PB xxxxxx: Prezados irmãos, boa noite.
Compartilho com os queridos uma cena que presencial hj.
Como alguns devem saber, estamos de férias aqui no Estado do Rio de Janeiro e, passando em frente a Igreja Presbiteriana de Copacabana visualizei um pedestre que vinha na direção oposta, virando-se para a porta do templo e gesticular com a mão, o sinal da cruz. Gesto este típico da tradição católica romana.
Óbvio que tal pedestre equivocou-se, pensando tratar de um templo romano, visto a arquitetura do templo é de sua fundação em 1913.
Pois bem, dito isso, cabe uma reflexão: até que ponto a arquitetura eclesiástica dos templos Cristãos podem refletir a teologia e a liturgia de formas visíveis?
Fim da postagem do PB xxxxxx
Resposta:
Arquitetura, signo e culto: a leitura de um episódio
Parto da observação feita pelo presbítero xxxxx: ao passar diante da Igreja Presbiteriana de Copacabana, um homem, vindo em sentido contrário, volta-se para a porta do templo e faz o sinal da cruz. O gesto, típico da tradição católica romana, não foi precedido de qualquer informação verbal; foi provocado unicamente pelo encontro visual com o edifício. Esse fato, aparentemente simples, revela um processo de significação já completo e operante, e exige ser compreendido com maior rigor.
A leitura semiótica do episódio não apenas o esclarece, mas fornece uma chave interpretativa coerente com a preocupação reformada acerca dos meios pelos quais Deus é conhecido e adorado. Convém, portanto, aprofundar tais categorias e aplicá-las com precisão, sem perder o eixo teológico que governa a reflexão.
Na tradição linguística moderna, especialmente em Ferdinand de Saussure, o signo é compreendido como a união de dois elementos inseparáveis: o significante, isto é, a forma perceptível, e o significado, o conceito evocado por essa forma. Ainda que não sistematize formalmente o “referente” como um terceiro elemento, sua inclusão é útil: o referente consiste na realidade concreta à qual o signo aponta.
Aplicando tais categorias ao ocorrido, percebe-se que o processo de significação se deu de maneira plena.
O significante foi a própria arquitetura do templo: sua fachada, suas proporções, sua disposição espacial e seu estilo histórico, isto é, aquilo que se apresentou imediatamente aos sentidos do observador.
O significado foi o conteúdo mental evocado por essa forma: a ideia de um espaço sagrado, de devoção litúrgica tradicional, de um ambiente associado à mediação religiosa.
O referente, por sua vez, foi a realidade concreta à qual o observador vinculou esse significado, no caso, a tradição católica romana, ainda que o referente real fosse uma igreja presbiteriana.
O dado mais revelador, contudo, é que o processo semiótico não permaneceu no nível da percepção ou da cognição: ele produziu um efeito prático. O gesto do sinal da cruz evidencia que o signo foi não apenas interpretado, mas internalizado e convertido em ação.
Se avanço na análise com Charles Sanders Peirce, posso descrever esse fenômeno com maior precisão. O que esteve em operação foi uma tríade: o representamen _1_ (o signo em si), que foi a arquitetura do templo; o objeto, que foi aquilo que o signo passou a representar para o observador (um templo católico); e o interpretante, que foi o efeito produzido, aqui manifestado no gesto devocional.
Assim, o sinal da cruz não é um elemento acidental, mas o interpretante visível que confirma a eficácia do signo dentro de um determinado sistema de significação.
Além disso, as três modalidades do signo descritas por Peirce se encontram, de forma convergente, no episódio: há um aspecto icônico, pela semelhança formal com templos de tradição romana; um aspecto indexical, pois a estrutura aponta para um tipo específico de prática litúrgica e compreensão do sagrado; e um aspecto simbólico, na medida em que tal associação depende de uma convenção histórica consolidada. Essa convergência fortalece o signo, tornando sua interpretação praticamente imediata.
