segunda-feira, 6 de abril de 2026

Um desigrejado na igreja de Corinto

Se, por um instante, nos colocarmos dentro da igreja de Corinto, não como observadores externos, mas como membros reais daquela assembleia concreta à qual Paulo escreve, perceberemos que aquilo que hoje se manifesta no desigrejismo já germinava ali em forma embrionária, porém reconhecível: uma espiritualidade inflada, descolada da ordem instituída por Deus, profundamente marcada por traços gnósticos e inclinações antinomianas.

Havia entre nós alguns que se consideravam superiores, não por maior conformidade à verdade, mas por uma suposta experiência espiritual mais elevada. Chamavam a si mesmos de “espirituais”, ecoando exatamente o problema que Paulo enfrenta ao introduzir o tema em 1Coríntios 12:1, onde a expressão não trata primariamente de “dons espirituais”, mas “dos espirituais”. Isto é, daqueles que assim se julgavam. O apóstolo não está apenas organizando carismas; ele está corrigindo uma elite que reivindicava autoridade baseada em experiências subjetivas, e não na Palavra apostólica.

Esse grupo, embora ainda reunido visivelmente com a igreja, já operava como se estivesse acima dela. A unidade do corpo era relativizada por preferências pessoais: “eu sou de Paulo”, “eu de Apolo”, “eu de Cefas” (cf. 1Coríntios 1:12). Tal fragmentação não era mero partidarismo; era a expressão de uma fé que já havia se deslocado da objetividade do evangelho para a subjetividade das afinidades. Em termos atuais, é o mesmo princípio que leva alguém a rejeitar a igreja visível sob o pretexto de seguir apenas “Cristo”, enquanto redefine Cristo segundo suas próprias inclinações.

Além disso, havia resistência explícita à autoridade apostólica. Alguns entre nós questionavam Paulo, não com base na doutrina, mas na aparência, na retórica e na ausência de imponência externa. Isso se evidencia quando o apóstolo é forçado a defender seu ministério em 2Coríntios 10–13, onde ele confronta aqueles que julgavam “segundo a aparência” (10:7) e desprezavam sua autoridade. Trata-se do mesmo espírito que hoje rejeita qualquer forma de autoridade eclesiástica sob o argumento de uma suposta autonomia espiritual.

No campo moral, o antinomianismo já se manifestava de forma alarmante. Havia tolerância para com pecados escandalosos, como no caso do homem em 1 Coríntios 5, onde a comunidade, em vez de exercer disciplina, se ensoberbecia. Paulo não apenas lamenta o fato; ele ordena uma ação concreta, pública e eclesiástica: “entregue a Satanás para destruição da carne” (5:5), e ainda determina o afastamento relacional: “com tal pessoa nem ainda comais” (5:11). Trata-se de disciplina formal, não de mera reprovação privada. Aqui se revela um padrão: quando a igreja visível é desprezada ou esvaziada em sua autoridade, a santidade deixa de ser regulada pela lei de Deus e passa a ser relativizada pela consciência individual. A ausência de disciplina não é sinal de graça, mas de corrupção.

E é precisamente nesse contexto que Paulo reafirma, direta e indiretamente, a permanência da lei moral, especificamente no exemplo Paulino com respeito ao sétimo mandamento. Ao tratar da imoralidade sexual em 1 Coríntios 6:9-10, ele inclui os impuros e adúlteros entre aqueles que não herdarão o Reino de Deus, não como mera advertência cultural, mas como juízo ético normativo. Logo em seguida, nos versículos 13–20, ele estabelece o fundamento teológico: o corpo não é para a impureza, mas para o Senhor; quem se une a uma prostituta faz-se um só corpo com ela, violando a ordem criacional. Aqui, o sétimo mandamento não apenas é pressuposto, ele é aprofundado à luz da união com Cristo.

Essa mesma mentalidade aparece no modo como tratavam o corpo e a liberdade cristã. Na Primeira carta aos Coríntios 6:12, alguns diziam: “todas as coisas me são lícitas”, usando a liberdade como justificativa para dissolução moral. Paulo responde mostrando que a liberdade cristã não é autonomia, mas submissão redentiva: “não me deixarei dominar por nenhuma delas”. E, ao desenvolver o tema no capítulo 7, ele reafirma positivamente o princípio do sétimo mandamento ao ordenar a pureza conjugal, a fidelidade mútua e a legitimidade do casamento como contexto santo para a sexualidade. O antinomianismo moderno repete exatamente esse erro ao transformar a graça em licença, ignorando que, para o apóstolo, a graça não anula a lei; antes, a confirma na vida redimida. 

No culto, a desordem era evidente. Cada um queria exercer sua “espiritualidade” de forma autônoma, sem consideração pelo corpo. Isso é corrigido no capítulo 14, onde Paulo estabelece que o culto deve ser conduzido com ordem, inteligibilidade e edificação comum. A espiritualidade que rejeita forma, ordem e submissão não é mais elevada; é, na verdade, inferior e infantil.

Até mesmo a Ceia do Senhor havia sido capturada por esse espírito individualista. No capítulo 11:17-34, vemos que a comunhão havia sido rompida: ricos comiam antes, pobres passavam necessidade, e o corpo era desprezado. O resultado não era liberdade, mas juízo. Aqui está um princípio crucial: onde a igreja visível é negligenciada, os meios de graça são corrompidos.

Portanto, o que hoje se apresenta como novidade: uma fé sem igreja, uma espiritualidade sem mediações, uma liberdade sem lei; nada mais é do que a reedição dos mesmos erros combatidos por Paulo em Corinto. O gérmen gnóstico aparece na pretensão de uma espiritualidade superior, imediata e desvinculada da ordem externa; o antinomianismo se revela na rejeição prática da lei de Deus como norma de vida. Ambos convergem em um mesmo ponto: a negação da forma concreta pela qual Cristo governa e edifica o seu povo.

E a resposta apostólica permanece a mesma: retorno à objetividade da Palavra, submissão à autoridade instituída, restauração da ordem no culto, exercício da disciplina e reconhecimento de que não há Cristo sem corpo, nem espiritualidade verdadeira fora dos meios ordinários estabelecidos por Deus.


rev. Júlio Pinto 

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