8. O luto cristão
As Escrituras não ignoram esse fato. Elas jamais exigem que
o crente suprima suas emoções diante da morte. O próprio Senhor Jesus, ao
aproximar-se do túmulo de Lázaro, "agitou-se no
espírito, comoveu-se" (Jo 11.33) e, no menor versículo das
Escrituras, lemos: "Jesus chorou."
(Jo 11.35).
Esse episódio possui enorme significado. Cristo sabia que
ressuscitaria Lázaro poucos instantes depois. Ainda assim, chorou. Suas
lágrimas demonstram que a morte continua sendo uma intrusa na boa criação de
Deus. Ela permanece um inimigo e produz legítima dor naqueles que experimentam
sua separação.
Por essa razão, a Bíblia nunca condena o luto em si. O que
ela condena é um luto desprovido de esperança. Paulo escreve: "Não queremos, porém, irmãos, que sejais ignorantes com
respeito aos que dormem, para não vos entristecerdes como os demais, que não
têm esperança." (1Ts 4.13). Observe o texto. O apóstolo não diz:
"não vos entristeçais." Ele
diz: "não vos entristeçais como os demais."
O problema não é a tristeza em si mesma, mas o problema é a tristeza sem
esperança.
O cristão chora, sente saudade e experimenta a dor da
separação. Contudo, sua tristeza é iluminada pela certeza da ressurreição.
Enquanto o mundo contempla o túmulo como ponto final da existência, o crente o
contempla como o lugar onde seu corpo aguarda temporariamente o glorioso dia da
ressurreição.
Essa linguagem encontra respaldo na própria Escritura. O
profeta Daniel anuncia: "Muitos dos que dormem
no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para vergonha e
horror eterno." (Dn 12.2). Observe cuidadosamente a expressão
empregada: "dormem no pó da terra".
O profeta utiliza a linguagem do sono para descrever aqueles cujos corpos foram
entregues ao sepultamento. A figura não descreve a condição da alma, mas o
estado do corpo que aguarda a ressurreição.
Essa compreensão harmoniza-se perfeitamente com a afirmação
de Salomão: "…e o pó volte à terra, como o era,
e o espírito volte a Deus, que o deu." (Ec 12.7). Esse texto é
profundamente significativo. Na criação, Deus formou o homem do pó da terra e
soprou em suas narinas o fôlego de vida; então, o homem passou a ser alma
vivente (Gn 2.7). O homem não foi criado como a simples junção de duas partes
independentes, mas como uma única criatura, uma unidade indivisível diante de
Deus. O relato da criação mostra que Deus formou o corpo do pó da terra,
soprou-lhe o fôlego de vida (ruach) e, como resultado desse ato criador, o
homem tornou-se alma vivente (Gn 2.7). De forma didática, pode-se resumir o relato
dizendo: corpo formado por Deus + fôlego de vida concedido por Deus = homem
como alma vivente.
A morte, portanto, não pertence à ordem da criação, mas à
ordem do juízo divino pronunciado após a queda. Ela rompe temporariamente essa
unidade, separando aquilo que Deus unira na criação. O corpo retorna ao pó de
onde foi formado, enquanto o espírito retorna a Deus (Ec 12.7), permanecendo o
homem em estado consciente diante do Senhor, enquanto seu corpo aguarda a
ressurreição. Essa compreensão harmoniza-se perfeitamente com o relato do rico
e de Lázaro (Lc 16.19-31), no qual ambos permanecem plenamente conscientes após
a morte, e também com a visão de João, que contempla "as almas daqueles que tinham sido mortos"
debaixo do altar, clamando a Deus e aguardando a consumação de Seus decretos
(Ap 6.9-11). A Escritura, portanto, jamais apresenta a morte como um estado de
inconsciência, mas como uma separação temporária introduzida pelo pecado. Ela
não representa a libertação do homem de seu corpo, como ensinaram diversas
correntes filosóficas antigas, mas uma condição antinatural resultante da
queda, que somente será plenamente desfeita quando Cristo ressuscitar os mortos
e restaurar integralmente a unidade da criatura humana.
Por essa razão, desde os primeiros séculos, os cristãos
passaram a utilizar a palavra grega koimeterion
("dormitório" ou "lugar de descanso") para designar os
locais de sepultamento, termo do qual deriva a palavra "cemitério".
Não porque acreditassem no chamado sono da alma, doutrina incompatível com o
restante do testemunho das Escrituras, mas porque compreendiam que apenas o
corpo permanece temporariamente na sepultura, enquanto o homem continua
existindo conscientemente diante de Deus, aguardando o dia em que a unidade
originalmente criada será plenamente restaurada na ressurreição gloriosa. O
cemitério, portanto, não é um monumento da derrota da morte, mas um testemunho
silencioso da esperança cristã.
9. O temor da morte
Outra importante implicação pastoral diz respeito ao medo da
morte. Desde a queda, o homem vive sob sua sombra. Mesmo aqueles que afirmam
não a temer frequentemente demonstram, na prática, profundo receio diante de
sua aproximação.
As Escrituras explicam essa realidade. O autor de Hebreus
afirma: "…para que, por sua morte, destruísse
aquele que tem o poder da morte, a saber, o diabo, e livrasse todos que, pelo
pavor da morte, estavam sujeitos à escravidão por toda a vida."
(Hb 2.14-15).
