“No princípio, criou Deus os céus e a terra.” (Gênesis 1.1)
“Pela fé, entendemos que foi o
universo formado pela palavra de Deus, de maneira que o visível veio a existir
das coisas que não aparecem.” (Hebreus 11.3)
“Todas as coisas foram feitas
por intermédio dele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez.” (João 1.3)
Chegamos à obra da criação, tema
que ainda pertence acerca da Doutrina de Deus.
A criação é o ato livre, soberano e
poderoso pelo qual Deus trouxe todas as coisas à existência pela Palavra do Seu
poder.
A Escritura começa exatamente com
essa declaração majestosa: “No princípio, criou Deus os céus e a terra.”
Antes da criação, nada existia além
do próprio Deus. Não havia matéria eterna, energia pré-existente, forças
independentes ou qualquer realidade autônoma coexistindo com Ele. Se houvesse
algo eterno além de Deus, então isso também possuiria caráter absoluto e
independente, deixando de ser mera criatura.
Em última análise, haveria outro
princípio eterno ao lado de Deus. E aquilo que é eterno, absoluto e
independente torna-se objeto último de reverência e explicação da realidade. A
Escritura, porém, rejeita completamente essa possibilidade. Somente Deus é
eterno em Si mesmo.
Toda a realidade criada depende
dEle. Isso também distingue a fé cristã de concepções panteístas, como a de
Baruch Spinoza, que entendia Deus não como um Criador distinto do universo, mas
como a própria substância eterna da qual todas as coisas seriam expressão. Na
revelação bíblica, Deus não é o universo, nem o universo é extensão do ser
divino. O Criador é distinto da criação e soberano sobre ela. Somente Deus é
eterno.
Por isso, a tradição cristã passou
a usar uma expressão para mostrar aquilo que a Escritura afirma de que Deus
criou todas as coisas a partir daquilo que não existia, ou seja: ex-nihilo
- isto é, “do nada”. (Hebreus 11.3)
Isso não significa que o “nada”
fosse algum tipo de substância da qual o universo foi formado. Significa
exatamente o contrário: Deus não utilizou matéria prévia para criar. O universo
inteiro passou a existir exclusivamente pelo poder da Sua vontade.
Deus falou - e todas as coisas
vieram à existência.
Isso distingue radicalmente a
cosmovisão bíblica de muitas concepções antigas e modernas.
A Escritura rejeita:
·
Qualquer ideia de evolução;
·
a ideia de matéria eterna;
·
a noção de que o universo seja uma extensão do
próprio ser divino;
·
ou qualquer conceito de criação como simples
organização de algo já existente.
Deus não moldou um universo prévio.
Ele trouxe o próprio ser das coisas à existência.
E essa criação ocorre por meio da
Sua Palavra. “Disse Deus...” - e assim se desenvolve toda a narrativa de
Gênesis.
O universo não nasce do acaso, nem
da necessidade, nem de processos independentes de Deus. Ele existe porque Deus
quis que existisse.
E isso revela algo profundo sobre o
próprio Criador.
A criação não surge de carência em
Deus. Deus não criou porque estivesse solitário, incompleto ou necessitado da
criatura. O Deus trino já possuía, eternamente, perfeita plenitude em Si mesmo.
A criação é fruto da Sua vontade
livre e sábia.
Além disso, a Escritura mostra que
a criação é obra do Deus Triúno.
O Pai cria pelo Filho e no poder do
Espírito.
João afirma que todas as coisas
foram feitas por intermédio do Filho. E Gênesis 1.2 já apresenta o Espírito de
Deus pairando sobre a face das águas. Portanto, toda a Trindade está envolvida
na obra criadora.
