A Igreja do Evangelho Quadrangular surgiu no contexto do pentecostalismo norte-americano do início do século XX, especialmente dentro do movimento de avivamento marcado por experiências carismáticas, curas divinas e ênfase em revelações espirituais extraordinárias. Sua formação está profundamente ligada à figura de Aimee Semple McPherson, considerada a principal fundadora e organizadora da denominação.
Aimee Semple McPherson nasceu no
Canadá, em 1890, e foi influenciada pelo ambiente pentecostal que emergia após
o chamado Avivamento da Rua Azusa (1906), em Los Angeles. Após viagens
evangelísticas pelos Estados Unidos, ela ganhou notoriedade por suas campanhas
públicas de cura, sermões dramatizados e uso pioneiro do rádio para
evangelização.
Em 1923, ela fundou a igreja-sede
conhecida como Angelus Temple, que se tornou o centro do ministério
quadrangular. A denominação foi oficialmente organizada posteriormente como
“International Church of the Foursquare Gospel”.
O nome “Quadrangular” (Foursquare Gospel)
não surgiu de uma formulação teológica histórica clássica, mas de uma
interpretação alegórica apresentada por McPherson durante suas pregações.
Segundo os relatos da própria fundadora, a expressão teria vindo a partir de uma “revelação” associada à visão dos quatro seres viventes de Ezequiel 1 e Apocalipse 4, bem como da expressão “four-square” usada em Ezequiel 40.2 acerca da simetria do templo. Ela passou a interpretar “quadrangular” como uma representação dos quatro aspectos centrais do ministério de Cristo:
·
Cristo como Salvador
·
Cristo como Batizador com o Espírito Santo
·
Cristo como Médico dos corpos (Curador)
·
Cristo como Rei que há de voltar
Esse esquema tornou-se o eixo
doutrinário e identitário da denominação.
A formulação quadrangular de McPherson:
“Cristo Salvador, Batizador com o Espírito Santo, Médico e Rei que há de
voltar” possui um valor didático interno, mas, quando analisada à luz da
estrutura bíblica do Novo Testamento, especialmente sob uma leitura histórico-gramatical,
ela introduz uma separação conceitual que a Escritura não sustenta entre a obra
salvífica de Cristo e a doação do Espírito Santo.
A questão central não é negar os
aspectos da obra de Cristo, mas perceber que o Novo Testamento apresenta uma
unidade orgânica entre o senhorio de Cristo, sua obra salvadora e o dom do
Espírito, de modo que certas distinções feitas no esquema quadrangular acabam
deslocando a coerência teológica do texto bíblico.
1. “Cristo Salvador” e “Cristo
Batizador com o Espírito Santo”: uma unidade bíblica
No Novo Testamento, a salvação em
Cristo não é apresentada como uma realidade separada da recepção do Espírito,
como se fossem duas experiências distintas e cronologicamente separáveis. Pelo
contrário, receber Cristo implica receber o Espírito, e ser salvo implica ser
incorporado à nova vida espiritual.
Paulo é particularmente claro:
“Se alguém não tem o Espírito de
Cristo, esse tal não é dele” (Rm 8.9).
“Pois todos nós fomos batizados
em um Espírito, formando um corpo” (1Co 12.13).
“...em quem também vós, depois que
ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, tendo nele também
crido, fostes selados com o Santo Espírito da promessa;” (Ef 1.13)
Aqui, o “batismo no Espírito” não
aparece como uma segunda experiência subsequente à salvação, mas como a própria
linguagem da incorporação regeneradora ao corpo de Cristo.
Efésios 1.13 é um dos textos mais
importantes para compreender a linguagem neotestamentária sobre a obra do
Espírito Santo na conversão e na incorporação do crente a Cristo. Paulo
escreve:
“...em quem também vós, depois
que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, e nele
também, tendo crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa.”
A expressão “selados com o Espírito
Santo” (gr. sphragizō) não descreve uma experiência paralela ou posterior à fé
salvadora, mas o ato definitivo de pertencimento, autenticação e incorporação
do crente a Cristo no momento da conversão.
