quarta-feira, 3 de junho de 2026

TEMA 45 - A COMUNHÃO DOS SANTOS

  Ora, vós sois corpo de Cristo; e, individualmente, membros desse corpo.

(1 Coríntios 12.27)

 

A doutrina da comunhão dos santos ocupa posição central na compreensão bíblica da igreja. Ela não descreve simplesmente relacionamentos humanos desenvolvidos entre pessoas que compartilham interesses religiosos semelhantes, nem se reduz a amizade, convivência social ou participação em atividades eclesiásticas. A comunhão dos santos é uma realidade espiritual produzida pela união que todos os verdadeiros crentes possuem com Cristo e, por consequência, uns com os outros.

Desde o princípio da história da redenção, Deus nunca tratou Seu povo como indivíduos isolados. Ao chamar Abraão, o Senhor não prometeu apenas salvar um homem, uma tribo, ou mesmo nação, mas constituir uma descendência, um povo pertencente à Sua aliança (Gn 12.1-3; 17.1-8).

Contudo, a promessa abraâmica possuía alcance muito maior do que a formação de Israel segundo a carne. O próprio Senhor declarou: “em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gn 12.3). O Novo Testamento interpreta essa promessa como anúncio antecipado da inclusão dos gentios na mesma aliança da graça mediante a fé em Cristo. Paulo afirma que Deus “preanunciou o evangelho a Abraão: Em ti serão abençoados todos os povos” (Gl 3.8), identificando Cristo como o Descendente prometido em quem essa bênção encontraria seu cumprimento definitivo (Gl 3.16).

Por essa razão, todos os que pertencem a Cristo são também considerados descendência de Abraão e herdeiros segundo a promessa (Gl 3.29). A igreja neotestamentária não surge, portanto, como um povo distinto daquele que Deus prometera formar em Abraão, mas como a manifestação mais plena da mesma comunidade pactual agora reunida dentre judeus e gentios sob o senhorio do Messias.

É exatamente isso que Paulo desenvolve ao afirmar que Cristo derrubou a “parede de separação ... e fez dos dois povos um só homem novo... por intermédio da cruz... já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos...” (Ef 2.11-22). Da mesma forma, quando Cristo veio ao mundo, não morreu apenas para reunir pecadores dispersos individualmente, mas para congregar um só povo redimido. João registra essa verdade ao afirmar que Cristo morreria “não somente pela nação, mas também para reunir em um só corpo os filhos de Deus, que andam dispersos” (Jo 11.49-52).

A comunhão dos santos (igreja visível), portanto, constitui uma das expressões visíveis do cumprimento dessa antiga promessa feita a Abraão, pois nela homens e mulheres de toda tribo, língua, povo e nação são reunidos em um único corpo, participando da mesma fé, da mesma salvação e da mesma herança em Cristo. (Ap 5.9-10; Ef 4.4-6).

A comunhão dos santos, desta feita, não surge da iniciativa humana. Ela nasce da obra soberana de Deus em Cristo. Antes de sermos unidos uns aos outros, fomos unidos ao próprio Senhor. A comunhão horizontal é consequência da comunhão vertical. O vínculo entre os crentes não é produzido pela afinidade natural, mas pela graça redentora. Justamente por isso, as Escrituras também ensinam que ninguém pode reivindicar legitimamente comunhão com Deus enquanto vive deliberadamente apartado da comunhão de Seu povo. O amor aos irmãos não produz a união com Cristo, mas a manifesta. A comunhão horizontal não é a causa da comunhão vertical, mas sua evidência necessária, pois aquele que foi verdadeiramente unido ao Senhor é igualmente unido àqueles que pertencem ao mesmo corpo. Como escreve o apóstolo João: “Se alguém disser: Amo a Deus, e odiar a seu irmão, é mentiroso” (1Jo 4.20). Assim, a comunhão dos santos torna-se uma das expressões visíveis da realidade invisível da união com Cristo.

