Há verdades que não nos ferem por serem falsas, mas por
serem verdadeiras. A doutrina da depravação total pertence a essa categoria.
Ela não nasce do pessimismo psicológico, nem do gosto por sistemas severos, mas
da leitura honesta das Escrituras à luz da realidade humana tal como ela se
apresenta diante de Deus.
A resistência a essa doutrina raramente é exegética em sua
raiz mais profunda. Ela é, antes, moral e existencial. O homem moderno (e não
apenas o moderno) tolera ser fraco, mas não tolera ser incapaz; aceita ser
doente, mas não aceita estar morto. A Escritura, contudo, insiste em nos
descrever não como pacientes que aguardam ajuda, mas como cadáveres que
precisam ser ressuscitados.
Quando Paulo escreve aos efésios que estávamos “mortos em nossos delitos e pecados” Efésios 2:1,
ele não está usando uma metáfora poética vazia. No contexto imediato, a morte é
explicada como escravidão: “nos quais andastes
outrora, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade do ar”
Efésios 2:2, vivendo “segundo as inclinações
da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos” Efésios
2:3. No contexto do livro, essa morte é contrastada com a ação soberana de
Deus que vivifica: “mas Deus, sendo rico em
misericórdia… estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida
juntamente com Cristo” Efésios 2:4–5. E no contexto de toda a
Escritura, a morte espiritual apontada em Gênesis 2–3, onde a ruptura
com Deus precede toda degeneração moral visível: “no
dia em que dela comeres, certamente morrerás” Gênesis 2:17,
seguida da alienação, culpa e fuga da presença divina Gênesis 3:7–10.
Aqui surge a primeira objeção: “morto não significa incapaz;
significa apenas separado”. O problema é que essa distinção não nasce do texto,
mas de uma necessidade teológica externa a ele. Na Escritura, separação de Deus
nunca é neutra; ela é sempre corrupção, cegueira e escravidão, como se vê em Isaías
59:2 “as vossas iniquidades fazem separação
entre vós e o vosso Deus” e em Romanos 1:21–24, onde a
separação resulta em obscurecimento do entendimento e entrega às próprias
paixões. O homem separado não flutua em autonomia moral, ele cai.
O testemunho da consciência bíblica
O Salmo 51 não é uma reflexão abstrata sobre a
natureza humana, mas uma confissão nascida do colapso moral de Davi. Quando ele
reconhece: “Eu nasci na iniquidade, e em pecado me
concebeu minha mãe” Salmo 51:5, não está transferindo culpa
para sua origem biológica, mas confessando que o seu adultério e homicídio (2
Samuel 11) não foram acidentes isolados. Eles brotaram de uma fonte mais
profunda, anterior às escolhas pontuais, algo que o próprio Jeremias expressa
ao dizer: “Enganoso é o coração, mais do que todas
as coisas, e desesperadamente corrupto” Jeremias 17:9.
O Salmo 14, citado por Paulo em Romanos 3, não
descreve ateus militantes, mas homens religiosos, sociais, politicamente
organizados. Ainda assim, o diagnóstico é abrangente: “Não há quem faça o bem, não há nem um sequer” Salmo
14:3. Paulo, no contexto de Romanos, não está construindo um exagero
retórico, mas fechando todas as saídas possíveis - judeus e gentios, religiosos
e irreligiosos - ao afirmar: “Não há justo, nem um
sequer; não há quem entenda, não há quem busque a Deus” Romanos
3:10–11, concluindo que “todos se extraviaram”
Romanos 3:12, para que “toda boca se cale, e
todo o mundo seja culpável diante de Deus” Romanos 3:19.
A objeção comum aqui é: “Isso descreve atos, não natureza”.
Mas Paulo faz exatamente o oposto: ele parte dos atos para provar a condição. A
árvore é conhecida pelo fruto, como ensinou o próprio Cristo Mateus 12:33–35.
