quarta-feira, 20 de maio de 2026

Tema 36 - A Igreja: o povo da nova aliança e o corpo visível de Cristo

Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.” (Mateus 16.18)

 

Este é um dos textos mais debatidos de todo o Novo Testamento, não apenas por sua densidade teológica, mas também pelas diferentes leituras que historicamente foram propostas em torno da expressão “esta pedra”. Uma leitura cuidadosa do próprio fluxo do texto, contudo, ajuda a esclarecer o seu sentido dentro do contexto imediato da fala de Cristo.

A leitura atenta do texto revela uma distinção intencional feita pelo próprio Senhor. Cristo se dirige a Pedro em segunda pessoa, afirmando: “tu és Pedro”, utilizando o nome dado ao apóstolo como parte da interlocução direta.

Contudo, quando passa a falar do fundamento sobre o qual a igreja seria edificada, há uma mudança significativa na forma de referência: de um lado, Cristo se dirige diretamente a Pedro em segunda pessoa: “tu és Pedro”; de outro, ao tratar do fundamento, Ele utiliza uma expressão demonstrativa: “sobre esta pedra”.

Esse deslocamento da referência pessoal para uma designação demonstrativa já sugere uma mudança de foco no próprio discurso. O peso da frase não recai automaticamente sobre a pessoa de Pedro, mas se volta para aquilo que imediatamente antecede a declaração de Pedro feita acerca de Cristo: a confissão de que Jesus é “o Cristo, o Filho do Deus vivo”.

Esse contraste é ainda reforçado pela própria forma da linguagem empregada no texto original, em que a distinção entre o nome de Pedro e a expressão usada para “pedra” impede uma identificação simples e automática entre os dois elementos do versículo.

Essa leitura encontra paralelo no próprio testemunho apostólico posterior. O mesmo Pedro, em sua epístola, identifica Cristo como a Pedra Angular Viva, rejeitada pelos homens, mas eleita e preciosa diante de Deus (1 Pedro 2.4-6). Outros autores apostólicos seguem a mesma linha, afirmando que não há outro fundamento além daquele que já está posto, que é Cristo.

Portanto, o texto não estabelece uma transferência de fundamento para a pessoa de Pedro, mas aponta para a centralidade de Cristo confessado como o verdadeiro alicerce da igreja.

A relevância dessa leitura ultrapassa o debate exegético imediato e alcança diretamente a compreensão da própria natureza da igreja ao longo da história. Quando o fundamento é corretamente identificado como Cristo, o Filho do Deus vivo, a estrutura eclesiológica que se ergue sobre esse alicerce permanece fiel ao testemunho apostólico.

Contudo, quando o fundamento é deslocado para outra realidade, seja ela uma pessoa, uma instituição ou uma sucessão de autoridade desvinculada da confissão acerca de Cristo, toda a construção subsequente sofre inevitavelmente distorção em sua base.

Isso se torna especialmente importante ao tratarmos do tema da igreja como povo da nova aliança e corpo visível de Cristo. A igreja não é uma realidade construída sobre fundamentos humanos, mas sobre o próprio Cristo confessado e revelado nas Escrituras. Por isso, a compreensão correta do fundamento não é um detalhe menor, mas determina diretamente a natureza, a identidade e a continuidade da própria igreja.

É justamente a partir do entendimento de que Cristo é o fundamento da igreja que se compreende como a obra da salvação nunca se restringe ao indivíduo isolado, mas sempre resulta na formação de um povo. Ao tratar da salvação, a Escritura nunca descreve Deus formando apenas indivíduos desconectados entre si. Essa mesma realidade é desenvolvida em 1 Pedro 2.4, onde os crentes são apresentados como “pedras vivas”, integradas a um edifício espiritual edificado sobre um único fundamento - Cristo. Nesse sentido, a própria natureza da igreja impede qualquer compreensão isolada da fé cristã: ninguém é igreja em sentido pleno de forma individual e autônoma.

Desde o princípio, o Senhor chama um povo para Si. A redenção não termina numa experiência religiosa privada, confinada à interioridade do homem; ela conduz pecadores reconciliados à comunhão do povo da aliança reunido em torno de Cristo.

