sexta-feira, 17 de abril de 2026

A CONSTATAÇAO DA HISTÓRICA DA "TEORIA DAS TESOURAS" NO MUNICÍPIO DE BAIÃO - PA

 A eleição municipal de 2024 em Baião, no interior do Pará, oferece um ponto de partida concreto para a compreensão de um padrão político que se repete de forma contínua no Brasil. O prefeito conhecido como “Dr. Loca”, Lourival Menezes Filho, foi eleito pelo Movimento Democrático Brasileiro, sob o número 15, inserido em uma coligação ampla que reúne diferentes forças partidárias locais. À primeira vista, trata-se apenas de mais um episódio típico da política municipal brasileira, marcada por alianças pragmáticas e rearranjos eleitorais frequentes. Contudo, quando observado em perspectiva histórica, o caso de Baião revela menos uma sucessão de alternâncias políticas reais e mais a consolidação de um mesmo eixo de poder, que se reorganiza sob diferentes nomes e siglas ao longo do tempo.

Essa continuidade torna-se mais evidente ao se observar a sequência recente de administrações municipais. A gestão de Dr. Loca sucede diretamente a um ciclo político em que ele próprio já havia ocupado o executivo municipal, tendo sido eleito anteriormente pelo PSD, o que evidencia não uma ruptura programática, mas uma mobilidade partidária típica do ambiente político local. Antes dele, o município foi governado por Jadir Nogueira Rodrigues, conhecido como Saci, cuja administração se insere em um contexto de coligações amplas, característica recorrente da política baionense. Em período anterior, a chefia do executivo esteve sob Nilton Lopes de Farias, também vinculado ao campo do MDB/PMDB e sustentado por alianças de centro com forte capacidade de articulação local. Ainda antes, a administração de Jandira do Pilar se destaca por ter sido conduzida sob a sigla do então PMDB, em composição direta com partidos de esquerda, incluindo o PT, compondo uma frente ampla de sustentação governamental.

O conjunto dessas administrações revela um padrão consistente: mudanças de nomes, rearranjos partidários e reconfigurações de coligações, mas preservação de uma mesma lógica estrutural de governabilidade. O MDB, enquanto eixo histórico dessa dinâmica, atua como elemento de estabilidade institucional, frequentemente articulado com partidos de esquerda em níveis distintos da administração municipal, seja como liderança, seja como base de sustentação. Essa recorrência de alianças entre centro político e esquerda institucional, somada à baixa ruptura ideológica entre gestões sucessivas, permite observar Baião como expressão local de um fenômeno mais amplo da política brasileira contemporânea.

Ao se observar a sequência recente de lideranças no município, esse padrão se torna ainda mais evidente. Antes de Dr. Loca, Baião foi governado por Jandira do Pilar, também vinculada ao campo político de alianças amplas e pragmáticas, e por Saci, cuja atuação igualmente se deu dentro dessa lógica de composição com forças diversas. O histórico administrativo do município revela uma alternância de nomes e siglas que, na prática, NAO MUDAM ABOSLUTAMENTE NADA, mas orbitam o mesmo eixo de poder, frequentemente em conexão com partidos como o MDB ou alinhados a ele em termos de governabilidade. A simples mudança de siglas é um fator absurdamente ludibriante para os neófitos políticos. 

Na prática, mesmo quando há mudança formal de partido ou liderança, a estrutura de alianças e a direção política permanecem substancialmente as mesmas, reforçando a percepção de continuidade por trás da alternância. É precisamente nesse cenário que se torna possível introduzir a chamada “teoria das tesouras” como chave interpretativa da realidade política brasileira: não como abstração, mas como descrição de um funcionamento concreto, perceptível tanto nas esferas nacionais quanto nos contextos locais como o de Baião, onde diferentes gestões acabam por reproduzir uma mesma lógica de poder sob diferentes nomes e siglas.

A chamada “teoria das tesouras” descreve, no contexto brasileiro, uma dinâmica política efetivamente consolidada ao longo de décadas, na qual forças aparentemente distintas operam de modo complementar, delimitando o campo de poder. Nesse arranjo, o Movimento Democrático Brasileiro cumpre papel central: embora se apresente como partido de centro, sua atuação histórica revela alinhamento prático com projetos de esquerda, sobretudo na sustentação de governos e agendas de expansão estatal.

Desde a redemocratização, o MDB se consolidou como eixo de governabilidade, sendo peça-chave nos governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, períodos marcados por políticas intervencionistas, fortalecimento de programas sociais e ampliação da máquina pública; pautas historicamente associadas à esquerda. Esse padrão não surge de forma episódica, mas como continuidade de uma prática política que remonta à sua formação como frente ampla durante o regime militar, agregando setores diversos, inclusive correntes de inclinação progressista.

Figuras proeminentes como José Sarney, Renan Calheiros e Michel Temer expressam essa lógica: ainda que não se declarem marxistas, atuaram de maneira consistente na viabilização de governos e diretrizes convergentes com a esquerda institucional. Tal comportamento reforça a ideia de uma elite política que, sob diferentes rótulos partidários, preserva uma unidade funcional; frequentemente descrita como “esquerda caviar”, em razão da coexistência entre discurso progressista e inserção nas estruturas tradicionais de poder.

Assim, a “teoria das tesouras” não se apresenta como mera hipótese interpretativa, mas como leitura coerente de um padrão histórico verificável: a alternância controlada e a cooperação estrutural entre centro e esquerda, tendo o MDB como um dos principais operadores dessa engrenagem política no Brasil.


Rev. Júlio Pinto

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