No campo moral, o antinomianismo também encontraria terreno fértil se não fosse vigorosamente confrontado na igreja de Éfeso. Ainda que não tenhamos ali o mesmo escândalo explícito de Corinto, Paulo escreve com a mesma consciência de que a santidade da igreja depende da aplicação concreta da lei de Deus na vida do povo. Em Efésios 5:3-5, ele não apenas adverte, mas estabelece uma linha intransponível: “nem ainda se nomeie entre vós a prostituição e toda impureza". Não se trata de conselho opcional, mas de norma apostólica. E, embora a carta não registre um caso disciplinar específico como em Corinto, a lógica da disciplina está pressuposta: tais práticas são incompatíveis com a comunhão dos santos e, portanto, exigem exclusão e correção quando presentes. A pureza da igreja não é mantida por abstrações, mas por juízos concretos.
Aqui, novamente, o sétimo mandamento é reiterado de forma direta e indireta. Paulo não apenas condena atos externos, mas alcança a linguagem, os desejos e as disposições do coração, mostrando que a impureza não começa no ato, mas na inclinação desordenada. Em Efésios 4:17-19, ele descreve o estado dos gentios como entregues à dissolução e à impureza com avidez, contrastando com a nova vida em Cristo. Já em 5:25-33, ao tratar do casamento, ele eleva a união conjugal ao nível de mistério que reflete Cristo e a igreja, reafirmando positivamente a fidelidade, a exclusividade e a santidade do vínculo; exatamente o conteúdo ético do sétimo mandamento, agora iluminado pela redenção.
Essa mesma mentalidade antinomiana (ainda que potencial) é combatida quando Paulo trata da liberdade cristã. Diferente de Corinto, onde o lema era explícito (“todas as coisas me são lícitas”), em Éfeso o perigo aparece como retorno à velha vida sob nova roupagem. Por isso, em 4:22-24, o apóstolo ordena o despojamento do velho homem e o revestimento do novo, criado segundo Deus em justiça e santidade. A liberdade cristã, portanto, não é autonomia moral, mas transformação segundo um padrão objetivo.
Assim, tal como em Corinto, o princípio permanece: onde a igreja visível é levada a sério, a disciplina (ainda que implícita) e a normatividade da lei moral são preservadas; onde a graça é corretamente compreendida, ela não relativiza o mandamento, mas o inscreve na vida do crente. O antinomianismo, seja explícito ou latente, é sempre confrontado pela mesma realidade: Deus não redime um povo para a desordem, mas para a santidade concreta, visível e comunitária.
Contudo, o combate ao desigrejismo em Éfeso não se limita à esfera moral; ele se aprofunda de modo decisivo na própria estrutura visível da igreja, tal como estabelecida por Cristo e exposta pelo apóstolo em Epístola aos Efésios 4. Aqui, qualquer pretensão de uma espiritualidade autônoma, desvinculada da igreja instituída, é frontalmente desmantelada.
Paulo não apresenta a igreja como uma realidade difusa, invisível em sua operação histórica, nem como um ajuntamento espontâneo de indivíduos guiados por experiências subjetivas. Ao contrário, ele afirma que o próprio Cristo “concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres” (Ef 4:11). Trata-se de uma instituição positiva, não de uma construção humana posterior.
A própria estrutura da frase é decisiva: o texto não diz que Cristo concedeu dons abstratos para que homens, posteriormente, assumissem funções; ele afirma que Cristo concedeu os próprios homens como tais, isto é, pessoas determinadas, designadas para funções específicas no corpo. A ênfase recai sobre sujeitos concretos, não sobre capacidades impessoais. Caso a intenção fosse destacar dons de forma genérica, a construção apontaria para habilidades distribuídas indistintamente; porém, o que temos aqui é a designação de ofícios pessoalmente investidos.
Dessa forma, não se trata de dons desvinculados de estrutura, mas de homens chamados, constituídos e dados à igreja com função definida. Os ofícios, portanto, não emergem da comunidade por reconhecimento espontâneo, nem são construções funcionais posteriores; eles são instituídos pelo próprio Cristo e entregues à igreja como parte da sua economia ordinária de governo e edificação.
Aqui reside um golpe direto contra o desigrejado: não existe cristianismo neotestamentário sem ministério ordenado instituído por Cristo. O mesmo Cristo que redime é o Cristo que organiza, estrutura e governa sua igreja por meio de homens chamados, capacitados e comissionados. Rejeitar essa estrutura não é um ato de liberdade espiritual, mas uma recusa da própria ordem estabelecida pelo Senhor da igreja.
Além disso, esses ofícios não são decorativos ou opcionais; possuem finalidade clara: “com vistas ao aperfeiçoamento dos santos, para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo” (Ef 4:12). Ou seja, o crescimento do crente não é autônomo, nem ocorre por iluminação privada, mas por meio da instrumentalidade ordinária que Cristo estabeleceu; isto é, o ensino, a exortação e o governo espiritual exercidos por aqueles a quem Ele chamou. Não se trata de mediação redentiva (que pertence exclusivamente a Cristo), mas de instrumentos subordinados, pelos quais Cristo aplica, na história, os benefícios da sua obra.
O texto avança ainda mais ao afirmar que essa estrutura visa conduzir todos “à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus” (Ef 4:13). Aqui, o germe gnóstico é definitivamente destruído: não há múltiplos caminhos individuais para o conhecimento de Cristo, nem uma espiritualidade esotérica reservada a experiências pessoais. Há um só corpo, uma só fé, um só processo de edificação; e ele se dá no interior da igreja visível.
Paulo também explicita o perigo oposto: sem essa ordem, os crentes permanecem “meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina” (Ef 4:14). Essa é, precisamente, a condição do desigrejado: instabilidade doutrinária, oscilação constante, vulnerabilidade a modismos e incapacidade de firmeza teológica. A ausência de submissão aos ofícios instituídos resulta inevitavelmente em imaturidade espiritual.
Por fim, o apóstolo apresenta a igreja como um corpo “bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta” (Ef 4:16). Não há crescimento isolado. Não há santificação solitária. Não há maturidade fora da conexão orgânica com o corpo. Cada membro depende do outro, e todos dependem da estrutura que Cristo estabeleceu.
Dessa forma, o desigrejado não erra apenas em negligenciar a comunhão; ele rejeita a própria forma pela qual Cristo decidiu edificar o seu povo. Sua espiritualidade não é mais livre; é desordenada. Não é mais pura; é desancorada. Não é mais elevada; é, na verdade, infantil e vulnerável.
Assim, em Epístola aos Efésios 4, o desigrejado é confrontado de maneira decisiva como aquele que:
- rejeita os ofícios instituídos por Cristo
- despreza a instrumentalidade ministerial na edificação dos santos
- reivindica crescimento espiritual fora da ordem estabelecida por Deus
- permanece em instabilidade doutrinária e imaturidade
- rompe com a organicidade do corpo de Cristo
Aqui não há espaço para ambiguidades: a igreja visível, estruturada, governada e edificada por meio de homens chamados e dons distribuídos por Cristo, não é acessório da fé cristã; é o meio ordinário pelo qual o próprio Cristo realiza sua obra no mundo, sem jamais competir com sua mediação única, mas antes a servindo e a aplicando na vida do seu povo.
Rev. Julio Pinto
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