“Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei.” (Romanos 3.28)
“Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo.” (Romanos 5.1)
“Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus.” (2 Coríntios 5.21)
“...não tendo justiça própria, que procede de lei, senão a que é mediante a fé em Cristo...” (Filipenses 3.9)
Após tratarmos da obra de Cristo e da aplicação da redenção pelo chamado eficaz, regeneração e união com Cristo, surge agora uma das perguntas mais fundamentais de toda a Escritura: como um pecador culpado pode permanecer diante de um Deus absolutamente santo e justo?
Essa pergunta atravessa toda a revelação bíblica. O problema humano nunca foi apenas fraqueza moral, sofrimento psicológico ou ausência de propósito existencial. Como vimos anteriormente ao tratar da queda, o homem tornou-se não apenas corrompido internamente, mas também juridicamente culpado diante de Deus. O pecado possui dimensão legal condenatória. O homem encontra-se sob juízo real diante do Juiz santo.
É exatamente aqui que entramos na doutrina da justificação.
A justificação ocupa lugar central no evangelho porque responde diretamente ao problema da culpa. E isso precisa ser compreendido cuidadosamente. A justificação não é, primariamente, transformação moral interior. Ela é declaração jurídica de Deus acerca do pecador unido a Cristo.
Isso possui enorme importância teológica.
Ao longo da história surgiram inúmeros erros que confundiram justificação com santificação, como se Deus aceitasse o homem com base em transformação moral progressiva, méritos pessoais, obras religiosas ou desempenho espiritual. Entretanto, a Escritura apresenta a justificação em linguagem claramente forense, judicial e legal.
O termo “justificar”, nas Escrituras, não significa “tornar moralmente justo” como primeiro sentido, mas “declarar justo” diante do tribunal divino.
Paulo estabelece isso claramente em Romanos. Deus:
- não ignora o pecado;
- não relativiza Sua justiça;
- não suspende arbitrariamente Sua santidade;
- e não absolve pecadores simplesmente por sentimentalismo religioso.
O pecado exige condenação real. Por isso a cruz foi necessária.
Como vimos anteriormente ao tratar da obra de Cristo, o problema do homem não era apenas corrupção moral interna. O homem estava juridicamente condenado diante de Deus. Cristo veio exatamente para satisfazer a justiça divina em favor de Seu povo.
Isso nos conduz diretamente à doutrina da imputação. A Escritura ensina uma dupla imputação. Primeiro: o pecado do povo de Deus é imputado a Cristo. Segundo: a justiça perfeita de Cristo é imputada ao Seu povo.
Paulo declara: “Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus.” (2 Coríntios 5.21)
Cristo não se tornou pecador moralmente. Ele permaneceu absolutamente santo. Entretanto, nossos pecados foram legalmente colocados sobre Ele. Ele suportou:
- a condenação;
- a maldição;
- a ira;
- e o juízo que pertenciam ao Seu povo.
Ao mesmo tempo, Sua perfeita obediência é creditada aos crentes.
Isso se conecta diretamente com aquilo que vimos anteriormente acerca da obediência ativa e passiva de Cristo. Na Sua obediência ativa: Cristo cumpriu perfeitamente toda a lei de Deus. Na Sua obediência passiva: Cristo suportou a penalidade do pecado na cruz.
A justificação, portanto, não consiste apenas em perdão de culpa. Se Deus apenas removesse a condenação, o homem ainda permaneceria sem justiça positiva diante do tribunal divino. Por isso o crente não apenas recebe perdão; ele recebe a própria justiça de Cristo imputada em sua conta. É exatamente isso que Paulo afirma em Filipenses: “...não tendo justiça própria, que procede de lei, senão a que é mediante a fé em Cristo...” (Filipenses 3.9). Aqui a Escritura destrói completamente toda tentativa de autojustificação humana.
É necessário apontar essa realidade, pois o homem natural constantemente procura estabelecer:
- justiça própria;
- mérito religioso;
- superioridade moral;
- obras meritórias;
- ou algum tipo de cooperação capaz de fundamentar sua aceitação diante de Deus.
Mas Paulo rejeita tudo isso. Nenhuma obra humana pode suportar o padrão da santidade divina. Isaías já havia declarado: “todas as nossas justiças são como trapo da imundícia” (Isaías 64.6).
Isso também corrige outro erro extremamente comum: imaginar que a fé, em si mesma, torna-se mérito justificante. A teologia reformada sempre insistiu cuidadosamente que:
- a fé não é a base meritória da justificação;
- a fé não substitui a justiça de Cristo;
- e a fé não funciona como obra meritória mais aceitável diante de Deus.