Se nenhum homem busca a Deus, não é porque lhe faltam informações, mas porque
lhe falta disposição interior, conforme Paulo já havia declarado: “o pendor da carne é inimizade contra Deus” Romanos
8:7.
Jesus e a falência da vontade humana
Poucos textos são tão decisivos quanto as palavras de Cristo
em João 6: “Ninguém pode vir a mim, se o Pai, que me
enviou, não o trouxer” João 6:44. O verbo não indica
permissão externa, mas capacidade interna. No contexto imediato, Jesus está
explicando a incredulidade de pessoas que viram milagres João 6:2, 14,
ouviram sua pregação João 6:26–40 e ainda assim o rejeitaram João 6:60–66.
No contexto do Evangelho, João já havia afirmado que “a luz veio ao mundo, mas os homens amaram mais as trevas do
que a luz” João 3:19. E no contexto bíblico global, amar as
trevas não é ignorância, é inclinação moral, como também afirma Romanos 1:32.
A resposta habitual é dizer que Deus “atrai” a todos
igualmente, e que alguns simplesmente resistem, apelando frequentemente a
textos como João 12:32 “atrairei todos a mim”.
A pergunta pertinente é esse “todos” se
refere a quem? E é o próprio Cristo distingue claramente entre os que são dados
ao Filho e os que permanecem incrédulos: “Todo
aquele que o Pai me dá, esse virá a mim” João 6:37 e “há alguns de vós que não creem… porque não sois dos que me
foram dados” João 6:64–65. O texto não apresenta duas vontades
igualmente capazes reagindo de modos diferentes, mas uma vontade humana incapaz
sendo eficazmente trazida pelo Pai.
O diálogo honesto com Arminius
É precisamente aqui que muitos se surpreendem: Jacob
Arminius jamais afirmou que o homem, em seu estado natural, possui capacidade
moral de crer sem a graça. Pelo contrário, Arminius escreveu explicitamente
que, sem a graça preveniente dada, o homem não pode pensar, querer ou fazer o
bem espiritual, reverberando textos como João 15:5 “sem mim nada podeis fazer” e 1 Coríntios 2:14 “o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus”.
Para ele, a queda afetou profundamente o entendimento, os afetos e a vontade,
em consonância com Efésios 4:17–18. E quando feito participante dessa
regeneração, ele ainda não pode pensar, querer ou fazer o bem sem o auxílio
contínuo da graça divina.
Tal menção de Arminius pode ser vista em The Works of
James Arminius, Vol. 1 (tradução de James Nichols e W.R. Bagnall), e pode
ser encontrada em https://www.andrews.edu/~toews/classes/sources/modern/Arminius%20I.htm?utm
Nessa obra,
no capítulo sobre O Livre-Arbítrio do Homem (The Free–Will of Man),
Arminius escreve claramente: “But in his lapsed and sinful state, man is not
capable, of and by himself, either to think, to will, or to do that which is
really good; but it is necessary for him to be regenerated and renewed … by God
in Christ through the Holy Spirit …”
Esta passagem é considerada a declaração mais explícita de
Arminius sobre a incapacidade humana sem a graça, e é usada até hoje por
teólogos para mostrar que o arminianismo clássico afirma uma incapacidade
radical do homem pecador para o bem espiritual sem intervenção divina; ainda
que Arminius veja essa graça como preveniente e resistível, em contraste com o
entendimento reformado de graça eficazmente irresistível.
Onde Arminius diverge não é no diagnóstico da doença, mas no
modo como o remédio é aplicado. Ele sustenta que a graça é oferecida a todos de
forma restauradora da capacidade, podendo ser resistida, apelando a textos como
Atos 7:51 “sempre resistis ao Espírito Santo”
e Mateus 23:37. A tradição reformada responde que, se todos recebem igualmente
essa restauração, a diferença final repousa novamente no homem. Tal pensamento
é algo que a Escritura se recusa a permitir, pois afirma com respeito a aplicação
da graça que “não depende de quem quer ou de quem
corre, mas de usar Deus a sua misericórdia” Romanos 9:16.
