quarta-feira, 13 de maio de 2026

Tema 29 - A Pessoa de Cristo: verdadeiro Deus e verdadeiro homem

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.” (João 1.1)

E o Verbo se fez carne e habitou entre nós...” (João 1.14)

Há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem.” (1 Timóteo 2.5)

Porque aprouve a Deus que, nele, residisse toda a plenitude.” (Colossenses 1.19)

Amas a justiça e odeias a iniquidade; por isso, Deus, o teu Deus, te ungiu com o óleo de alegria, como a nenhum dos teus companheiros.” (Salmo 45.7)

 

Após tratarmos da aliança da graça, surge inevitavelmente a pergunta central de toda a redenção: quem é o Mediador prometido desde Gênesis 3.15? Quem é o Descendente que pisaria a cabeça da serpente, cumpriria perfeitamente a justiça de Deus, suportaria a culpa do pecado e reconciliaria pecadores com o Deus santo?

É exatamente aqui que entramos na doutrina da pessoa de Cristo. Toda a Escritura converge para Ele. A história da redenção não é organizada em torno do homem, da igreja ou da experiência religiosa, mas em torno da pessoa e da obra do Filho de Deus encarnado. Cristo é o centro da aliança da graça, o cumprimento das promessas veterotestamentárias e o Mediador entre Deus e os homens.

E isso imediatamente nos conduz a uma verdade absolutamente fundamental da fé cristã: Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Negar qualquer um desses aspectos destrói o evangelho. Se Cristo não é verdadeiro homem, então não pode representar legitimamente a humanidade caída. E, se não é verdadeiro Deus, não possui dignidade infinita para suportar plenamente a ira divina, vencer a morte e salvar eficazmente Seu povo.

Por isso a Escritura afirma ambas as verdades simultaneamente.

João declara:

o Verbo era Deus” (João 1.1)

E logo adiante:

o Verbo se fez carne” (João 1.14)

 Aquele que assumiu natureza humana já existia eternamente antes da encarnação. Cristo não começou a existir em Belém. O Filho é eterno. Ele estava com o Pai desde toda a eternidade. Como já vimos anteriormente ao tratar dos decretos eternos de Deus e da própria Trindade, o Filho não é criatura elevada, nem é um ser intermediário entre Deus e os homens. Ele é plenamente Deus.

Hebreus 1 atribui explicitamente ao Filho prerrogativas e atributos que pertencem somente a Deus. O próprio argumento do autor é demonstrar a absoluta superioridade do Filho sobre todas as criaturas, inclusive os anjos.

Sobre a Eternidade do Filho ele diz: “mas acerca do Filho: O teu trono, ó Deus, é para todo o sempre; e: Cetro de eqüidade é o cetro do seu reino. Amaste a justiça e odiaste a iniqüidade; por isso, Deus, o teu Deus, te ungiu com o óleo de alegria como a nenhum dos teus companheiros. Ainda: No princípio, Senhor, lançaste os fundamentos da terra, e os céus são obra das tuas mãos; eles perecerão; tu, porém, permaneces; sim, todos eles envelhecerão qual veste;  também, qual manto, os enrolarás, e, como vestes, serão igualmente mudados; tu, porém, és o mesmo, e os teus anos jamais terão fim.” (Hebreus 1.8-12)

O texto aplica ao Filho palavras originalmente dirigidas a Yahweh no Salmo 102. Isso aponta para Sua imutabilidade e eternidade.

Acerca da glória divina de Cristo, afirma: “Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser...” (Hebreus 1.3). Cristo não apenas reflete parcialmente a glória divina; Ele é o “resplendor” dela e a expressão exata do ser de Deus.

Sobre a autoridade soberana diz: “Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por estrado dos teus pés.” (Hebreus 1.13). O Filho recebe entronização soberana à direita de Deus, posição de governo e domínio universal. Também: “Mas acerca do Filho: O teu trono, ó Deus, é para todo o sempre...” (Hebreus 1.8). O próprio Filho é chamado “Deus” e possui trono eterno.