1. O ser “selado” como linguagem de
propriedade e pertencimento
No mundo greco-romano, um selo era usado para indicar:
·
posse (algo pertence a alguém),
·
autenticidade (algo é verdadeiro),
·
proteção (algo está garantido),
·
identidade (marca de quem é o dono).
Assim, quando Paulo diz que o crente é “selado com o Espírito”, ele está afirmando que o Espírito Santo é:
·
o sinal eficaz de que o crente pertence a
Cristo, (o batismo invisível)
·
a marca da autenticidade da fé verdadeira,
· e o garantidor escatológico da salvação final.
Isso está em harmonia com Efésios
1.14, onde o Espírito é chamado de “penhor da nossa herança”.
2. Ser “selado” e “batismo no Espírito”: unidade de linguagem, não de eventos
A tradição pentecostal
frequentemente distingue entre a conversão (crer em Cristo), e “batismo no
Espírito Santo” como experiência subsequente. No entanto, em textos como
Efésios 1.13, Romanos 8.9 e 1 Coríntios 12.13, a Escritura apresenta o
recebimento do Espírito como algo inseparável da fé salvadora.
Quando Paulo fala de “ser selado”, ele está descrevendo a mesma realidade teológica que outros textos descrevem como:
“ser batizado em um Espírito”
(1Co 12.13)
“receber o Espírito de Cristo”
(Rm 8.9)
“nascer do Espírito” (Jo
3.5–8)
“habitação do Espírito em vós” (Rm 8.11)
Essas não são experiências
concorrentes, mas variações linguísticas que enfatizam aspectos diferentes de
uma única obra do Espírito na união com Cristo.
As quatro ocorrências da manifestação
do Espírito em Atos em locais distintos, apenas cumprem essa mesma perspectiva.
Em Atos 2 não se trata somente do cumprimento da promessa feita através de
Joel, mas também marca o início do cumprimento de uma profecia de Cristo feita
em Atos 1.8 (Jerusalém, Judeia, Samaria e até os confins da terra) e
progressivamente se cumpre em Atos 2, 8, 10, 19.
3. O “batismo com o Espírito” como incorporação, não segunda experiência
Em 1 Coríntios 12.13, Paulo define:
“Pois todos nós fomos batizados em um Espírito, formando um corpo...” Aqui,
o “batismo no Espírito” não é apresentado como um evento emocional
posterior, mas como o ato pelo qual o crente é inserido em Cristo, incorporado
ao corpo da igreja e tornado participante da nova aliança. Esse mesmo efeito é
o que Efésios 1.13 chama de “ser selado”.
Ou seja:
“batismo no Espírito”
(ênfase na incorporação)
“ser selado com o Espírito”
(ênfase na propriedade e garantia)
Estas são duas
descrições da mesma realidade redentiva.
4. Unidade da obra do Espírito na conversão
O Novo Testamento não fragmenta a
obra do Espírito em etapas independentes. Ao contrário, Ele é descrito como
aquele que simultaneamente convence do pecado (Jo 16.8), regenera (Jo 3.5–8), une
a Cristo (1Co 6.17), habita no crente (Rm 8.9–11), sela o crente (Ef 1.13–14) e
o insere no corpo (1Co 12.13).
Essas expressões não indicam
múltiplas “recepções do Espírito”, mas múltiplos aspectos de uma única obra
aplicada no momento da fé salvadora.
À luz de Efésios 1.13, é
teologicamente consistente afirmar que “ser selado com o Espírito Santo”
não é uma experiência isolada, nem uma fase posterior da vida cristã, mas uma
descrição apostólica da própria aplicação da salvação pelo Espírito no momento
da fé em Cristo.
Portanto, expressões como:
·
Ser selado (Ef 1.13),
·
batismo no Espírito (1Co 12.13),
·
habitação do Espírito (Rm 8.9),
·
regeneração (Jo 3.5–8),
não devem ser lidas
como eventos separados, mas como diferentes ângulos linguísticos de uma única
realidade: a união do crente com Cristo pelo Espírito Santo no ato da
conversão.
Assim, o que a tradição
quadrangular separa em dois títulos funcionais (“Salvador” e “Batizador”) o
Novo Testamento frequentemente apresenta como um único ato redentor de Cristo
aplicado pelo Espírito em união com Ele.
