“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.” (João 1.1)
“E o Verbo se fez carne e
habitou entre nós...” (João 1.14)
“Há um só Deus e um só
Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem.” (1 Timóteo 2.5)
“Porque aprouve a Deus que,
nele, residisse toda a plenitude.” (Colossenses 1.19)
“Amas a justiça e odeias a
iniquidade; por isso, Deus, o teu Deus, te ungiu com o óleo de alegria, como a
nenhum dos teus companheiros.” (Salmo 45.7)
Após tratarmos da aliança da
graça, surge inevitavelmente a pergunta central de toda a redenção: quem é o
Mediador prometido desde Gênesis 3.15? Quem é o Descendente que pisaria a
cabeça da serpente, cumpriria perfeitamente a justiça de Deus, suportaria a
culpa do pecado e reconciliaria pecadores com o Deus santo?
É exatamente aqui que entramos na
doutrina da pessoa de Cristo. Toda a Escritura converge para Ele. A história da
redenção não é organizada em torno do homem, da igreja ou da experiência
religiosa, mas em torno da pessoa e da obra do Filho de Deus encarnado. Cristo
é o centro da aliança da graça, o cumprimento das promessas
veterotestamentárias e o Mediador entre Deus e os homens.
E isso imediatamente nos conduz a
uma verdade absolutamente fundamental da fé cristã: Jesus Cristo é verdadeiro
Deus e verdadeiro homem. Negar qualquer um desses aspectos destrói o evangelho.
Se Cristo não é verdadeiro homem, então não pode representar legitimamente a
humanidade caída. E, se não é verdadeiro Deus, não possui dignidade infinita
para suportar plenamente a ira divina, vencer a morte e salvar eficazmente Seu
povo.
Por isso a Escritura afirma ambas
as verdades simultaneamente.
João declara:
“o Verbo era Deus” (João 1.1)
E logo adiante:
“o Verbo se fez carne” (João 1.14)
Hebreus 1 atribui explicitamente
ao Filho prerrogativas e atributos que pertencem somente a Deus. O próprio
argumento do autor é demonstrar a absoluta superioridade do Filho sobre todas
as criaturas, inclusive os anjos.
Sobre a Eternidade do Filho ele
diz: “mas acerca do Filho: O teu trono, ó Deus, é para todo o sempre; e:
Cetro de eqüidade é o cetro do seu reino. Amaste a justiça e odiaste a
iniqüidade; por isso, Deus, o teu Deus, te ungiu com o óleo de alegria como a
nenhum dos teus companheiros. Ainda: No princípio, Senhor, lançaste os
fundamentos da terra, e os céus são obra das tuas mãos; eles perecerão; tu,
porém, permaneces; sim, todos eles envelhecerão qual veste; também, qual manto, os enrolarás, e, como
vestes, serão igualmente mudados; tu, porém, és o mesmo, e os teus anos jamais
terão fim.” (Hebreus 1.8-12)
O texto aplica ao Filho palavras
originalmente dirigidas a Yahweh no Salmo 102. Isso aponta para Sua
imutabilidade e eternidade.
Acerca da glória divina de Cristo,
afirma: “Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser...”
(Hebreus 1.3). Cristo não apenas reflete parcialmente a glória divina; Ele é o
“resplendor” dela e a expressão exata do ser de Deus.
Sobre a autoridade soberana diz: “Assenta-te
à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por estrado dos teus pés.”
(Hebreus 1.13). O Filho recebe entronização soberana à direita de Deus, posição
de governo e domínio universal. Também: “Mas acerca do Filho: O teu trono, ó
Deus, é para todo o sempre...” (Hebreus 1.8). O próprio Filho é chamado “Deus”
e possui trono eterno.
Não só estava na criação do
universo: “...pelo qual também fez o universo.” (Hebreus 1.2); E ainda: “Tu,
Senhor, no princípio fundaste a terra...” (Hebreus 1.10). O Filho não é
parte da criação, nem apenas estava na criação; Ele é o Criador.
