Quando os discípulos perguntaram a Jesus por que Ele ensinava por parábolas, a resposta do Senhor revelou muito mais do que uma simples diferença entre crentes e incrédulos. Frequentemente, a atenção é direcionada para o aspecto profético do texto, onde Cristo cita Isaías e mostra que muitos ouviriam sem entender e veriam sem perceber (Mt 13.10-17). Entretanto, há um detalhe que merece atenção especial: os discípulos também não entendiam as parábolas.
A diferença não estava no fato de uns compreenderem imediatamente e outros não. Naquele momento, ninguém compreendia plenamente. A diferença estava na atitude diante da própria ignorância.
Os discípulos ouviram a parábola e reconheceram que não sabiam seu significado. Por isso perguntaram. Aproximaram-se de Cristo. Buscaram explicação. Admitiram sua limitação.
Os fariseus, por outro lado, possuíam uma postura completamente diferente. A falsa segurança produzida pelo orgulho religioso os impedia de reconhecer sua própria cegueira. Enquanto os discípulos diziam, em essência, "não entendemos, ensina-nos", os líderes religiosos agiam como quem já sabia tudo o que precisava saber.
A humildade abriu o caminho para o conhecimento. O orgulho fechou a porta da compreensão.
Podemos ver isso em outros lugares da Escritura.
Por meio do profeta Jeremias, Deus prometeu:
"Dar-vos-ei pastores segundo o meu coração, que vos apascentem com conhecimento e com inteligência" (Jr 3.15).
Observe que Deus não prometeu pastores que emocionariam o povo ou que produziriam experiências religiosas. A promessa era de pastores que alimentassem o rebanho com conhecimento.
O conhecimento da verdade sempre fez parte dos meios estabelecidos por Deus para a maturidade espiritual de seu povo.
Mas a responsabilidade não pertence apenas aos pastores.
O profeta Malaquias já afirmava:
"Porque os lábios do sacerdote devem guardar o conhecimento, e da sua boca devem os homens procurar a instrução" (Ml 2.7).
Há duas responsabilidades complementares nesse texto.
Primeiro, o sacerdote deve possuir conhecimento suficiente para ensinar. Segundo, o povo deve procurar esse conhecimento.
O texto não apresenta um povo passivo. Não descreve pessoas acomodadas esperando que toda instrução lhes seja entregue sem esforço. Pelo contrário, afirma que os homens devem buscar a instrução.
A ignorância nunca foi apresentada na Escritura como uma virtude.
Talvez uma boa ilustração para isso esteja nos carros modernos.
Muitos veículos atuais oferecem diferentes modos de condução. Com o simples toque de um botão, o motorista pode escolher entre o modo econômico, o modo conforto e o modo esportivo.
Algo semelhante acontece na vida espiritual.
O crente econômico
O modo econômico foi projetado para gastar menos energia possível.
O motor responde de forma mais suave. O consumo é reduzido. O esforço é mínimo.
Infelizmente, muitos cristãos vivem assim.
Encontram um texto difícil e não investigam.
Ouvem uma doutrina que não compreendem e não perguntam.
Deparam-se com uma dúvida e simplesmente convivem com ela.
Não leem.
Não estudam.
Não consultam seus pastores.
Não buscam livros.
Não conversam com irmãos mais experientes.
Vão à igreja sem muito compromisso e com baixa frequência.
Preferem permanecer na zona de conforto da ignorância.
Não se revoltam contra aquilo que não sabem.
Acomodam-se.
São como aqueles que escutam uma parábola e seguem adiante sem jamais perguntar o seu significado.
O crente conforto
O modo conforto oferece uma experiência intermediária.
Há algum envolvimento do motorista, mas sem grandes exigências.
Esse retrata o cristão que possui certo interesse pelo conhecimento.
Ele pergunta ocasionalmente.
Vai a igreja com maior frequência.
Lê quando surge uma oportunidade.
Procura esclarecimentos quando o assunto lhe desperta curiosidade.
Existe desejo de aprender, mas não há grande intensidade.
Seu crescimento acontece, porém não lentamente como o econômico, mas também não usando todo seu potencial.
Sua busca pelo conhecimento depende muito das circunstâncias.
Quando é conveniente, ele avança.
Quando exige mais dedicação, ele desacelera.
O crente esportivo
No modo esportivo, tudo muda.
A resposta do motor torna-se imediata.
O veículo consome mais combustível.
O desempenho é maximizado.
É evidente que há um custo maior, mas também há um resultado superior.
Assim é o cristão que não suporta permanecer na ignorância.
Quando encontra um texto difícil, ele investiga.
Não falta aos cultos, é frequente na igreja.
Quando surge uma dúvida, ele pergunta.
Quando encontra uma aparente contradição, ele pesquisa.
Ele conversa com seus pastores.
Consulta comentários.
Compara Escritura com Escritura.
Lê bons livros.
Participa das oportunidades de ensino da igreja.
Não porque deseja exibir erudição, mas porque ama a verdade de Deus.
Ele sabe que a ignorância não é uma condição apropriada, mas um problema a ser combatido.
Foi exatamente essa postura que os discípulos demonstraram diante de Cristo.
Eles não compreenderam as parábolas, mas não permaneceram satisfeitos em não compreendê-las.
Aproximaram-se do Mestre.
Perguntaram.
Buscaram explicação.
E receberam mais luz.
A história da igreja mostra que todo crescimento espiritual significativo sempre esteve ligado a essa disposição humilde de aprender. Deus envia pastores para ensinar. Os ministros devem guardar o conhecimento. Mas o povo de Deus também deve procurá-lo diligentemente.
A pergunta, portanto, não é se sabemos tudo.
Nenhum cristão sabe.
A verdadeira pergunta é: o que fazemos quando descobrimos que não sabemos?
O discípulo humilde aproxima-se de Cristo e busca entendimento.
O orgulhoso finge que sabe.
O preguiçoso acomoda-se.
Mas o cristão maduro acelera sua busca pela verdade, porque sabe que conhecer a Deus mais profundamente vale muito mais do que o combustível gasto ao longo do caminho.
Rev. Julio Pinto
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