terça-feira, 6 de janeiro de 2026

A verdade incômoda sobre nós mesmos


Há verdades que não nos ferem por serem falsas, mas por serem verdadeiras. A doutrina da depravação total pertence a essa categoria. Ela não nasce do pessimismo psicológico, nem do gosto por sistemas severos, mas da leitura honesta das Escrituras à luz da realidade humana tal como ela se apresenta diante de Deus.

A resistência a essa doutrina raramente é exegética em sua raiz mais profunda. Ela é, antes, moral e existencial. O homem moderno (e não apenas o moderno) tolera ser fraco, mas não tolera ser incapaz; aceita ser doente, mas não aceita estar morto. A Escritura, contudo, insiste em nos descrever não como pacientes que aguardam ajuda, mas como cadáveres que precisam ser ressuscitados.

Quando Paulo escreve aos efésios que estávamos “mortos em nossos delitos e pecadosEfésios 2:1, ele não está usando uma metáfora poética vazia. No contexto imediato, a morte é explicada como escravidão: “nos quais andastes outrora, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade do arEfésios 2:2, vivendo “segundo as inclinações da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentosEfésios 2:3. No contexto do livro, essa morte é contrastada com a ação soberana de Deus que vivifica: “mas Deus, sendo rico em misericórdia… estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com CristoEfésios 2:4–5. E no contexto de toda a Escritura, a morte espiritual apontada em Gênesis 2–3, onde a ruptura com Deus precede toda degeneração moral visível: “no dia em que dela comeres, certamente morrerásGênesis 2:17, seguida da alienação, culpa e fuga da presença divina Gênesis 3:7–10.

Aqui surge a primeira objeção: “morto não significa incapaz; significa apenas separado”. O problema é que essa distinção não nasce do texto, mas de uma necessidade teológica externa a ele. Na Escritura, separação de Deus nunca é neutra; ela é sempre corrupção, cegueira e escravidão, como se vê em Isaías 59:2as vossas iniquidades fazem separação entre vós e o vosso Deus” e em Romanos 1:21–24, onde a separação resulta em obscurecimento do entendimento e entrega às próprias paixões. O homem separado não flutua em autonomia moral, ele cai.

 

O testemunho da consciência bíblica

 

O Salmo 51 não é uma reflexão abstrata sobre a natureza humana, mas uma confissão nascida do colapso moral de Davi. Quando ele reconhece: “Eu nasci na iniquidade, e em pecado me concebeu minha mãeSalmo 51:5, não está transferindo culpa para sua origem biológica, mas confessando que o seu adultério e homicídio (2 Samuel 11) não foram acidentes isolados. Eles brotaram de uma fonte mais profunda, anterior às escolhas pontuais, algo que o próprio Jeremias expressa ao dizer: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corruptoJeremias 17:9.

O Salmo 14, citado por Paulo em Romanos 3, não descreve ateus militantes, mas homens religiosos, sociais, politicamente organizados. Ainda assim, o diagnóstico é abrangente: “Não há quem faça o bem, não há nem um sequerSalmo 14:3. Paulo, no contexto de Romanos, não está construindo um exagero retórico, mas fechando todas as saídas possíveis - judeus e gentios, religiosos e irreligiosos - ao afirmar: “Não há justo, nem um sequer; não há quem entenda, não há quem busque a DeusRomanos 3:10–11, concluindo que “todos se extraviaramRomanos 3:12, para que “toda boca se cale, e todo o mundo seja culpável diante de DeusRomanos 3:19.

A objeção comum aqui é: “Isso descreve atos, não natureza”. Mas Paulo faz exatamente o oposto: ele parte dos atos para provar a condição. A árvore é conhecida pelo fruto, como ensinou o próprio Cristo Mateus 12:33–35. Se nenhum homem busca a Deus, não é porque lhe faltam informações, mas porque lhe falta disposição interior, conforme Paulo já havia declarado: “o pendor da carne é inimizade contra DeusRomanos 8:7.

 

Jesus e a falência da vontade humana

Poucos textos são tão decisivos quanto as palavras de Cristo em João 6: “Ninguém pode vir a mim, se o Pai, que me enviou, não o trouxerJoão 6:44. O verbo não indica permissão externa, mas capacidade interna. No contexto imediato, Jesus está explicando a incredulidade de pessoas que viram milagres João 6:2, 14, ouviram sua pregação João 6:26–40 e ainda assim o rejeitaram João 6:60–66. No contexto do Evangelho, João já havia afirmado que “a luz veio ao mundo, mas os homens amaram mais as trevas do que a luzJoão 3:19. E no contexto bíblico global, amar as trevas não é ignorância, é inclinação moral, como também afirma Romanos 1:32.

