"Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas... voltarei e vos receberei para mim mesmo, para que, onde eu estou, estejais vós também." (Jo 14.1-3)
"Varões galileus, por que
estais olhando para as alturas? Esse Jesus que dentre vós foi assunto ao céu
virá do modo como o vistes subir." (At 1.11)
"Aquele que dá testemunho
destas coisas diz: Certamente, venho sem demora. Amém! Vem, Senhor Jesus!"
(Ap 22.20)
Poucas doutrinas exercem influência tão profunda sobre a
esperança cristã quanto a Segunda Vinda de nosso Senhor Jesus Cristo. Desde os
dias apostólicos, a igreja vive olhando para frente. Sua esperança jamais
esteve centrada na transformação definitiva desta presente ordem do mundo, nem
no progresso contínuo da civilização humana, mas na manifestação gloriosa do
Rei dos reis, que virá para consumar plenamente a obra da redenção iniciada em
Sua primeira vinda.
Toda a história da redenção caminha para a consumação do
propósito eterno de Deus em Cristo. As promessas do Antigo Testamento não
apontam apenas para a primeira vinda do Messias, mas também para Sua
manifestação gloriosa no fim dos tempos. Os profetas anunciaram não somente Seus
sofrimentos, mas igualmente Sua vitória definitiva, a ressurreição dos mortos,
o juízo final e o estabelecimento eterno do Reino de Deus. Daniel, por exemplo,
associa diretamente esse grande dia à ressurreição universal ao declarar:
"Muitos dos que dormem no pó da terra
ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para vergonha e horror eterno."
(Dn 12.2). Os Evangelhos registram o cumprimento das promessas referentes à
primeira vinda de Cristo; os Atos e as Epístolas apresentam a igreja vivendo
entre Sua obra já consumada na cruz e a expectativa de Sua volta gloriosa; por
fim, o Apocalipse encerra a revelação bíblica dirigindo os olhos da igreja para
a consumação de todas as coisas na oração que resume a esperança cristã de
todas as épocas: "Amém! Vem, Senhor Jesus!"
(Ap 22.20).
A primeira vinda foi marcada pela humilhação. O Verbo fez-se
carne, nasceu em uma manjedoura, viveu entre pecadores, foi rejeitado pelos
homens, sofreu sob Pôncio Pilatos, morreu na cruz e foi sepultado. Sua segunda
vinda, porém, será completamente distinta. O mesmo Cristo retornará revestido
de glória, de onde há de vir para julgar vivos e mortos, acompanhado pelos
santos anjos, para consumar definitivamente Seu Reino.
É importante observar que esta doutrina ocupa lugar central
nas Escrituras. A Segunda Vinda não constitui um assunto secundário reservado
aos estudiosos da escatologia. Ela permeia praticamente todo o Novo Testamento.
Os apóstolos frequentemente utilizam a expectativa da volta de Cristo como
fundamento para a perseverança, a santidade, o consolo diante da morte, a
diligência no serviço cristão e a firme esperança da igreja.
Ao tratarmos deste tema, porém, convém estabelecer uma
importante observação metodológica. Diversos acontecimentos encontram-se
intimamente ligados à Segunda Vinda de Cristo, como a ressurreição dos mortos,
o Juízo Final e o estado eterno. Entretanto, para evitar repetições
desnecessárias, esses assuntos serão estudados posteriormente. Neste capítulo
concentraremos nossa atenção na promessa da volta de Cristo, na natureza desse
evento, nos sinais que o antecedem e em suas implicações para a vida cristã.