Ainda assim, é importante reconhecer: o arminianismo clássico não é um retorno
ao otimismo pelagiano, mas uma tentativa sincera de preservar responsabilidade
humana sem negar a gravidade da queda.
Essa honestidade histórica é essencial, porque mostra que a
depravação total não é uma caricatura calvinista, mas um reconhecimento
compartilhado, ainda que desenvolvido de formas distintas.
Uma visão mais acurada em Mateus e em Atos - A
resistência que revela a doença, não a cura frustrada
Há uma diferença decisiva entre resistir a um chamado e
frustrar uma ressurreição. Confundir essas duas realidades é um erro antigo,
recorrente e profundamente humano. Ele nasce do desejo de preservar algum
espaço de autonomia moral no homem caído, ainda que as Escrituras insistam em
nos descrever como mais doentes do que gostaríamos de admitir.
A doutrina da depravação total não afirma que o homem sempre
resiste da mesma forma, nem que toda resistência tenha o mesmo objeto. Ela
afirma algo mais básico e mais incômodo: que o coração humano, separado de
Deus, é estruturalmente inclinado à rejeição da verdade quando esta o
confronta. Essa rejeição se manifesta historicamente na recusa da Palavra, na
perseguição dos profetas, no desprezo pela revelação. Mas ela não é apresentada
na Escritura como a frustração de uma graça regeneradora em ação; é, antes, a
evidência de que tal graça ainda não foi concedida.
É exatamente aqui que se encontra o erro comum na leitura de
textos como Atos 7:51 e Mateus 23:37. Ambos falam de resistência.
Nenhum deles fala de regeneração frustrada. Vamos trabalhar essa questão em
quatro movimentos.
1.
Identificando corretamente o objeto da
resistência
Quando Estêvão acusa seus ouvintes de resistirem ao Espírito
Santo, ele não está descrevendo uma operação interna da graça sendo impedida no
último instante. O próprio discurso define o que significa essa resistência: a
rejeição contínua dos mensageiros de Deus ao longo da história de Israel.
O Espírito, nas Escrituras, não fala de modo abstrato. Ele
fala por meio de homens enviados, por meio de palavras inspiradas, por meio de
advertências concretas. Resistir ao Espírito, nesse contexto, é resistir à
Palavra que Ele coloca na boca dos profetas. É isso que Neemias reconhece ao
afirmar que Deus advertiu Israel “pelo seu Espírito,
por intermédio dos profetas” Neemias 9.30. É isso que
Zacarias denuncia quando diz que o povo endureceu o coração para não ouvir as
palavras enviadas “pelo Espírito, mediante os
profetas” Zacarias 7.12.
Estêvão não altera esse padrão. Ele o confirma.
“Homens
de dura cerviz e incircuncisos de coração e de ouvidos, vós sempre resistis ao
Espírito Santo; assim como fizeram vossos pais, também vós o fazeis. Qual dos
profetas vossos pais não perseguiram? Eles mataram os que anteriormente
anunciavam a vinda do Justo, do qual vós agora vos tornastes traidores e
assassinos, vós que recebestes a lei por ministério de anjos e não a
guardastes.” Atos 7:51-53
A resistência não é mística; é histórica. Não é invisível; é
pública. Não acontece no interior secreto da alma; acontece na praça, no
templo, no apedrejamento dos enviados de Deus.
Esse dado é crucial: o texto fala de rejeição da
revelação, não de frustração da regeneração.
2.
Respeitando o contexto histórico-pactual dos
textos
Atos 7 não é um tratado sobre conversão individual. É uma
acusação profética contra a história de infidelidade de um povo que recebeu
privilégios espirituais singulares e respondeu com rebelião reiterada. O fio
condutor do discurso não é a mecânica da graça, mas a constância da rejeição.
O mesmo ocorre em Mateus 23. Jesus não está descrevendo o
momento interno em que uma alma quase regenerada resiste à graça preveniente.
