“Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação...” (1 Tessalonicenses 4.3)
“Segui a paz com todos e a
santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor.” (Hebreus 12.14)
“Santifica-os na verdade; a tua
palavra é a verdade.” (João 17.17)
Depois de considerarmos a união com Cristo, a justificação e
a adoção, chegamos agora a uma das consequências inevitáveis da redenção
aplicada: a santificação. Não se trata de um estágio opcional reservado a
cristãos mais dedicados, nem de um complemento secundário da vida espiritual. A
santificação pertence ao próprio coração da vida cristã, porque Deus não apenas
absolve pecadores; Ele passa a transformá-los progressivamente segundo a imagem
de Seu Filho. (Romanos 8.29)
Esse tema se conecta diretamente com tudo aquilo que já foi
desenvolvido anteriormente acerca da queda. O pecado não produziu somente
condenação jurídica diante de Deus. Ele deformou afetos, corrompeu desejos,
desordenou vontades e inclinou o homem para a rebelião contínua contra o
Criador. Por isso a obra da redenção não termina no perdão. A graça alcança
também a corrupção interior que permanece no crente enquanto ele viver neste
mundo.
Na justificação, Deus remove a culpa do pecador ao
imputar-lhe a justiça perfeita de Cristo. A partir dessa nova condição diante
de Deus, inicia-se também a santificação, pela qual o Espírito Santo trabalha
progressivamente na restauração daquilo que o pecado desfigurou. A condenação
já foi removida em Cristo, mas a corrupção remanescente continua sendo
combatida ao longo da peregrinação cristã.
É exatamente aqui que surgem algumas das maiores distorções
modernas sobre o evangelho. Em muitos contextos, criou-se a ideia de que
qualquer insistência em santidade representa ameaça à doutrina da graça, acusam
de legalismo. O resultado é uma espiritualidade acomodada, incapaz de
distinguir liberdade cristã de permissividade moral. A graça passa então a ser
utilizada como justificativa para permanência deliberada no pecado.
Entretanto, o próprio Paulo enfrenta esse problema em
Romanos 6: “Permaneceremos no pecado, para que seja
a graça mais abundante? De modo nenhum!” A pergunta do apóstolo não
é teórica, é retórica. Ela nasce da possibilidade real de alguém ouvir a
doutrina da graça soberana e concluir, erroneamente, que a obediência tornou-se
desnecessária. Paulo rejeita essa conclusão porque ela contradiz a própria
união com Cristo. Quem foi unido ao Cristo crucificado e ressurreto já não pode
olhar para o pecado da mesma maneira que antes.
Isso não significa ausência de luta interior. A regeneração
não elimina instantaneamente todos os conflitos da velha natureza. O crente
continua enfrentando desejos desordenados, inclinações pecaminosas e batalhas
constantes contra a corrupção remanescente. A diferença é que agora existe
guerra espiritual real dentro daquele que nasceu de novo. O pecado já não reina
pacificamente.
Romanos 7 descreve precisamente essa tensão. Paulo fala como
alguém que ama a lei de Deus no íntimo, mas percebe dentro de si outra força
tentando arrastá-lo para aquilo que odeia. O homem natural normalmente
racionaliza seu pecado, acomoda-se a ele ou o trata com indiferença. O
regenerado, porém, experimenta conflito verdadeiro, tristeza pelo pecado e
desejo sincero de mortificá-lo.
Por isso a Escritura fala repetidamente sobre mortificação:
“Fazei, pois, morrer a vossa
natureza terrena...” (Colossenses 3.5)
“porque, se viverdes segundo a
carne, caminhais para a morte; mas, se, pelo Espírito, mortificardes os feitos
do corpo, certamente vivereis.” (Romanos 8.13)
“E os que são de Cristo Jesus
crucificaram a carne, com as suas paixões e concupiscências.” (Gálatas
5.24)
“Amados, exorto-vos, como
peregrinos e forasteiros que sois, a vos absterdes das paixões carnais, que
fazem guerra contra a alma.” (1Pedro 2.11)
Essa linguagem é forte porque o pecado não é apresentado
como simples imperfeição psicológica ou fragilidade neutra da personalidade. O
pecado permanece sendo inimigo da comunhão com Deus. Não pode ser tratado com complacência,
negociação ou afeição secreta.
Ao mesmo tempo, a santificação não se desenvolve por mera
disciplina moral ou esforço psicológico isolado. Paulo afirma: “se, pelo Espírito, mortificardes os feitos do corpo,
certamente vivereis.” (Romanos 8.13). A transformação cristã nasce
da atuação contínua do Espírito Santo. Isso impede dois erros igualmente
perigosos.
De um lado, o legalismo, que imagina ser possível produzir
santidade por força humana, regras externas ou mérito pessoal. Nesse modelo, a vida
cristã transforma-se numa tentativa permanente de conquistar aceitação diante
de Deus.
Do outro lado, o antinomianismo, que utiliza a graça como
desculpa para negligência espiritual e tolerância contínua ao pecado. Nesse
caso, a liberdade cristã é reinterpretada como ausência de obrigação moral.
A Escritura não segue nenhum desses caminhos. O crente
obedece não para ser aceito por Deus, mas porque já foi recebido em Cristo, já
foi justificado, já teve sua culpa anulada. Mas, a santidade não compra
filiação; ela floresce a partir dela. Tiago expressa isso de forma contundente:
“a fé, se não tiver obras, por si só está morta...