A resposta habitual é dizer que Deus “atrai” a todos igualmente, e que alguns simplesmente resistem, apelando frequentemente a textos como João 12:32atrairei todos a mim”. A pergunta pertinente é esse “todos” se refere a quem? E é o próprio Cristo distingue claramente entre os que são dados ao Filho e os que permanecem incrédulos: “Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mimJoão 6:37 e “há alguns de vós que não creem… porque não sois dos que me foram dados” João 6:64–65. O texto não apresenta duas vontades igualmente capazes reagindo de modos diferentes, mas uma vontade humana incapaz sendo eficazmente trazida pelo Pai.

 

O diálogo honesto com Arminius

 

É precisamente aqui que muitos se surpreendem: Jacob Arminius jamais afirmou que o homem, em seu estado natural, possui capacidade moral de crer sem a graça. Pelo contrário, Arminius escreveu explicitamente que, sem a graça preveniente dada, o homem não pode pensar, querer ou fazer o bem espiritual, reverberando textos como João 15:5sem mim nada podeis fazer” e 1 Coríntios 2:14 o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus”. Para ele, a queda afetou profundamente o entendimento, os afetos e a vontade, em consonância com Efésios 4:17–18. E quando feito participante dessa regeneração, ele ainda não pode pensar, querer ou fazer o bem sem o auxílio contínuo da graça divina.

Tal menção de Arminius pode ser vista em The Works of James Arminius, Vol. 1 (tradução de James Nichols e W.R. Bagnall), e pode ser encontrada em https://www.andrews.edu/~toews/classes/sources/modern/Arminius%20I.htm?utm

Nessa obra, no capítulo sobre O Livre-Arbítrio do Homem (The Free–Will of Man), Arminius escreve claramente: “But in his lapsed and sinful state, man is not capable, of and by himself, either to think, to will, or to do that which is really good; but it is necessary for him to be regenerated and renewed … by God in Christ through the Holy Spirit …”

Esta passagem é considerada a declaração mais explícita de Arminius sobre a incapacidade humana sem a graça, e é usada até hoje por teólogos para mostrar que o arminianismo clássico afirma uma incapacidade radical do homem pecador para o bem espiritual sem intervenção divina; ainda que Arminius veja essa graça como preveniente e resistível, em contraste com o entendimento reformado de graça eficazmente irresistível.

Onde Arminius diverge não é no diagnóstico da doença, mas no modo como o remédio é aplicado. Ele sustenta que a graça é oferecida a todos de forma restauradora da capacidade, podendo ser resistida, apelando a textos como Atos 7:51 “sempre resistis ao Espírito Santo” e Mateus 23:37. A tradição reformada responde que, se todos recebem igualmente essa restauração, a diferença final repousa novamente no homem. Tal pensamento é algo que a Escritura se recusa a permitir, pois afirma com respeito a aplicação da graça que “não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdiaRomanos 9:16. Ainda assim, é importante reconhecer: o arminianismo clássico não é um retorno ao otimismo pelagiano, mas uma tentativa sincera de preservar responsabilidade humana sem negar a gravidade da queda.

Essa honestidade histórica é essencial, porque mostra que a depravação total não é uma caricatura calvinista, mas um reconhecimento compartilhado, ainda que desenvolvido de formas distintas.

 

Uma visão mais acurada em Mateus e em Atos - A resistência que revela a doença, não a cura frustrada

 

Há uma diferença decisiva entre resistir a um chamado e frustrar uma ressurreição. Confundir essas duas realidades é um erro antigo, recorrente e profundamente humano. Ele nasce do desejo de preservar algum espaço de autonomia moral no homem caído, ainda que as Escrituras insistam em nos descrever como mais doentes do que gostaríamos de admitir.

A doutrina da depravação total não afirma que o homem sempre resiste da mesma forma, nem que toda resistência tenha o mesmo objeto. Ela afirma algo mais básico e mais incômodo: que o coração humano, separado de Deus, é estruturalmente inclinado à rejeição da verdade quando esta o confronta. Essa rejeição se manifesta historicamente na recusa da Palavra, na perseguição dos profetas, no desprezo pela revelação. Mas ela não é apresentada na Escritura como a frustração de uma graça regeneradora em ação; é, antes, a evidência de que tal graça ainda não foi concedida.

