Se, por um instante, nos colocarmos dentro da igreja de Corinto, não como observadores externos, mas como membros reais daquela assembleia concreta à qual Paulo escreve, perceberemos que aquilo que hoje se manifesta no desigrejismo já germinava ali em forma embrionária, porém reconhecível: uma espiritualidade inflada, descolada da ordem instituída por Deus, profundamente marcada por traços gnósticos e inclinações antinomianas.
Havia entre nós alguns que se consideravam superiores, não por maior conformidade à verdade, mas por uma suposta experiência espiritual mais elevada. Chamavam a si mesmos de “espirituais”, ecoando exatamente o problema que Paulo enfrenta ao introduzir o tema em 1Coríntios 12:1, onde a expressão não trata primariamente de “dons espirituais”, mas “dos espirituais”. Isto é, daqueles que assim se julgavam. O apóstolo não está apenas organizando carismas; ele está corrigindo uma elite que reivindicava autoridade baseada em experiências subjetivas, e não na Palavra apostólica.
Esse grupo, embora ainda reunido visivelmente com a igreja, já operava como se estivesse acima dela. A unidade do corpo era relativizada por preferências pessoais: “eu sou de Paulo”, “eu de Apolo”, “eu de Cefas” (cf. 1Coríntios 1:12). Tal fragmentação não era mero partidarismo; era a expressão de uma fé que já havia se deslocado da objetividade do evangelho para a subjetividade das afinidades. Em termos atuais, é o mesmo princípio que leva alguém a rejeitar a igreja visível sob o pretexto de seguir apenas “Cristo”, enquanto redefine Cristo segundo suas próprias inclinações.
Além disso, havia resistência explícita à autoridade apostólica. Alguns entre nós questionavam Paulo, não com base na doutrina, mas na aparência, na retórica e na ausência de imponência externa. Isso se evidencia quando o apóstolo é forçado a defender seu ministério em 2Coríntios 10–13, onde ele confronta aqueles que julgavam “segundo a aparência” (10:7) e desprezavam sua autoridade. Trata-se do mesmo espírito que hoje rejeita qualquer forma de autoridade eclesiástica sob o argumento de uma suposta autonomia espiritual.
No campo moral, o antinomianismo já se manifestava de forma alarmante. Havia tolerância para com pecados escandalosos, como no caso do homem em 1 Coríntios 5, onde a comunidade, em vez de exercer disciplina, se ensoberbecia. Paulo não apenas lamenta o fato; ele ordena uma ação concreta, pública e eclesiástica: “entregue a Satanás para destruição da carne” (5:5), e ainda determina o afastamento relacional: “com tal pessoa nem ainda comais” (5:11). Trata-se de disciplina formal, não de mera reprovação privada. Aqui se revela um padrão: quando a igreja visível é desprezada ou esvaziada em sua autoridade, a santidade deixa de ser regulada pela lei de Deus e passa a ser relativizada pela consciência individual. A ausência de disciplina não é sinal de graça, mas de corrupção.
E é precisamente nesse contexto que Paulo reafirma, direta e indiretamente, a permanência da lei moral, especificamente no exemplo Paulino com respeito ao sétimo mandamento. Ao tratar da imoralidade sexual em 1 Coríntios 6:9-10, ele inclui os impuros e adúlteros entre aqueles que não herdarão o Reino de Deus, não como mera advertência cultural, mas como juízo ético normativo. Logo em seguida, nos versículos 13–20, ele estabelece o fundamento teológico: o corpo não é para a impureza, mas para o Senhor; quem se une a uma prostituta faz-se um só corpo com ela, violando a ordem criacional. Aqui, o sétimo mandamento não apenas é pressuposto, ele é aprofundado à luz da união com Cristo.
Essa mesma mentalidade aparece no modo como tratavam o corpo e a liberdade cristã. Na Primeira carta aos Coríntios 6:12, alguns diziam: “todas as coisas me são lícitas”, usando a liberdade como justificativa para dissolução moral. Paulo responde mostrando que a liberdade cristã não é autonomia, mas submissão redentiva: “não me deixarei dominar por nenhuma delas”. E, ao desenvolver o tema no capítulo 7, ele reafirma positivamente o princípio do sétimo mandamento ao ordenar a pureza conjugal, a fidelidade mútua e a legitimidade do casamento como contexto santo para a sexualidade. O antinomianismo moderno repete exatamente esse erro ao transformar a graça em licença, ignorando que, para o apóstolo, a graça não anula a lei; antes, a confirma na vida redimida.
No culto, a desordem era evidente. Cada um queria exercer sua “espiritualidade” de forma autônoma, sem consideração pelo corpo. Isso é corrigido no capítulo 14, onde Paulo estabelece que o culto deve ser conduzido com ordem, inteligibilidade e edificação comum. A espiritualidade que rejeita forma, ordem e submissão não é mais elevada; é, na verdade, inferior e infantil.
Até mesmo a Ceia do Senhor havia sido capturada por esse espírito individualista. No capítulo 11:17-34, vemos que a comunhão havia sido rompida: ricos comiam antes, pobres passavam necessidade, e o corpo era desprezado. O resultado não era liberdade, mas juízo. Aqui está um princípio crucial: onde a igreja visível é negligenciada, os meios de graça são corrompidos.
Portanto, o que hoje se apresenta como novidade: uma fé sem igreja, uma espiritualidade sem mediações, uma liberdade sem lei; nada mais é do que a reedição dos mesmos erros combatidos por Paulo em Corinto. O gérmen gnóstico aparece na pretensão de uma espiritualidade superior, imediata e desvinculada da ordem externa; o antinomianismo se revela na rejeição prática da lei de Deus como norma de vida. Ambos convergem em um mesmo ponto: a negação da forma concreta pela qual Cristo governa e edifica o seu povo.
E a resposta apostólica permanece a mesma: retorno à objetividade da Palavra, submissão à autoridade instituída, restauração da ordem no culto, exercício da disciplina e reconhecimento de que não há Cristo sem corpo, nem espiritualidade verdadeira fora dos meios ordinários estabelecidos por Deus.
rev. Júlio Pinto
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