quinta-feira, 14 de maio de 2026

Tema 30 - A Obra de Cristo: Sua humilhação, obediência, expiação, morte e ressurreição

     “Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores.” (Romanos 5.8)

    “Porque o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.” (Marcos 10.45)

    “Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras.” (1 Coríntios 15.3)

    “Foi entregue por causa das nossas transgressões e ressuscitou por causa da nossa justificação.” (Romanos 4.25)

    Após tratarmos da queda, da aliança da graça e da pessoa de Cristo, chegamos agora ao próprio centro da redenção: a obra realizada pelo Mediador. Tudo o que foi estabelecido anteriormente conduz inevitavelmente a este ponto. A pergunta agora já não é apenas quem é Cristo? Mas: o que Cristo realizou?

    A Escritura apresenta a obra de Cristo como o cumprimento histórico do decreto eterno de Deus para salvar Seu povo. O Filho eterno encarnou-se não apenas para ensinar, operar milagres ou oferecer exemplo moral, mas para realizar objetivamente a redenção dos eleitos por meio de Sua obediência, sofrimento, morte e ressurreição.

    Isso também é fundamental para compreender corretamente os milagres realizados por Cristo. Os sinais messiânicos não possuíam como propósito principal simplesmente aliviar sofrimentos temporais ou estabelecer um ministério centrado apenas em curas físicas. Os profetas do Antigo Testamento já haviam anunciado que, quando o Messias viesse, Ele traria consigo não apenas o perdão dos pecados, mas também manifestações visíveis de Seu domínio sobre as consequências da queda. Isaías profetiza:

“Então, se abrirão os olhos dos cegos, e se desimpedirão os ouvidos dos surdos; os coxos saltarão como cervos...” (Isaías 35.5-6).

    Esses sinais apontavam para algo maior do que simples restauração física momentânea. Eles funcionavam como evidência pública de que o Reino messiânico havia chegado e de que o próprio Messias possuía autoridade divina para remover aquilo que o pecado produziu no mundo.

    Isso se torna extremamente claro no episódio do paralítico. Antes mesmo de ordenar sua cura, Cristo declara: “Filho, os teus pecados estão perdoados” (Marcos 2.5). Os escribas imediatamente reagem: “Quem pode perdoar pecados, senão Deus?” (Marcos 2.7).

    A objeção deles, embora marcada por incredulidade, reconhecia corretamente uma verdade central: perdoar pecados é prerrogativa divina. E é exatamente aí que Cristo conecta o milagre físico ao perdão espiritual. Ele responde: “Ora, para que saibais que o Filho do Homem tem sobre a terra autoridade para perdoar pecados; disse ao paralítico: Eu te mando: levanta-te, toma o teu leito e vai para tua casa” (Marcos 2.10-11).

    A cura torna-se, portanto, sinal visível de uma autoridade invisível maior. Cristo não está ensinando que toda enfermidade individual decorre diretamente de um pecado específico cometido pela pessoa enferma, mas demonstrando que Ele possui autoridade sobre os efeitos produzidos pela queda no Éden. O Messias prometido veio atacar a própria raiz da ruína humana: pecado, culpa, corrupção, morte e todas as misérias decorrentes da queda.

    Os milagres, portanto, não eram fins em si mesmos. Eles apontavam para a identidade do Messias e para a natureza da redenção que Ele estava inaugurando. Cristo não veio apenas melhorar temporariamente as condições terrenas do homem caído, mas trazer redenção verdadeira e definitiva.

Toda a história bíblica converge para isso.

  • As promessas feitas após a queda;
  • os sacrifícios do Antigo Testamento;
  • o sistema sacerdotal;
  • o derramamento de sangue;
  • o cordeiro pascal;
  • o Dia da Expiação;
  • o templo;
  • o sacerdócio;
  • e as profecias messiânicas apontavam progressivamente para a obra redentora de Cristo.

    Nada disso era acidental. Tudo preparava o cenário para o verdadeiro Cordeiro de Deus. João Batista afirmou claramente: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!” (João 1.29)

    A obra de Cristo precisa ser compreendida especialmente em dois grandes aspectos: Sua humilhação e Sua exaltação.

    A humilhação refere-se ao estado no qual o Filho de Deus voluntariamente assumiu nossa condição humana caída (sem pecado) submetendo-se ao sofrimento, à fraqueza humana, à dor, à oposição dos homens e, finalmente, à morte.

     Paulo descreve isso esplendidamente ao afirmar que Cristo “a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz” (Filipenses 2.8). Contudo, a humilhação do Filho não começa apenas no Calvário. Ela inicia-se já na encarnação. O Filho eterno entra no mundo criado por Suas próprias mãos e assume verdadeira natureza humana. Aquele que possui toda glória nasce em condição humilde. O Senhor soberano sujeita-Se voluntariamente às limitações próprias da humanidade, experimentando fome, cansaço, dor e sofrimento. Ele suporta tentações, oposição, desprezo e rejeição por parte das próprias criaturas que vieram à existência por meio dEle. Toda a Sua vida terrena é marcada por esse estado de humilhação voluntária, no qual o Deus-homem não abandona Sua glória divina, mas a vela sob a forma de servo para cumprir perfeitamente a obra redentora determinada pelo Pai desde a eternidade.

    Isso possui enorme importância teológica. O Filho eterno, por meio de quem todas as coisas foram criadas, entra na própria criação que veio à existência pela Palavra do Seu poder. O Legislador santo submete-Se voluntariamente à lei que Ele mesmo havia dado. Aquele cuja pureza é absoluta passa a habitar entre pecadores, suportando oposição, rejeição e humilhação. O Rei da glória não surge cercado de majestade terrena, mas nasce em condição humilde, assumindo a forma de servo. E tudo isso não ocorre por limitação, necessidade ou imposição externa, mas por livre condescendência redentora. O Cristo não foi constrangido a descer; Ele voluntariamente humilhou-Se para cumprir o propósito eterno da redenção do Seu povo.

    Cristo não foi vítima involuntária dos acontecimentos da história. Sua morte não foi acidente político nem mero martírio religioso. A cruz estava no centro do plano redentivo de Deus desde a eternidade. Pedro afirma: “sendo este entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus...” (Atos 2.23). Ao mesmo tempo, os homens permanecem plenamente responsáveis por sua maldade. Mais uma vez aparece aquilo que já vimos anteriormente acerca da providência divina: Deus governa soberanamente a história sem tornar-se autor moral do pecado.