É exatamente aqui que se encontra o erro comum na leitura de textos como Atos 7:51 e Mateus 23:37. Ambos falam de resistência. Nenhum deles fala de regeneração frustrada. Vamos trabalhar essa questão em quatro movimentos.

 

1.       Identificando corretamente o objeto da resistência

 

Quando Estêvão acusa seus ouvintes de resistirem ao Espírito Santo, ele não está descrevendo uma operação interna da graça sendo impedida no último instante. O próprio discurso define o que significa essa resistência: a rejeição contínua dos mensageiros de Deus ao longo da história de Israel.

O Espírito, nas Escrituras, não fala de modo abstrato. Ele fala por meio de homens enviados, por meio de palavras inspiradas, por meio de advertências concretas. Resistir ao Espírito, nesse contexto, é resistir à Palavra que Ele coloca na boca dos profetas. É isso que Neemias reconhece ao afirmar que Deus advertiu Israel “pelo seu Espírito, por intermédio dos profetasNeemias 9.30. É isso que Zacarias denuncia quando diz que o povo endureceu o coração para não ouvir as palavras enviadas “pelo Espírito, mediante os profetasZacarias 7.12.

Estêvão não altera esse padrão. Ele o confirma.

Homens de dura cerviz e incircuncisos de coração e de ouvidos, vós sempre resistis ao Espírito Santo; assim como fizeram vossos pais, também vós o fazeis. Qual dos profetas vossos pais não perseguiram? Eles mataram os que anteriormente anunciavam a vinda do Justo, do qual vós agora vos tornastes traidores e assassinos, vós que recebestes a lei por ministério de anjos e não a guardastes.Atos 7:51-53

A resistência não é mística; é histórica. Não é invisível; é pública. Não acontece no interior secreto da alma; acontece na praça, no templo, no apedrejamento dos enviados de Deus.

Esse dado é crucial: o texto fala de rejeição da revelação, não de frustração da regeneração.

 

2.       Respeitando o contexto histórico-pactual dos textos

 

Atos 7 não é um tratado sobre conversão individual. É uma acusação profética contra a história de infidelidade de um povo que recebeu privilégios espirituais singulares e respondeu com rebelião reiterada. O fio condutor do discurso não é a mecânica da graça, mas a constância da rejeição.

O mesmo ocorre em Mateus 23. Jesus não está descrevendo o momento interno em que uma alma quase regenerada resiste à graça preveniente. Ele está pronunciando juízo contra uma liderança que sistematicamente fechou o Reino diante dos homens. O lamento sobre Jerusalém nasce da rejeição histórica dos profetas, da violência contra os enviados, da recusa coletiva ao chamado ao arrependimento.

Quando Cristo diz “quantas vezes quis eu ajuntar”, Ele está falando como o Deus da aliança que, ao longo dos séculos, convocou, advertiu, chamou e exortou. Ajuntar, aqui, não é sinônimo de regenerar; não chega nem perto. É chamar o povo de volta aos termos da aliança. A resistência, portanto, não é à aplicação eficaz da graça, mas ao chamado externo e histórico de Deus.

Ignorar esse pano de fundo é deslocar o texto de seu terreno próprio e forçá-lo a responder perguntas que ele não pretende responder.

 

3.       Distinguindo revelação resistível de graça eficaz

 

A Escritura é absolutamente clara em afirmar que a Palavra pregada e ensinada pode ser resistida. Profetas podem ser perseguidos. Advertências podem ser desprezadas. Convites podem ser rejeitados. Essa resistência, porém, nunca é apresentada como prova de que a graça que vivifica mortos falhou em seu propósito.

Aqui está o ponto onde a doutrina da depravação total se mostra decisiva. Se o homem estivesse apenas debilitado, seria plausível imaginar uma graça que restaura capacidades e aguarda a cooperação final da vontade humana. Mas se o homem está morto em seus delitos e pecados, então o problema não é de resposta atrasada, mas de vida ausente.

