Estudo histórico e teológico sobre o feminismo
e a igreja a partir da perspectiva do Dia Internacional da Mulher
4 Igreja Presbiteriana de Boa Vista
Rev. Júlio César Pinto
Queridos
irmãos e irmãs, saudações em Cristo
Estou
compartilhando com a igreja um estudo especial que busca refletir biblicamente
sobre a relação entre cultura, ideologias e a vida da igreja. O ponto de
partida da nossa reflexão será um tema bastante presente no calendário
cultural: o chamado Dia Internacional da Mulher.
Antes
de qualquer reação imediata, o propósito do estudo não é promover polêmica
gratuita, mas exercitar discernimento cristão. A igreja de Cristo sempre viveu
dentro de culturas específicas, mas nunca foi chamada a simplesmente absorver
ou reproduzir tudo aquilo que a cultura celebra.
Com
frequência, certas ideias entram na igreja por meio de raciocínios
aparentemente simples, mas teologicamente frágeis. Um dos mais comuns é o
seguinte:
“Se
todo mundo comemora, por que a igreja não poderia comemorar também?”
Esse
tipo de argumento costuma vir acompanhado de outras perguntas semelhantes:
·
“O
que há de errado em participar de algo que toda a sociedade celebra?”
·
“Não
seria exagero problematizar certas datas culturais?”
·
“Se
a intenção é boa, qual seria o problema?”
·
“A
igreja não deveria acompanhar os tempos?”
·
“Se
não fizermos isso, não pareceremos desconectados da sociedade?”
Essas
perguntas parecem razoáveis à primeira vista, mas elas revelam um problema mais
profundo: o risco de permitir que a cultura determine os parâmetros da igreja,
em vez de permitir que a Palavra de Deus determine nossa relação com a cultura.
A
Escritura nos chama a uma postura muito diferente. O apóstolo Paulo escreve em
Romanos 12.1–2: “Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que
apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é
o vosso culto racional. E não vos conformeis com este século, mas
transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja
a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.”
Percebam
que Paulo não diz apenas que devemos evitar pecados evidentes. Ele vai além:
ele nos adverte a não nos conformarmos com o padrão deste século; e a palavra
século no original é a mesma palavra para “mundo”. Ou seja, o cristão é chamado
a examinar cuidadosamente os valores, símbolos e narrativas culturais que o
cercam com a finalidade de não se tornarem parecidos com o mundo.
Nem
tudo que se torna popular na sociedade deve automaticamente encontrar espaço na
vida da igreja. Não é nada bíblico abrir as portas da igreja para tudo que vem
do mundo. Esse é justamente o significado do alerta bíblico contra a introdução
de coisas estranhas no meio do povo de Deus, princípio semelhante ao que o
profeta Daniel descreveu ao falar da “abominação da desolação” (Dn 9.27;
11.31; 12.11): a colocação, no lugar que deveria ser consagrado exclusivamente
ao Senhor, de algo que não procede da vontade de Deus. Evidentemente, não se
trata aqui de afirmar que todo fenômeno cultural seja o cumprimento direto
daquela profecia específica, mas o princípio espiritual é semelhante: quando
aquilo que nasce fora da revelação de Deus é introduzido na vida e na prática
da igreja, o resultado inevitável é a corrupção daquilo que deveria permanecer santo
e separado para o Senhor.
Ao
longo da história, muitas ideias que começaram no campo político ou filosófico
acabaram entrando nas igrejas justamente por meio desse tipo de raciocínio: “se
todos estão aceitando, talvez devamos aceitar também”.
É
exatamente por isso que precisamos refletir com cuidado sobre certas datas e
movimentos culturais. O Dia Internacional da Mulher, por exemplo, não surgiu
simplesmente como uma celebração neutra da feminilidade ou da dignidade da
mulher. Ele possui uma história específica, ligada a movimentos políticos e
ideológicos do início do século XX.
Isso
não significa que a igreja não valorize profundamente as mulheres. Pelo
contrário: a Escritura ensina de forma clara a dignidade, a honra e o valor das
mulheres dentro da criação de Deus e da comunidade da fé.
Mas
exatamente por valorizarmos a verdade bíblica, precisamos distinguir entre a
honra bíblica à mulher e as narrativas ideológicas construídas pela cultura
moderna.
Nosso
objetivo nesse estudo será justamente esse: olhar com atenção para a história e
para os pressupostos por trás de certas celebrações culturais, e aprender a
exercer o discernimento que a Palavra de Deus exige de nós.
E
é importante dizer que esse não é um estudo apenas sobre uma data específica. O
Dia Internacional da Mulher será tratado apenas como um exemplo entre muitos de
como ideias, narrativas e ideologias podem atravessar as portas da igreja
quando deixamos de examinar as coisas à luz da Escritura.
Que
o Senhor nos conceda humildade, sabedoria e amor pela verdade, para que
possamos viver aquilo que Paulo nos ensina: não nos conformar com este século,
mas renovar nossa mente segundo a vontade de Deus.
Para
que possamos explicar o minimamente necessário, irei dividir o estudo em três
partes. Segue o primeiro texto do estudo para que possamos refletir.
Deus
abençoe a todos!
Sumário
1. Uma perspectiva
histórica e teológica do Dia Internacional da Mulher.
Como Ideologias Entram na
Igreja
A Entrada do Feminismo
nas Igrejas Protestantes Históricas
A Relação Entre Cultura E
Teologia
A Origem Ideológica do
Feminismo Moderno
O Dia Internacional da
Mulher e sua Origem Histórica
A ligação com a Revolução
Russa
A Difusão Internacional da Data
O Surgimento da Primeira
Onda do Feminismo
A Primeira Reinterpretação Feminista da Bíblia
A Primeira Ruptura Hermenêutica
Como o Feminismo Entrou
na Teologia Cristã
Da Igualdade Jurídica à
Igualdade Ontológica
A Entrada do Feminismo
nas Igrejas Protestantes Históricas
O Surgimento da Teologia
Feminista
A Redefinição da Linguagem Sobre Deus
A Dissolução das
Distinções Criacionais
A Transformação da
Eclesiologia
O Pastorado Feminino e a Crise da Autoridade Bíblica
O Debate Sobre o Pastorado Feminino
A Argumentação do Apóstolo Paulo
A Nova Interpretação Feminista
A Questão da Autoridade das Escrituras
1.