A obra de Cristo também precisa ser compreendida à luz de Sua obediência. Onde Adão falhou, Cristo venceu. O primeiro Adão desobedeceu. O segundo Adão obedeceu perfeitamente. Por isso Paulo estabelece o paralelo: “pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim também, por meio da obediência de um só, muitos se tornarão justos” (Romanos 5.19). A obediência de Cristo possui dois aspectos inseparáveis. 

    Primeiro, há aquilo que a teologia historicamente chamou de obediência ativa de Cristo. Durante toda a Sua vida terrena, o Filho encarnado cumpriu perfeitamente toda a lei de Deus. Ele amou o Pai sem qualquer desvio, obedeceu plenamente à vontade divina, viveu em santidade absoluta e satisfez integralmente todas as exigências da justiça de Deus. Nenhuma corrupção, transgressão ou inclinação pecaminosa foi encontrada nEle. Isso era absolutamente necessário porque a salvação não envolve apenas remoção de culpa, mas também a concessão de justiça positiva diante de Deus. O pecador não necessita somente que sua condenação seja retirada; necessita também de perfeita justiça para permanecer aceito diante do Deus santo. Cristo realiza exatamente isso em favor do Seu povo para ser seu único Mediador.

    Segundo, há aquilo que tradicionalmente se denomina obediência passiva de Cristo. O Filho submeteu-Se voluntariamente ao sofrimento, à humilhação e finalmente à morte expiatória na cruz. O termo “passiva” não significa inatividade ou ausência de ação, como se Cristo fosse mero alvo impotente dos acontecimentos. Pelo contrário, Ele entrega-Se voluntariamente ao sofrimento determinado no plano redentivo de Deus. A expressão refere-se ao fato de que Cristo sofre sobre Si a penalidade do pecado, suportando o juízo que pertencia aos pecadores. O Santo toma o lugar dos culpados, recebendo sobre Si a condenação que Sua justiça perfeita jamais mereceu.

Aqui entramos no coração da expiação. A cruz não foi mero símbolo de amor. Não foi simples demonstração moral.  Não foi apenas vitória exemplar sobre sofrimento. Cristo morreu vicariamente. Ou seja: morreu em favor de Seu povo; como substituto de seu povo; suportando a penalidade do pecado do seu povo. Isaías já havia profetizado: “o castigo que nos traz a paz estava sobre ele” (Isaías 53.5). E novamente: “o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos” (Isaías 53.6).  A cruz possui caráter penal e substitutivo. Cristo sofreu aquilo que o pecado merece e o justo toma o lugar dos injustos. Exatamente o que Pedro afirma: “Cristo morreu uma única vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para conduzir-vos a Deus” (1 Pedro 3.18).

Aqui também se conecta diretamente tudo aquilo que vimos nos temas anteriores sobre:

    • culpa;
    • ira divina;
    • condenação;
    • justiça de Deus;
    • e juízo.

    O problema do homem não era apenas corrupção moral interna. O homem estava juridicamente condenado diante de Deus. Por isso a cruz envolve satisfação da justiça divina. Cristo suportou a maldição, a condenação e o juízo que pertenciam ao Seu povo. Paulo deixa claro que “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar” (Gálatas 3.13). Contudo, o pensamento paulino jamais aponta para uma vida desleixada ou indiferente à santificação. A justificação não anula a santificação. Cristo removeu a culpa condenatória do Seu povo, mas não eliminou instantaneamente a presença da corrupção remanescente nesta vida. Pelo contrário, o mesmo Cristo que justifica também santifica. 

    A obra da redenção não consiste apenas em livrar o pecador do inferno, mas em conformá-lo progressivamente à imagem do próprio Filho. Por isso Cristo ora ao Pai: “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade” (João 17.17). A santificação ocorre mediante a ação do Espírito Santo por meio da Palavra de Deus, mortificando progressivamente o pecado na vida do crente. E a Escritura declara solenemente: “segui a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hebreus 12.14). Isso não significa salvação por obras, mas demonstra que a fé salvadora jamais permanece sozinha ou estéril. O Cristo que remove a culpa também transforma aqueles que verdadeiramente pertencem a Ele. 

E isso somente é possível porque o Mediador é: verdadeiro homem e verdadeiro Deus. Pois, como homem, representa Seu povo e, como Deus, Sua obra possui valor infinito e perfeita eficácia . Assim entendemos por qual motivo Cristo não corrigiu a afirmação dos escribas quando disseram: “Quem pode perdoar pecados, senão Deus?” (Marcos 2.7). Pelo contrário, Ele confirma Sua autoridade divina exatamente ao realizar o milagre diante deles. A divindade de Cristo é indispensável para o evangelho porque somente Deus pode salvar plenamente. Somente Deus possui vida em Si mesmo. Somente Deus pode satisfazer perfeitamente a justiça divina, vencer plenamente o pecado, a morte, Satanás e o próprio juízo. Nenhuma mera criatura possuiria, em seu próprio ser, dignidade, poder ou perfeição suficientes para realizar redenção eterna.

   Tudo isso destrói completamente qualquer tentativa de reduzir Cristo a mero mestre moral, filósofo religioso ou simples exemplo ético. Se o problema fundamental do homem fosse apenas ignorância, bastaria ensino. Se fosse mera falta de informação espiritual, bastariam instruções morais. Entretanto, a Escritura descreve a condição humana em termos infinitamente mais graves. O homem encontra-se morto em delitos e pecados, culpado diante da justiça divina, escravizado pela corrupção do pecado e debaixo da ira santa de Deus. O problema humano não é apenas intelectual, mas moral, espiritual e jurídico. Por isso era necessária verdadeira expiação. O pecado exigia condenação, e a justiça divina precisava ser satisfeita.

    Entretanto, a morte de Cristo não representa derrota. A cruz aparentava vergonha, fraqueza e triunfo das trevas. Aos olhos humanos, parecia o colapso do Messias prometido. Contudo, precisamente ali consumava-se a vitória decretada por Deus desde a eternidade. Aquilo que parecia triunfo satânico tornou-se exatamente o instrumento de sua ruína definitiva. Como já vimos anteriormente ao tratar de Gênesis 3.15, o Descendente da mulher pisaria a cabeça da serpente. Na cruz, Cristo vence o pecado, derrota a morte, despoja Satanás e triunfa sobre o próprio juízo que pairava sobre Seu povo. O Redentor sofre, mas por meio do Seu sofrimento destrói o poder daquele que tinha o império da morte. A cabeça da serpente é esmagada.

