sábado, 9 de maio de 2026

Tema 25 - A Criação: Deus trouxe todas as coisas à existência pela Sua Palavra

 “No princípio, criou Deus os céus e a terra.” (Gênesis 1.1)

Pela fé, entendemos que foi o universo formado pela palavra de Deus, de maneira que o visível veio a existir das coisas que não aparecem.” (Hebreus 11.3)

Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez.” (João 1.3)

 

Chegamos à obra da criação, tema que ainda pertence acerca da Doutrina de Deus.

A criação é o ato livre, soberano e poderoso pelo qual Deus trouxe todas as coisas à existência pela Palavra do Seu poder.

A Escritura começa exatamente com essa declaração majestosa: “No princípio, criou Deus os céus e a terra.

Antes da criação, nada existia além do próprio Deus. Não havia matéria eterna, energia pré-existente, forças independentes ou qualquer realidade autônoma coexistindo com Ele. Se houvesse algo eterno além de Deus, então isso também possuiria caráter absoluto e independente, deixando de ser mera criatura.

Em última análise, haveria outro princípio eterno ao lado de Deus. E aquilo que é eterno, absoluto e independente torna-se objeto último de reverência e explicação da realidade. A Escritura, porém, rejeita completamente essa possibilidade. Somente Deus é eterno em Si mesmo.

Toda a realidade criada depende dEle. Isso também distingue a fé cristã de concepções panteístas, como a de Baruch Spinoza, que entendia Deus não como um Criador distinto do universo, mas como a própria substância eterna da qual todas as coisas seriam expressão. Na revelação bíblica, Deus não é o universo, nem o universo é extensão do ser divino. O Criador é distinto da criação e soberano sobre ela. Somente Deus é eterno.

Por isso, a tradição cristã passou a usar uma expressão para mostrar aquilo que a Escritura afirma de que Deus criou todas as coisas a partir daquilo que não existia, ou seja: ex-nihilo - isto é, “do nada”. (Hebreus 11.3)

Isso não significa que o “nada” fosse algum tipo de substância da qual o universo foi formado. Significa exatamente o contrário: Deus não utilizou matéria prévia para criar. O universo inteiro passou a existir exclusivamente pelo poder da Sua vontade.

Deus falou - e todas as coisas vieram à existência.

Isso distingue radicalmente a cosmovisão bíblica de muitas concepções antigas e modernas.

A Escritura rejeita:

·        Qualquer ideia de evolução;

·        a ideia de matéria eterna;

·        a noção de que o universo seja uma extensão do próprio ser divino;

·        ou qualquer conceito de criação como simples organização de algo já existente.

Deus não moldou um universo prévio. Ele trouxe o próprio ser das coisas à existência.

E essa criação ocorre por meio da Sua Palavra. “Disse Deus...” - e assim se desenvolve toda a narrativa de Gênesis.

O universo não nasce do acaso, nem da necessidade, nem de processos independentes de Deus. Ele existe porque Deus quis que existisse.

E isso revela algo profundo sobre o próprio Criador.

A criação não surge de carência em Deus. Deus não criou porque estivesse solitário, incompleto ou necessitado da criatura. O Deus trino já possuía, eternamente, perfeita plenitude em Si mesmo.

A criação é fruto da Sua vontade livre e sábia.

Além disso, a Escritura mostra que a criação é obra do Deus Triúno.

O Pai cria pelo Filho e no poder do Espírito.

João afirma que todas as coisas foram feitas por intermédio do Filho. E Gênesis 1.2 já apresenta o Espírito de Deus pairando sobre a face das águas. Portanto, toda a Trindade está envolvida na obra criadora.

A criação também revela a glória de Deus. Os céus manifestam Sua grandeza. A ordem do universo testemunha Sua sabedoria. A complexidade da vida aponta para Seu poder. E, como Paulo declarou em Atenas, é no próprio Deus que “vivemos, e nos movemos, e existimos” (Atos 17.28). Isso significa que a criação inteira depende continuamente do Criador. O universo não possui existência autônoma nem significado independente de Deus. Toda a realidade criada testemunha, consciente ou inconscientemente, a glória Daquele que a trouxe à existência.