Uma
perspectiva histórica e teológica do Dia Internacional da Mulher.
Vamos
começar fazendo algumas perguntas.
·
Quantas
práticas culturais nós incorporamos à vida da igreja sem jamais investigar a
origem delas?
·
Quantas
datas comemorativas celebramos simplesmente porque toda a sociedade celebra,
sem perguntar qual foi o propósito original da criação dessa data?
·
Será
que às vezes nós assumimos que algo é neutro apenas porque foi amplamente
aceito pela cultura contemporânea?
·
Será
que algumas ideias entram na igreja lentamente, de maneira tão gradual que
muitas vezes só percebemos suas implicações quando elas já estão profundamente
estabelecidas?
·
E
finalmente, será que a igreja sempre percebe quando uma causa aparentemente
legítima começa a trazer consigo pressupostos teológicos que transformam a
maneira como lemos a Bíblia?
Essas
perguntas são extremamente importantes.
Porque
a história da igreja nos mostra repetidamente que grandes transformações
teológicas raramente começam dentro da igreja.
1. Elas normalmente começam fora da
igreja.
2. Elas começam como movimentos
culturais.
3. Depois se tornam movimentos
intelectuais.
4. Depois começam a influenciar a
maneira como os cristãos interpretam a Bíblia.
5. E somente então começam a
transformar a teologia da igreja.
É
exatamente esse processo que vamos analisar neste estudo.
Para
entender como chegamos ao ponto em que certas ideias entram na igreja quase sem
resistência, precisamos compreender primeiro como as ideologias se formam na
história e depois atravessam as portas da igreja.
Como Ideologias Entram na Igreja
Ao
longo de dois mil anos de história cristã, a igreja sempre enfrentou desafios
doutrinários. Alguns desses desafios surgiram diretamente dentro da própria
igreja. Mas muitos deles surgiram primeiro no ambiente cultural ao redor da
igreja. Um exemplo clássico disso ocorreu nos primeiros séculos do cristianismo
com o surgimento do gnosticismo.
O
gnosticismo não nasceu dentro da igreja. Ele nasceu dentro do ambiente
filosófico e religioso do mundo greco-romano. Mas com o tempo essas ideias
começaram a penetrar nas comunidades cristãs. Os apóstolos já estavam
enfrentando esse problema ainda no primeiro século.
O
apóstolo João escreve em 1 João 4:1: “Amados, não creiais em todo espírito,
mas provai se os espíritos procedem de Deus.” Ou seja, já naquele período
havia ideias circulando que pretendiam reinterpretar a fé cristã.
Outro
exemplo ocorreu durante o surgimento do liberalismo teológico no século XIX. Durante
esse período a Europa estava profundamente influenciada pelo Iluminismo. O
Iluminismo promoveu uma enorme confiança na razão humana e uma profunda
suspeita em relação à revelação sobrenatural. Muitos teólogos começaram a
reinterpretar o cristianismo para torná-lo mais aceitável à mentalidade
moderna. Milagres passaram a ser reinterpretados. A autoridade da Escritura
começou a ser questionada. A teologia começou a ser reformulada.
Esse
processo foi tão profundo que, no início do século XX, muitas igrejas
protestantes históricas haviam sido profundamente transformadas pelo
liberalismo teológico.
Esse
padrão histórico é extremamente importante. Porque ele mostra como ideologias
entram na igreja. Elas raramente entram dizendo: “Estamos aqui para mudar a
teologia cristã.” Elas entram com outras bandeiras.
·
Bandeiras
sociais.
·
Bandeiras
políticas.
·
Bandeiras
culturais.
Somente
mais tarde suas implicações teológicas se tornam evidentes. E é exatamente
dentro desse padrão histórico que devemos compreender a relação entre feminismo
e teologia contemporânea.
A Entrada do Feminismo nas Igrejas Protestantes Históricas
Para
compreender como o feminismo entrou nas igrejas protestantes, precisamos
observar o desenvolvimento do protestantismo ao longo do século XX. No final do
século XIX e início do século XX, muitas denominações protestantes na Europa e
na América do Norte estavam sendo fortemente influenciadas pelo liberalismo
teológico.
Esse
liberalismo já havia começado a enfraquecer a doutrina da inspiração e
autoridade das Escrituras. Quando essa base doutrinária começou a ser
enfraquecida, tornou-se muito mais fácil reinterpretar diversos aspectos da
teologia cristã. Foi nesse ambiente que começaram a surgir os primeiros
movimentos defendendo a ordenação feminina.
Algumas
denominações metodistas começaram a discutir o tema ainda no início do século
XX. Posteriormente, várias denominações luteranas e reformadas liberais também
passaram a adotar essa prática. No contexto presbiteriano norte-americano, um
marco importante ocorreu em 1956, quando a Presbyterian Church in the U.S.A.
passou a ordenar mulheres ao ministério pastoral.
Essa decisão não ocorreu isoladamente. Ela foi
precedida por décadas de transformação teológica dentro da denominação. Muitos
teólogos influenciados pelo liberalismo já haviam começado a reinterpretar
textos bíblicos relacionados ao ministério e à ordem da criação. Posteriormente,
outras denominações presbiterianas que surgiram a partir de fusões e
reorganizações institucionais também adotaram essa prática. Por outro lado, denominações reformadas
confessionais que mantiveram forte compromisso com a autoridade das Escrituras
continuaram rejeitando a ordenação feminina.
Esse
contraste revela algo extremamente importante. A discussão sobre o pastorado
feminino não surgiu em um vácuo. Ela surgiu dentro de denominações que já
haviam experimentado profundas transformações teológicas.
A Relação Entre Cultura E Teologia
Ao
observarmos esse processo histórico, percebemos um padrão muito claro.
1. Primeiro surge um movimento
cultural.
2. Depois esse movimento começa a
influenciar a maneira como as pessoas leem a Bíblia.
3. Finalmente surgem mudanças na
prática e na estrutura da igreja.
