“Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram.” (Romanos 5.12)
“Porque, como, pela desobediência de um só homem, muitos
se tornaram pecadores, assim também, por meio da obediência de um só, muitos se
tornarão justos.” (Romanos 5.19)
“E vos deu vida, estando vós mortos em vossos delitos e
pecados.” (Efésios 2.1)
“Eu nasci na iniquidade, e em pecado me concebeu minha
mãe.” (Salmos 51.5)
A Escritura responde essa questão não por meio de
especulações filosóficas, mas pela revelação histórica de Gênesis 3.
Deus criou o homem reto, santo e sem pecado. O homem não foi
criado moralmente neutro, inclinado ao mal ou corrompido. Adão foi criado em
verdadeiro conhecimento, justiça e santidade, plenamente capaz de obedecer a
Deus. Ali, no Éden, Adão e Eva possuíam verdadeira liberdade moral. Sua vontade
não estava escravizada ao pecado nem corrompida por uma natureza caída. Criados
retos diante de Deus, possuíam inclinação santa e plena capacidade de obedecer
ao Criador, embora ainda fossem mutáveis e capazes de cair.
Aqui é importante lembrar algo já estabelecido
anteriormente: a santidade de Deus governa todas as Suas obras. Portanto, o mal
não pode ser atribuído a qualquer corrupção em Deus, nem a qualquer deficiência
em Sua criação original. Tudo o que Deus criou era “muito bom” (Gênesis
1.31). O pecado não surge porque Deus seja imperfeito, mas porque a criatura
moralmente responsável rebelou-se contra o Criador.
A Escritura também apresenta Adão não apenas como indivíduo
privado, mas como cabeça federal da humanidade. Isso significa que Adão agiu
representativamente. O que ele fez afetou toda a raça humana. Esse princípio
aparece claramente em Romanos 5, onde Paulo estabelece o paralelo entre:
·
Adão e Cristo;
·
condenação e justificação;
·
morte e vida.
Assim como a culpa de Adão é imputada aos que estão nele, a
justiça de Cristo é imputada aos que estão unidos a Ele pela fé. Isso também
está ligado ao chamado pacto das obras.
Deus criou Adão e o colocou em estado de retidão original e
lhe deu um mandamento específico. A obediência traria confirmação de vida; a
desobediência traria morte. Adão, portanto, não estava apenas sendo testado
individualmente, mas como representante da humanidade. E foi nesse contexto que
ocorreu a queda. Satanás, utilizando a serpente, introduziu a tentação. E Adão,
voluntariamente, desobedeceu ao mandamento de Deus. O pecado entrou no mundo. E
com o pecado veio a morte, a corrupção, a culpa, a separação de Deus e toda a
miséria que agora marca a existência humana.
Isso é extremamente importante: a queda não é mito, símbolo
psicológico ou mera alegoria religiosa. O próprio evangelho depende da
historicidade de Adão. Paulo constrói toda sua doutrina da redenção sobre o
fato de que: um homem realmente caiu e outro homem realmente redime. Se Adão
não caiu historicamente, o paralelo paulino com Cristo perde completamente sua
coerência.
Além disso, a doutrina bíblica da queda destrói uma das
ideias mais populares da humanidade caída: a ideia de que o homem é
naturalmente bom. A Escritura afirma exatamente o contrário. O problema do
homem não é apenas social, educacional, cultural ou psicológico. O homem caiu
em sua própria natureza.
E aqui é importante compreender que o pecado possui
dimensões distintas, embora inseparáveis. Primeiro, existe o ato pecaminoso. Isso
abarca várias dimensões do ser humano: pensamentos, palavras, desejos, intenções,
omissões e ações contrárias à lei de Deus. Todo pecado concreto é rebelião
moral contra o Criador.
Mas o pecado não se resume aos atos externos. Existe uma
segunda dimensão: a corrupção herdada. Após a queda, a natureza humana
tornou-se corrompida. O homem não é pecador apenas porque pratica pecados; ele
pratica pecados porque é pecador por natureza. O pecado passou a habitar no
homem. A inclinação da natureza humana tornou-se corrompida.
Isso não significa que todos os homens sejam tão maus quanto
poderiam ser em intensidade absoluta, mas significa que toda a pessoa foi
afetada pelo pecado: mente, vontade, afetos, desejos, consciência e corpo. Nada
permaneceu intocado pela queda. É exatamente isso que a teologia reformada
chama de depravação total. “Total” não significa máxima intensidade possível de
perversidade em cada indivíduo, mas extensão total da corrupção à totalidade da
natureza humana.
O homem continua portando a imagem de Deus, mas essa imagem
encontra-se profundamente corrompida pelo pecado. Por isso, a Escritura
descreve o homem natural como: espiritualmente morto, escravizado ao pecado, inimigo
de Deus e incapaz de sujeitar-se verdadeiramente à lei divina.
Paulo declara: “não há quem busque a Deus” (Romanos
3.11); E também: “o pendor da carne é inimizade contra Deus” (Romanos
8.7). Cristo afirma: “ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o
trouxer” (João 6.44). Isso revela a incapacidade moral produzida pela
queda.
O homem continua
possuindo vontade natural e realizando escolhas voluntárias. Contudo, após a
queda, seu livre-arbítrio perdeu a liberdade moral para qualquer bem espiritual
salvador, encontrando-se escravizado pela corrupção do pecado. Ele não é
coagido externamente a odiar Deus. Ele odeia Deus voluntariamente segundo sua
natureza caída.