    E a confirmação pública, histórica e definitiva dessa vitória é a ressurreição. A ressurreição não é detalhe secundário do evangelho, mas elemento indispensável da fé cristã. Paulo afirma categoricamente: “e, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé” (1 Coríntios 15.17). Ao ressuscitar o Filho, o Pai declara publicamente a perfeita aceitação de Sua obra expiatória. A ressurreição confirma Sua vitória sobre a morte, manifesta Sua justiça perfeita e assegura infalivelmente a redenção final dos santos.

    Cristo não apenas morreu. Ele ressuscitou corporalmente. E isso nao pode ser colocado em segundo plano. A redenção cristã não consiste em fuga espiritual da matéria ou abandono da criação, mas na redenção do homem inteiro. O mesmo Cristo que assumiu verdadeira carne, morreu corporalmente e foi sepultado, também ressuscitou corporalmente. A tumba ficou vazia. O corpo não permaneceu no sepulcro. Isso conecta-se diretamente com tudo aquilo que vimos anteriormente acerca da criação, da encarnação e da restauração final de todas as coisas. O Deus que criou o mundo material não abandonará Sua criação ao caos definitivo, mas a restaurará plenamente em Cristo.

Por isso a ressurreição inaugura aquilo que a Escritura chama de nova criação. Paulo declara que Cristo é “as primícias dos que dormem” (1 Coríntios 15.20). Ou seja, Sua ressurreição não é evento isolado, mas garantia da futura ressurreição gloriosa de todo o Seu povo. O Cristo ressurreto é o início da consumação final da redenção. (VEJA NOTA DE FIM SOBRE FUNDAMENTAÇÃO HISTÓRICA)

A obra de Cristo, portanto, não trata apenas de um perdão abstrato ou de consolo religioso subjetivo. Ela envolve reconciliação verdadeira com Deus, justificação diante do tribunal divino, vitória sobre a morte, derrota do reino das trevas, santificação progressiva e glorificação futura. E tudo isso foi realizado não pelo esforço humano, mérito religioso ou capacidade moral do homem, mas exclusivamente pela obra perfeita do Mediador.

Por isso o evangelho não anuncia primariamente aquilo que o homem deve fazer por Deus, mas aquilo que Deus realizou em Cristo para salvar pecadores.

E isso nos conduz naturalmente ao próximo grande tema quando trataremos sobre a aplicação da redenção: chamado eficaz, regeneração, conversão, fé, arrependimento, justificação, adoção, santificação e sobre a perseverança dos santos.


Rev. Julio Pinto

Nota de fim:
A própria argumentação de Paulo em 1 Coríntios 15 demonstra que a ressurreição de Cristo não era apresentada pelos apóstolos como mito religioso, linguagem simbólica ou experiência subjetiva interna. Paulo escreve justamente para confrontar alguns em Corinto que negavam a ressurreição dos mortos. E, para responder a isso, ele não apela a especulações filosóficas, mas a testemunhas históricas. Ele afirma que Cristo apareceu a Cefas, aos doze, depois “a mais de quinhentos irmãos de uma só vez, dos quais a maioria sobrevive até agora” (1 Coríntios 15.6), além de Tiago e dos demais apóstolos. O argumento é extremamente forte em termos históricos e apologéticos. Paulo escreve como quem diz implicitamente: “Vocês querem verificar? Muitas dessas testemunhas ainda estão vivas. Perguntem a elas.” Isso seria um argumento suicida se a ressurreição fosse mera invenção facilmente refutável publicamente.

Os próprios evangelhos seguem a mesma linha ao enfatizar repetidamente as testemunhas da ressurreição, os encontros corporais com Cristo ressurreto, o túmulo vazio e o contato físico com o Senhor ressuscitado. Entretanto, muitos céticos modernos descartam essas narrativas como construções fantasiosas posteriores simplesmente por seu conteúdo sobrenatural. O problema dessa abordagem é que ela frequentemente ignora até mesmo fontes históricas externas ao cristianismo primitivo.

Um exemplo importante é Flavius Josephus, historiador judeu do primeiro século ligado ao contexto romano e não adepto da fé cristã. Em sua obra Antiguidades Judaicas (XVIII.3.3), o texto tradicional preservado afirma acerca de Cristo: “ἐφάνη γὰρ αὐτοῖς τρίτην ἔχων ἡμέραν πάλιν ζῶν”, expressão que literalmente é traduzida como: “pois apareceu a eles novamente vivo ao terceiro dia”. Certamente o texto é claro. E, dada a clareza das letras, céticos e leituras mais liberais sempre levantarão qualquer possibilidade de contestação textual, interpolação ou reinterpretação semântica para desvirtuar o maior dos milagres proclamados pelo cristianismo primitivo: a ressurreição. Ainda assim, permanece amplamente reconhecido que Josephus menciona Jesus como personagem histórico, Sua condenação sob Pôncio Pilatos e a continuidade do movimento de Seus seguidores após Sua morte, o que, no mínimo, confirma o impacto histórico imediato da proclamação cristã da ressurreição no primeiro século.  

Além disso, o próprio testemunho histórico do martírio apostólico reforça a seriedade da proclamação da ressurreição. Não se trata de uma tradição sustentada por conveniência social, ganho político ou benefício pessoal. Os primeiros proclamadores do evangelho enfrentaram perseguição, prisão e morte precisamente por afirmarem que Cristo ressuscitou dos mortos. A pergunta retórica permanece poderosa: quem, em sã consciência, sustentaria uma mentira até o ponto de perder a própria vida, sem qualquer vantagem terrena evidente? Os apóstolos não apenas pregaram a ressurreição, mas viveram e morreram por ela.

E não foram apenas os doze. A tradição histórica mais ampla do cristianismo primitivo aponta para uma comunidade apostólica e missionária que sofreu oposição severa em diferentes regiões do Império Romano, justamente por insistir na proclamação central de que Jesus está vivo. Esse padrão de testemunho até o martírio, longe de sugerir fraude consciente, reforça a convicção interna e pública de que a ressurreição não era invenção, mas realidade proclamada como fato histórico.

