazia quanto ao “crer” no versículo de Marcos 16. O que menciono é o texto de João 3:5: “ Respondeu Jesus: Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus.” Veja que Jesus está falando a Nicodemus quanto à maneira lícita de entrar no Reino de Deus. Jesus aponta duas coisas: “nascer da água” e do “Espírito”. Estas são claras citações a duas coisas: Conversão e batismo. Entretanto, a conversão aqui não veio anterior ao batismo. Aqui ela é mostrada em tempo posterior ao batismo.
       Se em Marcos 16 há uma cronologia por causa desse “E” então eu devo determinar que aqui primeiramente se deva batizar para então depois converter, por que o mesmo “E” também estaria definindo uma cronologia. Mas o que isso quer dizer? Obviamente vemos que não há determinação temporal para o batismo. Assim para os filhos de crentes é determinante o batismo e depois sua conversão, assim como eram circuncidados os filhos de crentes no AT e depois o Senhor operava a conversão, como visto anteriormente. Mas para adultos, novos convertidos, certamente há necessidade de se crer primeiro.
       Esta era a premissa de Marcos 16. A ordem para se pregar o evangelho obviamente era para adultos. E, teria de vir acompanhada após a conversão o batismo. Não se pregaria evangelho para infantes isso é ilógico. Mas, como vimos não invalida a ordem de batismo dos mesmos.
       Vemos também que na ordem de Jesus em Mateus 28.18-20 Ele deixa claro que os que estão sendo ensinados, necessariamente devem ser batizados para então literalmente os discípulos cumprirem o “Ide”. Então perceba que os filhos dos crentes, infantes, devem ser ensinados “na disciplina e temor do Senhor” (Efésios 6.4) desde a mais tenra infância. Então, a dedução lógica é que se estão sendo ensinados no caminho do Senhor, também devem ser batizados.
       A outra questão é que o texto de Mateus da grande comissão complementa o texto de Marcos. Primeiramente por que ele é maior, mais denso nas informações ali descritas. E, segundo o texto de Marcos, afirma que ‘quem crer e for batizado será salvo”; e se levarmos ao pé da letra como uma necessidade de ordem cronológica de eventos, bem como assumir a preponderância de ser batizado após a conversão como querem os anti pedobatistas, quem crer mas não for batizado então não será salvo. O que definitivamente nunca poderá ser afirmado.

       Espero que com estas linhas, ao menos estejam esclarecidos um pouco mais acerca da posição reformada sobre o batismo infantil.

 Que Deus os abençoe.
Pr. Júlio César Pinto

      





[ii] IBID
[iii] IBID
[iv] Calvino, John. Institutas. Vol 3. Pg 154-155. CEP. 2006.
[v] IBID, pg 155
[vi] HENDRIKSEN, William. Comentário a Colossenses e Filemon. CEP. 1993. P. 146
[vii] Granconato, IBDEM
[viii] IBID
[ix] CALVINO, João. Comentário a Romanos, PARAKLETOS 2001, P. 157
[x] STRONG