Ele sustenta continuamente todas
as coisas: “...sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder...”
(Hebreus 1.3). Aqui aparece a doutrina da providência ligada diretamente a
Cristo. O universo não apenas foi criado por Ele; continua existindo porque é
continuamente sustentado por Seu poder soberano. Isso conecta diretamente a
cristologia com aquilo que já foi estabelecido anteriormente acerca:
·
da criação;
·
da providência;
·
e da soberania divina.
O universo existe por meio dEle e
continua existindo por Seu poder sustentador.
Isso destrói completamente
qualquer tentativa de reduzir Cristo a mero mestre moral, profeta iluminado ou
líder religioso excepcional. Cristo não é apenas alguém que aponta para Deus.
Ele é Deus revelado em carne.
Paulo declara: “porque nele
habita corporalmente toda a plenitude da Divindade” (Colossenses 2.9). Observe
cuidadosamente: “CORPORALMENTE”. A encarnação não foi aparência
simbólica nem manifestação temporária ilusória. O Filho assumiu verdadeira
natureza humana.
Ao longo da história surgiram
erros que espiritualizaram Cristo de tal forma que praticamente negaram Sua
humanidade real. Em certas perspectivas, a matéria passa a ser vista como
inferior, indigna ou incompatível com a verdadeira espiritualidade. Entretanto,
a própria encarnação destrói completamente essa ideia. O Filho eterno assumiu carne
verdadeira: Não aparência de corpo, não era uma manifestação simbólica, nem
tampouco se tratou de mera projeção espiritual.
Cristo:
·
nasceu;
·
cresceu;
·
cansou-se;
·
chorou;
·
sofreu;
·
sangrou;
·
morreu;
·
e ressuscitou corporalmente.
A redenção bíblica não é fuga da
criação material, mas restauração da criação caída. O problema nunca foi a
materialidade criada por Deus, mas o pecado que corrompeu o homem. Como vimos
anteriormente ao tratar da queda, a corrupção entrou na criação por meio da
rebelião moral da criatura, não pela existência do mundo físico em si, ao que
Deus havia dito quando criou: “Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era
muito bom.” (Genesis 1:31)
Isso também possui profundas
implicações para a vida cristã. A espiritualidade bíblica não separa
artificialmente corpo e espírito como se o corpo fosse irrelevante para Deus ou
incompatível com verdadeira santidade. O mesmo Cristo que assumiu carne verdadeira
é também o modelo perfeito da humanidade restaurada. Paulo afirma que os
eleitos foram “predestinados para serem conformes à imagem de seu Filho”
(Romanos 8.29).
Isso não significa participação
na essência divina, mas conformidade progressiva à santidade de Cristo. E essa
conformidade não ocorre apenas em abstrações interiores desligadas da vida
concreta, mas alcança o homem inteiro. O culto cristão envolve corpo, mente,
afetos, vontade e existência concreta diante de Deus. Por isso Paulo exorta: “apresenteis
o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso
culto racional” (Romanos 12.1).
Isso confronta diretamente
qualquer espiritualidade que trate a matéria, o corpo ou a vida concreta como
algo inerentemente inferior ou indigno do serviço a Deus. Cristo viveu
corporalmente em perfeita obediência ao Pai. Sua encarnação demonstra não
apenas a realidade da redenção, mas também que a verdadeira santidade pode e
deve manifestar-se ainda nesta vida concreta, mesmo em meio à fraqueza da carne
caída. O problema do homem não está no fato de possuir corpo, mas no pecado que
corrompe o homem inteiro.
1.
Por isso a ressurreição de Cristo é corporal.
2.
Por isso a ressurreição futura dos santos será
corporal.
3.
Por isso a redenção final alcançará inclusive a
própria criação que geme debaixo da corrupção (Romanos 8.19-23).
A fé cristã não é religião da
fuga do mundo criado, mas é a religião que mostra a redenção do homem inteiro.
