“Tu conservas em vida a todos, e o exército dos céus te adora.” (Neemias 9.6)
A providência é a obra contínua
de Deus pela qual Ele:
·
preserva todas as coisas;
·
governa todas as coisas;
·
e dirige todas as coisas ao fim que determinou.
E ainda,
·
Nada existe independentemente dEle.
·
Nada permanece existindo sem Seu poder.
·
E nada ocorre fora do Seu governo soberano.
O universo não possui autonomia. A criação inteira continua existindo porque Deus continuamente a sustenta. Isso inclui:
·
os céus;
·
a terra;
·
os reis;
·
as nações;
·
os animais;
·
os ciclos da natureza;
·
a vida humana;
·
e até os acontecimentos que os homens consideram
pequenos ou aleatórios.
Nada escapa à
providência divina.
A Escritura declara que: “O coração do homem pode fazer planos, mas a resposta certa
dos lábios vem do Senhor.” (Provérbios 16.1)
E também:
“A
sorte se lança no regaço, mas do Senhor procede toda decisão.”
(Provérbios 16.33)
Isso não significa que Deus seja
autor do pecado ou moralmente responsável pela maldade dos homens. A Escritura
mantém simultaneamente duas verdades: a primeira na qual Deus governa
soberanamente todas as coisas; e a segunda é a de que o homem permanece
moralmente responsável por seus atos. O maior exemplo disso é a própria
crucificação de Cristo.
Pedro declara que Jesus foi
entregue: “pelo determinado desígnio e presciência
de Deus” (Atos 2.23) e, ao mesmo tempo, afirma que homens ímpios
foram culpados por crucificá-lo.
Isso nos mostra que o mesmo evento
ocorreu: segundo o decreto soberano de Deus e mediante atos verdadeiramente
pecaminosos dos homens. A providência divina não anula responsabilidade humana.
Ela estabelece o governo absoluto de Deus sobre uma criação real, histórica e
moral.
A providência também destrói
completamente a ideia do “mero acaso”. Os homens usam a palavra “acaso” para
descrever eventos cuja causa desconhecem. Mas, diante de Deus, não existem
fatos desgovernados, independentes ou caóticos. O Deus da Escritura governa desde
o levantar dos impérios até a queda de um pardal. Foi exatamente isso que
Cristo ensinou: “Não se vendem dois pardais por um
asse? E nenhum deles cairá em terra sem o consentimento de vosso Pai.”
(Mateus 10.29)
Isso traz profundo consolo ao
crente. Porque significa que a história não está fora de controle, de mesma
forma o sofrimento não é autônomo e, para Sua glória, o mal não triunfará
soberanamente. A providência garante que Deus conduz todas as coisas para o fim
que determinou em Sua sabedoria perfeita. E isso inclui até mesmo
circunstâncias difíceis. Por isso Paulo declara: “Sabemos
que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus...”
(Romanos 8.28) Isso não significa que todas as coisas sejam boas em si mesmas. O
pecado continua sendo pecado. O sofrimento continua sendo sofrimento. A dor
continua sendo real. Mas Deus é tão soberano que governa até mesmo os males da
história para cumprir Seus propósitos santos.
Aqui também é importante tratar
de uma expressão muito difundida na teologia moderna: “graça comum”.
Historicamente, essa formulação
foi desenvolvida especialmente por Abraham Kuyper, no contexto do neocalvinismo
holandês. A ideia procura explicar como Deus manifesta bondade, ordem e
restrição do mal também entre homens não regenerados.
Existe, de fato, uma verdade bíblica importante nisso:
·
Deus restringe o mal;
·
Deus concede benefícios temporais;
·
Deus sustenta a ordem do mundo;
·
e homens ímpios ainda podem praticar certos bens
relativos em termos civis e sociais.
Porque, na Escritura, a graça
aparece fundamentalmente ligada à redenção.
·
A graça salva.
·
A graça justifica.
·
A graça santifica.
·
A graça glorifica.