Vês como a fé operava juntamente com as suas obras;
com efeito, foi pelas obras que a fé se consumou,” (Tiago 2.17; 22)
Ele não está ensinando salvação pelas obras, mas afirmando
que a fé verdadeira inevitavelmente produz frutos visíveis. Uma árvore viva
produz fruto porque está viva; não para tornar-se viva. Paulo segue no mesmo
caminho ao afirmar que a salvação é por meio da fé: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom
de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie.” (Efésios 2.8-9)
Ainda que Paulo terminasse o argumento aqui, ainda não seria motivo para
afirmar que ele contradiz Tiago. Mas ele continua afirmando: “Pois somos feitura
dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão
preparou para que andássemos nelas.” (Efésios 2.10). A afirmação de
Paulo mostra de forma clara que a salvação não é pelas obras, é por meio da fé.
Contudo ele ainda afirma qual o lugar das obras na vida do converso, são os frutos
visíveis decorrentes da salvação.
Essa compreensão também ajuda a distinguir dois aspectos
importantes da santificação.
A Escritura chama os crentes de “santos”
(Efésios 1.1) não porque já tenham alcançado perfeição absoluta, mas porque
pertencem agora a Deus e foram alcançados pela obra santificadora do Espírito.
São homens e mulheres separados para Deus, arrancados do domínio do pecado e
inseridos num processo contínuo de transformação à imagem de Cristo. Paulo
descreve isso como transformação: “transformados, de
glória em glória...” (2 Coríntios 3.18)
Essa transformação, contudo, não alcançará perfeição
completa antes da glorificação final. Algumas correntes cristãs sustentaram, ao
longo da história, a possibilidade de erradicação total do pecado nesta vida.
Entretanto, a própria experiência apostólica contradiz essa ideia. Paulo é
exemplar: “não que eu o tenha já recebido ou tenha
já obtido a perfeição...” (Filipenses 3.12); E João escreve: “Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos
enganamos...” (1 João 1.8). A vida cristã, portanto, não é marcada
por impecabilidade presente, mas por guerra contínua contra o pecado
acompanhada de crescimento real em santidade.
Outro ponto fundamental precisa ser preservado aqui. A
santificação alcança o homem inteiro. O evangelho não produz espiritualidade
desencarnada nem desprezo pela vida concreta. Como já vimos ao tratar da
encarnação, o Filho eterno assumiu verdadeira natureza humana. Cristo:
·
viveu corporalmente;
·
obedeceu corporalmente;
·
sofreu corporalmente;
·
e ressuscitou corporalmente.
Por isso a vida cristã envolve consagração integral:
·
mente;
·
palavras;
·
desejos;
·
corpo;
·
hábitos;
·
relacionamentos;
·
e ações.
Paulo chama isso de: “culto racional” (Romanos 12.1). Trata-se de um
modo de viver coerente com a verdade do evangelho recebida, crida e declarada
por aqueles que se denominam cristãos. E isso envolve todas as facetas da
vivência humana.
Essa perspectiva confronta diretamente tendências modernas
influenciadas por formas práticas de gnosticismo, nas quais a espiritualidade é
reduzida a experiência interior subjetiva enquanto a vida concreta permanece praticamente
intocada. A fé bíblica não conduz o homem para fuga da realidade criada, mas
para submissão de toda a existência ao senhorio de Cristo.
E é precisamente nesse ponto que a santificação se conecta
aos meios ordinários da graça. Cristo não aperfeiçoa Seu povo por experiências
místicas desordenadas nem por espiritualidade individualista desvinculada da
igreja. O Senhor continua nutrindo e amadurecendo Seu povo:
·
pela Palavra;
·
pela oração;
·
pelos sacramentos;
·
pela comunhão dos santos;
·
e pelo ministério legitimamente instituído.
Quando Cristo ora: “Santifica-os
na verdade; a tua palavra é a verdade” (João 17.17), Ele estabelece
a relação inseparável entre santificação e a verdade revelada – a Palavra de
Deus – a Bíblia. Uma espiritualidade que despreza doutrina, culto público e
vida da igreja inevitavelmente produzirá deformação espiritual.
Isso também ajuda a compreender por que a Escritura trata a
santificação com tanta seriedade. Hebreus afirma: “Segui...
a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor.” (Hebreus 12.14).
O autor não está ensinando que a santidade humana compra entrada no céu. A
salvação repousa inteiramente sobre a obra perfeita de Cristo. Entretanto, a
ausência completa de transformação (frutos visíveis) evidencia ausência de
união verdadeira com Ele. Como vimos anteriormente, aquele que é unido a Cristo
é também declarado justo diante de Deus e recebido como herdeiro da vida
eterna. Por isso a santificação não aparece como acréscimo opcional da vida
cristã, mas como fruto inevitável da graça salvadora já operante no crente.
Afinal, Cristo não veio apenas livrar Seu povo da condenação
futura. Ele veio formar um povo zeloso de boas obras, progressivamente
conformado à Sua imagem.
Por isso o evangelho não pode ser reduzido a conforto
religioso, experiência emocional ou promessa de bem-estar subjetivo. A graça de
Deus introduz o pecador numa nova vida, numa nova direção e numa nova relação
com o pecado (de tolerância ou fomento para rejeição, mortificação), com a
verdade e com o próprio Deus.
Essa obra permanece imperfeita neste lado da eternidade, mas
jamais será abandonada pelo Senhor. O Deus que regenera também preserva. O
Espírito que inicia a transformação continua operando até o fim.
E é exatamente isso que prepara o caminho para o próximo
grande tema da redenção aplicada: a perseverança dos santos e a glorificação final
do povo de Deus.
Rev. Julio Pinto
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