1. O que é a comunhão dos santos

Historicamente, a igreja confessou essa verdade no Credo Apostólico ao declarar: “Creio na comunhão dos santos”. Essa expressão não significa, primeiramente, comunhão com santos falecidos, nem invocação daqueles que já partiram desta vida, como posteriormente desenvolveu a teologia romana. O sentido bíblico da expressão aponta para a participação comum de todos os santos nas bênçãos de Cristo e na vida do Seu corpo.

Quando o Novo Testamento utiliza o termo “santos”, ele não se refere a uma elite espiritual excepcional, mas ao conjunto dos crentes separados por Deus para Si. Paulo escreve “aos santos que vivem em Éfeso” (Ef 1.1), “aos santos em Cristo Jesus que vivem em Filipos” (Fp 1.1) e emprega linguagem semelhante em diversas outras cartas. Todos os regenerados são santos porque foram santificados em Cristo. Aliás, o uso predominante do termo, santos, nas Escrituras refere-se precisamente aos crentes vivos que compõem a igreja de Cristo em sua peregrinação terrena.

Essa santidade que é atribuída aos santos não decorre de uma canonização posterior nem de méritos extraordinários, mas da obra santificadora de Deus realizada em todos aqueles que pertencem a Cristo. Mesmo quando a Escritura menciona os santos já glorificados, jamais os apresenta como objeto de invocação religiosa ou mediação espiritual, mas simplesmente como membros do mesmo povo redimido, mas que, agora, se encontra na presença do Senhor.

Assim, a comunhão dos santos consiste na participação comum de todos os crentes na mesma salvação, no mesmo Salvador, no mesmo Espírito, na mesma fé e na mesma herança eterna.

Paulo expressa essa unidade quando escreve: “Há somente um corpo e um Espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos.” (Ef 4.4-6)

Observe como toda a estrutura da unidade cristã está fundamentada na própria obra de Deus. Não se trata de mera cooperação humana. A comunhão dos santos existe porque Deus a criou.

 

2. A união com Cristo como fundamento da comunhão

O fundamento da comunhão dos santos não é a igreja em si mesma, mas Cristo. A própria linguagem utilizada por nosso Senhor em João 15 demonstra isso. Cristo se apresenta como a videira verdadeira e Seus discípulos como os ramos: “Eu sou a videira; vós, os ramos. Quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto.” (Jo 15.5). Observe o critério estabelecido pelo Senhor. Os ramos não estão unidos primeiramente entre si. Todos estão unidos à videira. É precisamente essa união comum com Cristo que produz a comunhão entre os crentes.

Essa mesma verdade aparece em Efésios 1.22-23: “E pôs todas as coisas debaixo dos pés, e para ser o cabeça sobre todas as coisas, o deu à igreja, a qual é o seu corpo, a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas.” A igreja é corpo porque Cristo é cabeça. Sem união com Cristo não existe igreja, não existe comunhão dos santos, não existe nem participação verdadeira na vida do povo de Deus.

Por essa razão, a comunhão dos santos não pode ser reduzida à convivência externa na igreja visível. Muitas pessoas frequentam a mesma congregação, participam das mesmas atividades e até professam a mesma fé externamente sem jamais terem sido unidas a Cristo pela regeneração. A verdadeira comunhão dos santos pertence, em sua essência, àqueles que foram efetivamente incorporados ao Salvador pela obra do Espírito Santo.

 

3. Um corpo e muitos membros

A metáfora mais desenvolvida da comunhão dos santos aparece em 1 Coríntios 12. A igreja de Corinto enfrentava divisões, rivalidades e exaltação indevida de determinados dons espirituais. Em resposta, Paulo utiliza a figura do corpo humano para demonstrar a unidade orgânica da igreja. “Porque, assim como o corpo é um e tem muitos membros, e todos os membros, sendo muitos, constituem um só corpo, assim também com respeito a Cristo.” (1Co 12.12)

O apóstolo prossegue demonstrando que a diversidade dos membros não destrói a unidade do corpo. Pelo contrário, a torna possível. O olho não pode dizer à mão: “Não preciso de ti”. A cabeça não pode dizer aos pés: “Não preciso de vós”. Cada membro possui função distinta, mas todos participam da mesma vida.