Isso significa que o universo não é autônomo nem possui significado em si mesmo. A criação existe para refletir a glória do Criador.

E isso traz profundas implicações.

Primeiro, produz humildade. Somos criaturas, não autônomos. Isso destrói a ilusão moderna de independência absoluta. O homem não possui existência em si mesmo, não define autonomamente sua própria natureza e não é o centro último da realidade. Vivemos em um universo que não nos pertence e cuja existência não depende da vontade humana. A própria vida é dom de Deus. Cada respiração, cada capacidade e cada aspecto da existência dependem continuamente do Criador. Reconhecer isso é o início da verdadeira humildade. Foi exatamente essa verdade que Paulo proclamou em Atenas ao afirmar que “nele vivemos, e nos movemos, e existimos” (Atos 17.28). A criatura jamais pode ocupar o lugar do Criador sem cair em rebelião e idolatria.

Segundo, produz dependência. Tudo o que existe continua dependendo de Deus para subsistir. A criação não possui autonomia operacional diante do Criador. O universo não funciona como uma máquina independente que Deus apenas colocou em movimento. A Escritura afirma que todas as coisas continuam sendo sustentadas pelo poder divino. O autor de Hebreus declara que Cristo está “sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder” (Hebreus 1.3). Isso significa que não apenas a origem do universo depende de Deus, mas também sua continuidade momento após momento. Se Deus retirasse Seu poder sustentador, toda a criação deixaria imediatamente de existir. Isso também corrige o pensamento deísta, que imagina um deus distante, ausente e não envolvido com sua criação. O Deus das Escrituras é transcendente, mas também continuamente presente em Seu governo providencial sobre tudo o que criou.

Terceiro, produz reverência. O mundo não é comum ou independente, é obra das mãos de Deus. A criação inteira carrega as marcas da sabedoria, poder e majestade do Criador. Os céus anunciam Sua glória, e toda a ordem da criação testemunha continuamente acerca dEle. Isso significa que o universo não deve ser tratado com banalidade, nem o homem deve viver como se estivesse em uma realidade neutra ou sem significado. Toda a existência aponta para Deus e exige uma resposta moral da criatura. Romanos 1 afirma que os homens são indesculpáveis justamente porque a própria criação revela claramente o poder eterno e a divindade de Deus. Portanto, viver sem reverência diante do Criador não é mera ignorância intelectual, é supressão culpada da verdade revelada na própria criação.

Quarto, sendo Deus o Criador, Ele determina não apenas a finalidade de cada coisa criada, mas também o fim de todas elas. A história não caminha de forma aleatória ou indefinida. O mesmo Deus que trouxe todas as coisas à existência também determinou o desfecho da criação e da própria história humana. Por isso a Escritura descreve o fim desde o princípio. Daniel anuncia o estabelecimento definitivo do Reino de Deus, e Apocalipse revela a consumação final de todas as coisas sob o governo de Cristo. Como declara o Senhor: “Lembrai-vos das coisas passadas da antiguidade: que eu sou Deus, e não há outro, eu sou Deus, e não há outro semelhante a mim; que desde o princípio anuncio o que há de acontecer e desde a antiguidade, as coisas que ainda não sucederam; que digo: o meu conselho permanecerá de pé, farei toda a minha vontade;” (Isaías 46.9-10). O universo criado possui origem, propósito e consumação determinados pelo próprio Criador.

Quinto, sendo Deus o Criador, isso é motivo mais que suficiente para exigir adoração e louvor de todas as criaturas. O salmista convoca toda a criação ao louvor exatamente porque todas as coisas pertencem Àquele que as fez: “Vinde, adoremos e prostremo-nos; ajoelhemos diante do Senhor, que nos criou” (Salmos 95.6). A criação não existe para a exaltação de si mesma, mas para glorificar o Deus que lhe deu existência.

