sexta-feira, 27 de março de 2026

Ego cristão

 “Ninguém pense de si mesmo além do que convém”; a exortação do apóstolo em Epístola aos Romanos 12:3 é um golpe direto contra toda pretensão espiritual. Ela não apenas condena o orgulho explícito, mas também desmonta aquela forma mais sutil e, por vezes, “religiosa” de soberba: a ilusão de superioridade moral dentro da própria comunidade da fé.

Há quem, esquecendo-se de que está no mesmo caminho de santificação, passe a agir como juiz da consciência alheia. Vigia a vida dos outros com rigor, mede a espiritualidade do próximo com critérios próprios e, não raro, se coloca como padrão de piedade. Contudo, essa postura revela não maturidade, mas cegueira.

Nosso Senhor, em Evangelho de Mateus 7.3–5, confronta exatamente essa atitude ao falar do argueiro e da trave: aquele que se ocupa em retirar o pequeno cisco do olho do irmão enquanto ignora a enorme viga em seu próprio. O ensino é claro; não se trata de proibir o discernimento, mas de condenar a hipocrisia. O problema não é ver o erro do outro, mas fazê-lo sem antes lidar seriamente com o próprio pecado.

É verdade que, no contexto imediato, Cristo denuncia o ímpio que finge santidade. Mas não podemos ignorar que esse mesmo padrão pode se manifestar entre crentes. Quando um irmão, ainda em processo de crescimento, passa a agir com espírito crítico constante, sem humildade e sem autoexame, ele incorre no mesmo erro: assume uma posição que não lhe pertence.

A santificação é obra de Deus em todos os seus filhos; e nenhum deles chegou ao fim da jornada. Como lembra o apóstolo em Epístola aos Filipenses 3:12, nem mesmo ele havia alcançado a perfeição, mas prosseguia. Se assim é com Paulo, quem somos nós para nos colocarmos acima dos demais?

Há uma diferença profunda entre exortar em amor e criticar em orgulho. A exortação bíblica nasce de um coração quebrantado, consciente de sua própria miséria, e visa restaurar o irmão. Já a crítica altiva nasce de um coração inflado, que se esqueceu da graça, e visa (ainda que inconscientemente) se exaltar.

Aquele que conhece verdadeiramente a si mesmo diante de Deus fala menos, julga menos e chora mais, por si e pelos outros. Ele entende que seus próprios pecados são mais graves do que os que vê ao redor, porque conhece as intenções do seu próprio coração.

Portanto, antes de apontar, examine-se. Antes de corrigir, humilhe-se. Antes de medir o outro, lembre-se de que você também está sendo medido pela mesma régua da graça. A verdadeira santidade não se manifesta na pressa em expor falhas alheias, mas na disposição em mortificar as próprias.

Quem pensa de si além do que convém já começou errado. E quem se julga mais santo do que os outros, na verdade, ainda não entendeu o que é santidade.

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