O Espírito Santo não atua como uma
“segunda fase” independente da obra de Cristo; Ele é o agente da aplicação da
salvação de Cristo, de modo que o “batismo no Espírito” é, em essência, a
aplicação da obra salvadora já consumada por Cristo.
2. O senhorio de Cristo como eixo da salvação (e não apenas “Salvador”)
Um ponto decisivo no Novo
Testamento é que Cristo não é primariamente apresentado como “Salvador” em
termos isolados, mas como Senhor e Cristo, cuja salvação é consequência da
submissão à sua autoridade. A pregação apostólica enfatiza isso de forma
consistente:
“Antes, santificai a Cristo como
Senhor em vosso coração” (1Pe 3.15).
“Se com a tua boca confessares
Jesus como Senhor e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os
mortos, serás salvo” (Rm 10.9).
“Deus o fez Senhor e Cristo” (At 2.36).
Note a estrutura: o título
normativo não é “Salvador”, mas “Senhor”. A salvação é apresentada como
resultado da fé obediente ao senhorio de Cristo, não como uma adesão parcial a
um de seus “aspectos funcionais”.
Em Paulo, a lógica é ainda mais
direta: a conversão é descrita como transferência de domínio, do reino das
trevas para o senhorio de Cristo (Cl 1.13). Isso significa que ser salvo é ser
governado por Cristo.
Assim, o reducionismo prático que
separa “aceitar Cristo como Salvador” de “submeter-se a Cristo como Senhor” não
encontra apoio na estrutura apostólica. O Novo Testamento não apresenta duas
recepções de Cristo, mas uma única união com Ele que inclui perdão, regeneração
e submissão.
3. A distorção conceitual do esquema “Salvador vs. Batizador”
Quando se cria uma distinção
funcional entre: Cristo como Salvador (justificação/perdão) Cristo como
Batizador (experiência subsequente do Espírito), abre-se espaço para uma
teologia de “duas etapas” da vida cristã: Aceitação inicial de Cristo para
salvação e uma posterior experiência do Espírito como plenitude separada.
Contudo, o Novo Testamento apresenta
que a regeneração é obra do Espírito (Jo 3.5–8); de que a fé salvadora já é
operada pelo Espírito (1Co 12.3) e que a união com Cristo já inclui
participação no Espírito (Rm 8.9–11). Portanto, a lógica bíblica não comporta
uma separação entre “Cristo Salvador” e “Cristo Batizador”, pois o Espírito não
adiciona uma segunda obra de Cristo; Ele aplica a única obra de Cristo na vida
do crente.
4. A centralidade apostólica:
Cristo como Senhor crucificado e ressuscitado
A ênfase dos evangelhos e das
epístolas não é fragmentar Cristo em funções, mas proclamá-lo em sua identidade
integral de Cristo crucificado, ressuscitado e exaltado como Senhor. Paulo
resume isso ao dizer que sua pregação não era uma coleção de experiências
espirituais, mas uma única mensagem: “Jesus Cristo, e este crucificado”
(1Co 2.2).
Pedro, por sua vez, chama à fé em
Cristo como fundamento de esperança e santificação, não como um conjunto de
“níveis espirituais” a serem alcançados separadamente.
O esquema quadrangular, embora útil
como linguagem catequética interna, tende a produzir três deslocamentos
teológicos relevantes à luz do Novo Testamento:
1.
Fragmenta a unidade da obra de Cristo, separando
funções que a Escritura integra.
2.
Cria uma divisão artificial entre salvação e
Espírito, quando ambos são inseparáveis na aplicação da redenção.
3.
Reduz o senhorio de Cristo a uma função entre
outras, quando o testemunho apostólico o coloca como eixo central da fé e da
salvação.
Na perspectiva bíblica reformada não
se trata de negar que Cristo salva, batiza com o Espírito, cura e reina, mas de
afirmar que tudo isso flui de uma única realidade central: Jesus Cristo é o
Senhor exaltado, cuja obra redentora é aplicada pelo Espírito Santo naqueles
que, pela fé, são unidos a Ele.
