“Faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade.” (Efésios 1.11)
“As coisas encobertas pertencem ao Senhor, nosso Deus; porém as reveladas nos pertencem, a nós e a nossos filhos, para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei.” (Deuteronômio 29.29)
“Eu formo a luz e crio as trevas; faço a paz e crio o mal; eu, o Senhor, faço todas estas coisas.” (Isaías 45.7)
Ao avançarmos na doutrina de Deus, chegamos a uma distinção essencial para compreender corretamente a relação entre a soberania divina e a responsabilidade humana: a vontade de Deus.
A Escritura apresenta a vontade de Deus sob dois aspectos que devem ser distinguidos, embora nunca separados: a vontade decretiva e a vontade preceptiva.
A vontade decretiva de Deus refere-se àquilo que Ele determinou eternamente que aconteceria. Trata-se do Seu plano soberano, infalível e eficaz, pelo qual todas as coisas vêm a existir e se desenvolvem na história.
Nada escapa a essa vontade. Tudo o que acontece, desde os maiores eventos até os menores detalhes, ocorre conforme o decreto de Deus. Como afirma a Escritura, Ele faz todas as coisas segundo o conselho da sua vontade.
Nesse ponto, é importante compreender corretamente a linguagem bíblica. Quando o profeta declara que Deus “cria o mal”, não está afirmando que Deus seja autor do pecado ou moralmente responsável pelo mal moral. O termo, no contexto, refere-se a calamidade, juízo e adversidade. Ou seja, Deus é soberano não apenas sobre o bem-estar, mas também sobre os juízos que recaem sobre a história.
Isso está plenamente alinhado com a doutrina reformada: Deus decreta todas as coisas, inclusive eventos difíceis e juízos, sem jamais ser o autor do pecado. Ele governa até mesmo aquilo que, do ponto de vista humano, é adversidade, sempre de forma santa, justa e sábia.
Essa vontade é soberana, imutável e irresistível. Aquilo que Deus decreta, certamente se cumpre.
No entanto, essa vontade não é plenamente conhecida por nós antes de se realizar. Ela pertence ao âmbito do que Deus não revelou antecipadamente.
E é exatamente nesse ponto que entra a segunda distinção.
A vontade preceptiva de Deus refere-se àquilo que Ele revelou como sendo o nosso dever. Ela está expressa em Sua Palavra; em Seus mandamentos, princípios e instruções.
Essa vontade nos mostra como devemos viver, o que devemos crer e como devemos nos relacionar com Deus e com o próximo.
Diferente da vontade decretiva, a vontade preceptiva pode ser desobedecida. O homem, em sua condição caída, frequentemente transgride aquilo que Deus ordena.
Isso não significa que a vontade de Deus falha, mas que estamos lidando com aspectos distintos da mesma realidade.
Deus decreta inclusive aquilo que permite que o homem faça (sem que Ele mesmo seja o autor do pecado) e, ao mesmo tempo, ordena aquilo que é justo e santo.
Essa distinção é claramente refletida na Escritura: “as coisas encobertas pertencem ao Senhor”, mas “as reveladas nos pertencem... para que as cumpramos”.
Ou seja, não fomos chamados a sondar os decretos ocultos de Deus, mas a obedecer àquilo que Ele revelou.
Essa verdade nos protege de dois erros graves.
Primeiro, o fatalismo. A ideia de que, porque Deus decretou todas as coisas, nossas ações não têm importância. A Escritura rejeita isso ao nos chamar à obediência.
Segundo, a presunção. A tentativa de interpretar a vontade secreta de Deus como base para decisões, em vez de nos guiarmos por Sua Palavra revelada.
A vontade decretiva de Deus governa todas as coisas. A vontade preceptiva de Deus governa a nossa vida.
E isso estabelece o equilíbrio correto.
Deus é absolutamente soberano, e o homem é realmente responsável.
E essa verdade também tem implicações práticas profundas.
Primeiro, nos chama à submissão. Devemos nos alinhar à vontade revelada de Deus, obedecendo à Sua Palavra.
Segundo, nos conduz à confiança. Mesmo quando não entendemos os acontecimentos, sabemos que tudo está sob o decreto sábio e perfeito de Deus.
Terceiro, nos preserva da ansiedade. Não fomos chamados a controlar o futuro, mas a viver em fidelidade no presente.
Portanto, conhecer a vontade de Deus não é desvendar o que Ele não revelou, mas obedecer com fidelidade aquilo que Ele já nos deu a conhecer.
E é nesse caminho que a soberania de Deus e a responsabilidade humana se encontram de forma harmoniosa.
Rev. Julio Pinto
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