Foi
exatamente isso que aconteceu com o liberalismo teológico.
E
foi exatamente isso que aconteceu também com a teologia feminista.
A Origem Ideológica do Feminismo Moderno
Do
Dia Internacional da Mulher à Primeira Onda do Feminismo
Estamos
tratando de um tema que, à primeira vista, parece apenas cultural ou
sociológico, mas que na verdade possui profundas implicações teológicas e
eclesiológicas.
Nós
vamos analisar o caminho histórico que liga três coisas:
1. o surgimento do Dia Internacional
da Mulher,
2. o desenvolvimento do movimento
feminista moderno,
3. e finalmente a entrada dessas
ideias dentro das igrejas cristãs, culminando no debate sobre o pastorado
feminino.
Nosso
objetivo não é simplesmente fazer uma crítica cultural. Nosso objetivo é
compreender como ideias entram na igreja. Porque a história da igreja nos
ensina algo muito claro: heresias raramente entram pela porta da frente.
·
Elas
entram lentamente.
·
Elas
entram culturalmente.
·
Elas
entram muitas vezes disfarçadas de causas legítimas.
E
é exatamente isso que precisamos compreender.
O Dia Internacional da Mulher e sua Origem Histórica
Hoje,
o dia 8 de março é amplamente celebrado como o Dia Internacional da Mulher. Em
muitas escolas, empresas e instituições, essa data é apresentada como uma celebração
universal da mulher. Entretanto, quando investigamos sua origem histórica real,
descobrimos que ela nasce em um contexto muito específico.
O
Dia Internacional da Mulher foi proposto no ano 1910, durante uma conferência
da Internationale Sozialistische Frauenkonferenz (Conferência
Internacional de Mulheres Socialistas) realizada na cidade de Copenhague, na
Dinamarca. A proposta foi apresentada por uma militante socialista alemã
chamada Clara Zetkin.
Clara
Zetkin era uma ativista marxista profundamente envolvida no movimento
socialista europeu do início do século XX. A proposta dela era criar um dia
internacional de mobilização das mulheres trabalhadoras para lutar por
transformações sociais.
Entre
as principais reivindicações estavam:
•
direito ao voto feminino
•
participação política
•
transformação das estruturas sociais consideradas opressivas
À
primeira vista, muitas dessas reivindicações podiam parecer apenas demandas
sociais legítimas ou preocupações com a dignidade da mulher. De fato, era assim
que o movimento frequentemente se apresentava publicamente: como uma luta por
justiça social, melhores condições de vida e maior participação das mulheres na
sociedade. No entanto, por trás dessas bandeiras havia um projeto ideológico
mais amplo. As líderes desse movimento estavam profundamente ligadas ao
socialismo revolucionário europeu do início do século XX, que entendia a
sociedade como estruturada por conflitos de classe e via a transformação
radical das instituições existentes (incluindo a religião cristã, a família e a
estrutura patriarcal tradicional) como necessária para a construção de uma nova
ordem social eliminando essas estruturas tradicionais. Dentro dessa
perspectiva, a mobilização das mulheres era vista como parte estratégica da luta
política do movimento operário. Assim, as reivindicações apresentadas não se
limitavam a melhorias sociais pontuais, mas estavam inseridas em um projeto de
reorganização profunda da sociedade segundo os princípios do socialismo.
Portanto,
desde o início, o Dia Internacional da Mulher não nasce como uma data neutra ou
apenas comemorativa. Ele surge dentro de um movimento político de caráter
revolucionário, ligado à mobilização ideológica das massas e à promoção de
transformações sociais amplas defendidas pelo socialismo internacional.
A ligação com a Revolução Russa
A
data 8 de março tornou-se definitiva alguns anos depois. Em 1917, durante a
Revolução Russa, ocorreu um grande protesto de mulheres operárias na cidade de
Petrogrado, que hoje conhecemos como São Petersburgo. Essas mulheres
organizaram uma greve exigindo duas coisas muito simples: pão e paz. Era um
protesto contra a fome e contra a participação da Rússia na Primeira Guerra
Mundial. Esse protesto ocorreu em 23 de fevereiro no calendário juliano, que
era o calendário utilizado na Rússia naquela época. No calendário gregoriano,
que usamos aqui no Brasil, essa data corresponde exatamente a 8 de março. O
evento tornou-se simbólico dentro do movimento revolucionário e, por essa
razão, o dia 8 de março passou a ser adotado oficialmente como o Dia
Internacional da Mulher dentro dos movimentos socialistas.
É
importante contextualizar que este protesto se deu antes do advento de Stalin. Portanto,
ele não participou do evento, embora mais tarde o regime soviético, sob sua
liderança, tenha institucionalizado a data para fins de propaganda social e
ideológica. A relação com Lenin é direta no sentido de que ele e os
bolcheviques, após a Revolução de Outubro de 1917, implementaram medidas legais
que promoviam às mulheres: direito ao
voto, acesso ao trabalho, à educação e à participação política.
Essas
medidas, porém, não surgiram de um feminismo independente; eram instrumentos do
projeto revolucionário bolchevique, voltados a consolidar o socialismo,
mobilizar as massas e enfraquecer estruturas tradicionais como a família
patriarcal e a autoridade religiosa. O protesto das operárias, reivindicando
pão e paz, foi interpretado pelos bolcheviques como símbolo da força
revolucionária feminina, mas esse símbolo foi apropriado pelo partido, e a
emancipação feminina foi promovida como parte do fortalecimento do regime
socialista, e não como um movimento feminista autônomo.
Portanto,
o Dia Internacional da Mulher, ao ser consolidado em 8 de março, nasce dentro
de um contexto político e ideológico claramente socialista, ligado à
transformação radical da sociedade e à promoção de igualdade formal de gênero
como instrumento de mobilização política. A data não surgiu de forma neutra ou
apenas comemorativa, mas como um símbolo estratégico dentro do projeto
revolucionário bolchevique, posteriormente institucionalizado pela União
Soviética, incorporando o feminismo de forma instrumental e ideológica.
