Um dos erros mais comuns entre os cristãos consiste em analisar determinadas práticas apenas pela intenção pessoal de quem participa delas. Frequentemente se ouve: “Eu não estou adorando santos”, “eu não estou adorando ídolos”, “eu não estou praticando uma religião falsa”. Entretanto, a questão bíblica é mais profunda do que aquilo que o indivíduo afirma estar fazendo. A pergunta correta não é apenas o que alguém pretende com determinada prática, mas se Deus autoriza Seu povo a manter comunhão deliberada com costumes, celebrações e comportamentos cuja origem, significado ou exercício se encontram em desacordo com Sua vontade revelada.
Esse princípio aparece claramente nas advertências
apostólicas acerca das coisas sacrificadas aos ídolos. Em 1Coríntios 10, Paulo
não discute apenas a intenção dos participantes. O apóstolo reconhece que o
ídolo nada é em si mesmo, mas afirma que os sacrifícios dos pagãos são
oferecidos aos demônios e não a Deus. Por isso conclui: “não quero que vos torneis participantes com os demônios”
(1Co 10.20). O problema não estava apenas no ato externo de culto, mas na
comunhão que aquele ato representava.
O contexto imediato da passagem demonstra que Paulo está
construindo seu argumento a partir da própria natureza da comunhão pactual.
Antes de falar dos sacrifícios pagãos, ele menciona a Ceia do Senhor e
pergunta: "Porventura o cálice da bênção que
abençoamos não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos não é a
comunhão do corpo de Cristo?" (1Co 10.16). O raciocínio é
simples e profundo. Participar da mesa do Senhor não é um ato meramente
externo; é uma expressão visível de comunhão com Cristo. Da mesma forma,
participar conscientemente de uma mesa associada à idolatria também não é um
ato religiosamente neutro. Por isso Paulo conclui: "Não podeis beber o cálice do Senhor e o cálice dos demônios;
não podeis ser participantes da mesa do Senhor e da mesa dos demônios"
(1Co 10.21). O apóstolo não discute apenas intenções individuais. Ele discute a
incompatibilidade objetiva entre duas formas de comunhão. Seu argumento não se
limita ao culto pagão do primeiro século. O princípio permanece: o povo de Deus
não deve manter comunhão voluntária com aquilo que concorre contra a exclusiva
honra devida ao Senhor.
A mesma preocupação aparece no Concílio de Jerusalém. Quando
os apóstolos rejeitaram a imposição da circuncisão aos gentios, não ensinaram
uma liberdade sem limites. Pelo contrário. Ordenaram que os convertidos se abstivessem das contaminações dos ídolos, da prostituição,
dos animais sufocados e do sangue (At
15.20,29).
É particularmente significativo que a proibição do sangue
tenha sido reafirmada. Tal mandamento não surgiu na Lei de Moisés. Sua origem
remonta à aliança estabelecida com Noé após o dilúvio, quando Deus declarou: “Carne, porém, com sua vida, isto é, com seu sangue, não
comereis” (Gn 9.4). Trata-se, portanto, de uma ordenança anterior à
nação de Israel e reafirmada pelos apóstolos para a igreja gentílica.
A própria estrutura da decisão apostólica, em Atos, merece
atenção. O Concílio de Jerusalém foi convocado para responder à pergunta sobre
quais aspectos da Lei mosaica deveriam ser impostos aos gentios convertidos. Se
a proibição do sangue fosse meramente uma ordenança cerimonial judaica destinada
a desaparecer juntamente com as demais sombras da antiga aliança, este teria
sido precisamente o momento para deixá-la de lado. Entretanto, ocorreu o
oposto. Enquanto a circuncisão foi rejeitada como exigência para os gentios, a
abstinência do sangue foi explicitamente reafirmada. Isso demonstra que os
apóstolos distinguiram entre aquilo que pertencia às sombras temporárias da
antiga administração e aquilo que continuava expressando princípios válidos
para a igreja de Cristo. O decreto apostólico não cria uma nova obrigação; ele
reafirma uma exigência que já havia sido estabelecida pelo próprio Deus muito
antes de Moisés.