Ao mesmo tempo, a Escritura
também rejeita qualquer tentativa de reduzir Cristo apenas à Sua humanidade. Isso
ocorre frequentemente em abordagens liberais modernas que transformam Jesus
apenas em um mestre ético, revolucionário social, símbolo de amor ou exemplo
moral. Mas Cristo reivindica autoridade divina, perdoa pecados, recebe adoração,
afirma unidade com o Pai e é explicitamente chamado Deus nas Escrituras. Tomé
declara: “Senhor meu e Deus meu!” (João 20.28). E Cristo não corrige a
afirmação. A divindade de Cristo é indispensável para o evangelho uma vez que somente
Deus pode salvar, somente Deus possui vida em Si mesmo. Ainda precisamos
ressaltar que somente Deus pode vencer plenamente o pecado, a morte, o próprio
Satanás, bem como o juízo.
Sobre Deus vencer o juízo,
falamos da obra de Cristo que: satisfez plenamente a justiça divina; removeu a
condenação jurídica do pecado (culpa); suportou a ira santa de Deus na cruz e
triunfou definitivamente sobre o veredito condenatório que pesa sobre os
pecadores. Isso também ilumina profundamente tudo aquilo que vimos anteriormente
sobre a santidade divina, a justiça divina e a aliança da graça.
O problema do pecado não poderia
ser resolvido simplesmente por relaxamento moral de Deus. A culpa exigia
satisfação real da justiça divina. A corrupção exigia redenção real da natureza
humana. A morte exigia vitória real sobre o juízo. Por isso o Mediador
precisava ser plenamente homem e plenamente Deus.
A Confissão de Fé de Westminster
afirma exatamente isso ao declarar que Cristo possui duas naturezas completas,
distintas e inseparáveis em uma única pessoa. Isso é chamado de união
hipostática (realidade subsistente).
Isso significa que Cristo não é duas
pessoas, nem mistura confusa de naturezas, nem homem divinizado e, tampouco é Deus
transformado em homem. Ele é: um só Cristo, possui duas naturezas sendo: verdadeira
divindade e verdadeira humanidade. Sem confusão, sem divisão, sem alteração, sem
separação. A natureza divina não deixou de ser divina. A natureza humana não
deixou de ser humana. O Filho assumiu aquilo que não possuía anteriormente:
humanidade verdadeira.
Filipenses 2 descreve isso de
maneira profundamente gloriosa: “subsistindo em forma de Deus... a si mesmo
se humilhou...” (Filipenses 2.6-8). Isso não significa que Cristo abandonou
Sua divindade na encarnação. A chamada “kenosis” não é esvaziamento da
natureza divina. O Filho não deixou de possuir atributos divinos. O “esvaziamento”
refere-se à humilhação voluntária assumida na condição de servo.
Cristo não deixou de ser Deus. Ele
adicionou humanidade à Sua pessoa divina. Isso também evita erros extremamente
perigosos que imaginam um Cristo menos divino durante a encarnação, limitado
ontologicamente (em seu ser) ou separado parcialmente de Seus atributos
eternos. Mesmo encarnado, o Filho continua sustentando todas as coisas pela
palavra do Seu poder.
E aqui aparece novamente a glória
da redenção. O eterno entra no tempo. O Criador entra na criação. O Legislador
coloca-se sob a lei. O Santo assume a condição humana sem pecado. O Rei
torna-se servo. O Juiz coloca-se no lugar de condenados. E, tudo isso, para
salvar Seu povo. Hebreus afirma: “convinha que, em todas as coisas, se
tornasse semelhante aos irmãos...” (Hebreus 2.17)
Cristo é o segundo Adão.
·
Onde o primeiro Adão falhou, Cristo obedeceu
perfeitamente.
·
Onde Adão trouxe condenação, Cristo traz
justificação.
·
Onde Adão trouxe morte, Cristo traz vida.
Isso nos conduz diretamente à:
·
queda;
·
pacto das obras;
·
culpa imputada;
·
e redenção.
A história inteira da humanidade
está representada federalmente em dois homens: Adão e Cristo. E somente os
unidos a Cristo participam da reconciliação, da justiça, da vida eterna e da
glorificação futura.
