Poucas realidades são tão universais quanto a morte. Desde a queda de Adão, todos os homens caminham inevitavelmente para ela. Reis e servos, sábios e ignorantes, ricos e pobres, jovens e idosos, todos compartilham da mesma sentença. A morte é o grande nivelador da humanidade caída. Nenhuma ciência conseguiu vencê-la. Nenhuma filosofia conseguiu explicá-la satisfatoriamente. Nenhuma civilização conseguiu escapar de seu domínio.
Entretanto, embora todos experimentem a morte, nem todos a
compreendem da mesma maneira. Diversas religiões procuram explicar o que
acontece após ela. Algumas ensinam sucessivos ciclos de reencarnação; outras
falam de dissolução da personalidade; outras imaginam um estado de
inconsciência permanente; algumas sequer oferecem qualquer esperança além do
túmulo.
A cosmovisão materialista ou ateísta, por sua vez, conduz a
uma conclusão igualmente dramática. Se Deus não existe, se não há criação,
providência, juízo nem eternidade, então a vida humana não possui finalidade
objetiva além de sua breve existência biológica. Toda a história da humanidade
reduz-se a um fenômeno acidental da matéria, destinado inevitavelmente ao
desaparecimento. Nesse cenário, a morte representa não apenas o fim da
existência consciente, mas também a extinção definitiva de todo significado
último. Amor, justiça, beleza, verdade, moralidade e esperança deixam de
possuir fundamento transcendente, tornando-se conceitos limitados ao curto
intervalo da existência humana. Não se trata de afirmar que todo ateu viva
subjetivamente em desespero, mas de reconhecer que sua cosmovisão, levada às
suas últimas consequências, não oferece fundamento objetivo para um propósito
eterno da existência.
A Escritura apresenta uma resposta completamente distinta.
Ela ensina que a morte não pertenceu ao princípio da
criação. Deus criou o homem para viver em comunhão consigo. A morte entrou na
história como consequência do pecado. Contudo, ela não permanecerá para sempre.
Em Cristo, sua derrota já foi decretada, embora sua destruição definitiva ainda
aguarde a consumação de todas as coisas.
É importante observar, desde o início, que a Bíblia nunca
trata a morte como algo natural ou desejável. Algumas correntes filosóficas
procuram apresentá-la como parte necessária do ciclo da vida. As Escrituras,
porém, jamais adotam essa linguagem. A morte continua sendo chamada de "inimigo". Ainda que tenha sido vencida por
Cristo, ela permanece um inimigo até o dia em que será definitivamente abolida.
A esperança cristã, portanto, não consiste em negar a
realidade da morte, mas em afirmar que ela já não possui a palavra final sobre
aqueles que pertencem ao Senhor.
1. A origem da morte
Toda doutrina cristã sobre a morte começa necessariamente na
criação. A Bíblia não inicia sua descrição de um mundo dominado pela morte.
Pelo contrário. Após concluir Sua obra criadora, Deus declara: "Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom."
(Gn 1.31). A expressão "muito bom"
exclui qualquer ideia de corrupção, decadência ou morte como elementos
pertencentes à ordem originalmente criada.
O homem foi criado à imagem de Deus (Gn 1.26-27), colocado
em perfeita comunhão com seu Criador e estabelecido como administrador da criação.
Nada no relato de Gênesis sugere que a morte fosse uma realidade inevitável
desde o princípio.
Antes da queda, Deus estabelece apenas uma proibição: "Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás;
porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás." (Gn
2.17). Essa advertência é de enorme importância. Ela demonstra que a morte não
era uma necessidade biológica inerente ao homem, mas uma sanção pactual ligada
à desobediência.
A morte aparece, desde o início, como consequência judicial
do pecado. Quando Adão transgride a aliança estabelecida por Deus, a sentença é
pronunciada: "Porque tu és pó e ao pó tornarás."
(Gn 3.19)
A partir desse momento, toda a criação passa a experimentar
os efeitos da queda. Paulo resume essa realidade de maneira extraordinária: "Porque, assim como, por um só homem, entrou o pecado no
mundo, e, pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens,
porque todos pecaram." (Rm 5.12).
