Há momentos em que um homem realmente enxerga erros reais ao seu redor. Sua percepção não é totalmente equivocada; sua crítica pode conter elementos legítimos; sua indignação pode nascer, ao menos em parte, de zelo sincero pela verdade, pela reverência ou pela justiça. Contudo, existe um perigo espiritual extremamente sutil: quando a verdade deixa de ser apenas confessada e passa a ser utilizada como fundamento de autojustificação diante dos homens e, silenciosamente, diante do próprio Deus.
É precisamente nesse ponto que a advertência de Eclesiastes 7.16 se torna pastoralmente necessária: “Não sejas demasiadamente justo, nem demasiadamente sábio; por que te destruirias a ti mesmo?”. Salomão não está condenando a piedade verdadeira, nem o amor pela retidão, tampouco o zelo pela sã doutrina. As próprias Escrituras ordenam que o povo de Deus ame a justiça, rejeite o erro e permaneça firme na verdade. O problema denunciado pelo texto é outro: a transformação da percepção correta em orgulho espiritual; a substituição do temor de Deus pela confiança no próprio discernimento.
Existe uma forma de “justiça” que não conduz à humildade, mas à exaltação de si mesmo. O homem passa a olhar para suas convicções corretas, suas posições firmes ou sua percepção mais aguçada e, pouco a pouco, começa a construir uma identidade espiritual fundamentada nelas. Já não é apenas alguém que defende a verdade; ele passa a precisar estar certo para sustentar a própria imagem interior de superioridade moral. E, quando isso acontece, mesmo a verdade pode tornar-se ocasião de pecado.
O coração humano é profundamente enganoso. É possível combater erros reais e, simultaneamente, ser dominado por um espírito carnal. É possível denunciar pecados verdadeiros enquanto se alimenta secretamente o orgulho farisaico. Foi exatamente isso que ocorreu frequentemente com os religiosos dos dias de Cristo. Muitos deles estavam corretos ao reconhecer certas corrupções externas de Israel; contudo, não percebiam que a própria ortodoxia havia se tornado combustível para vaidade espiritual. Por isso, em Lucas 18.9-14, o fariseu não aparece como um homem abertamente imoral, mas como alguém que confiava em si mesmo “por se considerar justo” e desprezava os outros.
Há uma diferença profunda entre discernimento espiritual e espírito de superioridade. O discernimento verdadeiro produz temor, lágrimas, mansidão e consciência crescente da própria corrupção. O homem verdadeiramente maduro não se torna arrogante por enxergar mais; ao contrário, torna-se mais humilde porque percebe quão profunda ainda é sua dependência da graça. Quanto mais contempla a santidade de Deus, menos confiança deposita em si mesmo.
É esta graça de Cristo, operando soberanamente, que impede o crente de transformar convicções corretas em justiça própria. Porque o evangelho não produz homens que vivem de autodefesa moral, mas pecadores quebrantados que sabem que até suas melhores obras continuam necessitando do sangue de Cristo. O mesmo homem que combate o erro deve vigiar para que o erro não renasça dentro dele sob a forma mais perigosa: o orgulho religioso.
Por isso, o temor de Deus é o equilíbrio preservador da alma. Salomão conclui dizendo: “pois quem teme a Deus de tudo isto sai ileso” (Ec 7.18). O temor do Senhor impede tanto a impiedade aberta quanto a soberba mascarada de zelo espiritual. O homem que teme a Deus continua defendendo a verdade, mas já não faz de si mesmo o centro dela. Ele não abandona suas convicções; contudo, aprende a sustentá-las com humildade, espírito ensinável e consciência constante de que somente Cristo é perfeitamente justo, perfeitamente sábio e perfeitamente puro.
Rev. Julio Pinto
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