Além disso, Cristo exerce os
ofícios de profeta, sacerdote e rei. Como profeta, revela perfeitamente Deus ao
Seu povo. Como sacerdote, oferece a Si mesmo em sacrifício pelos pecados e
intercede continuamente pelos Seus. Como rei, governa soberanamente Sua igreja
e subjuga todos os Seus inimigos.
Isso também corrige um erro
moderno extremamente comum: querer um Cristo Salvador sem o Seu Senhorio. O
Cristo bíblico não oferece apenas conforto espiritual. Ele exige:
arrependimento, submissão, fé, obediência e adoração. Não existe união
verdadeira com Cristo sem sujeição ao Seu governo, o qual Ele exerce pelos
meios ordinários que Ele mesmo determinou: Igreja visível (1 Timóteo 3.15),
ajuntamento solene (Hebreus 10.25), povo guiado pelos que Ele mesmo chamou ao
ministério (Efésios 4.11-12; Hebreus 13.17).
Decorrente disso, esta distorção
moderna extremamente difundida em certos ambientes evangélicos contemporâneos:
a ideia de um “Cristo apenas Salvador”, mas não necessariamente Senhor é vista
nos apelos aos finais de culto. Em muitas formulações populares, apresenta-se
Cristo quase como uma oferta opcional de benefícios espirituais, enquanto Seu
governo, autoridade e direito absoluto sobre a vida do homem são relativizados
ou adiados. Entretanto, a linguagem dominante das Escrituras segue exatamente a
direção oposta.
Os apóstolos não chamavam os
homens a uma mera “aceitação de benefícios espirituais”, mas à rendição diante
do Senhor ressurreto. A pregação apostólica em Atos é profundamente centrada no
senhorio de Cristo. Pedro declara: “Saiba, pois, com certeza, toda a casa de
Israel que a esse Jesus, que vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo”
(Atos 2.36). Paulo afirma: “Se, com a tua boca, confessares Jesus como
Senhor...” (Romanos 10.9). E novamente: “ninguém pode dizer: Senhor
Jesus!, senão pelo Espírito Santo” (1 Coríntios 12.3). A própria
proclamação apostólica era resumida frequentemente na expressão: “Jesus
Cristo é o Senhor” (Filipenses 2.11). E, Pedro destaca fortemente: “...antes,
santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração, estando sempre preparados
para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós...”
(1 Pedro 3.15”.
Isso não significa que a salvação
seja produzida por mérito humano de submissão perfeita. A própria fé salvadora
é dom da graça. Entretanto, significa que o Cristo recebido pela fé nunca é
dividido. O mesmo Cristo que salva é o Cristo que reina. O mesmo Cristo que
justifica também governa. Não existe, nas Escrituras, um “Cristo Salvador”
separado de Seu senhorio soberano.
Por isso, a salvação aparece nas
Escrituras como consequência da união verdadeira com Cristo pela fé. E essa
união envolve necessariamente reconhecimento de Sua autoridade, rendição diante
de Seu governo e sujeição à Sua Palavra. O evangelho apostólico não oferece um
Cristo moldado às preferências do homem natural, mas anuncia o Rei exaltado
diante de quem todo joelho deve se dobrar (Filipenses 2.10-11).
Ao mesmo tempo, não existe
esperança para pecadores fora dEle. Porque somente Cristo: satisfaz
perfeitamente a justiça divina, remove verdadeiramente a culpa, quebra o
domínio do pecado, derrota Satanás; vence a morte e reconcilia o homem com
Deus. Tudo converge para Ele.
·
A criação aponta para Ele.
·
A providência é governada por Ele.
·
A aliança da graça é estabelecida nEle.
·
As promessas encontram cumprimento nEle.
·
A redenção é realizada por Ele.
·
E a consumação final ocorrerá sob Seu reino
eterno.
Por isso Paulo afirma: “porque
dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas” (Romanos 11.36)
Rev. Júlio Pinto