“Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar.” (Gênesis 3.15)
“Eis aí vêm dias, diz o Senhor, e firmarei
nova aliança com a casa de Israel e com a casa de Judá.” (Jeremias 31.31)
“Este cálice é a nova aliança no meu sangue
derramado em favor de vós.” (Lucas 22.20)
“Assim como nos escolheu nele antes da
fundação do mundo...” (Efésios 1.4)
Após tratarmos da queda do homem, deve surgir, de forma inevitável, a pergunta central de toda a história da redenção: Como Deus salva pecadores sem violar Sua própria justiça? Afinal de contas:
· O homem caiu.
· A culpa entrou no
mundo.
· A corrupção passou a
habitar a natureza humana.
· A morte tornou-se
realidade universal.
· E toda a raça humana ficou debaixo da condenação divina em Adão.
Entretanto, a queda não surpreendeu Deus. Nada ocorreu fora do Seu decreto eterno. Antes mesmo da fundação do mundo, Deus já havia determinado salvar um povo para Si em Cristo. A redenção não foi um plano emergencial elaborado após a queda. A cruz não foi improviso divino diante do fracasso humano. Desde toda a eternidade, Deus decretou manifestar Sua glória tanto em justiça quanto em graça por meio da obra redentora de Cristo.
É exatamente aqui que entramos na doutrina da
aliança da graça.
A Escritura revela que, após a queda, Deus não abandonou imediatamente a humanidade ao juízo final. Pelo contrário, já em Gênesis 3.15 aparece a primeira promessa redentora da história. Mesmo no contexto do juízo, Deus anuncia esperança. “O descendente” da mulher pisaria a cabeça da serpente. Esse texto costuma ser chamado de protoevangelho: a primeira proclamação do evangelho nas Escrituras. Ali já estão presentes, de forma embrionária:
• A oposição do reino das trevas ao reino de
Deus.
• a promessa do Redentor;
• o sofrimento do Messias;
• e a vitória final de Cristo sobre Satanás.
Essa promessa atravessa toda a revelação
bíblica e reaparece progressivamente nos Salmos, nos profetas e, finalmente, em
Cristo. Inclusive, há um aspecto profundamente significativo na própria
tentação de Cristo no deserto. Quando Satanás tenta o Senhor, ele cita
parcialmente o Salmo 91: “Aos seus anjos dará ordens a teu respeito...”
(Mateus 4.6). Entretanto, a citação do diabo é propositalmente incompleta. No
próprio contexto do Salmo encontra-se a linguagem da vitória messiânica sobre a
serpente: “Pisarás o leão e a áspide; calcarás aos pés o filho do leão e a
serpente” (Salmos 91.13). Justamente essa parte é omitida por Satanás. A
omissão não é acidental. O texto aponta exatamente para a derrota da própria
serpente antiga pelo Messias prometido desde Gênesis 3.15.
E há ainda outro detalhe extremamente
importante. Ao tentar Cristo, Satanás diz: “Se és Filho de Deus, atira-te
abaixo...”. Entretanto, a construção utilizada no grego não expressa dúvida
genuína acerca da identidade de Cristo, mas assume a realidade da afirmação. O
sentido é: “Já que és Filho de Deus...”. O próprio Satanás sabia quem
estava diante dele. Os demônios reconheciam repetidamente a identidade do Filho
de Deus durante o ministério terreno de Cristo. Assim, ironicamente, o próprio
diabo acaba aplicando o Salmo messiânico ao Senhor Jesus, reconhecendo
implicitamente que Ele é o Filho prometido e o verdadeiro Descendente anunciado
desde o princípio.
Mas exatamente aí encontra-se sua derrota. A
serpente tenta destruir Aquele que pisaria sua cabeça. E aquilo que parecia
vitória satânica na cruz tornou-se precisamente o instrumento de sua ruína
definitiva. O calcanhar do Descendente foi ferido no sofrimento e morte de
Cristo, mas, por meio da cruz e da ressurreição, Satanás foi publicamente
vencido pelo Redentor prometido.