A
Difusão Internacional da Data
Durante
várias décadas, o Dia Internacional da Mulher foi celebrado principalmente em
países ligados ao socialismo. Ele era especialmente celebrado em países da
extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) ou que estavam sob
sua influência política e ideológica durante a Guerra Fria. Somente muito mais
tarde essa data foi adotada por instituições internacionais.
Em
1975, durante o chamado Ano Internacional da Mulher, a Organização das Nações
Unidas passou a reconhecer oficialmente o Dia Internacional da Mulher. A partir
desse momento a data se difundiu globalmente. E, com o tempo, sua origem
política revolucionária foi sendo cada vez mais esquecida pelo fortalecimento
do imaginário popular de valorização da mulher.
O Surgimento da Primeira Onda do Feminismo
Agora
precisamos dar um passo atrás na história. Porque o feminismo moderno não
começa em 1910. Ele começa ainda no século XIX. O que os historiadores chamam
de primeira onda do feminismo ocorreu aproximadamente entre o final do século
XIX e o início do século XX.
O
foco principal dessa primeira onda era a luta por direitos civis, especialmente
o direito ao voto feminino. Entre as principais líderes desse movimento
estavam: Elizabeth Cady Stanton e Susan B. Anthony. Essas duas figuras foram
extremamente influentes no movimento sufragista[1]
americano.
Entretanto,
há um aspecto importante da história que muitas vezes é ignorado. O movimento
feminista, desde cedo, não foi apenas político. Ele também começou a
desenvolver críticas religiosas ao cristianismo histórico.
A
Primeira Reinterpretação Feminista da Bíblia
Um
exemplo extremamente importante disso é um projeto editorial liderado por
Elizabeth Cady Stanton. Esse projeto ficou conhecido como The Woman's Bible
(A Bíblia da Mulher). Esse livro foi publicado no final do século XIX. O
objetivo da obra era reinterpretar as Escrituras a partir de uma perspectiva
feminista.
Os
autores do projeto afirmavam que a Bíblia havia sido interpretada ao longo da
história a partir de uma visão patriarcal e, portanto, seria necessário
reinterpretar o texto bíblico. Aqui aparece um ponto fundamental para a nossa
discussão pois, a partir desse momento, o feminismo começa a desenvolver uma
crítica direta à autoridade da Escritura. Não se tratava apenas de lutar por
direitos civis. Tratava-se de reinterpretar a própria revelação bíblica.
A
Primeira Ruptura Hermenêutica
Essa
reinterpretação seguia um método bastante específico. Primeiro afirmava-se que
determinados textos bíblicos refletiam apenas a cultura patriarcal da
antiguidade. Depois afirmava-se que esses textos não deveriam ser considerados
normativos para a igreja moderna. Entre os textos mais frequentemente
questionados estavam:
·
1
Timóteo 2:11-14
·
1
Coríntios 14:34-35
·
Efésios
5:22-24
A
partir desse ponto começava uma reconstrução da teologia cristã. E essa
reconstrução partia de um novo princípio. Não mais a autoridade da Escritura,
mas a interpretação da Escritura à luz das demandas culturais modernas.
Uma
Observação Fundamental
Meus
irmãos, é importante percebermos algo aqui. A história das heresias na igreja frequentemente
segue exatamente esse padrão. Primeiro surge uma pressão cultural. Depois surge
uma nova interpretação da Escritura para acomodar essa pressão cultural. E
finalmente surge uma nova teologia. Essa dinâmica ocorreu:
·
no
liberalismo teológico
·
no
modernismo
·
e
também na teologia feminista.
A Análise Cultural
Nesse
ponto é extremamente útil considerar a análise feita por Peter Jones em seu
livro Ameaça Pagã. Peter Jones argumenta que o conflito cultural moderno não é
apenas político. Ele é religioso. Segundo
Jones, existem duas cosmovisões fundamentais.
A
primeira é a cosmovisão bíblica.
·
Essa
cosmovisão afirma que Deus é transcendente.
·
Que
Ele é distinto da criação.
·
Que
Ele estabeleceu uma ordem na criação.
·
E
que essa ordem inclui diversas distinções fundamentais. Entre elas a distinção
entre homem e mulher.
A
segunda cosmovisão é aquilo que Jones chama de cosmovisão pagã.
·
Essa
cosmovisão procura dissolver todas as distinções feitas por Deus na criação.
·
Ela
afirma que todas as diferenças são construções sociais e, portanto, devem ser
superadas.
A Questão das Distinções Criacionais
Segundo
Peter Jones, um dos grandes projetos da cultura moderna é a dissolução das
distinções estabelecidas por Deus na criação. Entre essas distinções estão:
·
Criador
e criatura.
·
Deus
e mundo.
·
Homem
e mulher.
Peter
Jones afirma que grande parte da espiritualidade contemporânea representa um
retorno ao paganismo antigo. Existem duas cosmovisões fundamentais que
estruturam a história religiosa da humanidade. A primeira é aquilo que Jones
chama de Twoism. Essa é a cosmovisão bíblica. Ela afirma que Deus é
distinto da criação. Deus é transcendente. Ele criou o mundo e estabeleceu uma
ordem nele. A segunda cosmovisão é aquilo que Jones chama de Oneism.
Essa é a cosmovisão pagã. Ela afirma que tudo é essencialmente uma única
realidade. Deus e mundo se confundem. Todas as distinções desaparecem.
Segundo
Jones, muitos movimentos espirituais contemporâneos caminham exatamente nessa
direção. Eles procuram dissolver as distinções estabelecidas por Deus na criação.
Quando
essas distinções são dissolvidas, a ordem da criação também é dissolvida. E
quando a ordem da criação é dissolvida, a própria estrutura da sociedade e da
igreja começa a ser redefinida.
Até
aqui nós observamos três coisas fundamentais:
·
Primeiro,
vimos que o Dia Internacional da Mulher nasce dentro de um movimento político
revolucionário do início do século XX.
·
Segundo,
vimos que o movimento feminista, desde sua primeira onda, começou a desenvolver
críticas à interpretação tradicional da Bíblia.
·
Terceiro,
vimos que essa crítica representa uma ruptura hermenêutica que abre caminho
para transformações teológicas profundas.