A criação também revela a glória de
Deus. Os céus manifestam Sua grandeza. A ordem do universo testemunha Sua
sabedoria. A complexidade da vida aponta para Seu poder. E, como Paulo declarou
em Atenas, é no próprio Deus que “vivemos, e nos movemos, e existimos”
(Atos 17.28). Isso significa que a criação inteira depende continuamente do
Criador. O universo não possui existência autônoma nem significado independente
de Deus. Toda a realidade criada testemunha, consciente ou inconscientemente, a
glória Daquele que a trouxe à existência.
Isso significa que o universo não é
autônomo nem possui significado em si mesmo. A criação existe para refletir a
glória do Criador.
E isso traz profundas implicações.
Primeiro, produz humildade. Somos
criaturas, não autônomos. Isso destrói a ilusão moderna de independência
absoluta. O homem não possui existência em si mesmo, não define autonomamente
sua própria natureza e não é o centro último da realidade. Vivemos em um
universo que não nos pertence e cuja existência não depende da vontade humana.
A própria vida é dom de Deus. Cada respiração, cada capacidade e cada aspecto
da existência dependem continuamente do Criador. Reconhecer isso é o início da
verdadeira humildade. Foi exatamente essa verdade que Paulo proclamou em Atenas
ao afirmar que “nele vivemos, e nos movemos, e existimos” (Atos 17.28).
A criatura jamais pode ocupar o lugar do Criador sem cair em rebelião e
idolatria.
Segundo, produz dependência. Tudo o
que existe continua dependendo de Deus para subsistir. A criação não possui
autonomia operacional diante do Criador. O universo não funciona como uma
máquina independente que Deus apenas colocou em movimento. A Escritura afirma
que todas as coisas continuam sendo sustentadas pelo poder divino. O autor de
Hebreus declara que Cristo está “sustentando todas as coisas pela palavra do
seu poder” (Hebreus 1.3). Isso significa que não apenas a origem do
universo depende de Deus, mas também sua continuidade momento após momento. Se
Deus retirasse Seu poder sustentador, toda a criação deixaria imediatamente de
existir. Isso também corrige o pensamento deísta, que imagina um deus distante,
ausente e não envolvido com sua criação. O Deus das Escrituras é transcendente,
mas também continuamente presente em Seu governo providencial sobre tudo o que
criou.
Terceiro, produz reverência. O
mundo não é comum ou independente, é obra das mãos de Deus. A criação inteira
carrega as marcas da sabedoria, poder e majestade do Criador. Os céus anunciam
Sua glória, e toda a ordem da criação testemunha continuamente acerca dEle.
Isso significa que o universo não deve ser tratado com banalidade, nem o homem
deve viver como se estivesse em uma realidade neutra ou sem significado. Toda a
existência aponta para Deus e exige uma resposta moral da criatura. Romanos 1
afirma que os homens são indesculpáveis justamente porque a própria criação
revela claramente o poder eterno e a divindade de Deus. Portanto, viver sem
reverência diante do Criador não é mera ignorância intelectual, é supressão
culpada da verdade revelada na própria criação.
Quarto, sendo Deus o Criador, Ele
determina não apenas a finalidade de cada coisa criada, mas também o fim de
todas elas. A história não caminha de forma aleatória ou indefinida. O mesmo
Deus que trouxe todas as coisas à existência também determinou o desfecho da
criação e da própria história humana. Por isso a Escritura descreve o fim desde
o princípio. Daniel anuncia o estabelecimento definitivo do Reino de Deus, e
Apocalipse revela a consumação final de todas as coisas sob o governo de Cristo.
Como declara o Senhor: “Lembrai-vos das coisas passadas da antiguidade: que
eu sou Deus, e não há outro, eu sou Deus, e não há outro semelhante a mim; que
desde o princípio anuncio o que há de acontecer e desde a antiguidade, as
coisas que ainda não sucederam; que digo: o meu conselho permanecerá de pé,
farei toda a minha vontade;” (Isaías 46.9-10). O universo criado possui
origem, propósito e consumação determinados pelo próprio Criador.