Não só estava na criação do universo: “...pelo qual também fez o universo.” (Hebreus 1.2); E ainda: “Tu, Senhor, no princípio fundaste a terra...” (Hebreus 1.10). O Filho não é parte da criação, nem apenas estava na criação; Ele é o Criador.

Ele sustenta continuamente todas as coisas: “...sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder...” (Hebreus 1.3). Aqui aparece a doutrina da providência ligada diretamente a Cristo. O universo não apenas foi criado por Ele; continua existindo porque é continuamente sustentado por Seu poder soberano. Isso conecta diretamente a cristologia com aquilo que já foi estabelecido anteriormente acerca:

·        da criação;

·        da providência;

·        e da soberania divina.

O universo existe por meio dEle e continua existindo por Seu poder sustentador.

Isso destrói completamente qualquer tentativa de reduzir Cristo a mero mestre moral, profeta iluminado ou líder religioso excepcional. Cristo não é apenas alguém que aponta para Deus. Ele é Deus revelado em carne.

Paulo declara: “porque nele habita corporalmente toda a plenitude da Divindade” (Colossenses 2.9). Observe cuidadosamente: “CORPORALMENTE”. A encarnação não foi aparência simbólica nem manifestação temporária ilusória. O Filho assumiu verdadeira natureza humana.

 E isso possui enorme importância apologética.

Ao longo da história surgiram erros que espiritualizaram Cristo de tal forma que praticamente negaram Sua humanidade real. Em certas perspectivas, a matéria passa a ser vista como inferior, indigna ou incompatível com a verdadeira espiritualidade. Entretanto, a própria encarnação destrói completamente essa ideia. O Filho eterno assumiu carne verdadeira: Não aparência de corpo, não era uma manifestação simbólica, nem tampouco se tratou de mera projeção espiritual.

Cristo:

·        nasceu;

·        cresceu;

·        cansou-se;

·        chorou;

·        sofreu;

·        sangrou;

·        morreu;

·        e ressuscitou corporalmente.

A redenção bíblica não é fuga da criação material, mas restauração da criação caída. O problema nunca foi a materialidade criada por Deus, mas o pecado que corrompeu o homem. Como vimos anteriormente ao tratar da queda, a corrupção entrou na criação por meio da rebelião moral da criatura, não pela existência do mundo físico em si, ao que Deus havia dito quando criou: “Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom.” (Genesis 1:31)

Isso também possui profundas implicações para a vida cristã. A espiritualidade bíblica não separa artificialmente corpo e espírito como se o corpo fosse irrelevante para Deus ou incompatível com verdadeira santidade. O mesmo Cristo que assumiu carne verdadeira é também o modelo perfeito da humanidade restaurada. Paulo afirma que os eleitos foram “predestinados para serem conformes à imagem de seu Filho” (Romanos 8.29).

Isso não significa participação na essência divina, mas conformidade progressiva à santidade de Cristo. E essa conformidade não ocorre apenas em abstrações interiores desligadas da vida concreta, mas alcança o homem inteiro. O culto cristão envolve corpo, mente, afetos, vontade e existência concreta diante de Deus. Por isso Paulo exorta: “apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional” (Romanos 12.1).

Isso confronta diretamente qualquer espiritualidade que trate a matéria, o corpo ou a vida concreta como algo inerentemente inferior ou indigno do serviço a Deus. Cristo viveu corporalmente em perfeita obediência ao Pai. Sua encarnação demonstra não apenas a realidade da redenção, mas também que a verdadeira santidade pode e deve manifestar-se ainda nesta vida concreta, mesmo em meio à fraqueza da carne caída. O problema do homem não está no fato de possuir corpo, mas no pecado que corrompe o homem inteiro.

1.       Por isso a ressurreição de Cristo é corporal.

2.       Por isso a ressurreição futura dos santos será corporal.

3.       Por isso a redenção final alcançará inclusive a própria criação que geme debaixo da corrupção (Romanos 8.19-23).

A fé cristã não é religião da fuga do mundo criado, mas é a religião que mostra a redenção do homem inteiro.