Ele está pronunciando juízo contra uma liderança que sistematicamente fechou o
Reino diante dos homens. O lamento sobre Jerusalém nasce da rejeição histórica
dos profetas, da violência contra os enviados, da recusa coletiva ao chamado ao
arrependimento.
Quando Cristo diz “quantas vezes
quis eu ajuntar”, Ele está falando como o Deus da aliança que, ao
longo dos séculos, convocou, advertiu, chamou e exortou. Ajuntar, aqui, não é
sinônimo de regenerar; não chega nem perto. É chamar o povo de volta aos termos
da aliança. A resistência, portanto, não é à aplicação eficaz da graça, mas ao
chamado externo e histórico de Deus.
Ignorar esse pano de fundo é deslocar o texto de seu terreno
próprio e forçá-lo a responder perguntas que ele não pretende responder.
3.
Distinguindo revelação resistível de graça
eficaz
A Escritura é absolutamente clara em afirmar que a Palavra
pregada e ensinada pode ser resistida. Profetas podem ser perseguidos.
Advertências podem ser desprezadas. Convites podem ser rejeitados. Essa
resistência, porém, nunca é apresentada como prova de que a graça que vivifica
mortos falhou em seu propósito.
Aqui está o ponto onde a doutrina da depravação total se
mostra decisiva. Se o homem estivesse apenas debilitado, seria plausível
imaginar uma graça que restaura capacidades e aguarda a cooperação final da
vontade humana. Mas se o homem está morto em seus
delitos e pecados, então o problema não é de resposta atrasada, mas
de vida ausente.
A Escritura não descreve a regeneração como uma tentativa
divina sujeita à aprovação humana. Ela a descreve como um ato criador, comparável
ao surgimento da luz nas trevas. Quando Deus decide conceder um coração novo,
Ele não pede permissão à resistência do antigo coração; Ele o remove. “Dar-lhes-ei um só coração, espírito novo porei dentro deles;
tirarei da sua carne o coração de pedra e lhes darei coração de carne”
Ezequiel 11:19
Portanto, textos que falam de resistência à Palavra não
enfraquecem a doutrina da depravação total. Eles a confirmam. Eles mostram como
o homem age quando deixado à sua própria condição: ele resiste, rejeita,
endurece-se.
4.
Aplicando a mesma chave hermenêutica de forma
consistente
O erro de Arminius nesses textos não está na seriedade com
que ele trata a graça, mas na inconsistência com que distingue seus modos de
operação. Ele lê Atos 7 e Mateus 23 como se toda obra do Espírito
fosse necessariamente regeneradora, quando a própria Escritura distingue entre
revelação externa e renovação interna.
A Escritura, lida com atenção ao seu próprio vocabulário e
aos seus contextos históricos e literários, não autoriza a identificação
automática entre toda ação do Espírito Santo e a regeneração do pecador. Pelo
contrário, ela apresenta de modo consistente o Espírito atuando real e
objetivamente sobre homens não regenerados. Podemos exemplificar tais obras do
Espírito como que: falando por meio de profetas ímpios como Balaão, capacitando
reis rejeitados como Saul, concedendo dons, convencendo do pecado, advertindo
pela Palavra e chamando externamente à obediência; tudo isso sem que essas
operações impliquem mudança interior da natureza caída. Essa distinção não
enfraquece a doutrina da depravação total; antes, a sustenta. Se o homem, mesmo
exposto à verdade inspirada, convencido do pecado e beneficiado por operações
externas do Espírito, permanece resistente, endurecido e espiritualmente morto,
então o problema não está na falta de estímulos divinos, mas na corrupção
radical do coração humano. Assim, a Bíblia preserva simultaneamente a realidade
da ação do Espírito e a incapacidade moral do homem caído, deixando claro que
somente a obra soberana e eficaz da regeneração que é distinta do chamado
externo, da convicção e da capacitação, pode vencer a escravidão do pecado. É
justamente essa distinção que protege a doutrina da depravação total de
reduções simplistas e impede que a resistência humana a operações externas do
Espírito seja confundida com uma suposta frustração da graça salvadora.
