Se a Segunda Vinda será pessoal, corporal e visível, as Escrituras também afirmam que ela será gloriosa. Essa característica estabelece um dos maiores contrastes de toda a história da redenção. A primeira manifestação do Filho de Deus ocorreu sob o véu da humilhação. Embora nunca tenha deixado de possuir a divindade que eternamente Lhe pertence, Cristo assumiu voluntariamente a condição de Servo. Nasceu em circunstâncias humildes, viveu entre homens pecadores, experimentou a fome, a fadiga e a dor, suportou a oposição dos líderes religiosos, foi rejeitado pelo Seu próprio povo e, finalmente, entregou-Se à morte de cruz. O profeta Isaías já havia anunciado esse caráter humilhado do Messias ao descrevê-Lo como o Servo sofredor, desprezado e o mais rejeitado entre os homens (Is 53.3).
A Segunda Vinda, porém, não repetirá nenhuma dessas
circunstâncias. O mesmo Cristo que veio para oferecer-Se em sacrifício
retornará como Rei e Juiz. O Senhor descreve esse acontecimento em tom de
solenidade: "Então aparecerá no céu o sinal do
Filho do Homem; todos os povos da terra se lamentarão e verão o Filho do Homem
vindo sobre as nuvens do céu, com poder e muita glória." (Mt
24.30).
A expressão "com poder e
muita glória" resume aquilo que distingue radicalmente Sua
segunda manifestação da primeira. O Cristo que outrora ocultou Sua majestade
sob a forma de Servo aparecerá revestido da glória que sempre Lhe pertenceu
como Filho eterno de Deus e que, após Sua obra redentora, passou também a ser
manifesta em Sua humanidade glorificada. Aquele que foi coroado de espinhos
será contemplado com muitas coroas (Ap 19.12). Aquele diante de quem os homens
dobraram os joelhos por escárnio será reconhecido por toda criatura como
Senhor, para glória de Deus Pai (Fp 2.9-11).
Essa glória não consiste apenas em esplendor visível. Ela
representa a manifestação pública da autoridade universal que Cristo já possui
desde Sua exaltação. Após Sua ressurreição, o Senhor declarou: "Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra."
(Mt 28.18). Durante o presente século essa autoridade é exercida de maneira
providencial e muitas vezes permanece invisível aos olhos dos homens. Na Sua
vinda, porém, aquilo que hoje é objeto da fé tornar-se-á objeto da visão. O
governo universal de Cristo será reconhecido diante de toda a criação.
Paulo amplia essa descrição ao escrever aos tessalonicenses:
"...quando do céu se manifestar o Senhor Jesus
com os anjos do seu poder, em chama de fogo, tomando vingança contra os que não
conhecem a Deus e contra os que não obedecem ao evangelho..."
(2Ts 1.7-8)
Antes de prosseguirmos, convém fazer uma breve observação
que, embora não pertença diretamente ao tema da Segunda Vinda, é oportunamente
sugerida pela própria linguagem utilizada por Paulo. O assunto será retomado na
sequência. O apóstolo afirma que Cristo virá exercer juízo sobre aqueles que
"não obedecem ao evangelho". Essa expressão, por si só, já desmonta
uma ideia amplamente difundida em nossos dias, especialmente entre os chamados
desigrejados e entre aqueles influenciados pelo moderno antinomianismo, segundo
a qual o evangelho excluiria qualquer conceito de obediência. As Escrituras,
porém, apresentam essa obediência em duas dimensões inseparáveis. A primeira
diz respeito ao chamado inicial da fé: obedecer ao evangelho significa
abandonar a incredulidade, arrepender-se e crer em Cristo para a salvação (cf.