A decisão apostólica revela um princípio que frequentemente
é ignorado em nossos dias. Os apóstolos não apenas rejeitaram a imposição da
circuncisão aos gentios; também reafirmaram a necessidade de obediência àquilo
que Deus continuava exigindo de Seu povo. O mesmo princípio que levou os
apóstolos a reafirmar a proibição das contaminações idólatras e do sangue deve
governar todas as demais questões da vida cristã:
A igreja não
possui autoridade para transformar em indiferente aquilo que Deus proibiu, nem
para perpetuar como obrigação religiosa aquilo que Deus declarou cumprido em
Cristo.
A liberdade cristã não autoriza a desobediência, assim como
não autoriza a restauração de sombras que encontraram seu cumprimento na obra
consumada do Redentor.
Esse princípio revela que a liberdade cristã jamais pode ser
usada como justificativa para ignorar mandamentos divinos. Quando Deus fala
claramente, a obediência deve prevalecer sobre a tradição, sobre os costumes
populares e sobre os argumentos da conveniência cultural.
É precisamente nesse ponto que devem ser examinadas
celebrações como as festas juninas, o carnaval e até mesmo a observância
religiosa da Páscoa.
As festas juninas
As festas juninas surgiram historicamente ligadas à
veneração de João Batista, Antônio e Pedro.[i]
Embora muitos tentem reduzi-las a simples manifestações folclóricas, culturais,
sua origem permanece inseparavelmente vinculada ao calendário religioso romano
e ao culto prestado a personagens que passaram a receber honras incompatíveis
com a simplicidade do culto cristão estabelecido nas Escrituras. O problema não
reside apenas na existência de elementos culturais agregados ao longo dos
séculos, mas no fato de que tais celebrações permanecem identificadas com
festividades originalmente dedicadas a figuras que passaram a ocupar lugar
indevido na devoção religiosa popular. Ou seja, idolatria.
O carnaval
O carnaval, por sua vez, está ligado historicamente ao
calendário litúrgico que antecede a quaresma. Seu desenvolvimento cultural
tornou-se marcado por excessos morais, sensualidade, embriaguez, uso de
entorpecentes e comportamentos frontalmente incompatíveis com a santidade
exigida dos servos de Deus. Ainda que alguém alegue participar apenas dos
aspectos culturais da festividade, permanece a questão sobre a legitimidade de
um cristão associar-se voluntariamente a uma celebração cuja identidade
histórica e prática está tão profundamente ligada às obras da carne condenadas
pelas Escrituras.
Alguns procuram justificar sua participação alegando
propósitos evangelísticos. Argumentam que frequentam desfiles, blocos ou
ambientes característicos do carnaval para pregar o evangelho e alcançar
pessoas que dificilmente estariam presentes em outros contextos. Ainda que tal
motivação possa ser sincera em muitos casos, a questão continua sendo: O fim
pretendido santifica o meio empregado?
As Escrituras não apenas nos ordenam proclamar a verdade,
mas também regulam a maneira pela qual devemos fazê-lo. O fato de um ambiente
oferecer oportunidade de evangelização não significa necessariamente que o
cristão deva inserir-se em seu contexto de celebração e identificação. Afinal, ninguém
defenderia a participação em um ritual idólatra sob o argumento de que ali
existem pessoas necessitadas de ouvir o evangelho.
A pergunta, portanto, não é se existem pecadores no carnaval
que precisam ser alcançados - certamente existem. A pergunta é se a presença do
cristão em um ambiente historicamente marcado pela exaltação da sensualidade,
da embriaguez e de diversas obras da carne constitui um meio legítimo e
compatível com a santidade que Deus requer de Seu povo. O chamado bíblico é
para que a igreja esteja no mundo sem participar das obras infrutíferas das
trevas, antes expondo-as e reprovando-as (Ef 5.11).
Mas ainda existe uma terceira celebração que merece nossa
inteira consideração: a observância religiosa da Páscoa pela igreja.
Páscoa
Diferentemente das festas juninas e do carnaval, a Páscoa do
Antigo Testamento foi instituída pelo próprio Deus. Entretanto, justamente por
ter sido uma instituição divina, possuía um propósito específico na história da
redenção. Ela não era o fim em si mesma. Era uma sombra que apontava para
Cristo.