Quando essa distinção é perdida, a resistência histórica
passa a ser interpretada como fracasso soteriológico; o que torna a divindade
do Espírito duvidosa por ser Ele interpretado de forma divergente do Pai e do
Filho – Todo Poderoso – Gênesis 17.1, Apocalipse 1.8. O chamado
rejeitado torna-se graça frustrada. A culpa humana desloca-se sutilmente para
uma insuficiência divina.
Embora a Escritura não formule o atributo da onipotência do
Espírito Santo em linguagem abstrata ou confessional, ela o afirma de modo
concreto ao atribuir-lhe obras que, no próprio testemunho bíblico, pertencem
exclusivamente ao poder ilimitado de Deus. Desde o princípio, o Espírito é
apresentado como agente criador e vivificador: “o
Espírito de Deus pairava sobre as águas” Gênesis 1.2 e “o Espírito de Deus me fez” Jó 33:4,
linguagem que o insere diretamente no exercício do poder criador que traz o ser
à existência. Essa mesma potência divina é vista não apenas no ato inicial da
criação, mas na sua preservação contínua, pois “envias
o teu Espírito, eles são criados, e assim renovas a face da terra” Salmos
104:30, atribuindo-lhe a sustentação constante da vida, algo que exige
poder infinito. De modo ainda mais explícito, a Escritura relaciona o Espírito
à ressurreição dos mortos (a mais elevada manifestação da onipotência divina)
ao afirmar que “o Espírito daquele que ressuscitou
Jesus dentre os mortos… vivificará também os vossos corpos mortais” Romanos
8:11, trazendo à tona a promessa veterotestamentária: “porei em vós o meu Espírito, e vivereis” Ezequiel
37:14. Finalmente, ao tratar da regeneração como novo nascimento soberano o
“nascer do Espírito”, em João 3:5–8,
a Bíblia descreve o Espírito realizando uma obra criadora no interior do homem
espiritualmente morto, paralela ao ato criador original. Assim, sem recorrer a
definições filosóficas, a Escritura afirma a onipotência do Espírito ao
atribuir-lhe a criação, a preservação, a vivificação e a regeneração, obras que
ela mesma reconhece como próprias e exclusivas do Deus todo-poderoso.
A leitura reformada, ao contrário, mantém intactas as
categorias bíblicas. Ela afirma que Deus fala de muitos modos, chama por meio
de muitos meios, e que o homem, em sua depravação, resiste a todos eles. Mas
afirma também que, quando Deus decide salvar, Ele não apenas chama; Ele cria.
Ele não apenas convida; Ele ressuscita.
A resistência como evidência, não como exceção
Atos 7 e Mateus 23 não são textos problemáticos para a
doutrina da depravação total. Eles são ilustrações vívidas dela. Eles mostram o
que o homem faz diante da luz quando permanece entregue a si mesmo. Eles
revelam um padrão contínuo, não uma exceção lamentável.
A resistência ali descrita não aponta para uma graça quase
bem-sucedida, mas para um coração plenamente coerente com sua condição caída. E
é justamente por isso que a esperança do evangelho não repousa na diminuição
dessa resistência, mas na intervenção soberana de Deus que, quando quer,
transforma inimigos em filhos, rebeldes em adoradores, mortos em vivos.
Negar isso pode tornar o discurso mais palatável. Mas
aceitar isso torna a graça verdadeiramente graciosa.
Pelágio e o espelho da controvérsia
Pelágio, por sua vez, representa o ponto de ruptura. Para
ele, o homem nasce moralmente neutro; o pecado é imitação, não corrupção; a
graça é auxílio externo, não necessidade interna. O problema dessa visão não é
apenas bíblico, mas existencial. Ela não explica por que o mal é universal,
persistente e resistente mesmo diante da revelação divina, algo que Paulo
atribui diretamente a Adão: “por um só homem entrou
o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte” Romanos 5:12, e
que ele reafirma ao dizer que “pela desobediência de
um só homem, muitos foram feitos pecadores” Romanos 5:19.