O medo da morte está profundamente ligado à consciência da
culpa. O homem sabe, ainda que tente silenciar sua consciência, que deverá
comparecer diante de Deus. Por isso, o temor da morte acompanha toda a humanidade
caída.
Entretanto, para o crente, essa escravidão foi quebrada. Cristo
suportou o juízo, satisfez plenamente a justiça divina, removeu toda
condenação. Isso não significa que o cristão deseje morrer ou que jamais
experimente apreensão diante do sofrimento físico. A própria natureza humana
repele a morte.
O próprio Senhor Jesus, em Sua verdadeira humanidade,
declarou no Getsêmani: "A minha alma está profundamente
triste até à morte..." (Mt 26.38). Não era temor da condenação.
Era a profunda consciência do sofrimento que haveria de suportar ao carregar
sobre Si a ira de Deus contra o pecado.
Assim também ocorre com muitos crentes: o receio da dor, a preocupação
com os familiares, a incerteza acerca do processo da morte. Tudo isso pertence
à experiência humana. Todavia, o cristão já não teme a morte como porta para a
condenação eterna. Ela tornou-se passagem para a presença daquele que o amou e
por ele morreu.
10. A esperança da ressurreição
Embora a alma do crente esteja imediatamente com Cristo após
a morte, essa não constitui a esperança final da igreja. Toda a Escritura
aponta para um acontecimento ainda futuro: a ressurreição dos mortos. O próprio
Cristo declarou: "Não vos maravilheis disto,
porque vem a hora em que todos os que se acham nos túmulos ouvirão a sua voz e
sairão..." (Jo 5.28-29)
Essa promessa é retomada por Paulo: "Porque o Senhor mesmo, dada a sua palavra de ordem, ouvida a
voz do arcanjo, e ressoada a trombeta de Deus, descerá dos céus, e os mortos em
Cristo ressuscitarão primeiro." (1Ts 4.16) A esperança cristã
nunca foi simplesmente sobreviver à morte. Ela consiste na restauração completa
do homem.
O corpo, hoje sujeito à corrupção, será transformado. Paulo
descreve essa gloriosa transformação: "Semeia-se
em corrupção, ressuscita em incorrupção; semeia-se em desonra, ressuscita em
glória; semeia-se em fraqueza, ressuscita em poder." (1Co
15.42-43) Mais adiante afirma: "Porque é
necessário que este corpo corruptível se revista da incorruptibilidade, e que o
corpo mortal se revista da imortalidade." (1Co 15.53). A
ressurreição não representa simples retorno à presente condição. Não é mera
reanimação do cadáver, é glorificação, é transformação, é consumação da obra
redentora iniciada na regeneração.
Nesse dia cumprir-se-á plenamente a promessa: "Tragada foi a morte pela vitória." (1Co
15.54) Então desaparecerão definitivamente: a morte; a corrupção; a
enfermidade; o sofrimento; o luto; as lágrimas. João contempla esse momento ao
escrever: "E lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não
existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas
passaram." (Ap 21.4) É somente aqui que a vitória sobre a morte
alcança sua manifestação plena.
Conclusão
A morte continua sendo uma das realidades mais solenes da
experiência humana. Ela entrou no mundo pelo pecado, tornou-se o salário da
rebelião, submeteu toda a criação à corrupção. Entretanto, ela não possui a
última palavra. Na cruz, Cristo satisfez plenamente a justiça divina. Na
ressurreição, inaugurou a nova criação. Na ascensão, entrou como precursor de
Seu povo na glória.
Hoje, aqueles que morrem no Senhor entram imediatamente em
Sua presença, aguardando a ressurreição gloriosa de seus corpos.
Por isso, o cristão encara a morte de maneira singular:
Ele não a procura.
Não a romantiza.
Não a celebra como se fosse um bem em si mesma.
A morte continua sendo inimiga, mas...
É uma inimiga vencida.
Seu aguilhão foi arrancado.
Sua condenação foi removida.
Seu domínio foi quebrado.
Sua destruição definitiva já foi decretada.
Essa esperança transforma profundamente a vida presente.
Quem sabe que ressuscitará vive de maneira diferente.
Quem sabe que comparecerá diante de Cristo busca andar em
santidade.
Quem sabe que a morte não encerra a história aprende a
valorizar as coisas eternas acima das temporais.
Assim, a doutrina da morte do cristão não produz pessimismo,
mas esperança; não conduz ao desespero, mas à perseverança; não alimenta o
medo, mas fortalece a confiança naquele que declarou: "Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que
morra, viverá; e todo o que vive e crê em mim não morrerá, eternamente."
(Jo 11.25-26)
Por essa razão, a igreja de Cristo, desde os dias
apostólicos, pode repetir com plena confiança as palavras triunfantes do
apóstolo Paulo: "Onde está, ó morte, a tua
vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?... Graças a Deus, que nos dá a
vitória por intermédio de nosso Senhor Jesus Cristo." (1Co
15.55,57)
Enquanto aguarda a consumação de todas as coisas, o povo de
Deus vive entre duas certezas igualmente gloriosas: morrer é estar com Cristo,
o que é incomparavelmente melhor (Fp 1.23), e ressuscitar será participar
plenamente da vitória definitiva do Senhor sobre a morte, quando Deus fará
novas todas as coisas (Ap 21.5). Essa é a esperança que sustenta a igreja em
cada sepultamento, consola os que choram e fortalece os santos até o dia em que
a fé dará lugar à visão e a comunhão com Cristo será perfeita para todo o
sempre.
Rev. Júlio Pinto
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