Isso não pode ser tratado como uma mera informação,
porque demonstra que toda a história bíblica possui unidade orgânica. A
redenção não começa em Mateus. O evangelho não aparece apenas no Novo
Testamento. Toda a Escritura aponta progressivamente para Cristo. Desde
Gênesis, Deus revela Seu propósito redentor.
Aqui também é importante fazer uma distinção
fundamental da teologia reformada: a distinção entre o pacto das obras e a
aliança da graça.
No pacto das obras, Adão estava diante de Deus
como representante da humanidade em estado de retidão original. A vida estava
condicionada à perfeita obediência. Mas Adão caiu. E, nele, toda a humanidade
caiu também. Conforme vimos no tema anterior acerca da queda, dessa rebelião
procederam as três dimensões do pecado que agora marcam toda a raça humana:
culpa, corrupção e atos de pecado.
Após a queda, porém, Deus revela um novo pacto:
a aliança da graça. Essa aliança não é baseada na obediência perfeita do homem
caído, mas na obediência perfeita do Redentor prometido. A salvação passa a ser
oferecida graciosamente por meio de Cristo.
Isso não significa que a justiça de Deus tenha sido ignorada. Pelo contrário. A aliança da graça existe precisamente porque Cristo cumprirá aquilo que Adão falhou em cumprir. O segundo Adão viria:
· obedecer perfeitamente;
· suportar a culpa do
pecado;
· satisfazer a justiça
divina;
· vencer a morte;
· e reconciliar Seu povo com Deus.
Toda a história da redenção desenvolve
progressivamente essa promessa. A aliança da graça é revelada progressivamente
ao longo das Escrituras.
Dentre todos os momentos em que ela aparece nas Escrituras, podemos destacar:
· na promessa feita à Eva;
· na preservação da
linhagem piedosa;
· na aliança com Noé;
· nas promessas feitas a
Abraão;
· no sistema sacrificial
mosaico;
· no reino davídico;
· e alcançando sua plena revelação na nova aliança em Cristo.
Existe unidade essencial em todas essas
administrações da aliança. O modo da salvação sempre foi pela graça (Salmos
6.4); mediante a fé (Gênesis 15.6); em Cristo (Jó 19.25).
Os santos do Antigo Testamento nunca foram salvos por obras da lei, pois os sacrifícios e ordenanças da antiga aliança “jamais podem aperfeiçoar os que se aproximam” (Hebreus 10.1). Foram salvos pela graça, mediante a fé, no Redentor prometido, pela Messias vindouro.
· Abraão creu em Deus.
· Davi confiou na
misericórdia divina.
· Os sacrifícios
apontavam tipologicamente para Cristo.
· Toda a antiga
dispensação aguardava o Redentor prometido.
Isso preserva a unidade da história bíblica. A Bíblia não apresenta dois modos distintos de salvação, um no Antigo Testamento e outro no Novo. Existe uma única aliança da graça administrada progressivamente até sua consumação em Cristo.
Jeremias 31 anuncia exatamente isso: “firmarei
nova aliança...”. A nova aliança não surge como ruptura absoluta com toda a
revelação anterior, mas como consumação daquilo que vinha sendo prometido desde
Gênesis.
Em Cristo, as sombras dão lugar à realidade
definitiva. Os sacrifícios antigos apontavam para Seu sacrifício perfeito; O
sacerdócio levítico apontava para Seu sacerdócio eterno; O reino davídico
apontava para Seu reino eterno; O cordeiro pascal apontava para o verdadeiro
Cordeiro de Deus. Tudo converge para Cristo.
E isso revela algo profundamente importante: a
aliança da graça é cristocêntrica do começo ao fim. Cristo não é mero
participante da aliança. Ele é o Mediador da aliança; o Fiador da aliança; a
Cabeça da aliança; e o próprio cumprimento da aliança. A redenção inteira
encontra-se nEle.