A Escritura não descreve a regeneração como uma tentativa divina sujeita à aprovação humana. Ela a descreve como um ato criador, comparável ao surgimento da luz nas trevas. Quando Deus decide conceder um coração novo, Ele não pede permissão à resistência do antigo coração; Ele o remove. “Dar-lhes-ei um só coração, espírito novo porei dentro deles; tirarei da sua carne o coração de pedra e lhes darei coração de carneEzequiel 11:19

Portanto, textos que falam de resistência à Palavra não enfraquecem a doutrina da depravação total. Eles a confirmam. Eles mostram como o homem age quando deixado à sua própria condição: ele resiste, rejeita, endurece-se.

 

4.       Aplicando a mesma chave hermenêutica de forma consistente

 

O erro de Arminius nesses textos não está na seriedade com que ele trata a graça, mas na inconsistência com que distingue seus modos de operação. Ele lê Atos 7 e Mateus 23 como se toda obra do Espírito fosse necessariamente regeneradora, quando a própria Escritura distingue entre revelação externa e renovação interna.

A Escritura, lida com atenção ao seu próprio vocabulário e aos seus contextos históricos e literários, não autoriza a identificação automática entre toda ação do Espírito Santo e a regeneração do pecador. Pelo contrário, ela apresenta de modo consistente o Espírito atuando real e objetivamente sobre homens não regenerados. Podemos exemplificar tais obras do Espírito como que: falando por meio de profetas ímpios como Balaão, capacitando reis rejeitados como Saul, concedendo dons, convencendo do pecado, advertindo pela Palavra e chamando externamente à obediência; tudo isso sem que essas operações impliquem mudança interior da natureza caída. Essa distinção não enfraquece a doutrina da depravação total; antes, a sustenta. Se o homem, mesmo exposto à verdade inspirada, convencido do pecado e beneficiado por operações externas do Espírito, permanece resistente, endurecido e espiritualmente morto, então o problema não está na falta de estímulos divinos, mas na corrupção radical do coração humano. Assim, a Bíblia preserva simultaneamente a realidade da ação do Espírito e a incapacidade moral do homem caído, deixando claro que somente a obra soberana e eficaz da regeneração que é distinta do chamado externo, da convicção e da capacitação, pode vencer a escravidão do pecado. É justamente essa distinção que protege a doutrina da depravação total de reduções simplistas e impede que a resistência humana a operações externas do Espírito seja confundida com uma suposta frustração da graça salvadora.

Quando essa distinção é perdida, a resistência histórica passa a ser interpretada como fracasso soteriológico; o que torna a divindade do Espírito duvidosa por ser Ele interpretado de forma divergente do Pai e do Filho – Todo Poderoso – Gênesis 17.1, Apocalipse 1.8. O chamado rejeitado torna-se graça frustrada. A culpa humana desloca-se sutilmente para uma insuficiência divina.

Embora a Escritura não formule o atributo da onipotência do Espírito Santo em linguagem abstrata ou confessional, ela o afirma de modo concreto ao atribuir-lhe obras que, no próprio testemunho bíblico, pertencem exclusivamente ao poder ilimitado de Deus. Desde o princípio, o Espírito é apresentado como agente criador e vivificador: “o Espírito de Deus pairava sobre as águasGênesis 1.2 e “o Espírito de Deus me fezJó 33:4, linguagem que o insere diretamente no exercício do poder criador que traz o ser à existência. Essa mesma potência divina é vista não apenas no ato inicial da criação, mas na sua preservação contínua, pois “envias o teu Espírito, eles são criados, e assim renovas a face da terraSalmos 104:30, atribuindo-lhe a sustentação constante da vida, algo que exige poder infinito. De modo ainda mais explícito, a Escritura relaciona o Espírito à ressurreição dos mortos (a mais elevada manifestação da onipotência divina) ao afirmar que “o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos… vivificará também os vossos corpos mortaisRomanos 8:11, trazendo à tona a promessa veterotestamentária: “porei em vós o meu Espírito, e vivereisEzequiel 37:14. Finalmente, ao tratar da regeneração como novo nascimento soberano o “nascer do Espírito”, em João 3:5–8, a Bíblia descreve o Espírito realizando uma obra criadora no interior do homem espiritualmente morto, paralela ao ato criador original. Assim, sem recorrer a definições filosóficas, a Escritura afirma a onipotência do Espírito ao atribuir-lhe a criação, a preservação, a vivificação e a regeneração, obras que ela mesma reconhece como próprias e exclusivas do Deus todo-poderoso.