Rm 10.16; 1Pe 4.17). A segunda manifesta-se na vida daquele que já foi
justificado. O mesmo evangelho que chama o pecador à fé também o conduz à
santificação, produzindo uma vida de crescente conformidade com a vontade de
Deus. Muitos confundem essas duas realidades. Não distinguem adequadamente
justificação e santificação. Temem que toda referência à obediência comprometa
a doutrina da graça e, por isso, concluem equivocadamente que, uma vez
justificado, o cristão já não possui qualquer obrigação de obedecer à Lei Moral
de Deus. Contudo, as Escrituras jamais estabelecem tal oposição. A justificação
é recebida exclusivamente pela fé, sem qualquer mérito humano; a santificação,
por sua vez, é a consequência necessária dessa mesma fé, operada pelo Espírito
Santo, produzindo uma vida de obediência filial. Não se trata de duas formas de
salvação, mas de dois aspectos distintos da única obra redentora de Cristo.
Feita essa breve observação, retornemos ao tema principal.
O objetivo principal desse texto de Paulo, em 2Tessalonicenses
1.7-8, não é satisfazer a curiosidade acerca dos detalhes da manifestação
gloriosa, mas enfatizar que a Segunda Vinda também será o momento em que a
justiça divina será plenamente revelada. Durante a presente dispensação, muitas
vezes os ímpios prosperam enquanto os justos sofrem perseguições. Essa
realidade levou diversos salmistas a derramarem diante de Deus sua
perplexidade, como se observa particularmente no Salmo 73. Entretanto, a
Segunda Vinda revelará publicamente aquilo que hoje permanece oculto: o Senhor
governa com perfeita justiça e trará cada obra a juízo. O mesmo acontecimento
que significará plena redenção para os salvos representará condenação
definitiva para aqueles que permaneceram em rebelião contra Deus. Os detalhes
do Juízo Final serão estudados especificamente no Tema 54, mas desde já é
importante perceber que as Escrituras jamais separam a manifestação gloriosa de
Cristo da revelação de Sua justiça.
Essa dimensão gloriosa da Segunda Vinda encontra suas raízes
ainda no Antigo Testamento. Daniel contempla em visão aquele que é semelhante
ao Filho do Homem vindo com as nuvens do céu para receber domínio, glória e
reino, de modo que todos os povos, nações e línguas O servissem (Dn 7.13-14). A
visão não descreve apenas Sua exaltação após a ascensão, mas antecipa também a
manifestação pública de Seu domínio universal, quando todo poder contrário será
definitivamente submetido ao Seu governo. Da mesma forma, Zacarias anuncia o
dia em que o Senhor virá, acompanhado de todos os Seus santos (Zc 14.5), e em
seguida declara: "Naquele dia, o Senhor será
rei sobre toda a terra." (Zc 14.9). Essas profecias convergem
para a mesma realidade apresentada pelos apóstolos: o retorno glorioso do
Messias marcará a plena manifestação do Reino de Deus.
Outra característica essencial da Segunda Vinda é que ela
será única. Essa afirmação merece atenção especial porque diversas construções
escatológicas modernas passaram a fragmentar a volta de Cristo em múltiplos
acontecimentos distintos, separados por diferentes períodos cronológicos.
Entretanto, quando observamos o testemunho global das Escrituras, verificamos
que elas falam constantemente da segunda manifestação de Cristo, nunca de uma
sucessão de manifestações corporais posteriores à ascensão.
O autor da Epístola aos Hebreus estabelece um paralelo
extremamente esclarecedor: "Assim também
Cristo, tendo-se oferecido uma vez para sempre para tirar os pecados de muitos,
aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que o aguardam para a salvação."
(Hb 9.28). A estrutura do argumento é deliberadamente simples. Assim como
Cristo ofereceu um único sacrifício definitivo, assim também haverá uma única
manifestação futura destinada à consumação da redenção. O texto fala da segunda
aparição de Cristo porque a primeira já ocorreu em humilhação. Não há qualquer
indicação de uma série de retornos sucessivos ou de manifestações corporais
distintas distribuídas ao longo da história.
Esse caráter unitário da Segunda Vinda harmoniza-se com
inúmeras outras passagens do Novo Testamento. O próprio Senhor afirma que
"vem a hora em que todos os que se acham
nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão..." (Jo 5.28-29).