Sexto, sendo Deus o Criador, o próprio Cristo, ao encarnar-se, veio revelar e anunciar esse Deus verdadeiro. A Escritura afirma acerca do Filho: “Por isso Deus, o teu Deus, te ungiu...” (Hebreus 1.9). E o Deus anunciado por Cristo é exatamente o Deus revelado desde Gênesis. Jesus confirmou a criação ex-nihilo, confirmou o universo criado pela Palavra divina, confirmou a criação do homem e da mulher desde o princípio e tratou os eventos de Gênesis como história verdadeira (Mateus 19.4). Isso possui uma implicação inevitável: não é coerente afirmar crer em Cristo apenas em aspectos morais ou espirituais enquanto se rejeita o próprio testemunho que Ele deu acerca de Deus, da criação e das Escrituras. Se Cristo é verdadeiro, então Seu testemunho também o é. E, se seu testemunho acerca de Deus e da criação é falso, então crer em seu ensino moral ou espiritual é incoerente. E o Cristo revelado nos evangelhos não anunciou um deus imaginário, impessoal ou simbólico, mas o Deus Criador revelado desde o princípio. Foi esse Deus transcendente, distinto da criação e soberano sobre ela, que Cristo revelou ao mundo e ensinou Seu povo a adorar “em espírito e em verdade” (João 4.24).

E aqui é importante fazer uma distinção fundamental.

Criar não é o mesmo que sustentar.

Deus não apenas trouxe o universo à existência; Ele continua sustentando todas as coisas. O mundo não segue funcionando independentemente após ter sido criado. A criação permanece continuamente dependente do poder de Deus. E essa sustentação é atribuída explicitamente a Cristo. O autor de Hebreus declara que o Filho está “sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder” (Hebreus 1.3). Isso significa que o universo não apenas foi criado por meio dEle, mas também continua existindo, sendo preservado e governado por Seu poder soberano. Por isso, a existência inteira é contingente - somente Deus possui existência em Si mesmo.

Portanto, a doutrina da criação não fala apenas sobre a origem do universo, mas sobre nossa relação com Deus. Somos criaturas vivendo em um universo que pertence integralmente ao seu Criador.

E isso significa que:

·        nossa vida pertence a Deus

·        nossa existência depende de Deus

·        e nosso propósito encontra-se em Deus

·        A criação começa com Deus, e encontra nEle o seu sentido final.

 

 Uma parábola acerca de toda a existência

 Muitos céticos, ateus e outras linhas ideológicas afirmam sua posição por não verem lógica em uma religião fundamentada no relato de Gênesis 1 e 2. Então, propomos uma parábola (já conhecida de muitos).

 A teoria do bolo

 Depois de um dia de trabalho você chega em casa, abre a porta e, chegando na cozinha, se depara com um belo e suculento bolo de chocolate enfeitado com cerejas. Contudo, a imagem lhe causa estranheza e você não sabe de onde veio, nem quem o fez. Então, você se propõe a um exercício intelectual de lógica para elaborar teorias sobre como aquele apetitoso produto chegou até ali. Você desenvolve duas teorias.

Teoria 01 – Um monte de coincidências.

Na primeira teoria, você imagina que um caminhão de entrega de supermercado estava descendo a ladeira de sua rua. De repente, um menino atravessa à frente do caminhão e, para não atropelar o menino, o motorista dá um golpe no volante e perde o controle do veículo.

O veículo começa a capotar ladeira abaixo. No baú do caminhão estavam todo tipo de produtos de supermercado. Dentre eles, havia um pacote de farinha de trigo que se estourou e uma porção determinada se separou do restante do pacote. Ali também havia leite líquido que também se abriu e separou uma quantidade exata e proporcional à quantidade do trigo que também se havia separado, e misturaram-se. Havia também cartelas de ovos que se abriram e quebraram apenas alguns ovos, uma quantidade exata que se misturou à massa previamente formada pelo trigo e pelo leite.