Agostinho venceu o debate não por retórica, mas porque leu
as Escrituras com realismo pastoral. Ele sabia, por experiência e por exegese,
que o homem não peca apenas porque aprende a pecar, mas porque ama pecar,
conforme Jesus afirmou: “Todo aquele que comete
pecado é escravo do pecado” João 8:34. E amar algo é mais
profundo do que escolher ocasionalmente; é ser governado por uma inclinação,
como Tiago descreve ao dizer que cada um é tentado “pela
sua própria cobiça” Tiago 1:14.
O coração do problema - e da esperança
A depravação total não afirma que o homem é tão mau quanto
poderia ser, mas que nenhuma dimensão do seu ser permanece intocada pela queda,
que todas as suas faculdades foram corrompidas pelo pecado. A razão pensa, mas
pensa enviesada (Romanos 1:21); a vontade escolhe, mas escolhe cativa (Romanos
6:17); os afetos desejam, mas desejam desordenadamente (Gálatas 5:17).
O homem continua humano, racional e responsável; e é justamente por isso que é
culpável perante Deus, como afirma Romanos 1:20.
Paradoxalmente, essa doutrina não diminui a graça; ela a
engrandece. Se o homem estivesse apenas doente, Cristo seria um médico Marcos
2:17. Mas estando morto, Cristo é ressurreição: “Eu sou a ressurreição e a vida” João 11:25. O evangelho
não é uma proposta de melhora, mas um ato criador, conforme Paulo declara: “Se alguém está em Cristo, é nova criação” 2
Coríntios 5:17. A fé não é o último passo de um homem saudável, mas o
primeiro sinal de vida de alguém que foi vivificado: “pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós,
é dom de Deus” Efésios 2:8–9.
Negar isso pode soar mais gentil, mais palatável, mais
aceitável aos “dias delicados”. Mas a Escritura não nos foi dada para preservar
nossa autoestima, e sim para nos conduzir à verdade; ainda que ela nos humilhe
antes de nos curar João 8:32 “...e
conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.”
E somente quem reconhece a profundidade da queda é capaz de
se maravilhar, sem reservas, com a grandeza da graça: “onde abundou o pecado, superabundou a graça” Romanos
5:20.
Um diálogo com a ciência moderna.
A Escritura revela a condição do homem com clareza que
nenhuma ciência humana consegue igualar. O coração humano, segundo a Palavra,
não é apenas falível ou confuso; é radicalmente corrupto, escravizado ao
pecado, e incapaz de buscar a Deus por si mesmo (Rm 3:10-12; 3:23). Psicologia
e psicanálise, embora úteis para compreender comportamentos e traços da
personalidade, frequentemente se desviam desse diagnóstico absoluto. Ao
interpretar o pecado como traumas reprimidos, conflitos inconscientes ou
mecanismos de defesa emocional - como propõe Sigmund Freud em A Interpretação
dos Sonhos (1900) e sua teoria do id, ego e superego - estas distinções humanas
reduzem a gravidade da corrupção humana a sintomas, negligenciando a dimensão
ontológica e moral do pecado. Carl Jung, ao analisar o inconsciente coletivo e
arquétipos, busca revelar padrões de comportamento e forças simbólicas
internas, mas ainda trata o homem em termos de processos psíquicos estruturais,
e não como um ser moral e espiritualmente depravado diante de Deus. Adler, com
sua psicologia individual, enfatiza a compensação e a busca de superioridade,
mas novamente confina o problema à esfera emocional e social, desviando-se do
diagnóstico bíblico: o homem é totalmente depravado em seu interior, incapaz de
pensar, querer ou fazer o bem que seja aceitável a Deus sem intervenção divina
Romanos 8:7; Salmo 51:5.
