“Conhecidas são a Deus, desde a eternidade, todas as suas obras.” (Atos 15.18)
“Eu anuncio o fim desde o princípio e, desde a antiguidade, as coisas que ainda não sucederam; que digo: o meu conselho permanecerá de pé, farei toda a minha vontade.” (Isaías 46.10)
“Nele, digo, no qual fomos também feitos herança, predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade.” (Efésios 1.11)
Em nosso progresso acerca da doutrina de Deus, somos conduzidos a uma das verdades mais profundas e, ao mesmo tempo, mais frequentemente mal compreendidas das Escrituras: os decretos de Deus.
Os decretos de Deus são o Seu plano eterno, sábio, santo e imutável, pelo qual Ele determinou tudo o que acontece na história.
Isso significa que nada ocorre ao acaso. Nada surpreende Deus. Nada foge do Seu governo. Desde a eternidade, Deus conhece e determinou todas as coisas conforme o conselho perfeito da Sua vontade.
A Escritura afirma que Deus anuncia o fim desde o princípio. Ou seja, a história não está aberta ou indefinida diante dEle. O Senhor não reage aos acontecimentos como quem descobre algo novo. Tudo se desenvolve segundo Seu propósito eterno.
Isso inclui não apenas os grandes eventos da história, mas também os menores detalhes da existência.
Os decretos de Deus abrangem:
- a criação
- a sustentação do universo
- os acontecimentos da história
- a ascensão e queda de nações
- os dias da vida humana
- e, de forma suprema, a obra da redenção
Nada está fora do alcance do decreto divino.
No entanto, é essencial compreender corretamente essa doutrina.
O decreto de Deus não transforma o homem em uma máquina, nem elimina sua responsabilidade. A soberania divina não anula os meios, as decisões ou a realidade das ações humanas.
Deus decretou não apenas os fins, mas também os meios pelos quais esses fins acontecem.
Assim, os homens agem voluntariamente, fazem escolhas reais e respondem moralmente por aquilo que fazem. E, ainda assim, tudo ocorre sob o governo soberano de Deus.
Essa é exatamente a tensão que a Escritura mantém.
José pôde dizer a seus irmãos: “vós intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem” (Gênesis 50.20). Os irmãos agiram pecaminosamente e são responsáveis por isso. Mas Deus governava soberanamente o acontecimento para cumprir Seus propósitos.
O mesmo ocorre de forma suprema na cruz de Cristo.
A morte de Cristo aconteceu “pelo determinado desígnio e presciência de Deus” (Atos 2.23), e, ao mesmo tempo, aqueles que O crucificaram foram responsabilizados pelo seu pecado.
Portanto, a soberania de Deus e a responsabilidade humana não são verdades contraditórias nas Escrituras; ambas coexistem perfeitamente no governo divino.
E aqui é necessário outro cuidado importante.
Quando afirmamos que Deus decretou todas as coisas, isso não significa que Ele seja autor do pecado.
A Confissão de Fé de Westminster expressa isso com precisão: Deus decreta todas as coisas que acontecem, mas de tal modo que não é autor do pecado, nem violenta a vontade das criaturas.
Deus governa até mesmo os atos maus dos homens sem participar moralmente do mal que praticam.
Essa verdade ultrapassa plenamente nossa capacidade de compreensão. A Escritura afirma ambos os pontos, e devemos permanecer dentro desse limite revelado.
Os decretos de Deus também trazem profundas implicações práticas.
Primeiro, eles produzem humildade. Nada do que somos ou temos existe independentemente do propósito de Deus.
Segundo, produzem confiança. O mundo não está entregue ao acaso, nem ao caos, nem à vontade autônoma dos homens. A história está sob o governo de Deus.
Terceiro, produzem perseverança. Mesmo em meio às dificuldades, sabemos que Deus conduz todas as coisas segundo Seus propósitos sábios e santos.
Isso não elimina nossa responsabilidade, pelo contrário, nos chama à fidelidade.
Não fomos chamados a especular sobre os decretos ocultos de Deus, mas a obedecer Sua Palavra revelada, confiando que Seu propósito é perfeito.
Portanto, a doutrina dos decretos não existe para alimentar curiosidade filosófica, mas para fortalecer a fé.
Ela nos lembra que o Deus das Escrituras não é um espectador da história, Ele é o Senhor soberano que governa todas as coisas conforme o conselho eterno da Sua vontade.
Rev. Julio Pinto
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