Essa realidade já aparece claramente no Antigo Testamento. Deus separa Israel dentre as nações, estabelece Sua aliança, concede Sua lei, institui culto, sacerdócio, assembleia e governo do povo. A linguagem bíblica constantemente apresenta Israel como congregação do Senhor, herança santa e povo pertencente a Deus.

Inclusive, é extremamente significativo perceber que Pedro aplica diretamente à igreja linguagem originalmente pronunciada por Deus aos pés do Sinai. 1 Pedro 2.9, Pedro afirma: “Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus...” Percebam que Pedro aplica à igreja a mesma linguagem de Êxodo 19.5-6, quando Deus declara acerca de Israel: “... sereis minha propriedade peculiar dentre todos os povos... vós me sereis reino de sacerdotes e nação santa.

Pedro não trata a igreja como realidade apartada da história da redenção anteriormente revelada. Pelo contrário. Ele mostra a continuidade do povo pactual de Deus agora reunido em Cristo sob a nova aliança. Dentre todos os outros assuntos relacionados à Escritura, é só mais uma comprovação da Revelação Progressiva de Deus nas diferentes administrações da aliança, antes e depois da primeira vinda de Cristo.

Por isso, a igreja do Novo Testamento não surge como ruptura da história redentiva, mas como seu desenvolvimento sob a plenitude da obra de Cristo. Há progressividade na revelação bíblica, mas essa progressão jamais abandona a realidade de um povo reunido, identificado e separado para Deus na história. Desde a congregação de Israel, passando pela igreja apostólica, até alcançar sua consumação final, a revelação divina continuamente apresenta o Senhor formando para Si uma assembleia santa.

Paulo escreve em Efésios 2.19: “Assim, já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois da família de Deus.” Perceba a dimensão coletiva da linguagem apostólica. O evangelho não apenas reconcilia o homem com Deus; ele também incorpora o crente à família da fé.

E a própria expressão “família” já desfaz a ideia moderna de uma espiritualidade isolada, autônoma e sem vínculo concreto com o povo de Deus. Família, nas Escrituras, nunca descreve indivíduos desconectados vivendo cada um sua experiência particular sem convivência real, cuidado mútuo, disciplina, comunhão e vida compartilhada. A linguagem familiar pressupõe proximidade, pertencimento e convivência dentro da casa de Deus.

Inclusive, o próprio retrato bíblico da família frequentemente aparece associado à mesa e à comunhão do povo da aliança. No Salmos 128, o salmista descreve a bênção da casa pactual dizendo: “... teus filhos, como rebentos da oliveira, à roda da tua mesa.” (Salmo 128.3). A imagem retrata convivência, unidade e comunhão dentro da casa do Senhor. Essa mesma dimensão comunitária permanece presente na vida da igreja do Novo Testamento. Quando Paulo trata da ceia em 1 Corintios 11, ele fala repetidamente da igreja reunida:

quando vos reunis”;

quando vos reunis no mesmo lugar”;

e “para comer”.

 A ceia do Senhor não é apresentada como exercício religioso individualista, mas como expressão visível da comunhão do povo de Deus reunido em torno da mesa de Cristo.

Esse ponto se torna especialmente importante diante da mentalidade religiosa contemporânea. Tornou-se comum imaginar uma espiritualidade construída sem compromisso com igreja local, sem vida comunitária e sem submissão aos meios que Cristo estabeleceu para edificação do Seu povo. Muitos falam de fé como experiência estritamente pessoal, quase como se Cristo pudesse ser separado da comunidade que Ele mesmo comprou com Seu sangue.

Entretanto, o Novo Testamento descreve exatamente o contrário. O Senhor ressuscitado não apenas salva indivíduos; Ele reúne um povo, sustenta esse povo e governa esse povo ao longo da história.

Por isso a Escritura utiliza imagens profundamente ricas para descrever a igreja. Ela é chamada de corpo de Cristo,  noiva de Cristo, casa de Deus, templo do Espírito Santo, e povo adquirido para Sua glória. Cada uma dessas figuras revela uma dimensão da relação entre Cristo e Sua igreja.