Imagine um jovem angustiado, que busca conforto em sessões
intermináveis de análise de sonhos e comportamentos passados, convencido de
que, se compreender suas emoções e traumas, encontrará paz. Ele organiza
padrões, escreve reflexões e descobre tendências ocultas, mas, à medida que o
analista aponta mecanismos de defesa, permanece incapaz de amar a Deus, de se
arrepender verdadeiramente ou de obedecer à Sua lei. Esta cena ilustra
precisamente a limitação do enfoque psicológico: útil para organizar
pensamentos, mas incapaz de tocar o coração morto.
Quando psicólogos ou psicanalistas interpretam a resistência
humana à verdade como simples “negação do inconsciente” ou “mecanismo de defesa
emocional”, correm o risco de reduzir a depravação a um problema psicológico
contingente, negando sua dimensão ontológica, moral e espiritual. A Escritura,
ao contrário, não descreve o pecado como um sintoma a ser tratado, mas como uma
doença universal e letal: “não há justo, nem um sequer” Romanos 3:10.
Toda obra de conversão - toda regeneração - surge da soberania divina do
Espírito, que age independentemente das capacidades humanas naturais (João
3:5–8; Tito 3:5; Ezequiel 36:26).
A análise psicológica também falha quando tenta traduzir a
linguagem bíblica de “coração duro”, “mente rebelde” ou “espírito
inclinado ao mal” em metáforas terapêuticas, como se bastasse uma
consciência esclarecida ou um autoconhecimento profundo para modificar a
natureza caída. Essa hermenêutica secular, expressa em correntes de
psicoterapia cognitivo-comportamental moderna - que enfatizam reestruturação de
crenças e mudança de padrões de pensamento - corre o risco de transformar a
verdade absoluta da Escritura em conselhos adaptativos ou técnicas
comportamentais, tirando-a de seu contexto literário, histórico e teológico.
Textos como Atos 7:51, em que o povo resiste ao Espírito Santo, ou Romanos
1:18–32, em que a ira de Deus se manifesta sobre a impiedade humana, não
falam de traumas reprimidos ou de bloqueios psíquicos, mas de um coração morto,
rebelde e incapaz de se submeter à lei de Deus.
Considere uma mulher que frequenta grupos de aconselhamento
secular, onde aprende a valorizar sua autoestima, a identificar padrões
limitantes de pensamento e a desenvolver assertividade. Ela experimenta
progresso emocional, organização de sentimentos e até maior confiança social.
No entanto, ao retornar à sua vida interior, permanece incapaz de amar a Deus
com todo o coração, de confiar plenamente no Salvador ou de subjugar a própria
natureza pecaminosa. Esta experiência demonstra, de forma viva, a limitação do
“autoajuda espiritual” e da psicologia aplicada isoladamente: a cura definitiva
da alma não depende da percepção de padrões emocionais, mas da regeneração
espiritual concedida pelo Espírito Santo.
Mesmo o conceito moderno de “autoestima” ou “valorização
pessoal”, tão exaltado em correntes de psicologia humanista, como as propostas
por Carl Rogers com sua ênfase na autoatualização e no crescimento do self, não
confronta a raiz da depravação. Ele pode até amenizar sintomas, oferecer
conforto ou organizar emoções, mas não cria vida espiritual nem produz
arrependimento verdadeiro, pois a Escritura deixa claro que a transformação do
homem só ocorre quando o Espírito Santo atua soberanamente, dando novo coração
e espírito novo (Ezequiel 36:26; 2Coríntios 5:17).
Portanto, o aconselhamento bíblico, confessional, reafirma
que a Palavra é suficiente para o cuidado da alma, que o Espírito Santo é o
único capaz de transformar corações mortos e que todo recurso humano,
psicológico ou psicanalítico, embora útil para compreender sintomas, é incapaz
de produzir salvação ou cura verdadeira. A depravação total não é mera questão
de interpretação ou perspectiva emocional: é uma realidade absoluta, universal
e radical, da qual somente Cristo, pela obra do Espírito, pode libertar.