A
seguir, iremos analisar como essas ideias começaram a entrar dentro da teologia
cristã. E como surgiu aquilo que hoje conhecemos como teologia feminista. Essa
será a ponte que nos conduzirá ao tema final deste estudo: o debate sobre o
pastorado feminino nas igrejas cristãs.
2. A
Revolução Hermenêutica
Como o Feminismo Entrou na Teologia Cristã
Meus
irmãos, na primeira parte do estudo, nós analisamos três elementos
fundamentais.
Primeiro,
vimos que o Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, não surgiu
como uma simples homenagem cultural, mas dentro de um movimento político
específico ligado ao socialismo internacional, especialmente através da atuação
de Clara Zetkin, durante a conferência da Internacional Socialista de Mulheres,
realizada em 1910 em Copenhague.
Segundo,
observamos o desenvolvimento da chamada primeira onda do feminismo, marcada
pela luta por direitos civis e pelo sufrágio feminino, liderada por figuras
como Elizabeth Cady Stanton e Susan B. Anthony.
Terceiro,
vimos que já nesse primeiro estágio surgiu algo extremamente importante: a
tentativa de reinterpretar a Bíblia à luz da agenda feminista, especialmente
através da obra conhecida como A Bíblia da Mulher, editada por Elizabeth Cady
Stanton.
Isso
nos levou a uma conclusão importante: o feminismo não permaneceu apenas como
movimento político. Ele começou a desenvolver um projeto teológico. E é
exatamente sobre esse projeto teológico que trata essa nossa segunda parte do
estudo.
A Segunda Onda do Feminismo
Se
a primeira onda do feminismo estava concentrada principalmente em direitos
civis, a chamada segunda onda do feminismo ampliou radicalmente sua agenda. Essa
segunda onda se desenvolveu principalmente entre as décadas de 1960 e 1980. Esse
período foi marcado por profundas transformações culturais no Ocidente. Entre
essas transformações podemos mencionar:
·
a
revolução sexual
·
o
crescimento do movimento estudantil
·
o
questionamento das instituições tradicionais
·
a
crítica à estrutura familiar clássica
Nesse
ambiente cultural, o feminismo passou a defender algo muito mais profundo do
que direitos políticos. Ele passou a defender uma reconstrução completa das
relações entre homens e mulheres.
Uma
das figuras mais influentes desse período foi Betty Friedan, autora do livro The
Feminine Mystique, (A Mística Feminina), publicado em 1963. Essa obra
denunciava aquilo que Friedan chamava de “o problema sem nome”, referindo-se à
frustração de muitas mulheres com o papel tradicional de esposa e mãe dentro da
família.
Esse
livro teve enorme impacto cultural. Ele ajudou a impulsionar o feminismo como
movimento social de larga escala.
Da Igualdade Jurídica à Igualdade Ontológica
Aqui
ocorre uma mudança extremamente importante. A primeira onda do feminismo
buscava principalmente igualdade jurídica. Mas a segunda onda começa a defender
algo diferente. Ela passa a defender igualdade ontológica absoluta entre homens
e mulheres. Ou seja, não apenas igualdade diante da lei. Mas igualdade completa
em todas as funções e papéis sociais. A partir desse ponto, qualquer distinção
de papéis entre homens e mulheres começa a ser interpretada como opressão.
Essa
mudança é fundamental para compreendermos o que acontecerá dentro das igrejas. Porque
a Bíblia não ensina inferioridade feminina. Mas ela ensina distinção de papéis
dentro da ordem da criação. Quando essa distinção passa a ser considerada
injusta, surge inevitavelmente um conflito com o texto bíblico.
A Entrada do Feminismo nas Igrejas Protestantes Históricas
Já
tendo visto como o feminismo deixou de ser apenas um movimento político e
passou a se tornar uma ideologia cultural mais ampla, precisamos responder a
uma pergunta importante. Como exatamente essas ideias começaram a entrar nas
igrejas protestantes?
Para responder a essa pergunta, precisamos
voltar um pouco na história e observar uma transformação teológica que ocorreu
dentro do protestantismo a partir do século XIX. Durante a Reforma Protestante
do século XVI, os reformadores afirmaram com grande clareza dois princípios
fundamentais: a autoridade suprema da Escritura e a suficiência da Palavra de
Deus como regra de fé e prática.
Teólogos como João Calvino insistiam que a
igreja deveria ser governada pela Palavra de Deus e que nenhuma tradição humana
poderia ter autoridade igual ou superior à Escritura.
No
entanto, nos séculos posteriores, especialmente a partir do Iluminismo, surgiu
um movimento intelectual que começou a questionar a autoridade da Bíblia. Esse
movimento encontrou expressão teológica em pensadores como Friedrich
Schleiermacher, frequentemente chamado de pai da teologia liberal moderna.
Schleiermacher
propôs uma mudança profunda na forma de entender a religião. Para ele, a
essência da fé cristã não estava principalmente na revelação objetiva de Deus
nas Escrituras, mas na experiência religiosa interior do ser humano.
Posteriormente,
teólogos como Albrecht Ritschl desenvolveram ainda mais essa abordagem,
enfatizando aspectos éticos e sociais do cristianismo em detrimento da
autoridade doutrinária tradicional.
Essa
mudança teve consequências profundas. Quando a experiência humana começa a
ocupar o lugar central na teologia, a interpretação da Bíblia passa a ser
fortemente influenciada pelas mudanças culturais e sociais. E foi exatamente
nesse contexto que as ideias feministas começaram a ganhar espaço dentro de
círculos teológicos.
Durante
o século XX, especialmente após as grandes transformações sociais provocadas
pelas guerras mundiais e pela revolução cultural das décadas de 1960 e 1970,
surgiu aquilo que passou a ser conhecido como teologia feminista.
Entre
as principais representantes desse movimento está Rosemary Radford Ruether, que
argumentava que a teologia cristã tradicional refletia estruturas patriarcais e
deveria ser reconstruída a partir da experiência das mulheres. Essa proposta
representava uma mudança radical no método teológico. Em vez de partir da
revelação bíblica para interpretar a realidade humana, a teologia feminista
propunha o movimento inverso: partir da experiência social contemporânea para
reinterpretar a Escritura.