Quando Paulo fala do corpo de Cristo 1 Corintios 12, ele destrói qualquer noção de independência espiritual absoluta. O corpo não é formado por um único membro isolado. Há diversidade, interdependência e serviço mútuo. No corpo de Cristo, os santos são chamados a carregar fardos uns dos outros, a corrigirem-se mutuamente, a suportarem-se em amor, e a crescerem juntos na fé. A vida cristã nunca foi pensada como peregrinação solitária.

A própria estrutura das igrejas apostólicas confirma isso. Em diversos momentos da primeira carta aos coríntios, Paulo o utiliza expressões como: “Quando vos reunis na igreja...” (1 Coríntios 11.18) e “Quando, pois, vos reunis no mesmo lugar...” (1 Coríntios 11.20). Essas expressões revelam algo extremamente importante: a igreja apostólica possuía reunião pública identificável, comunhão objetiva e vida coletiva concreta. O Novo Testamento não descreve cristãos vivendo sua fé de maneira isolada e desconectada da assembleia dos santos.

Ao longo de 1 Coríntios, Paulo regula a administração da ceia (1 Coríntios 11.23-29); o exercício dos dons (1 Coríntios 12–14), a ordem no culto público (1 Coríntios 14.26-40), a disciplina eclesiástica (1 Coríntios 5.1-13), a coleta para os santos (1 Coríntios 16.1-2), a instrução doutrinária da congregação (1 Coríntios 15) e organização prática da vida comunitária (1 Coríntios 16.15-16). Nada disso faria sentido se a igreja fosse apenas realidade invisível sem expressão histórica concreta.

A imagem da noiva aponta para outro aspecto igualmente importante. Em Efésios 5.25, Paulo afirma: “Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela.”. Cristo não morreu para formar uma coletividade religiosa vaga e sem expressão concreta na história. Ele redimiu um povo que lhe pertence, unido a Ele e unido entre si. A igreja aparece nas Escrituras como objeto do amor pactual de Cristo, sendo preparada para o dia em que será apresentada gloriosa diante dEle.

Essa verdade também ajuda a corrigir uma concepção bastante difundida em nossos dias: a ideia de que alguém pode viver normalmente apartado da igreja visível e, ainda assim, considerar irrelevante a comunhão ordinária do povo de Deus. O Novo Testamento jamais descreve a vida cristã como experiência construída à margem da assembleia dos santos.

Pelo contrário. A igreja aparece constantemente como o ambiente ordinário onde Cristo:

·        anuncia Sua Palavra (Romanos 10.14-17; 2 Timóteo 4.1-2);

·        fortalece Seu povo (Atos 2.42; Efésios 4.11-16);

·        ministra os sacramentos (Mateus 28.19; 1 Coríntios 11.23-26);

·        corrige pecados (Mateus 18.15-17; 1 Coríntios 5.1-5);

·        consola os aflitos (2 Coríntios 1.3-4; 1 Tessalonicenses 5.11);

·        e amadurece espiritualmente os santos (Colossenses 1.28; Efésios 4.13-15).

Isso não significa atribuir poder salvífico autônomo à instituição eclesiástica. A salvação pertence inteiramente ao Senhor. Contudo, o próprio Cristo decidiu agir ordinariamente por meio dos instrumentos que Ele estabeleceu para edificação do Seu povo reunido. A Palavra é pregada na igreja; os sacramentos são administrados na igreja; a disciplina ocorre na igreja; a comunhão dos santos é exercida na igreja.

Foi exatamente por isso que a tradição reformada reconheceu historicamente certas marcas fundamentais da verdadeira igreja como a fiel exposição das Escrituras, a correta administração dos sacramentos e a disciplina eclesiástica exercida segundo a Palavra de Deus.

Essa compreensão também esclarece por que o Novo Testamento trata com seriedade o abandono deliberado da comunhão dos santos. O apóstolo na carta aos Hebreus afirma em 10.25: “Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns...”. O autor de Hebreus não trata a reunião da igreja como adorno da vida cristã. O afastamento contínuo da comunhão era visto como sintoma perigoso de esfriamento espiritual e progressivo endurecimento do coração. Esses elementos não são descartáveis para a verdadeira vida cristã. Eles fazem parte da maneira como Cristo cuida de Seu povo neste mundo.