A ressurreição, portanto, não surge nas Escrituras como linguagem mística desvinculada da história, mas como acontecimento proclamado publicamente, sustentado por testemunhas e apresentado como evento objetivo ocorrido no espaço e no tempo.

quarta-feira, 13 de maio de 2026

International Church of the Foursquare Gospel – Igreja do Evangelho Quadrangular: história, doutrina e avaliação teológica reformada

A Igreja do Evangelho Quadrangular surgiu no contexto do pentecostalismo norte-americano do início do século XX, especialmente dentro do movimento de avivamento marcado por experiências carismáticas, curas divinas e ênfase em revelações espirituais extraordinárias. Sua formação está profundamente ligada à figura de Aimee Semple McPherson, considerada a principal fundadora e organizadora da denominação.

Aimee Semple McPherson nasceu no Canadá, em 1890, e foi influenciada pelo ambiente pentecostal que emergia após o chamado Avivamento da Rua Azusa (1906), em Los Angeles. Após viagens evangelísticas pelos Estados Unidos, ela ganhou notoriedade por suas campanhas públicas de cura, sermões dramatizados e uso pioneiro do rádio para evangelização.

Em 1923, ela fundou a igreja-sede conhecida como Angelus Temple, que se tornou o centro do ministério quadrangular. A denominação foi oficialmente organizada posteriormente como “International Church of the Foursquare Gospel”.

O nome “Quadrangular” (Foursquare Gospel) não surgiu de uma formulação teológica histórica clássica, mas de uma interpretação alegórica apresentada por McPherson durante suas pregações.

Segundo os relatos da própria fundadora, a expressão teria vindo a partir de uma “revelação” associada à visão dos quatro seres viventes de Ezequiel 1 e Apocalipse 4, bem como da expressão “four-square” usada em Ezequiel 40.2 acerca da simetria do templo. Ela passou a interpretar “quadrangular” como uma representação dos quatro aspectos centrais do ministério de Cristo: 

·        Cristo como Salvador

·        Cristo como Batizador com o Espírito Santo

·        Cristo como Médico dos corpos (Curador)

·        Cristo como Rei que há de voltar

 

Esse esquema tornou-se o eixo doutrinário e identitário da denominação.

A formulação quadrangular de McPherson: “Cristo Salvador, Batizador com o Espírito Santo, Médico e Rei que há de voltar” possui um valor didático interno, mas, quando analisada à luz da estrutura bíblica do Novo Testamento, especialmente sob uma leitura histórico-gramatical, ela introduz uma separação conceitual que a Escritura não sustenta entre a obra salvífica de Cristo e a doação do Espírito Santo.

A questão central não é negar os aspectos da obra de Cristo, mas perceber que o Novo Testamento apresenta uma unidade orgânica entre o senhorio de Cristo, sua obra salvadora e o dom do Espírito, de modo que certas distinções feitas no esquema quadrangular acabam deslocando a coerência teológica do texto bíblico.

 

1. “Cristo Salvador” e “Cristo Batizador com o Espírito Santo”: uma unidade bíblica

No Novo Testamento, a salvação em Cristo não é apresentada como uma realidade separada da recepção do Espírito, como se fossem duas experiências distintas e cronologicamente separáveis. Pelo contrário, receber Cristo implica receber o Espírito, e ser salvo implica ser incorporado à nova vida espiritual.

 

Paulo é particularmente claro: 

Se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele” (Rm 8.9).

Pois todos nós fomos batizados em um Espírito, formando um corpo” (1Co 12.13).

“...em quem também vós, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, tendo nele também crido, fostes selados com o Santo Espírito da promessa;” (Ef 1.13)

Aqui, o “batismo no Espírito” não aparece como uma segunda experiência subsequente à salvação, mas como a própria linguagem da incorporação regeneradora ao corpo de Cristo.

Efésios 1.13 é um dos textos mais importantes para compreender a linguagem neotestamentária sobre a obra do Espírito Santo na conversão e na incorporação do crente a Cristo. Paulo escreve:

“...em quem também vós, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, e nele também, tendo crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa.

A expressão “selados com o Espírito Santo” (gr. sphragizō) não descreve uma experiência paralela ou posterior à fé salvadora, mas o ato definitivo de pertencimento, autenticação e incorporação do crente a Cristo no momento da conversão.

 

1. O ser “selado” como linguagem de propriedade e pertencimento

No mundo greco-romano, um selo era usado para indicar: 

·        posse (algo pertence a alguém),

·        autenticidade (algo é verdadeiro),

·        proteção (algo está garantido),

·        identidade (marca de quem é o dono).

 

Assim, quando Paulo diz que o crente é “selado com o Espírito”, ele está afirmando que o Espírito Santo é: 

·        o sinal eficaz de que o crente pertence a Cristo, (o batismo invisível)

·        a marca da autenticidade da fé verdadeira,

·        e o garantidor escatológico da salvação final. 

Isso está em harmonia com Efésios 1.14, onde o Espírito é chamado de “penhor da nossa herança”.

 

2. Ser “selado” e “batismo no Espírito”: unidade de linguagem, não de eventos 

A tradição pentecostal frequentemente distingue entre a conversão (crer em Cristo), e “batismo no Espírito Santo” como experiência subsequente. No entanto, em textos como Efésios 1.13, Romanos 8.9 e 1 Coríntios 12.13, a Escritura apresenta o recebimento do Espírito como algo inseparável da fé salvadora.

Quando Paulo fala de “ser selado”, ele está descrevendo a mesma realidade teológica que outros textos descrevem como: 

ser batizado em um Espírito” (1Co 12.13)

receber o Espírito de Cristo” (Rm 8.9)

nascer do Espírito” (Jo 3.5–8)

habitação do Espírito em vós” (Rm 8.11) 

Essas não são experiências concorrentes, mas variações linguísticas que enfatizam aspectos diferentes de uma única obra do Espírito na união com Cristo.

As quatro ocorrências da manifestação do Espírito em Atos em locais distintos, apenas cumprem essa mesma perspectiva. Em Atos 2 não se trata somente do cumprimento da promessa feita através de Joel, mas também marca o início do cumprimento de uma profecia de Cristo feita em Atos 1.8 (Jerusalém, Judeia, Samaria e até os confins da terra) e progressivamente se cumpre em Atos 2, 8, 10, 19.