A leitura reformada, ao contrário, mantém intactas as categorias bíblicas. Ela afirma que Deus fala de muitos modos, chama por meio de muitos meios, e que o homem, em sua depravação, resiste a todos eles. Mas afirma também que, quando Deus decide salvar, Ele não apenas chama; Ele cria. Ele não apenas convida; Ele ressuscita.

 

A resistência como evidência, não como exceção

 

Atos 7 e Mateus 23 não são textos problemáticos para a doutrina da depravação total. Eles são ilustrações vívidas dela. Eles mostram o que o homem faz diante da luz quando permanece entregue a si mesmo. Eles revelam um padrão contínuo, não uma exceção lamentável.

A resistência ali descrita não aponta para uma graça quase bem-sucedida, mas para um coração plenamente coerente com sua condição caída. E é justamente por isso que a esperança do evangelho não repousa na diminuição dessa resistência, mas na intervenção soberana de Deus que, quando quer, transforma inimigos em filhos, rebeldes em adoradores, mortos em vivos.

 

Negar isso pode tornar o discurso mais palatável. Mas aceitar isso torna a graça verdadeiramente graciosa.

 

Pelágio e o espelho da controvérsia

 

Pelágio, por sua vez, representa o ponto de ruptura. Para ele, o homem nasce moralmente neutro; o pecado é imitação, não corrupção; a graça é auxílio externo, não necessidade interna. O problema dessa visão não é apenas bíblico, mas existencial. Ela não explica por que o mal é universal, persistente e resistente mesmo diante da revelação divina, algo que Paulo atribui diretamente a Adão: “por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morteRomanos 5:12, e que ele reafirma ao dizer que “pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadoresRomanos 5:19.

Agostinho venceu o debate não por retórica, mas porque leu as Escrituras com realismo pastoral. Ele sabia, por experiência e por exegese, que o homem não peca apenas porque aprende a pecar, mas porque ama pecar, conforme Jesus afirmou: “Todo aquele que comete pecado é escravo do pecadoJoão 8:34. E amar algo é mais profundo do que escolher ocasionalmente; é ser governado por uma inclinação, como Tiago descreve ao dizer que cada um é tentado “pela sua própria cobiçaTiago 1:14.

 

O coração do problema - e da esperança

 

A depravação total não afirma que o homem é tão mau quanto poderia ser, mas que nenhuma dimensão do seu ser permanece intocada pela queda, que todas as suas faculdades foram corrompidas pelo pecado. A razão pensa, mas pensa enviesada (Romanos 1:21); a vontade escolhe, mas escolhe cativa (Romanos 6:17); os afetos desejam, mas desejam desordenadamente (Gálatas 5:17). O homem continua humano, racional e responsável; e é justamente por isso que é culpável perante Deus, como afirma Romanos 1:20.

Paradoxalmente, essa doutrina não diminui a graça; ela a engrandece. Se o homem estivesse apenas doente, Cristo seria um médico Marcos 2:17. Mas estando morto, Cristo é ressurreição: “Eu sou a ressurreição e a vidaJoão 11:25. O evangelho não é uma proposta de melhora, mas um ato criador, conforme Paulo declara: “Se alguém está em Cristo, é nova criação2 Coríntios 5:17. A fé não é o último passo de um homem saudável, mas o primeiro sinal de vida de alguém que foi vivificado: “pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de DeusEfésios 2:8–9.

Negar isso pode soar mais gentil, mais palatável, mais aceitável aos “dias delicados”. Mas a Escritura não nos foi dada para preservar nossa autoestima, e sim para nos conduzir à verdade; ainda que ela nos humilhe antes de nos curar João 8:32...e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.

E somente quem reconhece a profundidade da queda é capaz de se maravilhar, sem reservas, com a grandeza da graça: “onde abundou o pecado, superabundou a graçaRomanos 5:20.

 

Um diálogo com a ciência moderna.

