Ao longo desta série de breves meditações, somos conduzidos a refletir sobre um tema tão central quanto frequentemente negligenciado: o culto que Deus aceita.
A motivação para estes textos nasceu a partir de uma provocação oportuna feita pelo Rev. Demis Roussos, especialmente em seu texto intitulado “A OFERTA DE CAIM”, que será apresentado logo após esta introdução. Sua reflexão nos remete ao primeiro registro bíblico em que Deus manifesta, de forma explícita, Seu juízo sobre a maneira como é adorado.
Em Gênesis 4, não encontramos apenas dois irmãos oferecendo sacrifícios, mas dois princípios em confronto:
de um lado, Abel, que se aproxima de Deus conforme o padrão revelado: trazendo uma oferta expiatória, em harmonia com o que o próprio Senhor já havia demonstrado ao cobrir a nudez de Adão e Eva por meio de sangue;
de outro, Caim, que oferece segundo sua própria concepção; uma adoração moldada por critérios humanos, ainda que possivelmente sincera, trabalhosa e até bem-intencionada.
É aqui que se estabelece, de forma embrionária, aquilo que mais tarde seria claramente expresso no Segundo Mandamento: Deus deve ser adorado não conforme a imaginação do homem, mas segundo a Sua própria vontade revelada.
A rejeição da oferta de Caim não é arbitrária: é teológica.
Ela revela que o problema do culto não está apenas no “se” adoramos, mas no “como” adoramos.
E mais: a reação de Caim expõe a raiz do coração humano diante desse princípio. O texto diz que ele se irou profundamente. Sua indignação não foi apenas pela rejeição de sua oferta, mas contra o próprio Deus que a rejeitou.
Esse mesmo espírito permanece vivo em todas as épocas.
Sempre que o homem resiste à ideia de que Deus regula o culto, sempre que insiste em oferecer a Deus aquilo que lhe parece melhor, mais adequado ou mais atraente, revive-se, em essência, a disposição de Caim.
Por isso, esta série não é meramente uma análise de episódios isolados das Escrituras.
Ela é um chamado:
• à submissão da nossa adoração à Palavra de Deus
• à rejeição de toda forma de culto inventado pelo homem
• ao reconhecimento de que Deus não recebe aquilo que Ele não ordenou
Que cada reflexão aqui apresentada, juntamente com o texto “A OFERTA DE CAIM”, sirva não apenas para instrução, mas para correção e alinhamento do nosso coração.
E que, ao final, possamos não apenas oferecer culto, mas oferecer o culto que Deus aceita para a glória do Seu nome.
A OFERTA DE CAIM
O juízo de Deus sobre a oferta de Caim (Gn 4.5) é a primeira aplicação explícita do Princípio Regulador do Culto na história.
Abel ofereceu dos primogênitos do seu rebanho e da sua gordura (Gn 4.4), uma oferta sangrenta, uma oferta expiatória que correspondia ao padrão estabelecido por Deus desde a queda, quando o próprio Deus derramou sangue para cobrir a nudez de Adão e Eva (Gn 3.21). Enquanto isso, Caim trouxe do fruto da terra uma oferta que, por mais abundante, penosa (afinal, há trabalho) ou sincera que pudesse ter sido em sua própria perspectiva, não correspondia ao padrão prescrito por Deus e ensinado aos seus pais.
Daí a razão de Deus anexar ao Segundo Mandamento, isto é, o mandamento que diz respeito à forma, ao como se deve adorar a Deus, uma bênção e uma maldição.
O sentimento de revolta contra o Princípio Regulador do Culto é o mesmo sentimento que houve em Caim: "E Caim ficou muito irado, e o seu semblante caiu."
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O CULTO ACEITÁVEL - PARTE 01
Além da questão fundamental acerca do princípio regulador do culto (isto é, oferecer a Deus somente aquilo que Ele ordenou) o texto de Gênesis também nos conduz a uma segunda dimensão igualmente importante: a qualidade da oferta apresentada ao Senhor.
A narrativa bíblica não é neutra nos detalhes. Ao descrever a oferta de Abel, Moisés registra que ele trouxe “das primícias do seu rebanho e da gordura deste” (Gn 4.4). Ou seja, Abel não apenas ofereceu conforme o padrão divinamente revelado, mas trouxe o melhor, o mais excelente, a parte mais preciosa. Sua oferta revela não só obediência, mas também fé, reverência e honra.
Por outro lado, ao falar de Caim, o texto é significativamente mais vago: “trouxe do fruto da terra” e ainda acrescenta “ao fim de uns tempos” (Gn 4.3). E, essa expressão aponta para o fim de uma colheita e a ausência de qualificadores não é acidental. O contraste é intencional. Caim não trouxe primícias, não trouxe o melhor, não trouxe o mais excelente; trouxe o que sobrou, o que era conveniente, o que não lhe custava verdadeiramente.
Assim, percebemos que o pecado de Caim é duplo:
1. Ele desprezou a forma ordenada por Deus (oferta não conforme o padrão revelado);
2. Ele desprezou a excelência devida a Deus (oferta sem primazia, sem zelo, sem honra).
Isso nos ensina que Deus não se agrada de um culto que seja apenas “externamente correto”, mas também não recebe um culto que, ainda que aparentemente religioso, seja oferecido sem coração, sem prioridade e sem custo.
O Senhor requer não apenas obediência formal, mas adoração que O reconheça como digno do melhor.
Esse princípio ecoa por toda a Escritura. Como o próprio Deus declara em outra ocasião: “ofereceis sobre o meu altar pão imundo” (Ml 1.7), e ainda: “maldito seja o enganador que… promete e oferece ao Senhor o que tem defeito” (Ml 1.14).
Portanto, o culto aceitável diante de Deus envolve duas dimensões inseparáveis:
- Conformidade com a Sua vontade revelada
- Entrega sincera do melhor que temos
Abel compreendeu isso. Caim, não.
E a pergunta que permanece para nós é inevitável:
Estamos oferecendo a Deus o culto que Ele requer; e da maneira que Ele é digno de receber?
Rev. Júlio Pinto
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