 

3. O “batismo com o Espírito” como incorporação, não segunda experiência 

Em 1 Coríntios 12.13, Paulo define: “Pois todos nós fomos batizados em um Espírito, formando um corpo...” Aqui, o “batismo no Espírito” não é apresentado como um evento emocional posterior, mas como o ato pelo qual o crente é inserido em Cristo, incorporado ao corpo da igreja e tornado participante da nova aliança. Esse mesmo efeito é o que Efésios 1.13 chama de “ser selado”.

Ou seja:

batismo no Espírito” (ênfase na incorporação)

ser selado com o Espírito” (ênfase na propriedade e garantia)

Estas são duas descrições da mesma realidade redentiva.

 

4. Unidade da obra do Espírito na conversão 

O Novo Testamento não fragmenta a obra do Espírito em etapas independentes. Ao contrário, Ele é descrito como aquele que simultaneamente convence do pecado (Jo 16.8), regenera (Jo 3.5–8), une a Cristo (1Co 6.17), habita no crente (Rm 8.9–11), sela o crente (Ef 1.13–14) e o insere no corpo (1Co 12.13).

Essas expressões não indicam múltiplas “recepções do Espírito”, mas múltiplos aspectos de uma única obra aplicada no momento da fé salvadora.

À luz de Efésios 1.13, é teologicamente consistente afirmar que “ser selado com o Espírito Santo” não é uma experiência isolada, nem uma fase posterior da vida cristã, mas uma descrição apostólica da própria aplicação da salvação pelo Espírito no momento da fé em Cristo.

Portanto, expressões como:

·        Ser selado (Ef 1.13),

·        batismo no Espírito (1Co 12.13),

·        habitação do Espírito (Rm 8.9),

·        regeneração (Jo 3.5–8),

não devem ser lidas como eventos separados, mas como diferentes ângulos linguísticos de uma única realidade: a união do crente com Cristo pelo Espírito Santo no ato da conversão.

Assim, o que a tradição quadrangular separa em dois títulos funcionais (“Salvador” e “Batizador”) o Novo Testamento frequentemente apresenta como um único ato redentor de Cristo aplicado pelo Espírito em união com Ele.

O Espírito Santo não atua como uma “segunda fase” independente da obra de Cristo; Ele é o agente da aplicação da salvação de Cristo, de modo que o “batismo no Espírito” é, em essência, a aplicação da obra salvadora já consumada por Cristo.

 

2. O senhorio de Cristo como eixo da salvação (e não apenas “Salvador”) 

Um ponto decisivo no Novo Testamento é que Cristo não é primariamente apresentado como “Salvador” em termos isolados, mas como Senhor e Cristo, cuja salvação é consequência da submissão à sua autoridade. A pregação apostólica enfatiza isso de forma consistente:

Antes, santificai a Cristo como Senhor em vosso coração” (1Pe 3.15).

Se com a tua boca confessares Jesus como Senhor e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo” (Rm 10.9).

Deus o fez Senhor e Cristo” (At 2.36). 

Note a estrutura: o título normativo não é “Salvador”, mas “Senhor”. A salvação é apresentada como resultado da fé obediente ao senhorio de Cristo, não como uma adesão parcial a um de seus “aspectos funcionais”.

Em Paulo, a lógica é ainda mais direta: a conversão é descrita como transferência de domínio, do reino das trevas para o senhorio de Cristo (Cl 1.13). Isso significa que ser salvo é ser governado por Cristo.

Assim, o reducionismo prático que separa “aceitar Cristo como Salvador” de “submeter-se a Cristo como Senhor” não encontra apoio na estrutura apostólica. O Novo Testamento não apresenta duas recepções de Cristo, mas uma única união com Ele que inclui perdão, regeneração e submissão.

 

3. A distorção conceitual do esquema “Salvador vs. Batizador” 

Quando se cria uma distinção funcional entre: Cristo como Salvador (justificação/perdão) Cristo como Batizador (experiência subsequente do Espírito), abre-se espaço para uma teologia de “duas etapas” da vida cristã: Aceitação inicial de Cristo para salvação e uma posterior experiência do Espírito como plenitude separada.

Contudo, o Novo Testamento apresenta que a regeneração é obra do Espírito (Jo 3.5–8); de que a fé salvadora já é operada pelo Espírito (1Co 12.3) e que a união com Cristo já inclui participação no Espírito (Rm 8.9–11). Portanto, a lógica bíblica não comporta uma separação entre “Cristo Salvador” e “Cristo Batizador”, pois o Espírito não adiciona uma segunda obra de Cristo; Ele aplica a única obra de Cristo na vida do crente.

 

4. A centralidade apostólica: Cristo como Senhor crucificado e ressuscitado

 

A ênfase dos evangelhos e das epístolas não é fragmentar Cristo em funções, mas proclamá-lo em sua identidade integral de Cristo crucificado, ressuscitado e exaltado como Senhor. Paulo resume isso ao dizer que sua pregação não era uma coleção de experiências espirituais, mas uma única mensagem: “Jesus Cristo, e este crucificado” (1Co 2.2).

Pedro, por sua vez, chama à fé em Cristo como fundamento de esperança e santificação, não como um conjunto de “níveis espirituais” a serem alcançados separadamente.

O esquema quadrangular, embora útil como linguagem catequética interna, tende a produzir três deslocamentos teológicos relevantes à luz do Novo Testamento:

1.       Fragmenta a unidade da obra de Cristo, separando funções que a Escritura integra.

2.       Cria uma divisão artificial entre salvação e Espírito, quando ambos são inseparáveis na aplicação da redenção.

3.       Reduz o senhorio de Cristo a uma função entre outras, quando o testemunho apostólico o coloca como eixo central da fé e da salvação.

 

Na perspectiva bíblica reformada não se trata de negar que Cristo salva, batiza com o Espírito, cura e reina, mas de afirmar que tudo isso flui de uma única realidade central: Jesus Cristo é o Senhor exaltado, cuja obra redentora é aplicada pelo Espírito Santo naqueles que, pela fé, são unidos a Ele.

 

Principais doutrinas da Quadrangular

 

A igreja mantém crenças comuns ao evangelicalismo histórico, como: 

1.       Trindade;

2.       divindade de Cristo;

3.       autoridade das Escrituras;

4.       necessidade de conversão;

5.       morte e ressurreição de Cristo.

 

Todavia, diversas de suas doutrinas e práticas entram em conflito com o cristianismo bíblico.