O cordeiro pascal, o sangue aplicado nos umbrais das portas,
a libertação de Israel da servidão egípcia e toda a cerimônia pascal anunciavam
antecipadamente a obra redentora do Messias. Por isso Paulo declara: “Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi imolado” (1Co
5.7). Quando a realidade chegou, a sombra cumpriu sua função. Quando o
verdadeiro Cordeiro de Deus foi sacrificado, a antiga figura alcançou seu
propósito.
Essa relação entre sombra e realidade constitui um dos temas
centrais da teologia do Novo Testamento. O autor da Epístola aos Hebreus afirma
que a Lei possuía "sombra dos bens vindouros"
(Hb 10.1), enquanto Paulo declara que as festas, luas novas e sábados
cerimoniais eram "sombras das coisas que haviam
de vir; porém o corpo é de Cristo" (Cl 2.17). A linguagem
apostólica é inequívoca. As instituições cerimoniais não possuíam finalidade
permanente em si mesmas. Sua função era apontar para a obra redentora que seria
realizada pelo Messias. Uma vez consumada essa obra, a permanência das sombras
deixa de possuir função redentivo-pedagógica. A igreja não vive mais na
expectativa do cumprimento, mas na realidade do cumprimento realizado em
Cristo.
É precisamente por essa razão que o Novo Testamento não
ordena à igreja a continuidade da festa da Páscoa. Em seu lugar, Cristo
instituiu a Ceia do Senhor como memorial permanente da Nova Aliança. A igreja
apostólica perseverou no “partir do pão”,
mas não recebeu mandamento para perpetuar anualmente a antiga celebração pascal
nem para transformá-la em festividade do calendário cristão.
Essa mesma consideração alcança a prática cada vez mais
comum de algumas igrejas realizarem anualmente um chamado "culto da
ressurreição". Evidentemente, a ressurreição de Cristo ocupa lugar central
na fé cristã. Sem ela, nossa pregação seria vã e nossa fé inútil (1Co 15.14). Contudo,
justamente por sua centralidade, a ressurreição não foi confiada pela Escritura
a uma única data do calendário eclesiástico, mas constitui o fundamento
permanente da adoração cristã. Cada Dia do Senhor é uma celebração da obra
completa de Cristo, incluindo Sua morte, ressurreição, ascensão e reinado. A
reunião da igreja no primeiro dia da semana já existe precisamente porque
Cristo ressuscitou.
O mesmo princípio pode ser observado na própria Ceia do
Senhor. Ao instituí-la, Cristo não determinou uma festividade anual para
recordar Sua ressurreição, mas um memorial permanente para a igreja. Paulo
afirma: "Porque todas as vezes que comerdes
este pão e beberdes o cálice anunciais a morte do Senhor, até que ele venha"
(1Co 11.26). À primeira vista, o texto enfatiza a morte de Cristo. Contudo, a
própria declaração apostólica abrange toda a obra redentora do Salvador.
Anunciar Sua morte pressupõe Sua encarnação, pois Cristo não poderia morrer sem
primeiro ter assumido nossa natureza humana. Pressupõe Sua vida perfeita e
obediente, pois Sua morte foi sacrificial e substitutiva. Pressupõe Sua
ressurreição, pois somente um Salvador vivo pode ser anunciado pela igreja. E
pressupõe Sua ascensão e exaltação, pois Paulo afirma que Ele virá novamente. O
Cristo cuja morte anunciamos na Ceia é o mesmo Cristo que encarnou, viveu,
sofreu, morreu, ressuscitou, ascendeu aos céus e voltará em glória para julgar
vivos e mortos.
O problema, portanto, não está em pregar sobre a
ressurreição, nem em enfatizar sua importância. O problema surge quando se
atribui a uma determinada data do ano uma relevância religiosa especial que o
Novo Testamento jamais atribuiu. Nesse caso, ainda que involuntariamente,
cria-se uma distinção entre um domingo comum e um suposto "domingo da
ressurreição", como se a igreja necessitasse reservar uma ocasião especial
para celebrar aquilo que já constitui a razão de ser de todos os seus cultos.