Essa realidade corrige dois erros extremamente comuns. O primeiro é o individualismo espiritual. O segundo é a uniformidade eclesiástica. O individualismo afirma que o cristão pode viver independentemente do corpo. Enquanto que a uniformidade eclesiástica exige que todos exerçam exatamente as mesmas funções. Paulo rejeita ambos. A igreja não é composta por indivíduos autônomos, mas também não é composta por cópias idênticas umas das outras. Ela é um corpo vivo, organizado e harmonioso sob o governo de Cristo.

 

4. A comunhão dos santos na história da redenção

A comunhão dos santos não começou no Novo Testamento. Ela possui raízes em toda a história da redenção. Os crentes do Antigo Testamento e os crentes do Novo Testamento não constituem dois povos distintos de Deus. Como vimos anteriormente, existe um único povo da aliança sendo reunido progressivamente ao longo da história.

Paulo utiliza a figura da oliveira em Romanos 11 para demonstrar essa continuidade. Os gentios convertidos não recebem uma nova árvore, são enxertados na mesma oliveira. Aquelas promessas feitas aos patriarcas continuam encontrando cumprimento no mesmo povo redimido.

De igual modo, Hebreus 11 apresenta uma longa galeria de santos do Antigo Testamento e conclui afirmando: “Ora, todos estes que obtiveram bom testemunho por sua fé não obtiveram, contudo, a concretização da promessa, por haver Deus provido coisa superior a nosso respeito, para que eles, sem nós, não fossem aperfeiçoados.” (Hb 11.39-40). O texto demonstra que existe uma única comunidade redimida aguardando a consumação final. A comunhão dos santos atravessa toda a história da redenção.

 

5. A comunhão da igreja visível e da igreja invisível

A comunhão dos santos também nos ajuda a compreender corretamente a relação entre igreja visível e igreja invisível. A igreja invisível consiste na totalidade dos eleitos de Deus independente de localização geográfica ou temporal. A igreja visível consiste na comunidade histórica daqueles que professam a verdadeira fé juntamente com seus filhos.

Essas duas realidades não são idênticas, mas estão intimamente relacionadas. Nem todos os que pertencem externamente à igreja visível pertencem verdadeiramente a igreja invisível (a Cristo). Contudo, os verdadeiros santos vivem ordinariamente dentro da igreja visível. Por essa razão, a comunhão dos santos não deve ser concebida de maneira puramente mística ou invisível.

A comunhão se manifesta concretamente no culto, na membresia, na vida comunitária, na participação dos meios de graça, no serviço mútuo, na edificação recíproca. Cristo não salva Seus eleitos para permanecem isolados, Ele os incorpora ao Seu corpo.

 

6. Igreja militante e igreja triunfante

A Escritura também apresenta a igreja sob duas condições distintas. Existe a igreja militante e existe a igreja triunfante. A igreja militante corresponde aos crentes que ainda peregrinam neste mundo, lutando contra o pecado, a carne e as tentações. A igreja triunfante corresponde aos santos que já partiram desta vida e estão na presença do Senhor.

 O autor de Hebreus mostra essa realidade quando escreve:  “Mas tendes chegado ao monte Sião e à cidade do Deus vivo, a Jerusalém celestial, e a incontáveis hostes de anjos, e à universal assembleia e igreja dos primogênitos arrolados nos céus.” (Hb 12.22-23). Os santos glorificados continuam pertencendo ao mesmo povo redimido.

Contudo, isso não significa que devam ser invocados, consultados ou transformados em mediadores. A Escritura permanece afirmando: “Porquanto há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem.” (1Tm 2.5). A comunhão dos santos não elimina a mediação exclusiva de Cristo, ela existe precisamente por causa dela.

 

7. A consumação da comunhão dos santos

A comunhão dos santos somente alcançará sua expressão perfeita na consumação final. Hoje a igreja ainda enfrenta divisões, fraquezas, pecados remanescentes e limitações próprias da condição peregrina. Mas a Escritura aponta para o dia em que toda a família de Deus estará reunida diante do trono.

