“Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome.” (João 1.12)
“Porque
não recebestes o espírito de escravidão, para viverdes, outra vez,
atemorizados, mas recebestes o espírito de adoção, baseados no qual clamamos:
Aba, Pai.” (Romanos 8.15)
“Vindo,
porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho... para resgatar os que
estavam sob a lei, a fim de que recebêssemos a adoção de filhos.”
(Gálatas 4.4-5)
“Vede
que grande amor nos tem concedido o Pai, a ponto de sermos chamados filhos de
Deus...” (1 João 3.1)
Após tratarmos da justificação,
surge agora uma das verdades mais consoladoras e gloriosas de toda a redenção
aplicada: Deus não apenas absolve juridicamente o pecador culpado; Ele o recebe
em Sua própria família. A salvação bíblica não termina no cancelamento da
condenação. Ela conduz o pecador reconciliado à comunhão filial com o próprio
Deus.
É exatamente aqui que entramos na
doutrina da adoção.
A justificação responde ao
problema da culpa diante do tribunal divino. A adoção responde ao problema do
afastamento relacional produzido pelo pecado. O homem não apenas tornou-se
culpado diante do Juiz santo; tornou-se também alienado, inimigo e distante de
Deus. Pela adoção, o Deus que justifica também recebe pecadores como filhos.
Isso possui enorme importância
teológica, afinal de contas, nada do que Deus faz é sem importância, muito pelo
contrário.
A Escritura não apresenta a
salvação apenas em linguagem judicial, mas também familiar. O evangelho não
anuncia somente absolvição legal; anuncia reconciliação filial. O mesmo Deus
diante de quem o homem temia condenação torna-se agora Pai daqueles que estão
unidos a Cristo. E isso ocorre
exclusivamente por meio do próprio Cristo.
Como vimos anteriormente ao
tratar da união com Cristo, toda a salvação é recebida nEle e por meio dEle. O
Filho eterno não apenas conquista perdão para Seu povo; Ele compartilha com Seu
povo os privilégios de Sua própria filiação. Por isso Paulo afirma: “...para resgatar os que estavam sob a lei, a fim de que
recebêssemos a adoção de filhos.” (Gálatas 4.5) A adoção não
é direito natural do homem caído.
Esse é um erro moderno
extremamente comum. Frequentemente se afirma que todos os homens são filhos de
Deus no mesmo sentido espiritual e redentivo. Entretanto, a Escritura distingue
claramente a criação universal de filiação redentiva.
Todos os homens são criaturas de
Deus. Mas somente os regenerados e unidos a Cristo são chamados filhos de Deus
em sentido salvífico. O próprio Cristo
declarou aos líderes incrédulos de Seu tempo: “Vós
sois do diabo, que é vosso pai...” (João 8.44) Isso demonstra que a
filiação espiritual salvadora não pertence automaticamente à humanidade caída.
A adoção é benefício da redenção aplicada aos eleitos unidos a Cristo pela fé.
Isso também se conecta
diretamente ao que vimos anteriormente acerca da regeneração. O homem natural:
·
está espiritualmente morto;
·
é inimigo de Deus;
·
encontra-se alienado da vida divina;
·
e permanece sob condenação.
Mas, pela união com Cristo, Deus
transforma:
·
inimigos em filhos;
·
escravos em herdeiros;
·
condenados em membros da família divina.
Por isso Paulo afirma: “Porque não recebestes o espírito de escravidão... mas
recebestes o espírito de adoção...” (Romanos 8.15)
A adoção altera radicalmente a
posição do crente diante de Deus. O crente já não se aproxima como condenado
diante do tribunal, nem como escravo aterrorizado, mas como filho reconciliado
diante do Pai. Isso não elimina a reverência santa devida a Deus. Mas
transforma completamente a relação. O Deus que antes aparecia como Juiz
condenador agora é contemplado como Pai reconciliado em Cristo.
Por isso Paulo afirma que o
crente clama: “Aba, Pai.” Essa expressão
possui profundidade extraordinária. Ela não aponta para uma relação
superficial, sentimentalista ou irreverente com Deus, mas para a realidade gloriosa
da adoção aplicada ao pecador unido a Cristo. Ao utilizar essa expressão, a
Escritura preserva simultaneamente intimidade, confiança, dependência e
reverência filial.
Existe verdadeira intimidade. O
Deus que antes aparecia ao pecador como Juiz santo agora recebe Seus filhos em
comunhão real. O crente não permanece distante como estrangeiro espiritual, mas
aproxima-se de Deus reconciliado em Cristo. Entretanto, essa intimidade jamais
significa banalização da majestade divina. A aproximação é filial, mas continua
santa.
Há também confiança. O filho de
Deus sabe que possui acesso verdadeiro ao Pai celestial. Ele não vive tentando
conquistar aceitação por méritos próprios, como se a relação com Deus
dependesse continuamente de desempenho humano suficiente para comprar Seu
favor. A adoção produz segurança espiritual porque repousa na obra perfeita de
Cristo, e não na instável percepção emocional do homem acerca da realidade.