Quinto, sendo Deus o Criador, isso
é motivo mais que suficiente para exigir adoração e louvor de todas as
criaturas. O salmista convoca toda a criação ao louvor exatamente porque todas
as coisas pertencem Àquele que as fez: “Vinde, adoremos e prostremo-nos;
ajoelhemos diante do Senhor, que nos criou” (Salmos 95.6). A criação não
existe para a exaltação de si mesma, mas para glorificar o Deus que lhe deu
existência.
Sexto, sendo Deus o Criador, o
próprio Cristo, ao encarnar-se, veio revelar e anunciar esse Deus verdadeiro. A
Escritura afirma acerca do Filho: “Por isso Deus, o teu Deus, te ungiu...”
(Hebreus 1.9). E o Deus anunciado por Cristo é exatamente o Deus revelado desde
Gênesis. Jesus confirmou a criação ex-nihilo, confirmou o universo
criado pela Palavra divina, confirmou a criação do homem e da mulher desde o
princípio e tratou os eventos de Gênesis como história verdadeira (Mateus
19.4). Isso possui uma implicação inevitável: não é coerente afirmar crer em
Cristo apenas em aspectos morais ou espirituais enquanto se rejeita o próprio
testemunho que Ele deu acerca de Deus, da criação e das Escrituras. Se Cristo é
verdadeiro, então Seu testemunho também o é. E, se seu testemunho acerca de
Deus e da criação é falso, então crer em seu ensino moral ou espiritual é
incoerente. E o Cristo revelado nos evangelhos não anunciou um deus imaginário,
impessoal ou simbólico, mas o Deus Criador revelado desde o princípio. Foi esse
Deus transcendente, distinto da criação e soberano sobre ela, que Cristo
revelou ao mundo e ensinou Seu povo a adorar “em espírito e em verdade”
(João 4.24).
E aqui é importante fazer uma
distinção fundamental.
Criar não é o mesmo que sustentar.
Deus não apenas trouxe o universo à
existência; Ele continua sustentando todas as coisas. O mundo não segue
funcionando independentemente após ter sido criado. A criação permanece
continuamente dependente do poder de Deus. E essa sustentação é atribuída
explicitamente a Cristo. O autor de Hebreus declara que o Filho está “sustentando
todas as coisas pela palavra do seu poder” (Hebreus 1.3). Isso significa
que o universo não apenas foi criado por meio dEle, mas também continua
existindo, sendo preservado e governado por Seu poder soberano. Por isso, a
existência inteira é contingente - somente Deus possui existência em Si mesmo.
Portanto, a doutrina da criação não
fala apenas sobre a origem do universo, mas sobre nossa relação com Deus. Somos
criaturas vivendo em um universo que pertence integralmente ao seu Criador.
E isso significa que:
·
nossa vida pertence a Deus
·
nossa existência depende de Deus
·
e nosso propósito encontra-se em Deus
·
A criação começa com Deus, e encontra nEle o seu
sentido final.
Teoria 01 – Um monte de coincidências.
Na primeira teoria, você imagina
que um caminhão de entrega de supermercado estava descendo a ladeira de sua
rua. De repente, um menino atravessa à frente do caminhão e, para não atropelar
o menino, o motorista dá um golpe no volante e perde o controle do veículo.
O veículo começa a capotar ladeira
abaixo. No baú do caminhão estavam todo tipo de produtos de supermercado.
Dentre eles, havia um pacote de farinha de trigo que se estourou e uma porção
determinada se separou do restante do pacote. Ali também havia leite líquido
que também se abriu e separou uma quantidade exata e proporcional à quantidade
do trigo que também se havia separado, e misturaram-se. Havia também cartelas
de ovos que se abriram e quebraram apenas alguns ovos, uma quantidade exata que
se misturou à massa previamente formada pelo trigo e pelo leite.