Com
o passar do tempo, essas ideias começaram a influenciar decisões institucionais
dentro de várias denominações protestantes. Ao longo da segunda metade do
século XX, diversas igrejas históricas passaram a revisar suas posições sobre o
ministério ordenado.
Um
exemplo significativo ocorreu dentro da denominação hoje conhecida como Presbyterian
Church (USA) Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos, que passou a ordenar
mulheres ao ministério pastoral no contexto de profundas mudanças teológicas e
culturais ocorridas no protestantismo americano.
É
importante notar que essas mudanças não ocorreram de maneira isolada. Elas
estavam inseridas em um ambiente cultural mais amplo marcado por movimentos
como a revolução sexual, o crescimento do secularismo e a expansão das
ideologias igualitaristas.
Alguns
estudiosos têm argumentado que o que estamos observando aqui não é apenas uma
mudança administrativa dentro das igrejas, mas uma transformação mais profunda
na própria cosmovisão religiosa.
Um
dos autores que analisou esse fenômeno de forma bastante contundente é o
teólogo reformado Peter Jones, já citado anteriormente. Em sua obra Ameaça
Pagã, Jones argumenta que muitos movimentos espirituais e ideológicos
contemporâneos representam, na verdade, uma espécie de retorno a padrões
religiosos pagãos que rejeitam a distinção criacional estabelecida por Deus.
Dentro
dessa perspectiva, a teologia feminista não é apenas uma discussão sobre papéis
ministeriais. Ela está ligada a uma visão mais ampla que busca desconstruir a
ordem criada por Deus na relação entre homem e mulher. A Escritura apresenta
essa ordem criacional de forma clara desde os primeiros capítulos de Gênesis e
a reafirma em diversas passagens do Novo Testamento.
No
entanto, quando a teologia passa a ser moldada prioritariamente por pressões
culturais e não pela revelação bíblica, essas distinções começam a ser
reinterpretadas ou mesmo rejeitadas. É nesse ponto que o debate sobre o
pastorado feminino emerge dentro das igrejas protestantes. E é exatamente sobre
isso que trataremos na próxima parte da nossa reflexão.
Ali
veremos como essa discussão não pode ser compreendida adequadamente sem levar
em consideração todo esse pano de fundo histórico, cultural e teológico que
acabamos de examinar.
O Surgimento da Teologia Feminista
Foi
nesse ambiente cultural que surgiu aquilo que hoje conhecemos como teologia
feminista. A teologia feminista não é simplesmente um estudo da mulher na
Bíblia. Ela é uma tentativa de reconstruir a teologia cristã a partir da
perspectiva feminista.
Algumas
das figuras mais influentes nesse movimento foram: Mary Daly, Rosemary Radford
Ruether e Elisabeth Schüssler Fiorenza. Essas teólogas passaram a argumentar
que o cristianismo histórico havia sido construído sobre estruturas
patriarcais.
Segundo
elas, essas estruturas precisariam ser desconstruídas. E para isso seria
necessário reinterpretar diversos aspectos da tradição cristã.
A
Redefinição da Linguagem Sobre Deus
Uma
das primeiras áreas afetadas por essa nova teologia foi a linguagem sobre Deus.
Durante dois mil anos de história cristã, Deus foi revelado nas Escrituras com
linguagem pessoal masculina. Jesus ensinou seus discípulos a orar dizendo: “Pai
nosso que estás nos céus”. A teologia feminista passou a questionar essa
linguagem.
Algumas
teólogas passaram a defender que a linguagem masculina para Deus era opressiva.
Por essa razão começaram a surgir propostas como:
·
linguagem
neutra para Deus
·
referências
maternas a Deus (deusa mãe)
·
ou
até mesmo a ideia de que Deus deveria ser compreendido como realidade impessoal
(uma coisa e não um Ser).
Em
casos mais extremos, algumas autoras passaram a defender a recuperação de
espiritualidades ligadas à deusa‑mãe presentes em religiões antigas. Entre essas figuras,
podemos destacar Caitlín
Matthews, estudiosa de mitologia e espiritualidade céltica, que valoriza arquétipos femininos e práticas espirituais pré‑cristãs centradas na Deusa. Assim como
outras autoras pagãs que seguem essa linha, ela propõe uma reinterpretação da
divindade e das tradições religiosas antigas, muitas vezes em oposição direta à
cosmovisão cristã.
Aqui
encontramos um ponto extremamente importante para nossa análise, pois essa
tendência corresponde exatamente ao diagnóstico apresentado por Peter Jones em
Ameaça Pagã: uma apropriação de símbolos e práticas religiosas pré‑cristãs que, quando introduzidas na
vida da igreja, desviam a fé
da revelação
de Deus e da adoração
correta, substituindo a autoridade bíblica por pressupostos culturais e
ideológicos externos.
A Dissolução das Distinções Criacionais
Lembrando
o que Peter Jones falou acerca das distinções fundamentais que Deus estruturou
na criação, entre mais importantes estabelecidas, naquele momento histórico, está
a distinção entre homem e mulher. No relato de Gênesis, Deus cria o homem e a
mulher como iguais em dignidade. Mas também estabelece uma ordem, uma estrutura
relacional.
Essa
estrutura aparece claramente em:
·
Gênesis
2,
·
1
Coríntios 11
·
1
Timóteo 2
A
teologia feminista passou a contestar exatamente essa estrutura. Ela passou a
argumentar que essas distinções seriam produtos de uma cultura patriarcal
antiga. E, portanto, não deveriam ser mantidas na igreja moderna. Essa
estrutura criada por Deus foi a partir do ato de primeiro formar o homem e
depois formar a mulher como sua auxiliadora.
A Nova Hermenêutica Feminista
Para
sustentar essa posição foi necessário desenvolver uma nova abordagem de
interpretação bíblica. Essa abordagem geralmente segue três passos.
I.
Primeiro,
afirma-se que certos textos bíblicos refletem apenas o contexto cultural do
mundo antigo.
II.
Segundo,
afirma-se que esses textos não devem ser aplicados diretamente à igreja
contemporânea.
III.
Terceiro,
procura-se reinterpretar as Escrituras a partir de princípios gerais como igualdade
ou justiça social.