Observe cuidadosamente a ordem estabelecida pelo apóstolo. Primeiro:
o pecado entrou. Depois: a morte entrou. A morte não é apresentada como
fenômeno natural da criação, mas como consequência direta da entrada do pecado.
Essa verdade possui enorme importância apologética. Diversas
correntes teológicas modernas procuram compatibilizar o relato bíblico com
modelos evolucionistas que pressupõem milhões de anos de morte antes do
surgimento do homem.
Entretanto, essa hipótese encontra enorme dificuldade diante
do ensino explícito das Escrituras. Se a morte já dominava o mundo muito antes
da queda de Adão, ela deixa de ser consequência do pecado. Nesse caso, Romanos
5 perderia completamente sua força argumentativa.
Além disso, a própria obra redentora de Cristo seria
profundamente afetada. Se a morte nunca foi consequência da queda, por que sua
derrota ocuparia posição tão central no evangelho?
A Escritura apresenta exatamente o contrário. A morte
entrou. Ela não fazia parte da boa criação. Ela invadiu a história humana como
resultado da rebelião. E precisamente por isso Cristo veio derrotá-la.
2. A morte continua sendo consequência do pecado, mas
perdeu seu aguilhão
Embora Cristo tenha consumado perfeitamente a obra da
redenção, os cristãos continuam morrendo. Essa realidade frequentemente levanta
uma pergunta importante. Se Cristo venceu a morte, por que Seus filhos ainda
morrem?
A resposta bíblica exige distinguir cuidadosamente entre
duas realidades. A primeira é a condenação produzida pelo pecado. A segunda são
as consequências temporais que permanecem até a consumação final. Paulo afirma:
"Porque o salário do pecado é a morte..."
(Rm 6.23). Essa sentença permanece verdadeira. A morte continua sendo
consequência do pecado.
Entretanto, para aqueles que estão unidos a Cristo, ela já
não possui caráter condenatório. A culpa foi removida na cruz. A condenação foi
plenamente satisfeita pelo Salvador. Por isso Paulo exclama: "Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em
Cristo Jesus." (Rm 8.1)
O cristão continua experimentando a morte física. Mas já não
experimenta a morte como punição judicial pelos seus pecados. Ela deixa de ser
porta para a condenação eterna e torna-se a passagem pela qual Deus conduz Seus
filhos à Sua presença.
Essa transformação explica o triunfo de Paulo em 1
Coríntios: "Onde está, ó morte, a tua vitória?
Onde está, ó morte, o teu aguilhão?" (1Co 15.55). O aguilhão da
morte não era simplesmente sua existência física. Seu verdadeiro aguilhão era a
condenação que ela trazia consigo. Cristo removeu precisamente esse aguilhão.
O autor de Hebreus acrescenta: "Visto, pois, que os filhos têm participação comum de carne e
sangue, destes também ele, igualmente, participou, para que, por sua morte,
destruísse aquele que tem o poder da morte, a saber, o diabo, e livrasse todos
que, pelo pavor da morte, estavam sujeitos à escravidão por toda a vida."
(Hb 2.14-15). Observe que o texto não afirma que os cristãos deixam
imediatamente de morrer. O que ele afirma é que deixam de viver escravizados
pelo medo da morte.
Cristo não apenas venceu a morte objetivamente. Ele libertou
Seu povo do terror que ela exercia sobre a consciência culpada. Ainda assim, a
Escritura jamais romantiza a morte. Ela continua sendo um inimigo. O próprio
Paulo afirma: "O último inimigo a ser destruído
é a morte." (1Co 15.26). Um inimigo vencido. Um inimigo com os
dias contados. Mas ainda um inimigo. Por isso o cristão não celebra a morte em
si mesma. Ele celebra Aquele que venceu
a morte e garantiu que ela jamais terá domínio definitivo sobre aqueles que
foram unidos a Cristo pela fé.
(Continua na Parte II: O estado intermediário, a morte do
crente e a esperança da ressurreição.)
Rev. Júlio Pinto
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