Ao mesmo tempo, a Escritura não idealiza a igreja visível como se ela já estivesse livre de problemas nesta era. O próprio Novo Testamento apontou divisões, falsos mestres, escândalos, esfriamento espiritual e corrupção doutrinária.

As cartas às igrejas no livro de Apocalipse entre os capítulos 2 e 3 mostram congregações enfrentando graves pecados. Algumas haviam tolerado falsos ensinos, falsos mestres, outras perderam zelo, outras se tornaram espiritualmente indiferentes. Isso significa que a presença de falhas dentro da igreja não constitui argumento para abandoná-la. Pelo contrário. Demonstra a necessidade contínua de correção e reforma da igreja segundo as Escrituras.

O próprio Cristo, ao dirigir-Se às igrejas da Ásia, não ordena que os santos abandonem a comunhão visível por causa das corrupções existentes. Em vez disso, Ele repreendeu, chamou ao arrependimento, corrigiu, disciplinou e conclamou as igrejas à perseverança. Isso pode ser observado em: Apocalipse 2.1-7; Apocalipse 2.12-17; Apocalipse 2.18-29; Apocalipse 3.1-6; Apocalipse 3.14-22.

O mesmo princípio aparece em outras partes do Novo Testamento. Mesmo diante de graves problemas em Corinto, o apóstolo Paulo não instrui os crentes fiéis a abandonarem a igreja, mas trabalha pela sua correção. Vemos isso em textos como: 1 Coríntios 1.10-13; 1 Coríntios 3.1-3; 1 Coríntios 5.1-13; 1 Coríntios 11.17-22; 2 Coríntios 2.6-8.

Da mesma forma, as exortações apostólicas constantemente apontam para direção oposta ao abandono da igreja visível. Ele insiste em preservação da unidade (Efésios 4.1-6); na restauração do faltoso (Gálatas 6.1); no exercício da disciplina (Mateus 18.15-17); na perseverança conjunta na comunhão (Hebreus 10.24-25) e na edificação do corpo por meio de homens vocacionados e dotados de dons para este fim (Efésios 4.11-16). A resposta bíblica para os pecados da igreja não é o abandono da igreja, mas sua contínua reforma à luz da Palavra de Deus.

A própria Reforma Protestante não nasceu de desprezo pela igreja, mas do esforço de restaurar a centralidade do evangelho, da Palavra e da fidelidade bíblica. Em Lutero, esse movimento se expressa inicialmente como tentativa de reforma interna da igreja visível; em Calvino, como reconhecimento de que a corrupção doutrinária atingia tal profundidade que exigia a constituição de comunidades reformadas segundo o padrão das Escrituras, ainda sem negar o princípio da verdadeira igreja onde a Palavra permanece.

Outro ponto importante envolve a continuidade entre o povo de Deus no Antigo Testamento, a igreja apostólica e a igreja glorificada. Israel jamais foi descrito como povo invisível e disperso sem forma histórica concreta. O Senhor estabeleceu uma assembleia pública, um culto estruturado, o sacerdócio, uma liderança reconhecida, a disciplina, as festas solenes bem como um local determinado para adoração. A congregação da antiga aliança era visível na história.

Da mesma forma, a igreja apostólica também aparece reunida:

·        ouvindo a Palavra (Atos 2.42; Atos 20.7; 1 Coríntios 11.7; 14.26)

·        celebrando os sacramentos (Mateus 28.19; 1 Coríntios 11.23-26)

·        exercendo comunhão (Atos 2.42; Atos 4.32-35; 1 Coríntios 11.7; 14.26)

·        cultuando coletivamente (Atos 20.7; 1 Coríntios 11.7; 14.26; Colossenses 3.16)

·        vivendo sob cuidado pastoral (Atos 20.28; 1 Pedro 5.1-3)

Curiosamente, alguns tentam transformar justamente o período presente da história redentiva numa espécie de exceção radical, como se Israel no Antigo Testamento fosse visível; a igreja glorificada na eternidade também fosse visível; mas a igreja entre a primeira e a segunda vinda de Cristo devesse existir apenas de forma dispersa, individualizada e praticamente sem expressão comunitária concreta.

Entretanto, a própria Escritura aponta exatamente na direção oposta. Em Apocalipse 21, a igreja glorificada aparece simbolizada como cidade santa: “Vi também a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu...” (Apocalipse 21.2). A figura é coletiva, pública e visível. A redenção culmina num povo reunido diante do Senhor.