Observe que Cristo não descreve diversas horas, mas “a hora”, na qual tanto os justos quanto os ímpios
ressuscitarão, cada qual para o seu destino eterno.
Da mesma maneira, Daniel havia profetizado: "Muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para
a vida eterna, e outros para vergonha e horror eterno." (Dn
12.2). A profecia apresenta a ressurreição geral como parte do mesmo grande dia
escatológico. O mesmo contexto fala de um tempo de angústia sem precedente (Dn
12.1), seguido imediatamente da ressurreição e da recompensa final dos justos.
Não há qualquer indício de múltiplas ressurreições gerais separadas por longos
intervalos históricos. Pelo contrário, a Escritura apresenta esses acontecimentos
como aspectos distintos da consumação final da história.
Essa unidade também aparece nas palavras de Paulo aos
tessalonicenses. Depois de afirmar que "o
Senhor mesmo descerá dos céus", o apóstolo imediatamente
descreve a ressurreição dos mortos em Cristo e o encontro dos santos com o
Senhor (1Ts 4.16-17). Em seguida, sem introduzir qualquer ruptura cronológica,
passa a tratar do Dia do Senhor, que virá como ladrão de noite (1Ts 5.1-3).
Para Paulo, trata-se do mesmo grande acontecimento visto sob perspectivas
diferentes. Mais adiante, ao escrever sua segunda epístola aos mesmos crentes,
ele volta a associar a manifestação de Cristo ao juízo dos ímpios e ao descanso
definitivo do povo de Deus (2Ts 1.6-10). Essa coerência interna impede que
interpretemos a esperança apostólica como uma sequência de várias vindas
corporais de Cristo.
Isso não significa que todos os detalhes escatológicos devam
ser resolvidos neste capítulo. Pelo contrário. A própria organização desta obra
procura preservar a progressão da revelação bíblica. A ressurreição dos mortos
será estudada especificamente no Tema 53. O Juízo Final será objeto do Tema 54,
e o estado eterno dos remidos e dos ímpios será desenvolvido nos capítulos
seguintes. Contudo, desde já convém observar que esses acontecimentos não
constituem eventos independentes, mas aspectos inseparáveis da consumação
iniciada pela manifestação gloriosa do Senhor Jesus.
Essa compreensão produz profundas implicações pastorais. A
igreja não vive esperando uma sucessão de acontecimentos obscuros que somente
especialistas em cronologias proféticas conseguem compreender. Sua esperança
permanece firmemente concentrada na promessa simples e majestosa das
Escrituras: Cristo voltará. O Senhor que hoje reina invisivelmente
aparecerá diante de toda a criação. Aquele que venceu a morte concluirá
definitivamente Sua obra. A injustiça dará lugar ao perfeito juízo de Deus. A
fé dará lugar à própria visão do Cristo glorificado. A esperança cederá lugar
ao pleno gozo da comunhão eterna com o “Tabernáculo
de Deus entre os homens” (Ap 21.3).
Por isso, a expectativa da Segunda Vinda nunca foi tratada
pelos apóstolos como mero objeto de especulação escatológica. Ela possui
finalidade eminentemente pastoral. O crente persevera nas aflições porque sabe
que sua redenção se aproxima. O servo permanece fiel em sua vocação porque
conhece o Senhor a quem prestará contas. A igreja continua proclamando o
evangelho porque sabe que a história caminha para um desfecho estabelecido pelo
próprio Deus. E cada geração de cristãos, unindo-se à oração que encerra as
Escrituras, continua dizendo com confiança e alegria:
"Amém! Vem, Senhor Jesus!"
(Ap 22.20)
Na próxima parte examinaremos os sinais relacionados à
Segunda Vinda de Cristo e a correta compreensão das exortações bíblicas acerca
da vigilância, procurando distinguir aquilo que a Palavra efetivamente revela
das inúmeras especulações que, ao longo dos séculos, têm desviado a atenção da
igreja da simplicidade da esperança cristã.
Rev. Júlio Pinto
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