Por isso Cristo declara: “Este cálice é a nova
aliança no meu sangue...” (Lucas 22.20)
É importante compreender que o termo “nova” aqui não significa absolutamente inédita, como se Deus estivesse estabelecendo um plano de salvação completamente diferente daquele já revelado anteriormente. A palavra aponta para algo renovado, consumado e manifestado em sua forma plena e definitiva. Trata-se da mesma aliança da graça agora revelada com maior clareza, plenitude e eficácia na obra consumada de Cristo. Não é outra forma de salvação, mas a consumação daquilo que já vinha sendo prometido e administrado progressivamente desde o princípio. A nova aliança é estabelecida mediante Seu sangue expiatório.
Aqui também aparece claramente a relação entre
eleição e aliança. Nem todos os que pertenciam externamente à comunidade
visível da antiga aliança eram verdadeiramente regenerados (Deuteronômio 10.16).
A história de Israel demonstra isso repetidamente (Jeremias 6.10). A realidade
externa da aliança nunca garantiu automaticamente salvação. A salvação pertence
aos eleitos unidos verdadeiramente a Cristo pela fé. (Romanos 11.4-5 cf. 1 Reis
19.18). Isso evita dois erros: o ritualismo externo; e a ideia de que a
pertença visível ao povo da aliança salva automaticamente.
A aliança da graça sempre teve como centro a
obra eficaz de Deus no coração do Seu povo. Jeremias profetiza: “na mente
lhes imprimirei as minhas leis, também no coração lhas inscreverei...”
(Jeremias 31.33). Isso aponta para a regeneração; conversão; fé; e santificação.
(Hebreus 8.10; 10.16). A nova aliança não consiste apenas em privilégios
externos, mas na aplicação real da redenção aos eleitos. Isso também revela a absoluta necessidade de
Cristo.
Após a queda no Éden, não existe a salvação
pelas obras; neutralidade espiritual ou aproximação autônoma de Deus. Muito
pelo contrário, todo homem permanece culpado, corrompido, espiritualmente morto,
e incapaz de reconciliar-se com Deus por si mesmo. Se haverá salvação, ela
precisará vir inteiramente da graça soberana de Deus.
E é exatamente isso que a aliança da graça
revela. Deus salva pecadores não porque o homem mereça misericórdia, não porque
o homem disse “sim”, mas porque Deus decidiu glorificar Sua graça em Cristo.
A aliança da graça também demonstra a perfeita
harmonia entre atributos divinos que, frequentemente são mal interpretados, ou
como se fossem excludentes entre si, como a justiça, a misericórdia, a santidade
e o amor. Na cruz a justiça é satisfeita; o pecado é punido; a santidade de
Deus é preservada; e a graça é derramada sobre pecadores. A cruz não é negação
da justiça divina, mas é sua manifestação perfeita juntamente com a
manifestação perfeita da graça. Por isso Paulo afirma que Deus permanece: “justo
e o justificador daquele que tem fé em Jesus” (Romanos 3.26).
Isso também corrige uma visão extremamente
superficial do evangelho moderno.
· O evangelho não é mera
oferta emocional de melhora pessoal.
· Não é terapia
religiosa.
· Não é tentativa divina
de persuadir homens moralmente neutros.
O evangelho é a proclamação de que homens espiritualmente mortos, culpados diante de Deus; e incapazes de salvar-se, são reconciliados exclusivamente mediante a obra perfeita de Cristo. Toda a história bíblica caminha nessa direção. Desde Gênesis até Apocalipse, a Escritura desenvolve progressivamente:
1.
a
promessa;
2.
a
preparação;
3.
a
revelação;
4. e a consumação da redenção em Cristo.
A aliança da graça é o eixo da história
redentiva. E isso nos conduz naturalmente ao próximo grande tema: A pessoa de
Cristo - o Mediador da aliança, verdadeiro Deus e verdadeiro homem.
Rev. Júlio Pinto
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