Desde Israel no Antigo Testamento, passando pela igreja apostólica, até alcançar a consumação final em Apocalipse, a revelação bíblica mantém continuamente diante de nós a realidade de um povo identificado, reunido e separado por e para Deus.

Esse tema também se relaciona diretamente aos meios de graça. O Senhor decidiu agir ordinariamente por meio de instrumentos concretos estabelecidos por Ele mesmo. Por isso o Novo Testamento dá centralidade: à pregação (1Coríntios 1.18-24; 2 Timóteo 4.2); ao batismo (Mateus 28.19; 1Coríntios 1.14-16); à ceia do Senhor (1 Coríntios 11.23-29 cf. Mateus 26.26; Marcos 14.22; Lucas 22.19; Lucas 24.30-31, Atos 20.7); à oração pública (Atos 1.14; Atos 2.42; Atos 4.24-31; Atos 12.5; Atos 13.2-3; 1 Timóteo 2.1-2; Colossenses 4.2) ; à leitura das Escrituras (Êxodo 24.7; Deuteronômio 31.11-13; Josué 8.34-35; Neemias 8.1-8; Lucas 4.16-21; Atos 13.14-15; Colossenses 4.16; 1 Tessalonicenses 5.27; 1 Timóteo 4.13; Apocalipse 1.3) e à comunhão dos santos (No Antigo Testamento: Êxodo 19.5-6; Levítico 23.1-3; Deuteronômio 16.16-17; Salmo 122.1-4; Salmo 133.1-3; Neemias 8.1-3; Neemias 10.28-39. No Novo Testamento: Atos 2.41-47; Atos 4.32-35; Atos 5.12; Atos 6.1-7; Romanos 12.4-13; 1 Coríntios 12.12-27; 1 Coríntios 14.26-40; Efésios 2.19-22; Efésios 4.1-16; Hebreus 10.24-25).

Em Atos 2.42 lemos: “E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações.” Esse retrato da igreja primitiva apresenta uma comunidade firmada na doutrina, na adoração, na dependência de Deus e faziam isso “na comunhão”.

Um argumento sólido aqui precisa separar duas coisas que muitas vezes são confundidas: circunstância histórica e norma teológica.

A igreja primitiva, especialmente no primeiro século, não possuía ordinariamente edifícios próprios de culto por razões amplamente reconhecidas:

·        A rejeição inicial de muitos judeus à mensagem apostólica limitava o acesso das comunidades cristãs às sinagogas em expansão pós-Páscoa.

·        A perseguição romana, em diferentes intensidades, tornava a organização pública e estável de propriedades cristãs algo arriscado e, em certos períodos, impossível.

Além disso, a própria natureza missionária inicial da igreja apostólica fazia com que ela se reunisse frequentemente em casas (Atos 2.46; Romanos 16.5; Colossenses 4.15). No entanto, concluir disso que a igreja não necessita de locais próprios de reunião hoje é um salto lógico que não se sustenta.

O ponto central é que o Novo Testamento descreve a ausência de edifícios como consequência histórica, não como princípio teológico normativo. Em nenhum momento os apóstolos transformam essa limitação circunstancial em doutrina sobre o culto cristão. Pelo contrário, o que se vê é a ênfase na reunião ordenada da igreja como corpo visível, independentemente do espaço físico utilizado.

Ou seja, a igreja primitiva não era “anti-estrutura”, nem “anti-local de culto”; ela era uma igreja em condição histórica adversa, ainda não havia desenvolvido plenamente formas fixas de institucionalização espacial, porque estava em fase missionária inicial sob perseguição, sob restrição social e política. Além disso, o próprio desenvolvimento posterior da história da igreja - já nos séculos II e III - mostra comunidades cristãs adquirindo espaços próprios para reunião, à medida que as condições sociais permitiam, sem qualquer indicação de que isso fosse considerado uma ruptura com a prática apostólica.

Portanto, o argumento de que “a igreja primitiva não tinha templos, logo o templo não é necessário hoje” confunde a necessidade teológica (o que Cristo instituiu) com limitação histórica (o que as circunstâncias permitiam).