 

Pontos de oposição ao cristianismo

1. Continuação normativa dos dons revelacionais

A tradição quadrangular sustenta a continuidade normativa de: profecias, revelações, línguas, palavras de conhecimento, curas miraculosas frequentes.

O cristianismo bíblico, especialmente em sua tradição confessional histórica reformada, entende que os dons revelacionais extraordinários tinham função fundacional apostólica e cessaram com o fechamento do cânon bíblico e a conclusão da era apostólica.

Os reformados veem com cautela a ideia de “novas revelações”, por entenderem que a suficiência das Escrituras já foi plenamente estabelecida (2Tm 3.16-17; Hb 1.1-2; Jd 3). Obs. Há um estudo disponível somente para esse assunto. Caso queira aprofundar, deixe seu contato nos comentários que envio o arquivo.

 

2. Ênfase experiencial acima da centralidade bíblica

 

O pentecostalismo quadrangular historicamente enfatiza: 

·        experiências espirituais subjetivas,

·        manifestações sobrenaturais,

·        campanhas de milagres,

·        curas e sinais.

 

O cristianismo bíblico, por sua vez, insiste que: 

·        a fé deve ser regulada prioritariamente pela Escritura;

·        a vida da igreja deve estar centrada nos meios ordinários da graça:

·        pregação,

·        sacramentos,

·        oração,

·        disciplina eclesiástica (disciplina de faltosos).

 

A crítica reformada é que o experiencialismo frequentemente desloca a centralidade da exposição bíblica sólida. Veja sugestão de leitura ao final. 

 

3. Doutrina do batismo no Espírito Santo como experiência subsequente (já tratado anteriormente).

 

4. Tendência pragmática e revivalista

 Historicamente, a Quadrangular adotou o evangelismo de massa, a teatralização de sermões, os métodos pragmáticos de crescimento e mantém forte personalismo ministerial que desfoca Cristo e foca no ministro.

O pensamento reformado rejeita metodologias centradas em impacto emocional ou carisma pessoal como fundamento da vida e crescimento da igreja, insistindo no princípio regulador do culto e na suficiência dos meios instituídos por Cristo.

 

5. Doutrina de cura divina com forte ênfase prática

 Embora haja nuances internas, muitos setores quadrangulares enfatizam fortemente as campanhas de cura, expectativa contínua de milagres físicos (frequentemente com data e hora marcadas pelo pregador – o pregador é senhor sobre Deus), associação entre fé e restauração corporal.

De fato, Deus pode curar soberanamente, mas rejeita a ideia de um “ministério normativo de curadores” semelhante ao apostólico, bem como qualquer expectativa que aproxime cura física da obra ordinária garantida nesta era.

 

Considerações históricas adicionais

 A Igreja Quadrangular cresceu amplamente na América Latina, especialmente no Brasil, onde foi introduzida na década de 1950 pelos missionários Harold Williams e Mary Williams. Ela exerceu enorme influência sobre o pentecostalismo brasileiro moderno, especialmente no modelo de cruzadas evangelísticas, no uso de rádio e mídia, na ênfase em cura divina e no desenvolvimento posterior do neopentecostalismo brasileiro.

Do ponto de vista reformado, a crítica principal não costuma ser dirigida à confissão trinitária ou cristológica da Quadrangular, mas:

·        ao subjetivismo espiritual,

·        à continuidade de revelações,

·        ao afastamento do princípio regulador do culto,

·        e à relativização prática da suficiência das Escrituras e dos meios ordinários de graça estabelecidos por Cristo à Sua Igreja.

 

Rev. Júlio Pinto


Sugestão de leitura para aprofundamento já disponível no Blog: Porque uma única Bíblia e tantas religiões e denominações.

Esse texto trata do motivo pelo qual existe uma única bíblia e tantas religiões e denominações.

 

Parte 01 - https://revjuliopinto.blogspot.com/2011/04/por-que-uma-unica-biblia-e-tantas.html

Parte 02 - https://revjuliopinto.blogspot.com/2011/04/por-que-uma-unica-biblia-e-tantas_08.html

Parte 03 -

https://revjuliopinto.blogspot.com/2011/04/por-que-uma-unica-biblia-e-tantas_8090.html

Parte 04 - https://revjuliopinto.blogspot.com/2011/04/por-que-uma-unica-biblia-e-tantas_7590.html

Parte 05 -

https://revjuliopinto.blogspot.com/2011/04/por-que-uma-unica-biblia-e-tantas_2275.html

Parte 06 -

https://revjuliopinto.blogspot.com/2011/04/por-que-uma-unica-biblia-e-tantas_1690.html 

Tema 29 - A Pessoa de Cristo: verdadeiro Deus e verdadeiro homem

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.” (João 1.1)

E o Verbo se fez carne e habitou entre nós...” (João 1.14)

Há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem.” (1 Timóteo 2.5)

Porque aprouve a Deus que, nele, residisse toda a plenitude.” (Colossenses 1.19)

Amas a justiça e odeias a iniquidade; por isso, Deus, o teu Deus, te ungiu com o óleo de alegria, como a nenhum dos teus companheiros.” (Salmo 45.7)

 

Após tratarmos da aliança da graça, surge inevitavelmente a pergunta central de toda a redenção: quem é o Mediador prometido desde Gênesis 3.15? Quem é o Descendente que pisaria a cabeça da serpente, cumpriria perfeitamente a justiça de Deus, suportaria a culpa do pecado e reconciliaria pecadores com o Deus santo?

É exatamente aqui que entramos na doutrina da pessoa de Cristo. Toda a Escritura converge para Ele. A história da redenção não é organizada em torno do homem, da igreja ou da experiência religiosa, mas em torno da pessoa e da obra do Filho de Deus encarnado. Cristo é o centro da aliança da graça, o cumprimento das promessas veterotestamentárias e o Mediador entre Deus e os homens.

E isso imediatamente nos conduz a uma verdade absolutamente fundamental da fé cristã: Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Negar qualquer um desses aspectos destrói o evangelho. Se Cristo não é verdadeiro homem, então não pode representar legitimamente a humanidade caída. E, se não é verdadeiro Deus, não possui dignidade infinita para suportar plenamente a ira divina, vencer a morte e salvar eficazmente Seu povo.

Por isso a Escritura afirma ambas as verdades simultaneamente.