Enquanto isso, o caminhão continuava rolando ladeira abaixo. No baú do caminhão também havia chocolate em pó e fermento que se abriram e se misturaram em uma proporção exata aos três primeiros elementos que já haviam formado uma massa. Enquanto isso, o caminhão rolava ladeira abaixo e aquela massa continuava sendo misturada e batida.

Havia ali, também, um pacote de açúcar que se arrebentou e se misturou numa quantidade exata, nem para mais, nem para menos, à massa que se formava ali. O caminhão continuava capotando e misturando a massa.

Ainda no baú do caminhão tinha uma forma de bolo e, por acaso, em uma das cambalhotas do caminhão a massa prévia se enfiou dentro dela, mas não antes de um pouco de manteiga e trigo terem untado a forma.

De repente, o caminhão para de capotar bem em frente à sua casa e pega fogo; o bolo assa. E, preso nas ferragens acima do bolo, estava um vidro de cerejas que se quebra com o calor e, após o bolo assado, as cerejas caem em cima dele.

Chega o corpo de bombeiros, apaga o fogo e acha o bolo assado. O bombeiro, estupefato com a façanha, pega o bolo e, como estava de frente à sua casa, entra e coloca o bolo no balcão de sua cozinha como prova do feito inédito.

Mas, não contente com essa teoria que você idealizou de como o bolo chegou até ali, você pensa em outra.

 

Teoria 02 – O Confeiteiro

Alguém que sabia fazer um bolo, conhecia a proporção exata de cada elemento, misturou esses elementos na ordem certa, untou a forma, assou o bolo no tempo certo, tirou do forno, enfeitou com cerejas e o colocou em cima de seu balcão.

A primeira teoria é uma parábola para explicações naturalistas da existência cheias de expressões que apontam para algo irracional, coincidências aleatórias, algo que não condiz com aquilo que chamamos de lógica. Veja, a teoria do bolo já é irracional para um produto que não tem mais do que dez elementos.

Se levarmos esse raciocínio a um dos seres vivos mais simples, uma ameba, por exemplo, encontramos uma complexidade infinitamente superior. E, ao considerarmos o ser humano, a complexidade biológica, genética e informacional torna-se incomparavelmente maior. Não se trata apenas da existência de componentes, mas da organização precisa, interação coordenada e funcionalidade contínua de sistemas inteiros atuando simultaneamente.

Se já parece irracional atribuir a existência ordenada de um simples bolo a eventos aleatórios, quanto mais irracional se torna atribuir:

·        vida

·        consciência

·        racionalidade

·        leis físicas

·        ordem matemática

·        linguagem

·        informação genética

·        e estrutura moral

a processos cegos, desgovernados e não inteligentes.

 

A segunda teoria aponta para aquilo que muitos descrevem como Design Inteligente. Em tudo o que observamos diariamente, a própria realidade aponta racionalmente para intenção, ordem, propósito e inteligência.

E isso não é estranho à Escritura.

Romanos 1 afirma que os atributos invisíveis de Deus são claramente reconhecidos por meio das coisas que foram criadas. O Salmo 19 declara que “os céus proclamam a glória de Deus”. E o próprio universo testemunha continuamente acerca de um Criador sábio e poderoso.

Isso não significa que o homem seja salvo apenas observando a criação. A revelação natural é suficiente para tornar o homem indesculpável, mas não suficiente para salvá-lo. A salvação vem somente por meio da revelação especial de Deus nas Escrituras e em Cristo.

Ainda assim, a criação inteira permanece como testemunha constante da existência, poder e sabedoria do Criador.

Crer que o universo possui um Criador não é irracional.

Irracional é imaginar complexidade sem inteligência, ordem sem mente, informação sem origem racional e propósito sem propósito algum.

A criação aponta para o Criador. E a Escritura revela quem esse Criador é.

 


Rev. Júlio Pinto

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