 

A Escritura revela a condição do homem com clareza que nenhuma ciência humana consegue igualar. O coração humano, segundo a Palavra, não é apenas falível ou confuso; é radicalmente corrupto, escravizado ao pecado, e incapaz de buscar a Deus por si mesmo (Rm 3:10-12; 3:23). Psicologia e psicanálise, embora úteis para compreender comportamentos e traços da personalidade, frequentemente se desviam desse diagnóstico absoluto. Ao interpretar o pecado como traumas reprimidos, conflitos inconscientes ou mecanismos de defesa emocional - como propõe Sigmund Freud em A Interpretação dos Sonhos (1900) e sua teoria do id, ego e superego - estas distinções humanas reduzem a gravidade da corrupção humana a sintomas, negligenciando a dimensão ontológica e moral do pecado. Carl Jung, ao analisar o inconsciente coletivo e arquétipos, busca revelar padrões de comportamento e forças simbólicas internas, mas ainda trata o homem em termos de processos psíquicos estruturais, e não como um ser moral e espiritualmente depravado diante de Deus. Adler, com sua psicologia individual, enfatiza a compensação e a busca de superioridade, mas novamente confina o problema à esfera emocional e social, desviando-se do diagnóstico bíblico: o homem é totalmente depravado em seu interior, incapaz de pensar, querer ou fazer o bem que seja aceitável a Deus sem intervenção divina Romanos 8:7; Salmo 51:5.

Imagine um jovem angustiado, que busca conforto em sessões intermináveis de análise de sonhos e comportamentos passados, convencido de que, se compreender suas emoções e traumas, encontrará paz. Ele organiza padrões, escreve reflexões e descobre tendências ocultas, mas, à medida que o analista aponta mecanismos de defesa, permanece incapaz de amar a Deus, de se arrepender verdadeiramente ou de obedecer à Sua lei. Esta cena ilustra precisamente a limitação do enfoque psicológico: útil para organizar pensamentos, mas incapaz de tocar o coração morto.

Quando psicólogos ou psicanalistas interpretam a resistência humana à verdade como simples “negação do inconsciente” ou “mecanismo de defesa emocional”, correm o risco de reduzir a depravação a um problema psicológico contingente, negando sua dimensão ontológica, moral e espiritual. A Escritura, ao contrário, não descreve o pecado como um sintoma a ser tratado, mas como uma doença universal e letal: “não há justo, nem um sequerRomanos 3:10. Toda obra de conversão - toda regeneração - surge da soberania divina do Espírito, que age independentemente das capacidades humanas naturais (João 3:5–8; Tito 3:5; Ezequiel 36:26).

A análise psicológica também falha quando tenta traduzir a linguagem bíblica de “coração duro”, “mente rebelde” ou “espírito inclinado ao mal” em metáforas terapêuticas, como se bastasse uma consciência esclarecida ou um autoconhecimento profundo para modificar a natureza caída. Essa hermenêutica secular, expressa em correntes de psicoterapia cognitivo-comportamental moderna - que enfatizam reestruturação de crenças e mudança de padrões de pensamento - corre o risco de transformar a verdade absoluta da Escritura em conselhos adaptativos ou técnicas comportamentais, tirando-a de seu contexto literário, histórico e teológico. Textos como Atos 7:51, em que o povo resiste ao Espírito Santo, ou Romanos 1:18–32, em que a ira de Deus se manifesta sobre a impiedade humana, não falam de traumas reprimidos ou de bloqueios psíquicos, mas de um coração morto, rebelde e incapaz de se submeter à lei de Deus.

Considere uma mulher que frequenta grupos de aconselhamento secular, onde aprende a valorizar sua autoestima, a identificar padrões limitantes de pensamento e a desenvolver assertividade. Ela experimenta progresso emocional, organização de sentimentos e até maior confiança social. No entanto, ao retornar à sua vida interior, permanece incapaz de amar a Deus com todo o coração, de confiar plenamente no Salvador ou de subjugar a própria natureza pecaminosa. Esta experiência demonstra, de forma viva, a limitação do “autoajuda espiritual” e da psicologia aplicada isoladamente: a cura definitiva da alma não depende da percepção de padrões emocionais, mas da regeneração espiritual concedida pelo Espírito Santo.

Mesmo o conceito moderno de “autoestima” ou “valorização pessoal”, tão exaltado em correntes de psicologia humanista, como as propostas por Carl Rogers com sua ênfase na autoatualização e no crescimento do self, não confronta a raiz da depravação. Ele pode até amenizar sintomas, oferecer conforto ou organizar emoções, mas não cria vida espiritual nem produz arrependimento verdadeiro, pois a Escritura deixa claro que a transformação do homem só ocorre quando o Espírito Santo atua soberanamente, dando novo coração e espírito novo (Ezequiel 36:26; 2Coríntios 5:17).