Além disso, tal prática frequentemente acaba funcionando
como uma adaptação protestante da antiga festividade pascal. Embora o nome
tenha sido alterado e certos elementos tenham sido removidos, permanece a
lógica de reservar anualmente uma ocasião religiosa especial para destacar um
evento que o Novo Testamento distribui por toda a vida de culto da igreja. Não
se trata de negar a ressurreição, mas precisamente de afirmar sua grandeza. A
ressurreição é importante demais para ficar confinada a um dia do ano. Ela
pertence a todos os cultos, a todos os domingos e a toda a vida da igreja.
Se a morte e a ressurreição de Cristo já encontram sua
expressão memorial permanente na Ceia do Senhor e sua celebração semanal no Dia
do Senhor, a criação de uma celebração anual especial carece de fundamento
apostólico. A pergunta não é se a ressurreição deve ser celebrada. Ela deve. A
pergunta é se Cristo ou Seus apóstolos instituíram um dia anual para essa
celebração. E sobre isso o Novo Testamento permanece em silêncio. Onde a
Escritura não institui dias santos, a igreja não possui autoridade para
instituí-los.
Transformar a Páscoa em uma observância religiosa da igreja
significa atribuir continuidade cultual àquilo que Cristo consumou. Significa
recolocar diante dos olhos da igreja uma sombra cuja função já foi plenamente
cumprida. A cruz não necessita de complementos simbólicos retirados da antiga
administração, nem de uma roupagem evangélica aplicada ao calendário
sacramental e litúrgico católico. A realidade chegou. O tipo encontrou seu
antítipo. A figura encontrou seu cumprimento.
Retornar às sombras após a manifestação da realidade é
diminuir, ainda que involuntariamente, a glória da obra consumada de Cristo. É
agir como alguém que, tendo o próprio Sol diante de si, insiste em contemplar a
sombra projetada no chão. É reconstruir aquilo que o próprio Deus declarou
consumado em Seu Filho. É, em certo sentido, lançar pedras contra a cruz, como
se a suficiência do sacrifício de Cristo ainda necessitasse da permanência das
figuras que apenas o anunciavam antecipadamente.
Desfecho
O que emerge de todos esses exemplos é um princípio
permanente: o povo de Deus não deve buscar maneiras de aproximar-se daquilo que
o Senhor proibiu, nem procurar restaurar aquilo que o Senhor declarou cumprido.
A igreja não foi chamada para negociar os mandamentos divinos nem para
conservar as sombras da antiga aliança. Foi chamada para viver em submissão à
Palavra de Deus e na suficiência da obra consumada de Cristo.
Sob essa perspectiva, a participação em celebrações cuja
origem, significado ou prática permanecem vinculados à veneração religiosa, à
idolatria ou a instituições cerimoniais já cumpridas em Cristo deve ser
examinada com extremo cuidado. A questão não é meramente histórica, cultural ou
tradicional. A questão é espiritual. O cristão deve perguntar não apenas se
determinada atividade lhe parece inocente, mas se ela promove uma comunhão que
honra a Deus e preserva um testemunho coerente diante da igreja e do mundo.
As Escrituras jamais apresentam a liberdade cristã como
autorização para negociar princípios divinos. Ao contrário. A verdadeira
liberdade consiste em servir a Deus sem o jugo das tradições, ou pragmatismo
humanos, mas também sem utilizar a graça como pretexto para a desobediência. O
mesmo Senhor que nos libertou da condenação do pecado continua chamando Seu
povo à santidade.
Por isso, quando o crente se depara com práticas ligadas à
idolatria, com costumes oriundos do falso culto ou mesmo com mandamentos
divinos que a cultura moderna considera irrelevantes, sua pergunta fundamental
não deve ser: “Até onde posso ir sem pecar?”. A pergunta bíblica é outra: “Como
posso honrar ao Senhor com uma obediência sincera e sem reservas?”.
É esse espírito que governa tanto a advertência de Paulo aos
coríntios quanto a decisão apostólica de Jerusalém. Deus continua requerendo de
Seu povo não apenas a rejeição dos ídolos, mas também uma vida marcada pela
separação do erro, pela obediência aos Seus mandamentos e pela confiança
exclusiva na suficiência da obra consumada de Cristo.
Rev. Júlio Pinto
Nenhum comentário:
Postar um comentário
A todos os leitores peço que deixem seus comentários. Todos os comentários estarão sendo analisados segundo um padrão moral e ético bíblicos e respondidos à medida que se fizer necessário.