Ao mesmo tempo, permanece
profunda dependência. O crente adotado não se torna espiritualmente autônomo.
Pelo contrário. Quanto mais compreende a graça, mais reconhece sua necessidade
contínua do Pai. A adoção não alimenta independência arrogante, mas confiança
humilde na provisão, direção, correção e preservação divinas.
E tudo isso permanece acompanhado
de reverência filial. O crente não teme Deus como escravo aterrorizado diante
de um senhor cruel, mas também não transforma Deus em figura sentimental
domesticada segundo preferências humanas modernas. O Pai continua sendo
absolutamente santo, soberano, glorioso e majestoso.
Ele permanece absolutamente
santo. Sua pureza não diminui porque agora recebemos acesso à Sua presença. A
adoção não elimina a distinção entre Criador e criatura, nem reduz a seriedade
do pecado diante de Sua santidade perfeita.
Ele continua soberano. O Pai
celestial não é mero espectador emocional da história humana, mas o Senhor que
governa todas as coisas segundo o conselho perfeito de Sua vontade. Seus filhos
aproximam-se dEle não apenas como Pai amoroso, mas como Rei soberano do universo.
Ele continua glorioso. Toda
verdadeira adoção conduz o crente não à exaltação de si mesmo, mas à
contemplação da glória de Deus revelada em Cristo. O centro da salvação não é a
autoestima humana, mas a manifestação da graça divina.
E Ele continua majestoso. A
familiaridade da adoção jamais anula a reverência do culto. O Deus diante de
quem os anjos cobrem o rosto continua sendo o mesmo diante de quem os filhos se
aproximam com santo temor para cultuá-lo pela mediação de Cristo.
Entretanto, exatamente porque
estão unidos a Cristo, os crentes agora possuem verdadeiro acesso filial diante
dEle. Isso destrói outro erro extremamente comum: desejar os benefícios da
salvação sem relacionamento real com Deus.
Muitos desejam perdão sem
comunhão. Querem escapar da condenação, mas não desejam viver na presença de
Deus nem andar em relacionamento verdadeiro com Ele. Desejam livramento do
inferno sem amor genuíno pelo Senhor.
Outros desejam céu sem santidade.
Falam sobre vida eterna, mas não demonstram qualquer interesse pela transformação
produzida pela graça. Contudo, o mesmo Deus que glorifica também santifica Seu
povo.
Há ainda aqueles que desejam
benefícios espirituais sem submissão ao Pai. Querem conforto, promessas e
segurança, mas rejeitam o senhorio de Cristo, a correção divina e a autoridade
da Palavra. Desejam um Salvador que não governe suas vidas.
E muitos procuram apenas conforto
religioso sem verdadeira reconciliação com Deus. Buscam alívio emocional,
estabilidade psicológica ou sensação subjetiva de paz, mas permanecem sem
arrependimento real e sem comunhão verdadeira com o Pai.
Mas a adoção bíblica conduz o
homem exatamente ao oposto de toda espiritualidade superficial, autônoma ou
individualista. O evangelho não oferece apenas benefícios religiosos isolados;
ele conduz pecadores reconciliados à própria família de Deus, onde passam a
viver em comunhão filial com o Pai, em dependência reverente e em crescente
conformação à imagem de Cristo. O mesmo Cristo que salva Seu povo também
governa Seu povo, e essa nova relação filial não conduz o crente ao isolamento
espiritual autônomo, mas o incorpora ao corpo de Cristo, a igreja visível.
A salvação bíblica jamais separa
comunhão com Deus de comunhão com o povo de Deus. O Senhor ressurreto continua
exercendo Seu governo sobre os Seus por meio dos instrumentos que Ele mesmo
estabeleceu: a Palavra pregada, os sacramentos, a oração, a comunhão da igreja
e o ministério legitimamente instituído. A regeneração não produz independência
espiritual arrogante, mas submissão crescente ao governo de Cristo exercido
através dos meios ordinários de graça. É no corpo de Cristo que os santos são
instruídos, corrigidos, alimentados, preservados e conduzidos pelo próprio
Senhor até a consumação final da redenção.
A adoção também se conecta
diretamente à perseverança dos santos. Filhos verdadeiros permanecem na casa do
Pai. Isso não significa ausência de lutas, fraquezas ou disciplina. Pelo
contrário. A própria Escritura ensina claramente que Deus corrige aqueles que
pertencem à Sua família. O autor de Hebreus declara: “porque o Senhor corrige a quem ama...” (Hebreus
12.6). A disciplina divina, portanto, não contradiz a adoção; ela a confirma. O
Pai celestial não abandona Seus filhos à dureza do pecado nem os entrega
indiferentemente à corrupção remanescente. Ele os corrige, preserva, santifica
e progressivamente os conforma à imagem de Cristo.