Portanto, o aconselhamento bíblico, confessional, reafirma que a Palavra é suficiente para o cuidado da alma, que o Espírito Santo é o único capaz de transformar corações mortos e que todo recurso humano, psicológico ou psicanalítico, embora útil para compreender sintomas, é incapaz de produzir salvação ou cura verdadeira. A depravação total não é mera questão de interpretação ou perspectiva emocional: é uma realidade absoluta, universal e radical, da qual somente Cristo, pela obra do Espírito, pode libertar.

Em suma, a Escritura não precisa ser ajustada às interpretações humanas; ao contrário, ela corrige, delimita e reorienta todas as tentativas humanas de compreender o homem. Quando Freud fala de repressões, Jung de arquétipos ou Rogers de autorrealização, eles podem descrever facetas da experiência humana, mas não diagnosticam a raiz da condição caída nem oferecem remédio capaz de regenerar. A linguagem secular, por mais elaborada, permanece relativa e limitada. A Bíblia, porém, revela o homem em sua totalidade moral e espiritual, e o Espírito Santo, com poder criador e vivificante, é o único capaz de transformar corações que, de outra forma, permaneceriam mortos, rebeldes e incapazes de responder a Deus.

 

Nem Arminius, nem Pelágio, nem Floyd nem Jung ou Rogers, nenhum outro, mas apenas o Espírito Santo falando na Escritura.

Em face de toda essa reflexão, permanece claro que a depravação total do homem não é uma abstração teológica nem um julgamento exagerado, mas uma realidade bíblica, universal e inescapável. O coração humano, por mais instruído, emocionalmente equilibrado ou socialmente adaptado que pareça, permanece corrompido, rebelde e incapaz de buscar a Deus por si mesmo (Romanos 3:10-12; 3:23). Os textos que narram a resistência a profetas ou à Palavra inspirada, como Atos 7:51 e Romanos 1:18–32, demonstram que a rebeldia humana não se reduz a conflitos psicológicos ou a bloqueios emocionais; trata-se de uma morte espiritual profunda, frente à qual toda tentativa humana de correção, seja filosófica, psicológica ou moral, permanece insuficiente.

A ação do Espírito Santo, evidenciada nas Escrituras, confirma e ilumina esse diagnóstico: Ele fala, convence, capacita, inspira, mas não há indício de que o homem caído, sem regeneração, possa obrigatoriamente corresponder à Sua obra. As resistências registradas na Bíblia não são falhas de uma graça preveniente limitada, como sustenta Arminius, mas manifestações da depravação radical do coração. Mesmo quando o Espírito atua externamente (sobre Balaão, Saul ou sobre Israel) não se observa regeneração, apenas a confirmação da incapacidade do homem de se submeter a Deus por si mesmo. Somente a intervenção soberana e eficaz do Espírito pode produzir o novo nascimento, capaz de transformar o morto em vivo, o rebelde em adorador, e o rebelde endurecido em instrumento de glória (João 3:5–8; Ezequiel 36:26; 2Coríntios 5:17).

O confronto com a ciência moderna reforça ainda mais a suficiência da Escritura. Freud, Jung, Adler e correntes contemporâneas de psicologia e psicanálise podem nomear padrões, explicar sintomas, organizar experiências e propor conselhos práticos, mas não possuem autoridade nem poder para restaurar o coração humano, nem para gerar arrependimento ou fé salvadora. Quando a linguagem secular tenta reinterpretar “coração duro”, “espírito rebelde” ou “resistência à Palavra” como problemas psicológicos ou emocionais, ela deturpa a verdade absoluta da Escritura, oferecendo soluções incompletas, que aliviam sintomas, mas não salvam a alma.

Portanto, a Escritura permanece soberana, suficiente e autoritativa. Todo diagnóstico humano, por mais elaborado que seja, só encontra seu remédio verdadeiro no Evangelho. Como observou A. W. Pink, negar a gravidade da doença impede que se valorize o remédio; assim também, reduzir a depravação do homem a questões psicológicas ou emocionais obscurece a necessidade da graça soberana de Deus. A depravação total não é teoria; é realidade vivida, experimentada e confirmada em cada coração humano. Somente Cristo, pela obra do Espírito Santo, pode transformar essa condição, tornando o impossível do homem possível, e fazendo com que corações endurecidos se voltem para a glória de Deus.