Ao afirmar que Cristo voltará, as Escrituras não apenas anunciam um acontecimento futuro; elas também descrevem, com extraordinária clareza, a natureza desse acontecimento. Isso é importante porque, ao longo da história da igreja, poucas doutrinas sofreram tantas interpretações divergentes quanto a Segunda Vinda de Cristo. Em praticamente todos os séculos surgiram movimentos que procuraram reinterpretar ou espiritualizar as declarações bíblicas, reduzindo-as a acontecimentos simbólicos, experiências interiores ou eventos históricos já consumados. Alguns identificaram a destruição de Jerusalém, ocorrida no ano 70 d.C., como sendo a própria Segunda Vinda do Senhor; outros ensinaram que Cristo retorna invisivelmente sempre que alguém se converte; outros ainda entenderam Sua volta apenas como a influência crescente do cristianismo sobre a sociedade. Todas essas interpretações possuem um ponto em comum: elas retiram da promessa bíblica o seu caráter histórico, objetivo e universal.
Entretanto, quando examinamos cuidadosamente o conjunto das
Escrituras, percebemos que o retorno de Cristo jamais é apresentado como uma
metáfora da expansão do Reino nem como um simples símbolo da vitória do
evangelho. Os autores sagrados descrevem um acontecimento real, objetivo e
público, que encerrará definitivamente a presente ordem da história. A própria
forma como os apóstolos tratam essa esperança impede qualquer tentativa de
reduzi-la a um evento invisível ou exclusivamente espiritual. Eles escrevem
para igrejas concretas, compostas por homens e mulheres sujeitos às mesmas
limitações que nós, e apontam continuamente para um dia futuro em que o Senhor
aparecerá em glória para consumar aquilo que iniciou em Sua primeira vinda.
A primeira característica dessa manifestação é que ela será
pessoal. O próprio Cristo prometeu aos discípulos que voltaria, e essa promessa
foi reafirmada imediatamente após Sua ascensão. O livro de Atos registra que,
enquanto os discípulos permaneciam olhando para o céu, dois anjos lhes
disseram: "Varões galileus, por que estais
olhando para as alturas? Esse Jesus que dentre vós foi assunto ao céu virá do
modo como o vistes subir." (At 1.11). A precisão dessa
declaração merece cuidadosa atenção. Os anjos não anunciam que Deus enviará outro
mediador, nem que apenas a influência espiritual de Cristo continuará presente
na igreja. Eles empregam uma expressão extremamente específica: "Esse Jesus". Trata-se do mesmo Senhor que
caminhou pelas estradas da Galileia, ensinou às multidões, morreu na cruz,
ressuscitou ao terceiro dia e ascendeu diante dos olhos dos discípulos. A
identidade daquele que sobe aos céus é exatamente a mesma daquele que
retornará. A igreja, portanto, não aguarda uma nova manifestação divina
diferente da primeira, mas o reencontro com o próprio Redentor que a comprou
com Seu sangue.
Essa verdade possui profunda importância cristológica. A
ascensão não encerrou a humanidade assumida pelo Filho de Deus. O Senhor Jesus
permanece eternamente verdadeiro Deus e verdadeiro homem. A encarnação não foi
um ato temporário destinado apenas ao período de Sua vida terrena. O Verbo
fez-se carne para sempre. Por isso, quando Paulo consola os tessalonicenses
diante da morte de seus irmãos, ele não diz que Deus enviará algum
representante celestial, mas afirma: "Porquanto
o Senhor mesmo, dada a sua palavra de ordem, ouvida a voz do arcanjo, e
ressoada a trombeta de Deus, descerá dos céus..." (1Ts 4.16). A
expressão "o Senhor mesmo"
elimina qualquer possibilidade de compreender a Segunda Vinda como um simples
modo de falar da providência divina ou do progresso da igreja na história. Quem
voltará será o próprio Cristo.
A promessa da volta pessoal do Senhor está intimamente
ligada ao consolo oferecido aos discípulos em João 14. Ali, Jesus declara que
iria preparar lugar para os Seus, mas imediatamente acrescenta: "Voltarei e vos receberei para mim mesmo, para que, onde eu
estou, estejais vós também." (Jo 14.3). O centro da promessa
não é simplesmente a existência de muitas moradas na casa do Pai. O centro da
promessa é o próprio Cristo. A esperança da igreja nunca esteve fundamentada
apenas na expectativa de um lugar melhor, mas na certeza de que estará
eternamente com seu Senhor. A comunhão perfeita com Cristo constitui o coração
da esperança cristã, razão pela qual toda escatologia verdadeiramente bíblica
permanece profundamente cristocêntrica.
Além de pessoal, a Segunda Vinda será também corporal. O
Novo Testamento insiste repetidamente nesse aspecto porque ele decorre
naturalmente da própria ressurreição de Cristo. Aquele que ressuscitou dentre
os mortos não abandonou Seu corpo ao ascender aos céus. Pelo contrário,
ascendeu corporalmente à presença do Pai. Antes da ascensão, o Senhor
apresentou inúmeras evidências da realidade física de Sua ressurreição.