Principais doutrinas da
Quadrangular
A igreja mantém crenças comuns ao evangelicalismo histórico, como:
1.
Trindade;
2.
divindade de Cristo;
3.
autoridade das Escrituras;
4.
necessidade de conversão;
5.
morte e ressurreição de Cristo.
Todavia, diversas de suas doutrinas
e práticas entram em conflito com o cristianismo bíblico.
Pontos de oposição ao cristianismo
1. Continuação normativa dos dons
revelacionais
A tradição quadrangular sustenta a
continuidade normativa de: profecias, revelações, línguas, palavras de
conhecimento, curas miraculosas frequentes.
O cristianismo bíblico,
especialmente em sua tradição confessional histórica reformada, entende que os
dons revelacionais extraordinários tinham função fundacional apostólica e
cessaram com o fechamento do cânon bíblico e a conclusão da era apostólica.
Os reformados veem com cautela a
ideia de “novas revelações”, por entenderem que a suficiência das Escrituras já
foi plenamente estabelecida (2Tm 3.16-17; Hb 1.1-2; Jd 3). Obs. Há um estudo disponível
somente para esse assunto. Caso queira aprofundar, deixe seu contato nos
comentários que envio o arquivo.
2. Ênfase experiencial acima da
centralidade bíblica
O pentecostalismo quadrangular historicamente enfatiza:
·
experiências espirituais subjetivas,
·
manifestações sobrenaturais,
·
campanhas de milagres,
·
curas e sinais.
O cristianismo bíblico, por sua vez, insiste que:
·
a fé deve ser regulada prioritariamente pela
Escritura;
·
a vida da igreja deve estar centrada nos meios
ordinários da graça:
·
pregação,
·
sacramentos,
·
oração,
·
disciplina eclesiástica (disciplina de faltosos).
A crítica reformada é que o
experiencialismo frequentemente desloca a centralidade da exposição bíblica
sólida. Veja sugestão de leitura ao final.
3. Doutrina do batismo no Espírito
Santo como experiência subsequente (já tratado anteriormente).
4. Tendência pragmática e
revivalista
O pensamento reformado rejeita
metodologias centradas em impacto emocional ou carisma pessoal como fundamento
da vida e crescimento da igreja, insistindo no princípio regulador do culto e
na suficiência dos meios instituídos por Cristo.
5. Doutrina de cura divina com
forte ênfase prática
De fato, Deus pode curar
soberanamente, mas rejeita a ideia de um “ministério normativo de curadores”
semelhante ao apostólico, bem como qualquer expectativa que aproxime cura
física da obra ordinária garantida nesta era.
Considerações históricas adicionais
Do ponto de vista reformado, a
crítica principal não costuma ser dirigida à confissão trinitária ou
cristológica da Quadrangular, mas:
·
ao subjetivismo espiritual,
·
à continuidade de revelações,
·
ao afastamento do princípio regulador do culto,
·
e à relativização prática da suficiência das
Escrituras e dos meios ordinários de graça estabelecidos por Cristo à Sua
Igreja.
Rev. Júlio Pinto
Sugestão de leitura para aprofundamento já disponível no Blog: Porque uma única Bíblia e tantas religiões e denominações.
Esse texto trata do motivo pelo qual existe uma única bíblia e tantas religiões e denominações.
Parte 01 - https://revjuliopinto.blogspot.com/2011/04/por-que-uma-unica-biblia-e-tantas.html
Parte 02 - https://revjuliopinto.blogspot.com/2011/04/por-que-uma-unica-biblia-e-tantas_08.html
Parte 03 -
https://revjuliopinto.blogspot.com/2011/04/por-que-uma-unica-biblia-e-tantas_8090.html
Parte 04 - https://revjuliopinto.blogspot.com/2011/04/por-que-uma-unica-biblia-e-tantas_7590.html
Parte 05 -
https://revjuliopinto.blogspot.com/2011/04/por-que-uma-unica-biblia-e-tantas_2275.html
Parte 06 -
https://revjuliopinto.blogspot.com/2011/04/por-que-uma-unica-biblia-e-tantas_1690.html
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