Um
dos textos mais frequentemente utilizados nesse processo é Gálatas 3:28,
onde o apóstolo Paulo afirma que em Cristo “não há judeu nem grego, escravo
nem livre, homem nem mulher”.
Esse
texto, originalmente falando da igualdade de todos os crentes na salvação,
passa a ser reinterpretado como argumento para abolir todas as distinções
funcionais dentro da igreja.
A Transformação da Eclesiologia
Quando
essa nova hermenêutica é aplicada à vida da igreja, as consequências são
inevitáveis. Se as distinções de papéis entre homem e mulher são consideradas
injustas, então a estrutura ministerial da igreja também precisa ser
modificada. Assim começa a surgir a defesa da ordenação feminina ao ministério
pastoral.
Esse
movimento não ocorreu de maneira uniforme. Ele começou principalmente em
denominações influenciadas pelo liberalismo teológico. Mas com o tempo essas
ideias começaram a penetrar também em igrejas historicamente mais
conservadoras.
Nessa
segunda parte do estudo nós observamos:
·
Como
o feminismo passou de movimento político para movimento teológico.
·
Vimos
que a segunda onda do feminismo ampliou radicalmente sua agenda, buscando não
apenas igualdade jurídica, mas a reconstrução completa das relações entre
homens e mulheres.
·
Vimos
também o surgimento da teologia feminista, que passou a reinterpretar diversos
aspectos da tradição cristã.
·
E
finalmente analisamos como essa nova abordagem hermenêutica abriu caminho para
a redefinição da estrutura ministerial da igreja.
Na
terceira e última parte desse estudo nós vamos examinar exatamente essa
questão. Nós vamos analisar como o debate sobre o pastorado feminino surgiu
dentro das igrejas.
E
veremos por que esse debate não é apenas uma questão administrativa, mas uma
questão profundamente ligada à autoridade das Escrituras e à ordem da criação
estabelecida por Deus.
3.
A
Culminação Eclesiológica
O
Pastorado Feminino e a Crise da Autoridade Bíblica
Meus
irmãos, nas duas primeiras partes desse estudo, nós percorremos um caminho histórico
bastante importante.
Na
primeira parte analisamos o surgimento do Dia Internacional da Mulher, proposto
em 1910 por Clara Zetkin, durante a conferência da Internacional Socialista de
Mulheres realizada em Copenhague, e vimos como essa data se consolidou
posteriormente após os protestos femininos ocorridos em 1917, durante a
Revolução Russa, na cidade de Petrogrado, hoje São Petersburgo.
Também
analisamos a chamada primeira onda do feminismo, marcada pela atuação de
figuras como Elizabeth Cady Stanton e Susan B. Anthony, e vimos que já nesse
período surgiram tentativas de reinterpretar a Bíblia, especialmente através da
obra A Bíblia da Mulher, editada por Stanton.
Na
segunda parte avançamos algumas décadas e analisamos o surgimento da segunda
onda do feminismo, especialmente entre as décadas de 1960 e 1980, período em
que o movimento ampliou radicalmente sua agenda cultural.
Observamos
também o surgimento da teologia feminista, com teólogas como Mary Daly,
Rosemary Radford Ruether e Elisabeth Schüssler Fiorenza, que passaram a
defender uma reconstrução da teologia cristã à luz da agenda feminista. E vimos
como essa reconstrução teológica envolve necessariamente uma nova abordagem
hermenêutica da Escritura.
Agora
chegamos ao ponto final da nossa análise.
Como
todas essas transformações culturais e teológicas culminam no debate sobre o
pastorado feminino.
O
Debate Sobre o Pastorado Feminino
O
debate sobre a ordenação de mulheres ao ministério pastoral começou a surgir
com força principalmente ao longo do século XX. Inicialmente esse debate
apareceu em denominações protestantes mais influenciadas pelo liberalismo
teológico.
Mas
com o tempo ele começou a aparecer também em igrejas que historicamente se
consideravam conservadoras. Esse debate normalmente gira em torno de alguns
textos específicos do Novo Testamento.
Entre
eles destacam-se especialmente três:
·
Primeiro:
1 Timóteo 2:11–14
·
Segundo:
1 Coríntios 14:34–35
·
E
terceiro: 1 Coríntios 11
Esses
textos tratam da ordem estabelecida por Deus na igreja e na criação. E é
exatamente por isso que eles se tornaram alvo de intensa reinterpretação dentro
da teologia feminista.
A
Argumentação do Apóstolo Paulo
Consideremos,
por exemplo, o texto de 1 Timóteo 2:11–12. O apóstolo Paulo escreve:
“A
mulher aprenda em silêncio, com toda a submissão. E não permito que a mulher
ensine, nem exerça autoridade sobre o homem; esteja, porém, em silêncio.”
Imediatamente
após essa afirmação, Paulo apresenta o fundamento de sua instrução.
E
esse ponto é absolutamente crucial para nossa discussão. Ele escreve:
“Porque
primeiro foi formado Adão, depois Eva.”
Observe
cuidadosamente o argumento apostólico. Paulo não fundamenta sua instrução em
costumes culturais do primeiro século. Ele fundamenta sua instrução na ordem da
criação. Ou seja, ele volta ao livro de Gênesis. Esse detalhe é extremamente
importante. Porque se o argumento de Paulo fosse apenas cultural, ele poderia
ser descartado com relativa facilidade. Mas o apóstolo fundamenta sua instrução
na própria estrutura da criação estabelecida por Deus.
A
Ordem da Criação
A
Bíblia ensina que Deus criou homem e mulher com igual dignidade diante de Deus.
Ambos
são criados à imagem de Deus.
Ambos
recebem o mandato cultural.
Mas
o relato de Gênesis também estabelece uma ordem relacional. Adão é criado
primeiro. Eva é criada como auxiliadora idônea. Essa ordem não implica
inferioridade. Ela implica estrutura. Da mesma forma que dentro da própria
Trindade existe ordem sem inferioridade. O Filho se submete ao Pai. Mas essa
submissão não implica inferioridade ontológica.
Da
mesma forma, dentro da criação Deus estabeleceu papéis complementares entre
homem e mulher.