É aqui que a formulação clássica de Agostinho de Hipona
ajuda enormemente a compreender a condição humana nos diferentes estados da
história redentiva.
- Antes da queda: era possível pecar e possível não pecar.
- Após a queda: tornou-se impossível não pecar. Ou seja, o homem caído permanece moralmente escravizado ao pecado.
- Após a regeneração: torna-se possível não pecar. Não porque o crente alcance perfeição nesta vida, mas porque a graça regeneradora quebra o domínio absoluto do pecado e inicia a santificação.
- E na glória: será impossível pecar. A redenção será plenamente consumada.
Isso corrige erros extremamente comuns. O pecado não é
apenas comportamento externo. Nem o homem natural possui liberdade moral neutra
diante de Deus. A queda produziu verdadeira escravidão espiritual.
Existe ainda uma terceira dimensão do pecado: a culpa.
O pecado não é apenas corrupção moral interna. Ele possui
também dimensão jurídica diante de Deus. O homem caído encontra-se sob
condenação real diante do Juiz santo. E, se essa culpa não for removida pela
justificação em Cristo, todo homem permanecerá debaixo da ira divina e será
justamente condenado no juízo eterno. O homem caiu sob condenação. Adão não
pecou apenas como indivíduo privado. Ele agiu como representante da humanidade.
Por isso Paulo afirma: “por uma só ofensa veio o juízo
sobre todos os homens para condenação” (Romanos 5.18). A culpa de Adão é
imputada à humanidade. E a corrupção de Adão é herdada por seus descendentes. Isso
explica por que o homem já nasce espiritualmente morto e inclinado ao pecado.
O problema humano não começa apenas quando o homem pratica
conscientemente seus primeiros pecados externos. O homem já nasce em estado de
corrupção e condenação em Adão. Isso também explica a universalidade do pecado.
Todos pecam porque todos já nascem pecadores.
Aqui também é importante evitar dois erros históricos
extremamente perigosos.
O primeiro erro consiste em tratar o pecado apenas como algo
material, corporal ou ligado meramente ao mundo físico, como se a matéria fosse
o problema fundamental do homem. A Escritura rejeita isso completamente. O
problema não está na criação material de Deus, que originalmente foi declarada
boa, mas na corrupção moral produzida pela rebelião contra Deus. O pecado nasce
do coração caído do homem.
O segundo erro consiste em imaginar que, porque a graça
salva, a lei moral de Deus deixa de possuir importância para a vida cristã. A
Escritura ensina exatamente o contrário. O mesmo evangelho que justifica também
santifica. A graça não elimina a luta contra o pecado; ela inaugura essa luta
de maneira verdadeira.
Isso nos conduz diretamente à relação entre culpa, corrupção
e santificação na vida cristã. Na justificação, Cristo remove a culpa do
pecado. Na santificação, Cristo mortifica progressivamente a corrupção do
pecado. E na glorificação, Cristo removerá completamente toda presença do
pecado. Isso é fundamental para compreender a experiência cristã. O crente
verdadeiro já foi libertado da condenação do pecado. Mas ainda luta contra a
presença do pecado. A corrupção remanescente permanece atuando no crente
enquanto ele vive neste mundo. Por isso a vida cristã é descrita como combate
espiritual contínuo.
Paulo afirma: “mortificai, pois, os vossos membros que
estão sobre a terra...” (Colossenses 3.5). A santificação não significa
ausência de luta. Ela significa guerra contra o pecado. O pecado não reina mais
absolutamente no crente, mas ainda habita nele como inimigo interno que deve
ser continuamente enfraquecido e mortificado pelo Espírito Santo. O pecado deve
tornar-se cada vez mais moribundo na vida do crente.
Isso evita dois extremos: o desespero e a acomodação. O
crente não deve desesperar-se como se ainda estivesse condenado diante de Deus.
Mas também não pode acomodar-se como se a graça tornasse irrelevante a
mortificação do pecado. A Escritura rejeita ambos.
Aqui também surge uma questão inevitável: qual a relação
entre a providência de Deus e a queda? A Escritura ensina simultaneamente que
Deus decretou eternamente todas as coisas e que Deus não é autor do pecado. A
queda não ocorreu fora da providência divina. Nada escapa ao decreto de Deus. Entretanto,
Deus decretou a entrada do pecado de maneira santa, sábia e justa, sem
tornar-se moralmente participante da corrupção do pecado.
·
Os homens pecam voluntariamente.
·
Satanás pecou voluntariamente.
·
Adão caiu voluntariamente.
A responsabilidade moral pertence à criatura. Deus permanece
absolutamente santo mesmo governando soberanamente uma história onde o pecado
ocorre segundo Seu decreto eterno. Isso não significa que compreendamos
exaustivamente o mistério dessa relação, mas significa que devemos afirmar
ambas as verdades porque ambas são reveladas nas Escrituras: Deus é
absolutamente soberano e Deus é absolutamente santo.
A queda explica por que:
·
o mundo está quebrado;
·
a morte existe;
·
o sofrimento existe;
·
o homem odeia Deus;
·
e toda a criação geme debaixo da corrupção.
Mas a queda também prepara o cenário para a manifestação da
redenção. O primeiro Adão trouxe o pecado, a condenação, a morte e a corrupção.
O segundo Adão, Cristo, traz a justiça, a reconciliação, a vida , a santificação
e a glorificação.
E isso nos conduz naturalmente ao próximo grande tema da
redenção que é a aliança da graça e a obra salvadora de Cristo.
Rev. Júlio Pinto
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