Quando Paulo fala da graça de
Deus, ele está tratando da ação salvadora de Deus em Cristo. Por isso, muitos
teólogos reformados entenderam que talvez seja mais preciso falar:
·
de bondade comum;
·
misericórdia temporal;
·
paciência divina;
·
ou providência restritiva;
do que
propriamente de “graça” em sentido redentivo.
Porque os réprobos realmente
recebem:
·
vida;
·
sustento;
·
chuva;
·
alimento;
·
ordem social;
·
talentos;
·
e longanimidade divina.
Mas continuam
debaixo da condenação de Adão enquanto permanecem fora de Cristo.
A Escritura jamais fala da graça
de Deus como algo meramente neutro ou não salvífico. Isso é importante porque
protege a centralidade da redenção. A graça bíblica não é mera benevolência
genérica. Ela é favor salvador concedido soberanamente em Cristo ao Seu povo.
Paulo igualmente afirma que “a ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e
perversão dos homens” (Romanos 1.18). Essa ira já se manifesta na
própria história por meio do juízo de abandono judicial. Repetidas vezes
Romanos 1 declara: “Deus os entregou...”
(Romanos 1.24, 26, 28). Ou seja, uma das formas mais severas da ira divina
consiste em Deus entregar o homem aos seus próprios pecados, paixões,
corrupções e endurecimento moral. O homem deseja o pecado e Deus o abandona
cada vez mais às consequências do próprio pecado. Isso já é manifestação
presente do juízo divino.
Ao mesmo tempo, a Escritura
também ensina que a plena consumação dessa ira ainda está por vir. Paulo afirma
que o homem impenitente “... segundo a tua dureza e
coração impenitente, acumulas contra ti mesmo ira para o dia da ira e da
revelação do justo juízo de Deus,” (Romanos 2.5). Existe, portanto,
uma ira presente e uma ira futura. A ira já repousa sobre o ímpio agora, mas
será plenamente revelada no juízo final.
Isso é fundamental para não
compreendermos erroneamente a bondade providencial de Deus. O fato de os
ímpios:
·
respirarem;
·
prosperarem;
·
receberem alimento;
·
constituírem famílias;
·
desenvolverem cultura;
·
ou desfrutarem de muitos benefícios temporais;
não significa
reconciliação com Deus nem suspensão de Sua justiça. A própria longanimidade
divina tem propósito moral. Paulo pergunta: “Ou
desprezas a riqueza da sua bondade, e tolerância, e longanimidade, ignorando
que a bondade de Deus é que te conduz ao arrependimento?” (Romanos
2.4). A paciência de Deus deveria conduzir o homem ao arrependimento. Porém,
permanecendo impenitente, o homem continua debaixo da ira divina mesmo enquanto
desfruta dos benefícios temporais da providência.
Por isso, dentro da teologia
reformada, muitos preferem compreender essas manifestações não como “graça” em
sentido redentivo, mas como:
·
bondade providencial;
·
misericórdia temporal;
·
longanimidade divina;
·
e restrição soberana do mal.
A graça salvadora pertence à
união com Cristo. Somente nEle a ira de Deus é removida. Fora de Cristo, o
homem permanece simultaneamente:
·
sustentado pela providência divina;
·
moralmente responsável diante de Deus;
·
e judicialmente debaixo de Sua ira.
E é exatamente isso que torna o
evangelho tão glorioso: Cristo não veio apenas melhorar a condição do homem,
mas livrar pecadores da justa ira de Deus. Ainda assim, mesmo a bondade
temporal de Deus para com os ímpios serve aos Seus propósitos soberanos na
história.
Isso muda completamente a maneira
como enxergamos a vida. Não existe um momento neutro sequer na vida; não há
nenhuma história neutra; nada nos informa que o sofrimento é neutro; nem tampouco
devemos achar que a nossa própria existência é neutra. Tudo ocorre sob os olhos
de Deus. Coram Deo
E isso deve conduzir o conduz o
crente à confiança, à humildade, à perseverança e à adoração. Porque, afinal de
contas, o universo não está entregue ao caos. O Deus que criou todas as coisas
também governa todas as coisas e tem conduzido e ainda conduzirá toda a
história ao fim que determinou para a manifestação da Sua glória.
Rev. Júlio Pinto
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