A crítica recorrente dos chamados “desigrejados” ao uso do termo “religioso” revela, antes de tudo, uma confusão conceitual que precisa ser devidamente exposta. Empregam o termo de forma pejorativa, como se “religião” fosse sinônimo de hipocrisia, formalismo vazio ou ausência de espiritualidade autêntica. Contudo, ao fazê-lo, não percebem que não estão rejeitando a religião em si, mas apenas uma determinada forma; e, ironicamente, substituem-na por outra, moldada segundo seus próprios critérios, inclinações e experiências subjetivas.
A Escritura não condena a religião em si, mas a religião falsa. O próprio texto bíblico afirma que existe uma “religião pura e sem mácula diante de Deus” (Tiago 1:27), o que implica que o problema nunca foi a religião enquanto categoria, mas sua corrupção. Portanto, rejeitar o termo “religioso” como tal não é um avanço teológico, mas um empobrecimento conceitual que ignora a distinção fundamental entre verdadeiro e falso culto.
Nesse sentido, o chamado “desigrejismo” não é a ausência de religião, mas a construção de uma religião alternativa, frequentemente menos examinada, menos confessada e, por isso mesmo, mais perigosa. Ainda que se apresente como um movimento de ruptura com estruturas institucionais, ele manifesta, de forma clara, os elementos constitutivos de qualquer sistema religioso. Vejamos:
1. Doutrina (ainda que implícita)
O desigrejado sustenta convicções teológicas definidas: rejeição da igreja visível, crítica à liderança instituída, redefinição do culto e, muitas vezes, uma eclesiologia individualista. Ainda que neguem “dogmas”, operam com pressupostos doutrinários claros, ainda que não sistematizados.
2. Autoridade normativa
Embora frequentemente aleguem seguir “apenas a Bíblia”, na prática, a interpretação pessoal torna-se a autoridade final. Assim, substitui-se a autoridade eclesiástica historicamente reconhecida por uma autonomia interpretativa absoluta, onde o indivíduo se torna seu próprio magistério.
3. Prática litúrgica
A rejeição do culto público não elimina a prática devocional. Ela apenas a redefine: encontros informais, consumo de pregações online, momentos individuais de espiritualidade. Há, portanto, uma liturgia — ainda que desinstitucionalizada — regida por preferências pessoais.
4. Comunidade (ainda que fluida)
Mesmo negando a necessidade de membresia formal, os desigrejados frequentemente se agregam em redes, grupos ou círculos de afinidade. Isso demonstra que a dimensão comunitária da fé não pode ser eliminada, apenas distorcida ou enfraquecida.
5. Identidade e pertencimento
O próprio termo “desigrejado” já indica uma identidade coletiva. Há um senso de pertencimento baseado na oposição à igreja institucional, o que configura uma forma de autoidentificação típica de movimentos religiosos.
6. Ética e prática de vida
Como qualquer sistema religioso, o desigrejismo propõe um modo de viver a fé, com suas próprias ênfases: autenticidade, rejeição de estruturas, crítica ao formalismo. Trata-se de uma ética religiosa, ainda que não codificada.
7. Narrativa de redenção
Frequentemente, há um testemunho comum: “fui ferido pela igreja”, “descobri uma fé mais pura fora dela”. Essa narrativa funciona como um mito de libertação, no qual a saída da igreja institucional é vista como um êxodo rumo à verdadeira espiritualidade.
Diante disso, torna-se evidente que o desigrejismo não escapa da categoria de religião; ele apenas a reformula segundo parâmetros subjetivos. A diferença crucial é que, ao rejeitar a estrutura visível estabelecida por Deus, ele se afasta dos meios ordinários pelos quais o próprio Senhor prometeu edificar, santificar e preservar o seu povo.
A igreja visível, com todas as suas imperfeições, não é uma invenção humana descartável, mas uma ordenança divina. Foi a ela que foram confiados os meios de graça: a pregação da Palavra, a administração dos sacramentos e o exercício da disciplina. Separar-se deliberadamente dessa realidade não é um sinal de maturidade espiritual, mas, em muitos casos, de insubmissão travestida de zelo.
Portanto, a crítica pejorativa ao “religioso” revela-se inconsistente e autocontraditória. Pois aqueles que a fazem não abandonaram a religião; apenas trocaram uma religião histórica, confessional e visível por outra individual, difusa e autorreferente. E, nesse processo, ao invés de purificar a fé, correm o risco de esvaziá-la de sua concretude, de sua comunhão e de sua submissão à ordem estabelecida por Deus.
Rev. Julio Pinto
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