Ao mesmo tempo, a Escritura também rejeita qualquer tentativa de reduzir Cristo apenas à Sua humanidade. Isso ocorre frequentemente em abordagens liberais modernas que transformam Jesus apenas em um mestre ético, revolucionário social, símbolo de amor ou exemplo moral. Mas Cristo reivindica autoridade divina, perdoa pecados, recebe adoração, afirma unidade com o Pai e é explicitamente chamado Deus nas Escrituras. Tomé declara: “Senhor meu e Deus meu!” (João 20.28). E Cristo não corrige a afirmação. A divindade de Cristo é indispensável para o evangelho uma vez que somente Deus pode salvar, somente Deus possui vida em Si mesmo. Ainda precisamos ressaltar que somente Deus pode vencer plenamente o pecado, a morte, o próprio Satanás, bem como o juízo.

Sobre Deus vencer o juízo, falamos da obra de Cristo que: satisfez plenamente a justiça divina; removeu a condenação jurídica do pecado (culpa); suportou a ira santa de Deus na cruz e triunfou definitivamente sobre o veredito condenatório que pesa sobre os pecadores. Isso também ilumina profundamente tudo aquilo que vimos anteriormente sobre a santidade divina, a justiça divina e a aliança da graça.

O problema do pecado não poderia ser resolvido simplesmente por relaxamento moral de Deus. A culpa exigia satisfação real da justiça divina. A corrupção exigia redenção real da natureza humana. A morte exigia vitória real sobre o juízo. Por isso o Mediador precisava ser plenamente homem e plenamente Deus.

A Confissão de Fé de Westminster afirma exatamente isso ao declarar que Cristo possui duas naturezas completas, distintas e inseparáveis em uma única pessoa. Isso é chamado de união hipostática (realidade subsistente).

Isso significa que Cristo não é duas pessoas, nem mistura confusa de naturezas, nem homem divinizado e, tampouco é Deus transformado em homem. Ele é: um só Cristo, possui duas naturezas sendo: verdadeira divindade e verdadeira humanidade. Sem confusão, sem divisão, sem alteração, sem separação. A natureza divina não deixou de ser divina. A natureza humana não deixou de ser humana. O Filho assumiu aquilo que não possuía anteriormente: humanidade verdadeira.

Filipenses 2 descreve isso de maneira profundamente gloriosa: “subsistindo em forma de Deus... a si mesmo se humilhou...” (Filipenses 2.6-8). Isso não significa que Cristo abandonou Sua divindade na encarnação. A chamada “kenosis” não é esvaziamento da natureza divina. O Filho não deixou de possuir atributos divinos. O “esvaziamento” refere-se à humilhação voluntária assumida na condição de servo.

Cristo não deixou de ser Deus. Ele adicionou humanidade à Sua pessoa divina. Isso também evita erros extremamente perigosos que imaginam um Cristo menos divino durante a encarnação, limitado ontologicamente (em seu ser) ou separado parcialmente de Seus atributos eternos. Mesmo encarnado, o Filho continua sustentando todas as coisas pela palavra do Seu poder.

E aqui aparece novamente a glória da redenção. O eterno entra no tempo. O Criador entra na criação. O Legislador coloca-se sob a lei. O Santo assume a condição humana sem pecado. O Rei torna-se servo. O Juiz coloca-se no lugar de condenados. E, tudo isso, para salvar Seu povo. Hebreus afirma: “convinha que, em todas as coisas, se tornasse semelhante aos irmãos...” (Hebreus 2.17)

Cristo é o segundo Adão.

·        Onde o primeiro Adão falhou, Cristo obedeceu perfeitamente.

·        Onde Adão trouxe condenação, Cristo traz justificação.

·        Onde Adão trouxe morte, Cristo traz vida.

Isso nos conduz diretamente à:

·        queda;

·        pacto das obras;

·        culpa imputada;

·        e redenção.

A história inteira da humanidade está representada federalmente em dois homens: Adão e Cristo. E somente os unidos a Cristo participam da reconciliação, da justiça, da vida eterna e da glorificação futura.