A fé é instrumento pelo qual o pecador recebe Cristo e Sua justiça. O fundamento da justificação não está na intensidade da fé; na qualidade emocional da experiência religiosa; nem está na sinceridade subjetiva do homem. O fundamento da justificação está exclusivamente na obra perfeita de Cristo.
Por isso a Reforma Protestante insistiu tão fortemente em: sola fide. O homem é justificado somente pela fé. Mas jamais por uma fé isolada. A fé verdadeira sempre vem acompanhada:
- de regeneração;
- arrependimento;
- união com Cristo;
- e santificação progressiva.
Isso é extremamente importante porque a doutrina bíblica da justificação corrige simultaneamente dois extremos históricos extremamente perigosos.
O primeiro extremo é o legalismo. O legalismo procura fundamentar aceitação diante de Deus em desempenho moral, observância religiosas, méritos pessoais, sacramentos entendidos mecanicamente, ou cooperação meritória do homem.
O segundo extremo é o antinomianismo. Esse erro imagina que, porque a justificação é gratuita, a santidade torna-se opcional. Mas o Cristo bíblico não tem duplicidade de ações, não anula a santificação pelo fato da justificação. Aquele que justifica também santifica Seu povo, produzindo nele a santidade “sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hebreus 12.14).
Aquele que salva também reina; é Senhor sobre todos.
E Aquele que remove a culpa também inicia a mortificação progressiva da corrupção do pecado.
Por isso Paulo combate energicamente a ideia de que a graça produziria acomodação espiritual: “Permaneceremos no pecado para que seja a graça mais abundante? De modo nenhum!” (Romanos 6.1-2)
A justificação remove:
- a culpa do pecado;
- a condenação do pecado;
- e a ira judicial de Deus contra o pecador eleito.
Mas a santificação continua tratando:
- da corrupção remanescente;
- da mortificação do pecado;
- e da conformação progressiva do crente à imagem de Cristo.
Isso também possui enorme importância pastoral.
Muitos vivem em constante desespero espiritual porque procuram paz com Deus olhando para si mesmos. Olham para o próprio desempenho pessoal, para sua intensidade devocional, para sua estabilidade emocional ou olham para o grau percebido de santidade.
Mas a segurança do crente não repousa em si mesmo. Ela repousa na justiça perfeita de Cristo imputada ao Seu povo. Por isso Paulo afirma: “Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus...” (Romanos 5.1) Observe: não apenas sensação subjetiva de paz. Mas paz objetiva com Deus.
Assim, o tribunal divino já declarou justo aquele que está unido a Cristo. E essa justificação é definitiva. Deus não justifica parcialmente. Não justifica provisoriamente. Não justifica experimentalmente. Aquele que foi justificado jamais voltará ao estado de condenação.
Isso não produz arrogância espiritual. Pelo contrário. A verdadeira justificação destrói completamente o orgulho humano. Porque toda a glória da salvação pertence exclusivamente a Deus, é monergistica.
O pecador nada apresenta além de culpa, miséria, corrupção e necessidade absoluta de graça. Toda a justiça que o salva pertence inteiramente a Cristo.
Isso também conecta a justificação diretamente à união com Cristo, tema anteriormente desenvolvido. O crente não recebe benefícios isolados separados do próprio Cristo. Ele é declarado justo porque está unido Àquele que é perfeitamente justo.
Por isso:
- Sua morte torna-se nossa morte para o domínio do pecado (Romanos 6.6);
- Sua justiça torna-se nossa justiça, sendo-nos imputada (2 Coríntios 5.21);
- Sua vida é comunicada espiritualmente ao Seu povo (João 15.5);
- Sua filiação torna-se o fundamento de nossa adoção (Gálatas 4.4-5);
- e Sua ressurreição garante nossa futura glorificação (1 Coríntios 15.20-23).
A justificação, portanto, não é detalhe secundário do evangelho. Ela está no próprio centro da mensagem apostólica.
Se o homem tenta justificar-se por obras, destrói a graça. Se transforma a justificação em mera transformação interior subjetiva, destrói o caráter forense do evangelho. Se separa justificação de santificação, destrói a união com Cristo. E se remove a imputação da justiça de Cristo, destrói o próprio fundamento da esperança cristã.
O evangelho anuncia que Deus permanece absolutamente justo e, ao mesmo tempo, justifica pecadores culpados por meio da obra perfeita do Mediador. Como Paulo declara: “para ele mesmo ser justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus.” (Romanos 3.26)
E isso nos conduz naturalmente ao próximo grande tema da redenção aplicada: a adoção - o privilégio glorioso pelo qual Deus não apenas declara o pecador justo, mas o recebe como filho em Sua própria família.
Rev. Julio Pinto
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