É nesse ponto que a reflexão reformada se impõe com necessidade. A Confissão de Fé de Westminster, ao estabelecer o princípio regulador do culto, não se limita aos atos explícitos, mas pressupõe a integridade de tudo aquilo que comunica, estrutura e condiciona a adoração. A tradição puritana reconheceu que o homem não é apenas um ser racional, mas também sensível e imaginativo; por conseguinte, aquilo que se apresenta aos sentidos participa da formação do entendimento religioso.
Quando, portanto, se mantém um significante historicamente associado a uma tradição sacramental, ele continua a carregar consigo o seu significado consolidado, ainda que o referente teológico professado seja outro. Surge, assim, uma dissonância semiótica: rompe-se a correspondência entre forma, conceito e realidade.
Confessa-se, de um lado, a centralidade da Palavra, a mediação única de Cristo e a dessacralização do espaço; comunica-se, por outro, por meio dos signos, uma teologia que sugere sacralidade espacial e mediação visível.
Não se afirma, com isso, que a arquitetura determine a teologia, tal conclusão seria reducionista, mas que ela participa efetivamente da cadeia de significação pela qual a teologia é percebida e assimilada.
Os puritanos, na esteira de João Calvino, compreenderam que o perigo não reside apenas na idolatria formal, mas na inclinação do coração humano de se deixar conduzir pelo visível. Em termos semióticos, pode-se dizer que há o risco de um deslocamento do interpretante: os meios sensíveis passam a produzir respostas que não correspondem à verdade revelada.
Um ambiente que sugere sacralidade intrínseca tende, ainda que de modo sutil, a reconduzir o adorador a categorias que a Reforma procurou corrigir. Como exemplo, a ideia de que Deus é mais acessível em determinados lugares ou de que o espaço participa da santidade do culto.
Assim, a análise semiótica não substitui a teológica, mas a reforça. Quando o signo visível comunica algo diverso da verdade confessada, estabelece-se uma tensão contínua entre significante, significado e referente, e tal tensão inevitavelmente produz efeitos; tanto na percepção externa quanto na formação interna.
Diante disso, a questão não se limita ao conteúdo que se pretende comunicar, mas se estende à coerência da própria linguagem empregada: é necessário que haja correspondência entre o significante utilizado, o significado que ele evoca e o referente que se confessa.
Aqui reside a sobriedade puritana: não basta que a doutrina seja correta em sua formulação; é necessário que todos os meios de comunicação (inclusive os visíveis) estejam ordenados de tal modo que não concorram contra a verdade, mas a sirvam com fidelidade, simplicidade e clareza.
Diante disso, impõe-se à igreja o santo dever de zelar para que, em todas as coisas, Cristo seja claramente exaltado e a pureza do culto seja preservada segundo as Escrituras. Não apenas na doutrina professada, mas também na forma visível que envolve a adoração, cumpre-nos evitar tudo aquilo que possa obscurecer a suficiência da mediação de Cristo e a centralidade de Sua Palavra. Pois o Senhor não se agrada de um culto que, ainda que correto em intenção, se veja envolto por elementos que desviem o coração da simplicidade do Evangelho. Antes, sejamos diligentes em ordenar todas as coisas com reverência e entendimento, para que, livres de confusão e de qualquer aparência de falsa devoção, adoremos a Deus em espírito e em verdade, para a glória do Seu santo nome e edificação do Seu povo.
Rev Júlio César Pinto
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1 O termo “representamen”, em Charles Sanders Peirce, é um termo técnico deliberadamente mantido em latim para evitar reduções indevidas. Traduzir simplesmente como “representação” ou “signo” pode empobrecer o conceito.
Em sentido mais preciso:
Representamen não é qualquer representação, mas aquilo que funciona como signo em um processo semiótico, isto é, o veículo que está no lugar de algo para alguém, sob determinado aspecto.
Embora, em muitos contextos, ele seja tratado como sinônimo de “signo”, Peirce usa “representamen” para enfatizar o papel funcional dentro da tríade (representamen–objeto–interpretante), evitando confusão com usos mais vagos da palavra “signo”.

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