1. A promessa da Segunda Vinda
A Segunda Vinda não nasceu da imaginação da igreja, tampouco
surgiu da necessidade humana de alimentar esperança. Ela repousa sobre a
própria promessa do Senhor Jesus Cristo. Pouco antes de Sua paixão, quando os
discípulos estavam profundamente perturbados diante da notícia de Sua partida,
Cristo lhes dirigiu palavras de extraordinário consolo: "Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em
mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas... voltarei e vos receberei para mim
mesmo, para que, onde eu estou, estejais vós também." (Jo
14.1-3)
Observe que no centro da promessa Cristo não promete apenas
preparar um lugar, Ele promete voltar. A esperança da igreja nunca esteve
centrada simplesmente na partida do crente desta vida, mas na certeza da
manifestação gloriosa de seu Senhor. A consumação da redenção não ocorrerá
porque o homem finalmente alcançará Deus, mas porque Deus, em Cristo, virá definitivamente
ao encontro de Seu povo para consumar todas as coisas conforme Seu eterno
propósito. A plena realização dessa promessa, bem como a descrição do estado
eterno dos remidos, será objeto de estudo em capítulo próprio desta obra.
A promessa de Sua volta é reiterada imediatamente após a
ascensão. Enquanto os discípulos contemplavam o Senhor sendo elevado aos céus,
dois anjos lhes disseram: "Varões galileus, por
que estais olhando para as alturas? Esse Jesus que dentre vós foi assunto ao
céu virá do modo como o vistes subir." (At 1.11). Veja a importância
doutrinária do que é dito aqui.
Os anjos não anunciam o envio de outro Messias.
Não anunciam uma manifestação meramente espiritual.
Não falam de uma influência invisível de Cristo sobre a
história.
Eles afirmam que esse Jesus voltará.
O mesmo Senhor que encarnou e nasceu de Maria.
O mesmo que viveu entre os homens.
O mesmo que morreu na cruz.
O mesmo que ressuscitou corporalmente.
O mesmo que ascendeu diante dos discípulos.
É este mesmo Cristo que retornará.
Os apóstolos retomam essa promessa continuamente. Paulo
escreve: "...aguardando a bendita esperança e a
manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus."
(Tt 2.13) Observe a expressão da qual o apóstolo faz uso, a Segunda Vinda é
chamada de "bendita esperança".
Não se trata de um acontecimento aterrorizante para o povo de Deus, mas do
ápice de toda a esperança cristã. Tudo aquilo que hoje possuímos pela fé será
plenamente contemplado naquele grande dia.
O autor de Hebreus também afirma: "...assim também Cristo, tendo-se oferecido uma vez para
sempre para tirar os pecados de muitos, aparecerá segunda vez, sem pecado, aos
que o aguardam para a salvação." (Hb 9.28). Na primeira vinda,
Cristo veio para realizar a obra expiatória. Na segunda, virá para consumar
plenamente os benefícios dessa obra.
Sua primeira manifestação estava ligada ao pecado. A segunda
estará ligada à glorificação dos santos e à condenação dos ímpios. Essa
esperança dos crentes atravessa todo o Novo Testamento até alcançar suas
últimas palavras. O Apocalipse encerra a revelação divina com a promessa do
próprio Senhor: "Certamente, venho sem demora."
(Ap 22.20); Ao que João responde: "Amém! Vem,
Senhor Jesus!". Essas palavras expressam o anseio da igreja em
todas as épocas. Não apenas o desejo de escapar das dificuldades deste mundo. Mas
o profundo anelo de contemplar finalmente seu Senhor face a face.
Ao longo da história, a igreja enfrentou perseguições,
martírios, enfermidades, guerras e inúmeras aflições. Entretanto, sua esperança
permaneceu inabalável porque estava firmada não nas circunstâncias presentes,
mas na promessa infalível daquele que declarou: "voltarei".
Essa promessa sustenta toda a vida cristã. Ela consola os
que choram (assunto estudado no Tema 51 - A Morte do Cristão), fortalece os
perseguidos, anima os servos fiéis e dirige os olhos da igreja para a
consumação da história da redenção.
(Continua na Parte II: "A natureza da Segunda Vinda de
Cristo").
Rev. Júlio Pinto
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