sábado, 14 de março de 2026

O Cristo dos desigrejados não é o Cristo bíblico


“… porque surgirão falsos cristos e falsos profetas…" (Mateus 24.24)

Ao longo da história da Igreja, uma das marcas constantes da heresia sempre foi a criação de um Cristo diferente daquele revelado nas Escrituras. Não se trata simplesmente de interpretar Jesus de maneira diversa, mas de reconstruí-lo segundo pressupostos humanos, desconectando-o da revelação bíblica. Esse fenômeno aparece hoje de forma muito clara entre movimentos antinomianos e entre aqueles que se autodenominam “desigrejados”, os quais frequentemente apresentam um Cristo que rompe com a Lei de Deus, despreza a continuidade das Escrituras e relativiza a própria estrutura da revelação divina, tendo em si mesmos a pretensão de haver recebido uma iluminação além dos cristãos, "comuns". Síndrome do super homem. 

Contra os gnósticos e antinomianos modernos (hoje muitas vezes chamados de “desigrejados”) é necessário recordar um fato simples, porém profundamente negligenciado: todo o ministério terreno de Cristo ocorreu ainda no contexto da Antiga Aliança. Negar isso gera uma série de erros doutrinários graves. Eles até enfatizam isso, mas erram na mesma medida. 

Quando o Senhor institui a Igreja , Ele ordena aos apóstolos: “ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado”. Ora, essas “coisas” foram ensinadas durante seu ministério terreno, quando o cânon do Novo Testamento ainda não existia. Portanto, aquilo que Cristo ensinava estava profundamente enraizado na revelação do Antigo Testamento, especialmente na Lei e nos Profetas.

Negar essa realidade produz diversos erros teológicos, destaco alguns:

1. Negar a continuidade da revelação bíblica.
Cristo não veio inaugurar uma religião desconectada da Lei de Moisés. Pelo contrário, Ele declarou em que não veio abolir a Lei, mas cumpri-la. O erro gnóstico-antinomiano cria uma ruptura artificial entre Cristo e Moisés.

2. Tratar a Lei de Moisés como se fosse uma revelação inferior ou inválida.
Muitos desigrejados afirmam que “a Lei acabou” ou que “não tem mais valor algum”. Contudo, Cristo constantemente apelava à Lei como autoridade divina, citando-a como Palavra de Deus.

3. Ignorar que os próprios ensinamentos éticos de Jesus são exposições da Lei.
Grande parte do ensino moral de Cristo (como no Sermão do Monte) não substitui a Lei, mas a interpreta, aprofunda e revela sua verdadeira intenção.

4. Desprezar a estrutura pactual da revelação.
A Lei dada por meio de Moisés fazia parte da economia da aliança que preparava o caminho para Cristo. Negá-la é ignorar o próprio desenvolvimento da história da redenção.

5. Criar um “Cristo sem Escritura”.
Se os ensinamentos de Cristo forem desligados do Antigo Testamento, resta apenas um Jesus reconstruído pela opinião pessoal; exatamente o tipo de espiritualidade subjetiva que caracteriza o gnosticismo antigo e moderno.

Além disso, esse erro ignora um princípio fundamental da teologia bíblica: a revelação progressiva. Deus não revelou toda a plenitude da redenção de uma só vez, mas progressivamente ao longo da história, conduzindo seu povo desde as promessas iniciais até a plenitude em Cristo.

Assim, quando Cristo afirma que veio “cumprir a Lei”, isso não significa destruí-la ou anulá-la. Cumprir, no sentido bíblico, é levar à sua plenitude, completar seu propósito e revelar seu significado final. A Lei apontava para Cristo; nele ela encontra sua consumação.

Por isso, a extinção de certos elementos da Lei (especialmente ritos, sacrifícios e cerimônias) não é uma abolição arbitrária, mas o próprio cumprimento daquilo que esses elementos prefiguravam. Os sacrifícios apontavam para o sacrifício perfeito; o sacerdócio apontava para o verdadeiro mediador; as sombras apontavam para a realidade.

Essa progressividade já estava anunciada nas próprias Escrituras do Antigo Testamento. O próprio Moisés profetizou a vinda de um profeta maior a quem o povo deveria ouvir (Dt 18.15). Os profetas falaram de uma nova aliança e de uma renovação espiritual do povo de Deus, como vemos em Jeremias 31.31-34.

Portanto, os elementos cerimoniais não desapareceram porque a Lei teria sido destruída, mas porque se cumpriram em Cristo, o que é completamente diferente de anulá-los. Eles eram sombras pedagógicas que preparavam o povo de Deus para a realidade final da redenção.

Assim, a própria Grande Comissão destrói essa visão antinomiana. O Cristo ressuscitado ordena que sua Igreja ensine tudo o que Ele ensinou; e tudo o que Ele ensinou estava profundamente enraizado na revelação já existente nas Escrituras do Antigo Testamento.

Negar isso não é um avanço espiritual, mas um retorno a antigos erros gnósticos que sempre tentaram separar Cristo da revelação que o anunciou e que progressivamente conduziu o povo de Deus até Ele.

Dessa forma, o chamado “Cristo” apresentado pelos gnósticos e antinomianos modernos não é o Cristo das Escrituras. Trata-se de um Cristo reconstruído, separado da Lei, desligado da revelação progressiva e desconectado da história da redenção. Mas um Cristo que rompe com as Escrituras não é o verdadeiro Cristo. É, na verdade, um falso deus moldado segundo preferências humanas; um Cristo que contradiz tanto o Antigo quanto o Novo Testamento. O verdadeiro Cristo é aquele que cumpre a Lei, confirma os Profetas e conduz toda a revelação bíblica à sua consumação. Qualquer outro “Cristo” é exatamente aquilo que o próprio Senhor advertiu que surgiria: um falso Cristo.



Rev. Julio Cesar Pinto 

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