Como veremos mais adiante ao
tratar da santificação, Deus não remove apenas a culpa do pecado na
justificação; Ele também mortifica progressivamente a corrupção que ainda
permanece no crente. A adoção, portanto, não é mera mudança de título religioso
ou simples declaração externa de pertencimento espiritual. Ela inaugura
verdadeira relação filial com Deus. O crente agora possui acesso ao Pai,
participa da família da fé, vive em comunhão com Cristo, torna-se herdeiro das
promessas da aliança e aguarda a plena herança eterna reservada ao povo de
Deus.
Paulo declara: “Ora, se somos filhos, somos também herdeiros...”
(Romanos 8.17). Isso aponta para a consumação futura da redenção. Embora a
adoção já seja realidade presente, sua manifestação plena ainda aguarda a
glorificação final. Por isso Paulo fala também: “aguardando
a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo.” (Romanos 8.23). Observe
novamente como toda a estrutura da redenção permanece organicamente conectada:
·
criação;
·
queda;
·
encarnação;
·
obra de Cristo;
·
regeneração;
·
justificação;
·
adoção;
·
santificação;
·
e glorificação.
A salvação bíblica alcança o
homem inteiro e o conduz à plena restauração da comunhão com Deus. O evangelho
não trata apenas de alívio emocional momentâneo, nem de reorganização
psicológica superficial da existência humana. Ele trata da reconciliação real
entre o pecador e o Deus santo por meio da obra objetiva de Cristo.
Isso também corrige tendências
modernas extremamente perigosas que progressivamente rebaixam o evangelho a
algo muito menor do que a própria Escritura apresenta.
Em muitos contextos, o evangelho
é reduzido a mera experiência emocional, como se a essência da vida cristã
consistisse apenas em sentimentos intensos, excitação religiosa ou estados
subjetivos de entusiasmo espiritual. Entretanto, emoções, embora façam parte da
experiência humana legítima, jamais foram o fundamento da fé cristã. A verdade
do evangelho repousa na obra histórica e objetiva de Cristo, e não na variação
emocional do homem.
Outras vezes, o evangelho é
transformado em terapia religiosa. Nesse modelo, o pecado deixa de ser rebelião
contra Deus e passa a ser tratado apenas como desconforto emocional, trauma
psicológico ou baixa autoestima. A cruz deixa de ser apresentada como
satisfação da justiça divina para tornar-se mero instrumento de conforto existencial.
Mas a Escritura apresenta problema muito mais profundo: o homem encontra-se
culpado diante de Deus, espiritualmente morto e necessitado de reconciliação
verdadeira.
Em outros casos, o cristianismo é
reduzido a autoajuda espiritual. Deus passa a ser tratado como mecanismo para
realização pessoal, estabilidade emocional ou sucesso subjetivo. A fé é
transformada em ferramenta de fortalecimento do ego humano, e não em submissão
reverente ao Senhor soberano. Nesse modelo, o homem permanece no centro, enquanto
Deus é frequentemente utilizado apenas como meio para satisfação pessoal.
Há ainda a redução do evangelho à
mera busca de bem-estar subjetivo, como se a finalidade suprema da redenção
fosse simplesmente produzir sensação interna de paz, conforto ou equilíbrio
emocional. Entretanto, o evangelho bíblico não anuncia primariamente conforto
psicológico, mas redenção do pecado, reconciliação com Deus e conformação do
pecador à imagem de Cristo.
O evangelho apostólico anuncia
algo infinitamente maior. Ele proclama que pecadores culpados são reconciliados
com Deus, recebidos como filhos em Sua família, unidos a Cristo e
progressivamente transformados pelo Espírito Santo até a consumação final da
redenção. E tudo isso repousa não é no mérito humano; na dignidade do
pecador; ou na autonomia da vontade caída; mas exclusivamente: na graça
soberana de Deus; na união com Cristo e na obra eficaz do Espírito Santo. Por
isso João exclama com admiração: “Vede que grande
amor nos tem concedido o Pai...” (1 João 3.1)
E precisamente porque a salvação
revelada no evangelho é tão gloriosa, tão profunda e tão grandiosa, a Escritura
também levanta uma séria advertência contra toda negligência espiritual diante
dela. O autor de Hebreus pergunta: “...como
escaparemos nós, se negligenciarmos tão grande salvação?” (Hebreus
2.3). A pergunta não é meramente retórica; ela carrega o peso do juízo divino sobre
aqueles que tratam com indiferença aquilo que o próprio Deus realizou por meio
da obra perfeita de Seu Filho. Porque desprezar o evangelho não é rejeitar mera
proposta religiosa humana, mas voltar-se contra a maior manifestação da graça,
da misericórdia e da glória de Deus já revelada na história da redenção.
E isso nos leva naturalmente ao
próximo grande tema da redenção aplicada: a santificação que é a obra contínua
do Espírito Santo conformando o crente à imagem de Cristo.
Rev. Júlio Pinto
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