Em suma, a Escritura não precisa ser ajustada às
interpretações humanas; ao contrário, ela corrige, delimita e reorienta todas
as tentativas humanas de compreender o homem. Quando Freud fala de repressões,
Jung de arquétipos ou Rogers de autorrealização, eles podem descrever facetas
da experiência humana, mas não diagnosticam a raiz da condição caída nem
oferecem remédio capaz de regenerar. A linguagem secular, por mais elaborada,
permanece relativa e limitada. A Bíblia, porém, revela o homem em sua totalidade
moral e espiritual, e o Espírito Santo, com poder criador e vivificante, é o
único capaz de transformar corações que, de outra forma, permaneceriam mortos,
rebeldes e incapazes de responder a Deus.
Nem Arminius, nem Pelágio, nem Floyd nem Jung ou Rogers,
nenhum outro, mas apenas o Espírito Santo falando na Escritura.
Em face de toda essa reflexão, permanece claro que a
depravação total do homem não é uma abstração teológica nem um julgamento
exagerado, mas uma realidade bíblica, universal e inescapável. O coração
humano, por mais instruído, emocionalmente equilibrado ou socialmente adaptado
que pareça, permanece corrompido, rebelde e incapaz de buscar a Deus por si
mesmo (Romanos 3:10-12; 3:23). Os textos que narram a resistência a
profetas ou à Palavra inspirada, como Atos 7:51 e Romanos 1:18–32,
demonstram que a rebeldia humana não se reduz a conflitos psicológicos ou a
bloqueios emocionais; trata-se de uma morte espiritual profunda, frente à qual
toda tentativa humana de correção, seja filosófica, psicológica ou moral,
permanece insuficiente.
A ação do Espírito Santo, evidenciada nas Escrituras,
confirma e ilumina esse diagnóstico: Ele fala, convence, capacita, inspira, mas
não há indício de que o homem caído, sem regeneração, possa obrigatoriamente
corresponder à Sua obra. As resistências registradas na Bíblia não são falhas
de uma graça preveniente limitada, como sustenta Arminius, mas manifestações da
depravação radical do coração. Mesmo quando o Espírito atua externamente (sobre
Balaão, Saul ou sobre Israel) não se observa regeneração, apenas a confirmação
da incapacidade do homem de se submeter a Deus por si mesmo. Somente a
intervenção soberana e eficaz do Espírito pode produzir o novo nascimento,
capaz de transformar o morto em vivo, o rebelde em adorador, e o rebelde
endurecido em instrumento de glória (João 3:5–8; Ezequiel 36:26; 2Coríntios
5:17).
O confronto com a ciência moderna reforça ainda mais a
suficiência da Escritura. Freud, Jung, Adler e correntes contemporâneas de
psicologia e psicanálise podem nomear padrões, explicar sintomas, organizar
experiências e propor conselhos práticos, mas não possuem autoridade nem poder
para restaurar o coração humano, nem para gerar arrependimento ou fé salvadora.
Quando a linguagem secular tenta reinterpretar “coração
duro”, “espírito rebelde” ou “resistência à Palavra” como problemas psicológicos
ou emocionais, ela deturpa a verdade absoluta da Escritura, oferecendo soluções
incompletas, que aliviam sintomas, mas não salvam a alma.
Portanto, a Escritura permanece soberana, suficiente e
autoritativa. Todo diagnóstico humano, por mais elaborado que seja, só encontra
seu remédio verdadeiro no Evangelho. Como observou A. W. Pink, negar a
gravidade da doença impede que se valorize o remédio; assim também, reduzir a
depravação do homem a questões psicológicas ou emocionais obscurece a necessidade
da graça soberana de Deus. A depravação total não é teoria; é realidade vivida,
experimentada e confirmada em cada coração humano. Somente Cristo, pela obra do
Espírito Santo, pode transformar essa condição, tornando o impossível do homem
possível, e fazendo com que corações endurecidos se voltem para a glória de
Deus.