João declara:

o Verbo era Deus” (João 1.1)

E logo adiante:

o Verbo se fez carne” (João 1.14)

 Aquele que assumiu natureza humana já existia eternamente antes da encarnação. Cristo não começou a existir em Belém. O Filho é eterno. Ele estava com o Pai desde toda a eternidade. Como já vimos anteriormente ao tratar dos decretos eternos de Deus e da própria Trindade, o Filho não é criatura elevada, nem é um ser intermediário entre Deus e os homens. Ele é plenamente Deus.

Hebreus 1 atribui explicitamente ao Filho prerrogativas e atributos que pertencem somente a Deus. O próprio argumento do autor é demonstrar a absoluta superioridade do Filho sobre todas as criaturas, inclusive os anjos.

Sobre a Eternidade do Filho ele diz: “mas acerca do Filho: O teu trono, ó Deus, é para todo o sempre; e: Cetro de eqüidade é o cetro do seu reino. Amaste a justiça e odiaste a iniqüidade; por isso, Deus, o teu Deus, te ungiu com o óleo de alegria como a nenhum dos teus companheiros. Ainda: No princípio, Senhor, lançaste os fundamentos da terra, e os céus são obra das tuas mãos; eles perecerão; tu, porém, permaneces; sim, todos eles envelhecerão qual veste;  também, qual manto, os enrolarás, e, como vestes, serão igualmente mudados; tu, porém, és o mesmo, e os teus anos jamais terão fim.” (Hebreus 1.8-12)

O texto aplica ao Filho palavras originalmente dirigidas a Yahweh no Salmo 102. Isso aponta para Sua imutabilidade e eternidade.

Acerca da glória divina de Cristo, afirma: “Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser...” (Hebreus 1.3). Cristo não apenas reflete parcialmente a glória divina; Ele é o “resplendor” dela e a expressão exata do ser de Deus.

Sobre a autoridade soberana diz: “Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por estrado dos teus pés.” (Hebreus 1.13). O Filho recebe entronização soberana à direita de Deus, posição de governo e domínio universal. Também: “Mas acerca do Filho: O teu trono, ó Deus, é para todo o sempre...” (Hebreus 1.8). O próprio Filho é chamado “Deus” e possui trono eterno.

Não só estava na criação do universo: “...pelo qual também fez o universo.” (Hebreus 1.2); E ainda: “Tu, Senhor, no princípio fundaste a terra...” (Hebreus 1.10). O Filho não é parte da criação, nem apenas estava na criação; Ele é o Criador.

Ele sustenta continuamente todas as coisas: “...sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder...” (Hebreus 1.3). Aqui aparece a doutrina da providência ligada diretamente a Cristo. O universo não apenas foi criado por Ele; continua existindo porque é continuamente sustentado por Seu poder soberano. Isso conecta diretamente a cristologia com aquilo que já foi estabelecido anteriormente acerca:

·        da criação;

·        da providência;

·        e da soberania divina.

O universo existe por meio dEle e continua existindo por Seu poder sustentador.

Isso destrói completamente qualquer tentativa de reduzir Cristo a mero mestre moral, profeta iluminado ou líder religioso excepcional. Cristo não é apenas alguém que aponta para Deus. Ele é Deus revelado em carne.

Paulo declara: “porque nele habita corporalmente toda a plenitude da Divindade” (Colossenses 2.9). Observe cuidadosamente: “CORPORALMENTE”. A encarnação não foi aparência simbólica nem manifestação temporária ilusória. O Filho assumiu verdadeira natureza humana.

 E isso possui enorme importância apologética.

Ao longo da história surgiram erros que espiritualizaram Cristo de tal forma que praticamente negaram Sua humanidade real. Em certas perspectivas, a matéria passa a ser vista como inferior, indigna ou incompatível com a verdadeira espiritualidade. Entretanto, a própria encarnação destrói completamente essa ideia. O Filho eterno assumiu carne verdadeira: Não aparência de corpo, não era uma manifestação simbólica, nem tampouco se tratou de mera projeção espiritual.

Cristo:

·        nasceu;

·        cresceu;

·        cansou-se;

·        chorou;

·        sofreu;

·        sangrou;

·        morreu;

·        e ressuscitou corporalmente.

A redenção bíblica não é fuga da criação material, mas restauração da criação caída. O problema nunca foi a materialidade criada por Deus, mas o pecado que corrompeu o homem. Como vimos anteriormente ao tratar da queda, a corrupção entrou na criação por meio da rebelião moral da criatura, não pela existência do mundo físico em si, ao que Deus havia dito quando criou: “Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom.” (Genesis 1:31)

Isso também possui profundas implicações para a vida cristã. A espiritualidade bíblica não separa artificialmente corpo e espírito como se o corpo fosse irrelevante para Deus ou incompatível com verdadeira santidade. O mesmo Cristo que assumiu carne verdadeira é também o modelo perfeito da humanidade restaurada. Paulo afirma que os eleitos foram “predestinados para serem conformes à imagem de seu Filho” (Romanos 8.29).

Isso não significa participação na essência divina, mas conformidade progressiva à santidade de Cristo. E essa conformidade não ocorre apenas em abstrações interiores desligadas da vida concreta, mas alcança o homem inteiro. O culto cristão envolve corpo, mente, afetos, vontade e existência concreta diante de Deus. Por isso Paulo exorta: “apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional” (Romanos 12.1).

Isso confronta diretamente qualquer espiritualidade que trate a matéria, o corpo ou a vida concreta como algo inerentemente inferior ou indigno do serviço a Deus. Cristo viveu corporalmente em perfeita obediência ao Pai. Sua encarnação demonstra não apenas a realidade da redenção, mas também que a verdadeira santidade pode e deve manifestar-se ainda nesta vida concreta, mesmo em meio à fraqueza da carne caída. O problema do homem não está no fato de possuir corpo, mas no pecado que corrompe o homem inteiro.

1.       Por isso a ressurreição de Cristo é corporal.

2.       Por isso a ressurreição futura dos santos será corporal.

3.       Por isso a redenção final alcançará inclusive a própria criação que geme debaixo da corrupção (Romanos 8.19-23).

A fé cristã não é religião da fuga do mundo criado, mas é a religião que mostra a redenção do homem inteiro.