Enquanto isso, o caminhão
continuava rolando ladeira abaixo. No baú do caminhão também havia chocolate em
pó e fermento que se abriram e se misturaram em uma proporção exata aos três
primeiros elementos que já haviam formado uma massa. Enquanto isso, o caminhão
rolava ladeira abaixo e aquela massa continuava sendo misturada e batida.
Havia ali, também, um pacote de
açúcar que se arrebentou e se misturou numa quantidade exata, nem para mais,
nem para menos, à massa que se formava ali. O caminhão continuava capotando e
misturando a massa.
Ainda no baú do caminhão tinha uma
forma de bolo e, por acaso, em uma das cambalhotas do caminhão a massa prévia
se enfiou dentro dela, mas não antes de um pouco de manteiga e trigo terem
untado a forma.
De repente, o caminhão para de
capotar bem em frente à sua casa e pega fogo; o bolo assa. E, preso nas
ferragens acima do bolo, estava um vidro de cerejas que se quebra com o calor
e, após o bolo assado, as cerejas caem em cima dele.
Chega o corpo de bombeiros, apaga o
fogo e acha o bolo assado. O bombeiro, estupefato com a façanha, pega o bolo e,
como estava de frente à sua casa, entra e coloca o bolo no balcão de sua
cozinha como prova do feito inédito.
Mas, não contente com essa teoria
que você idealizou de como o bolo chegou até ali, você pensa em outra.
Teoria 02 – O Confeiteiro
Alguém que sabia fazer um bolo,
conhecia a proporção exata de cada elemento, misturou esses elementos na ordem
certa, untou a forma, assou o bolo no tempo certo, tirou do forno, enfeitou com
cerejas e o colocou em cima de seu balcão.
A primeira teoria é uma parábola
para explicações naturalistas da existência cheias de expressões que apontam
para algo irracional, coincidências aleatórias, algo que não condiz com aquilo
que chamamos de lógica. Veja, a teoria do bolo já é irracional para um produto
que não tem mais do que dez elementos.
Se levarmos esse raciocínio a um
dos seres vivos mais simples, uma ameba, por exemplo, encontramos uma
complexidade infinitamente superior. E, ao considerarmos o ser humano, a
complexidade biológica, genética e informacional torna-se incomparavelmente
maior. Não se trata apenas da existência de componentes, mas da organização
precisa, interação coordenada e funcionalidade contínua de sistemas inteiros
atuando simultaneamente.
Se já parece irracional atribuir a
existência ordenada de um simples bolo a eventos aleatórios, quanto mais
irracional se torna atribuir:
·
vida
·
consciência
·
racionalidade
·
leis físicas
·
ordem matemática
·
linguagem
·
informação genética
·
e estrutura moral
a processos cegos,
desgovernados e não inteligentes.
A segunda teoria aponta para aquilo
que muitos descrevem como Design Inteligente. Em tudo o que observamos
diariamente, a própria realidade aponta racionalmente para intenção, ordem,
propósito e inteligência.
E isso não é estranho à Escritura.
Romanos 1 afirma que os atributos
invisíveis de Deus são claramente reconhecidos por meio das coisas que foram
criadas. O Salmo 19 declara que “os céus proclamam a glória de Deus”. E
o próprio universo testemunha continuamente acerca de um Criador sábio e
poderoso.
Isso não significa que o homem seja
salvo apenas observando a criação. A revelação natural é suficiente para tornar
o homem indesculpável, mas não suficiente para salvá-lo. A salvação vem somente
por meio da revelação especial de Deus nas Escrituras e em Cristo.
Ainda assim, a criação inteira
permanece como testemunha constante da existência, poder e sabedoria do
Criador.
Crer que o universo possui um Criador não é irracional.
Irracional é imaginar complexidade
sem inteligência, ordem sem mente, informação sem origem racional e propósito
sem propósito algum.
A criação aponta para o Criador. E
a Escritura revela quem esse Criador é.
Rev. Júlio Pinto
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