Convidou Tomé a tocar Suas mãos e Seu lado (Jo 20.27), alimentou-se diante dos
discípulos (Lc 24.41-43) e permaneceu com eles durante quarenta dias, falando
das coisas concernentes ao Reino de Deus (At 1.3). Esses acontecimentos não
foram registrados apenas para provar que Cristo realmente ressuscitou, mas
também para demonstrar a continuidade entre o Cristo que morreu, o Cristo que
ressuscitou e o Cristo que voltará.
É precisamente isso que os anjos enfatizam ao afirmar que
Ele retornará "do modo como o vistes subir"
(At 1.11). A comparação estabelecida pelo texto não diz respeito apenas à certeza
da volta, mas também à sua natureza. Assim como a ascensão ocorreu de maneira
objetiva e corporal, assim também ocorrerá Seu retorno. Não haverá substituição
da humanidade glorificada do Salvador por uma presença meramente espiritual. O
Cristo glorificado permanece o Mediador entre Deus e os homens (1Tm 2.5), e é
esse mesmo Mediador (Cristo Jesus, homem)
que aparecerá novamente no fim da história.
Essa verdade preserva um dos pilares da fé cristã: a
permanência da união hipostática. Aquele que hoje reina à direita do Pai continua
sendo o Deus-homem. A humanidade assumida na encarnação jamais foi abandonada.
Consequentemente, a Segunda Vinda não representa o retorno de um Cristo
diferente daquele revelado nos Evangelhos, mas a manifestação gloriosa do mesmo
Senhor que outrora veio em humilhação.
Outra característica igualmente enfatizada pelas Escrituras
é que Sua manifestação será visível. O Senhor Jesus descreve Sua vinda
utilizando imagens que excluem qualquer possibilidade de um acontecimento
secreto ou invisível. Em Seu sermão escatológico declara: "Porque, assim como o relâmpago sai do oriente e se mostra até
ao ocidente, assim há de ser a vinda do Filho do Homem." (Mt
24.27). A comparação é extremamente significativa. O relâmpago rasga os céus de
maneira repentina e manifesta-se publicamente diante de todos os que podem
contemplá-lo. Sua aparição não depende de revelações particulares nem de
experiências místicas reservadas a um pequeno grupo de iniciados. Da mesma
forma, a manifestação gloriosa do Filho do Homem será pública, objetiva e
inconfundível.
O Apocalipse reforça essa mesma verdade ao afirmar: "Eis que vem com as nuvens, e todo olho o verá, até quantos o
traspassaram; e todas as tribos da terra se lamentarão sobre ele."
(Ap 1.7). A linguagem utilizada por João é universal. Todo olho o verá. Não
apenas os crentes. Não apenas a igreja. Não apenas os habitantes de determinada
região do mundo. A manifestação será cósmica, envolvendo toda a humanidade. A
universalidade dessa descrição impede que se identifique a Segunda Vinda com
qualquer acontecimento localizado da história antiga, por mais significativo
que tenha sido.
Nesse ponto convém fazer uma observação importante. A
destruição de Jerusalém no ano 70 d.C. representou, sem dúvida, um dos maiores
atos de juízo registrados na história bíblica. O próprio Senhor a predissera, e
ela marcou o encerramento definitivo da antiga economia cerimonial. Entretanto,
identificar esse episódio como o cumprimento pleno das promessas referentes à
Segunda Vinda exige ignorar diversos elementos explícitos das Escrituras.
Naquele evento não ocorreu a ressurreição geral dos mortos anunciada por Daniel
(Dn 12.2) e reafirmada pelo próprio Cristo (Jo 5.28-29); tampouco houve a
manifestação universal descrita em Mateus 24.30 e Apocalipse 1.7, nem o Juízo
Final, que será estudado oportunamente nesta obra. Por essa razão, embora a
queda de Jerusalém possua inegável significado redentivo-histórico, ela não
pode ser confundida com a consumação escatológica prometida pelo Novo
Testamento.
Essa compreensão preserva a unidade da esperança cristã. A
igreja continua aguardando não um símbolo, nem uma metáfora, nem um
acontecimento já consumado, mas o retorno pessoal, corporal e visível de seu
Senhor. É essa esperança que sustentou os apóstolos, fortaleceu os mártires,
consolou os santos ao longo dos séculos e continua alimentando a perseverança
do povo de Deus até os nossos dias.
(Continua na Parte II-B.)
Rev. Júlio Pinto
Nenhum comentário:
Postar um comentário
A todos os leitores peço que deixem seus comentários. Todos os comentários estarão sendo analisados segundo um padrão moral e ético bíblicos e respondidos à medida que se fizer necessário.