A
Nova Interpretação Feminista
A
teologia feminista, entretanto, precisa reinterpretar esses textos para sustentar
sua posição. Normalmente isso ocorre através de três estratégias principais.
·
A
primeira estratégia consiste em afirmar que as instruções de Paulo eram apenas
contextuais – baseadas na cultura de sua época. Ou seja, aplicáveis apenas à situação
específica da igreja de Éfeso ou de Corinto.
·
A
segunda estratégia consiste em reinterpretar os termos gregos utilizados por
Paulo para tentar suavizar ou alterar o significado do texto.
·
E
a terceira estratégia consiste em apelar para textos como Gálatas 3:28,
argumentando que todas as distinções de papéis foram abolidas em Cristo.
Entretanto,
quando analisamos cuidadosamente o argumento apostólico, percebemos que essas
interpretações enfrentam sérias dificuldades exegéticas. Porque, como já mencionamos,
Paulo fundamenta sua instrução na ordem da criação, e não em circunstâncias
culturais temporárias. E também vimos que o texto de Gálatas 3.28 não fala de
igualdade de papéis (ofícios), mas de igualdade para salvação.
A
Questão da Autoridade das Escrituras
E
aqui chegamos ao ponto central de toda essa discussão. A questão fundamental
não é simplesmente se mulheres podem ou não ocupar determinado ofício
eclesiástico. A questão fundamental é: qual é a autoridade final da igreja? Se
a autoridade final da igreja é a Escritura, então a igreja deve se submeter ao
ensino apostólico.
Mas
se a autoridade final da igreja passa a ser a cultura contemporânea, então
inevitavelmente a igreja começará a reinterpretar as Escrituras para se ajustar
às expectativas culturais. Esse é exatamente o padrão que observamos
repetidamente na história da teologia liberal.
O
Diagnóstico
É
nesse ponto que a análise de Peter Jones, em seu livro Ameaça Pagã, se torna
extremamente relevante. Jones argumenta que muitos movimentos culturais
contemporâneos representam um retorno a padrões religiosos antigos,
especialmente ao paganismo.
Uma
característica central do paganismo antigo era a dissolução das distinções
estabelecidas por Deus na criação. E entre essas distinções estava precisamente
a distinção entre homem e mulher.
Desta
maneira, quando a cultura moderna busca eliminar todas as distinções
criacionais, ela está na verdade retornando a uma visão religiosa vista antes
da encarnação de Cristo e, portanto, antes da fundação do cristianismo no
mundo. Quando essa visão entra na
igreja, inevitavelmente, ela entra em conflito com a teologia bíblica.
A
Transformação da Igreja
Quando
o feminismo entra na igreja como princípio hermenêutico, ele começa a produzir
transformações progressivas. Primeiro ocorre a reinterpretação de textos
específicos da Escritura. Depois ocorre a redefinição da linguagem teológica. E,
finalmente, ocorre a transformação da estrutura eclesiástica. Esse processo
culmina na redefinição do ministério pastoral.
O
Verdadeiro Problema
O debate sobre o pastorado feminino, tendo em
vista a realidade apresentada, não pode
ser reduzido a uma simples questão administrativa. Ele é, na verdade, um
sintoma de uma questão muito mais profunda. Ele revela um conflito entre duas
formas de compreender a autoridade.
·
De
um lado está a autoridade da Escritura.
·
Do
outro lado está a autoridade da cultura contemporânea.
E
a história da igreja mostra que sempre que a cultura passa a determinar a interpretação
da Escritura, a teologia cristã começa a ser progressivamente transformada.
Conclusão
Geral do Estudo
Meus
irmãos, durante este estudo nós percorremos um longo caminho histórico. Começamos
observando o surgimento do Dia Internacional da Mulher dentro de um contexto
político revolucionário no início do século XX. Depois analisamos o
desenvolvimento do feminismo moderno e sua transformação em um movimento
teológico através da chamada teologia feminista. E, finalmente, observamos como
essas ideias começaram a influenciar a estrutura eclesiástica, culminando no
debate contemporâneo sobre o pastorado feminino.
O
ponto central de toda essa discussão é simples. A igreja deve sempre perguntar:
Quem
define nossa teologia? A cultura ou a Palavra de Deus?
A
história da igreja nos ensina que sempre que a igreja abandona a autoridade
suprema das Escrituras, ela começa lentamente a se conformar ao espírito de sua
época. Mas a vocação da igreja é exatamente o contrário.
Como
diz o apóstolo Paulo em Romanos 12:2:
“E
não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa
mente.”
Que
Deus conceda à sua igreja fidelidade à sua Palavra em todas as gerações.
4.
APLICAÇÕES
PASTORAIS
Ao
concluir este estudo, é extremamente importante pensar nas implicações
pastorais desse tema.
1. A igreja precisa aprender a investigar a
origem das ideias culturais antes de adotá-las. Nem tudo o que é culturalmente
popular é teologicamente neutro.
2. A igreja precisa preservar uma doutrina
robusta da autoridade das Escrituras. Sempre que a autoridade da Escritura é
enfraquecida, novas interpretações surgem para acomodar as pressões culturais.
3. A igreja precisa ensinar claramente a doutrina
bíblica da criação. A Bíblia apresenta homem e mulher como igualmente criados à
imagem de Deus. Mas também apresenta distinções de papéis dentro da ordem da
criação. Essas distinções não são resultado do pecado. Elas fazem parte da
sabedoria criacional de Deus.
4. A igreja precisa discipular suas novas
gerações para pensar biblicamente sobre cultura. Muitos jovens cristãos hoje
são profundamente influenciados por narrativas culturais antes mesmo de terem
uma formação teológica sólida. Se a igreja não ensinar uma cosmovisão bíblica
robusta, outras cosmovisões ocuparão esse espaço.
5. Finalmente, a igreja precisa
lembrar que fidelidade bíblica frequentemente significa nadar contra a corrente
cultural. A igreja nunca foi chamada para refletir o espírito de sua época. Ela
foi chamada para ser coluna e baluarte da verdade. Como o apóstolo Paulo afirma
em 1 Timóteo 3:15, a igreja é: “coluna e baluarte da verdade”.
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