Além disso, Cristo exerce os ofícios de profeta, sacerdote e rei. Como profeta, revela perfeitamente Deus ao Seu povo. Como sacerdote, oferece a Si mesmo em sacrifício pelos pecados e intercede continuamente pelos Seus. Como rei, governa soberanamente Sua igreja e subjuga todos os Seus inimigos.

Isso também corrige um erro moderno extremamente comum: querer um Cristo Salvador sem o Seu Senhorio. O Cristo bíblico não oferece apenas conforto espiritual. Ele exige: arrependimento, submissão, fé, obediência e adoração. Não existe união verdadeira com Cristo sem sujeição ao Seu governo, o qual Ele exerce pelos meios ordinários que Ele mesmo determinou: Igreja visível (1 Timóteo 3.15), ajuntamento solene (Hebreus 10.25), povo guiado pelos que Ele mesmo chamou ao ministério (Efésios 4.11-12; Hebreus 13.17).

Decorrente disso, esta distorção moderna extremamente difundida em certos ambientes evangélicos contemporâneos: a ideia de um “Cristo apenas Salvador”, mas não necessariamente Senhor é vista nos apelos aos finais de culto. Em muitas formulações populares, apresenta-se Cristo quase como uma oferta opcional de benefícios espirituais, enquanto Seu governo, autoridade e direito absoluto sobre a vida do homem são relativizados ou adiados. Entretanto, a linguagem dominante das Escrituras segue exatamente a direção oposta.

Os apóstolos não chamavam os homens a uma mera “aceitação de benefícios espirituais”, mas à rendição diante do Senhor ressurreto. A pregação apostólica em Atos é profundamente centrada no senhorio de Cristo. Pedro declara: “Saiba, pois, com certeza, toda a casa de Israel que a esse Jesus, que vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo” (Atos 2.36). Paulo afirma: “Se, com a tua boca, confessares Jesus como Senhor...” (Romanos 10.9). E novamente: “ninguém pode dizer: Senhor Jesus!, senão pelo Espírito Santo” (1 Coríntios 12.3). A própria proclamação apostólica era resumida frequentemente na expressão: “Jesus Cristo é o Senhor” (Filipenses 2.11). E, Pedro destaca fortemente: “...antes, santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração, estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós...” (1 Pedro 3.15”.

Isso não significa que a salvação seja produzida por mérito humano de submissão perfeita. A própria fé salvadora é dom da graça. Entretanto, significa que o Cristo recebido pela fé nunca é dividido. O mesmo Cristo que salva é o Cristo que reina. O mesmo Cristo que justifica também governa. Não existe, nas Escrituras, um “Cristo Salvador” separado de Seu senhorio soberano.

Por isso, a salvação aparece nas Escrituras como consequência da união verdadeira com Cristo pela fé. E essa união envolve necessariamente reconhecimento de Sua autoridade, rendição diante de Seu governo e sujeição à Sua Palavra. O evangelho apostólico não oferece um Cristo moldado às preferências do homem natural, mas anuncia o Rei exaltado diante de quem todo joelho deve se dobrar (Filipenses 2.10-11).

Ao mesmo tempo, não existe esperança para pecadores fora dEle. Porque somente Cristo: satisfaz perfeitamente a justiça divina, remove verdadeiramente a culpa, quebra o domínio do pecado, derrota Satanás; vence a morte e reconcilia o homem com Deus. Tudo converge para Ele.

·        A criação aponta para Ele.

·        A providência é governada por Ele.

·        A aliança da graça é estabelecida nEle.

·        As promessas encontram cumprimento nEle.

·        A redenção é realizada por Ele.

·        E a consumação final ocorrerá sob Seu reino eterno.

Por isso Paulo afirma: “porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas” (Romanos 11.36)

 E isso nos conduz naturalmente ao próximo grande tema que vai tratar da obra de Cristo:  Sua humilhação, obediência, expiação, morte e ressurreição.


Rev. Júlio Pinto

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