O Novo Testamento não estabelece a ausência de edifícios como ideal normativo, mas sim a centralidade da igreja reunida sob a Palavra, independentemente do espaço em que isso ocorre.

A esperança final da igreja aponta para a consumação da redenção. O povo atualmente peregrino será plenamente glorificado. A comunhão iniciada nesta era não será interrompida, mas elevada à sua forma perfeita na presença imediata de Deus.

Em Apocalipse 21.2-3, essa realidade é descrita quando se afirma: “Vi também a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus, ataviada como noiva adornada para o seu esposo... Eis o tabernáculo de Deus com os homens...”. A noiva, a cidade santa, a nova Jerusalém é a Igreja redimida e glorificada. Contudo, essa linguagem não deve ser compreendida como uma simples continuidade histórica da igreja em seu estado institucional atual, como se apenas se prolongasse indefinidamente a forma presente de sua organização.

Na perspectiva reformada, trata-se da consumação escatológica do próprio povo de Deus: a igreja triunfante, plenamente redimida e glorificada em Cristo para viver eternamente com Cristo. Aqui, é importante reconhecer um princípio de continuidade na forma como Deus se relaciona com o seu povo ao longo da história da redenção: o povo da aliança sempre se manifesta de maneira pública, concreta e historicamente perceptível.

No Antigo Testamento, Israel não era uma realidade invisível ou meramente interior, mas um povo identificável, reunido, estruturado e reconhecível na história. No Novo Testamento, a igreja igualmente se apresenta como comunidade reunida, dotada de ordenanças, culto e vida comum. E, na consumação final, esse mesmo povo redimido permanece real, concreto e glorificado - portanto, também “visível” no sentido de existência corporal ressurreta e manifesta, já plenamente livre de corrupção e imperfeição.

Há, portanto, coerência interna na revelação bíblica: o povo de Deus não aparece como uma realidade abstrata ou apenas espiritualizada em algum estágio da história. Ele se manifesta, em cada etapa do plano redentivo, de forma concreta e reconhecível - seja em Israel, na igreja apostólica ou na igreja glorificada.

Assim, torna-se incoerente sustentar a ideia de uma fé cristã apartada da igreja visível na presente era, como se a comunhão concreta do povo de Deus fosse opcional ou secundária. A própria progressividade da revelação demonstra o contrário: o Deus da aliança forma um povo real, reunido e perceptível na história, que será finalmente consumado em glória, sem deixar de ser o mesmo povo, agora plenamente restaurado em Cristo.

Há, portanto, verdadeira continuidade do povo da aliança, o mesmo povo que Deus chamou, justificou e santificou em Cristo, mas também uma descontinuidade essencial de condição. Após a consumação de todas as coisas, a igreja deixa o estado de peregrinação, marcado por luta, imperfeição e meios ordinários de graça, e entra na realidade consumada da glória, onde tudo o que é parcial é finalmente aperfeiçoado.

Nesse estado final, já não se trata da igreja em sua forma visível histórica, mas do povo de Deus consumado, perfeitamente santificado e imediatamente diante da presença do Cordeiro. Não há mais igreja militante, nem sacramentos como meios de edificação, nem disciplina eclesiástica, nem mediações pastorais como as conhecemos nesta era. Há, sim, a plena comunhão com Deus (Cristo, o próprio Tabernáculo de Deus com os homens), sem obstáculos, sem sombras e sem necessidade de sinais, pois a realidade significada estará plenamente presente.

Assim, a história da igreja não terminará em dispersão, fracasso ou dissolução, mas na preservação fiel do Senhor sobre o seu povo até o fim. A noiva será finalmente apresentada sem mancha diante do seu Senhor, e a comunhão parcialmente experimentada agora será consumada na nova criação, em perfeita visão e gozo da glória de Deus em Cristo.

Por isso a igreja não pode ser reduzida a mera estrutura sociológica, a ambiente de entretenimento religioso, a mecanismo de influência política ou a espaço de consumo espiritual.Ela é a assembleia do povo redimido, reunido pela Palavra de Deus, sustentado pela graça de Cristo e conduzido pelo Espírito Santo até a plena restauração de todas as coisas.


Rev. Júlio Pinto

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