João vislumbrou essa realidade e a descreveu em Apocalipse: “Depois destas coisas, vi, e eis grande multidão que ninguém podia enumerar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, em pé diante do trono e diante do Cordeiro.” (Ap 7.9). Aquilo que hoje experimentamos parcialmente será então conhecido em sua plenitude.

Essa realidade também corrige um erro cada vez mais comum em nossos dias: a ideia de que os defeitos da igreja visível justificariam seu abandono. É verdade que a igreja terrena ainda convive com fraquezas, pecados remanescentes, imaturidades, injustiças e até mesmo escândalos produzidos por homens pecadores. Contudo, essa nunca foi uma realidade desconhecida nas Escrituras. As igrejas do Novo Testamento enfrentaram divisões (1Co 1.10-13), casos graves de imoralidade (1Co 5.1-2), falsos mestres (Gl 1.6-9), hipocrisia (Gl 2.11-14), favoritismo (Tg 2.1-4) e inúmeras outras imperfeições. Ainda assim, em nenhum momento os apóstolos instruíram os crentes a abandonarem a comunhão visível da igreja. A resposta bíblica nunca foi deserção, mas reforma; nunca abandono, mas perseverança; nunca isolamento espiritual, mas compromisso renovado com a verdade, a santidade e a edificação do corpo de Cristo.

A própria existência de pecadores dentro da igreja não invalida sua natureza como povo da aliança; muito antes pelo contrário, o próprio Cristo declarou que “os sãos não precisam de médico, e sim os doentes” (Mc 2.17). A igreja não é reunião de homens perfeitos, mas assembleia de pecadores alcançados pela graça e que ainda se encontram em processo de santificação. Da mesma forma, Cristo já havia ensinado que o joio e o trigo cresceriam juntos até o tempo da colheita (Mt 13.24-30).

A presença de imperfeições na igreja não demonstra que ela fracassou, mas confirma exatamente aquilo que as Escrituras sempre afirmaram acerca de sua condição peregrina neste mundo caído. Quem abandona a comunhão da igreja por causa das imperfeições de seus membros acaba exigindo da igreja presente aquilo que o próprio Deus reservou para a igreja futura e glorificada.

Em muitos casos, essa postura aproxima-se perigosamente da mentalidade daqueles que, em vez de permanecerem na comunhão do povo de Deus lutando por sua edificação e reforma, se afastam do corpo visível de Cristo. Não sem razão, João registra acerca dos que abandonaram a comunhão: “Saíram do nosso meio, mas não eram dos nossos” (1Jo 2.19). O padrão bíblico não é o abandono da igreja por causa de suas imperfeições, mas a perseverança na comunhão dos santos até que Cristo complete Sua obra. E é somente na igreja glorificada que:

  • Não haverá divisões.
  • Não haverá pecado.
  • Não haverá morte.
  • Não haverá separação.

 A comunhão dos santos é, portanto, uma antecipação da eternidade. Cada reunião do povo de Deus, cada culto, cada expressão legítima de amor cristão e cada manifestação da unidade do corpo apontam para o dia em que "Cristo apresentará a Si mesmo uma igreja gloriosa, sem mácula, sem ruga e sem qualquer coisa semelhante" (Ef 5.25-27). A vida da igreja não é apenas uma realidade presente; ela constitui também preparação para a realidade futura. Afinal, se a eternidade será vivida na perfeita comunhão dos santos diante do trono do Cordeiro, como poderá alguém afirmar amar o céu enquanto despreza na terra a companhia daqueles com quem passará a eternidade? Ou, dito de outra forma: se alguém não encontra prazer em estar com a igreja reunida agora, o que espera fazer na eternidade quando estiver para sempre reunido com ela na presença de Cristo?

Por isso, a comunhão dos santos não é um detalhe secundário da vida cristã. Ela é fruto da união com Cristo, expressão visível da obra do Espírito Santo e antecipação da glória futura que aguarda todo o povo da aliança.

 

Soli Deo Gloria.

 

Rev. Júlio Pinto

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