Ao mesmo tempo, a Escritura também rejeita qualquer tentativa de reduzir Cristo apenas à Sua humanidade. Isso ocorre frequentemente em abordagens liberais modernas que transformam Jesus apenas em um mestre ético, revolucionário social, símbolo de amor ou exemplo moral. Mas Cristo reivindica autoridade divina, perdoa pecados, recebe adoração, afirma unidade com o Pai e é explicitamente chamado Deus nas Escrituras. Tomé declara: “Senhor meu e Deus meu!” (João 20.28). E Cristo não corrige a afirmação. A divindade de Cristo é indispensável para o evangelho uma vez que somente Deus pode salvar, somente Deus possui vida em Si mesmo. Ainda precisamos ressaltar que somente Deus pode vencer plenamente o pecado, a morte, o próprio Satanás, bem como o juízo.

Sobre Deus vencer o juízo, falamos da obra de Cristo que: satisfez plenamente a justiça divina; removeu a condenação jurídica do pecado (culpa); suportou a ira santa de Deus na cruz e triunfou definitivamente sobre o veredito condenatório que pesa sobre os pecadores. Isso também ilumina profundamente tudo aquilo que vimos anteriormente sobre a santidade divina, a justiça divina e a aliança da graça.

O problema do pecado não poderia ser resolvido simplesmente por relaxamento moral de Deus. A culpa exigia satisfação real da justiça divina. A corrupção exigia redenção real da natureza humana. A morte exigia vitória real sobre o juízo. Por isso o Mediador precisava ser plenamente homem e plenamente Deus.

A Confissão de Fé de Westminster afirma exatamente isso ao declarar que Cristo possui duas naturezas completas, distintas e inseparáveis em uma única pessoa. Isso é chamado de união hipostática (realidade subsistente).

Isso significa que Cristo não é duas pessoas, nem mistura confusa de naturezas, nem homem divinizado e, tampouco é Deus transformado em homem. Ele é: um só Cristo, possui duas naturezas sendo: verdadeira divindade e verdadeira humanidade. Sem confusão, sem divisão, sem alteração, sem separação. A natureza divina não deixou de ser divina. A natureza humana não deixou de ser humana. O Filho assumiu aquilo que não possuía anteriormente: humanidade verdadeira.

Filipenses 2 descreve isso de maneira profundamente gloriosa: “subsistindo em forma de Deus... a si mesmo se humilhou...” (Filipenses 2.6-8). Isso não significa que Cristo abandonou Sua divindade na encarnação. A chamada “kenosis” não é esvaziamento da natureza divina. O Filho não deixou de possuir atributos divinos. O “esvaziamento” refere-se à humilhação voluntária assumida na condição de servo.

Cristo não deixou de ser Deus. Ele adicionou humanidade à Sua pessoa divina. Isso também evita erros extremamente perigosos que imaginam um Cristo menos divino durante a encarnação, limitado ontologicamente (em seu ser) ou separado parcialmente de Seus atributos eternos. Mesmo encarnado, o Filho continua sustentando todas as coisas pela palavra do Seu poder.

E aqui aparece novamente a glória da redenção. O eterno entra no tempo. O Criador entra na criação. O Legislador coloca-se sob a lei. O Santo assume a condição humana sem pecado. O Rei torna-se servo. O Juiz coloca-se no lugar de condenados. E, tudo isso, para salvar Seu povo. Hebreus afirma: “convinha que, em todas as coisas, se tornasse semelhante aos irmãos...” (Hebreus 2.17)

Cristo é o segundo Adão.

·        Onde o primeiro Adão falhou, Cristo obedeceu perfeitamente.

·        Onde Adão trouxe condenação, Cristo traz justificação.

·        Onde Adão trouxe morte, Cristo traz vida.

Isso nos conduz diretamente à:

·        queda;

·        pacto das obras;

·        culpa imputada;

·        e redenção.

A história inteira da humanidade está representada federalmente em dois homens: Adão e Cristo. E somente os unidos a Cristo participam da reconciliação, da justiça, da vida eterna e da glorificação futura.

Além disso, Cristo exerce os ofícios de profeta, sacerdote e rei. Como profeta, revela perfeitamente Deus ao Seu povo. Como sacerdote, oferece a Si mesmo em sacrifício pelos pecados e intercede continuamente pelos Seus. Como rei, governa soberanamente Sua igreja e subjuga todos os Seus inimigos.

Isso também corrige um erro moderno extremamente comum: querer um Cristo Salvador sem o Seu Senhorio. O Cristo bíblico não oferece apenas conforto espiritual. Ele exige: arrependimento, submissão, fé, obediência e adoração. Não existe união verdadeira com Cristo sem sujeição ao Seu governo, o qual Ele exerce pelos meios ordinários que Ele mesmo determinou: Igreja visível (1 Timóteo 3.15), ajuntamento solene (Hebreus 10.25), povo guiado pelos que Ele mesmo chamou ao ministério (Efésios 4.11-12; Hebreus 13.17).

Decorrente disso, esta distorção moderna extremamente difundida em certos ambientes evangélicos contemporâneos: a ideia de um “Cristo apenas Salvador”, mas não necessariamente Senhor é vista nos apelos aos finais de culto. Em muitas formulações populares, apresenta-se Cristo quase como uma oferta opcional de benefícios espirituais, enquanto Seu governo, autoridade e direito absoluto sobre a vida do homem são relativizados ou adiados. Entretanto, a linguagem dominante das Escrituras segue exatamente a direção oposta.

Os apóstolos não chamavam os homens a uma mera “aceitação de benefícios espirituais”, mas à rendição diante do Senhor ressurreto. A pregação apostólica em Atos é profundamente centrada no senhorio de Cristo. Pedro declara: “Saiba, pois, com certeza, toda a casa de Israel que a esse Jesus, que vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo” (Atos 2.36). Paulo afirma: “Se, com a tua boca, confessares Jesus como Senhor...” (Romanos 10.9). E novamente: “ninguém pode dizer: Senhor Jesus!, senão pelo Espírito Santo” (1 Coríntios 12.3). A própria proclamação apostólica era resumida frequentemente na expressão: “Jesus Cristo é o Senhor” (Filipenses 2.11). E, Pedro destaca fortemente: “...antes, santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração, estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós...” (1 Pedro 3.15”.

Isso não significa que a salvação seja produzida por mérito humano de submissão perfeita. A própria fé salvadora é dom da graça. Entretanto, significa que o Cristo recebido pela fé nunca é dividido. O mesmo Cristo que salva é o Cristo que reina. O mesmo Cristo que justifica também governa. Não existe, nas Escrituras, um “Cristo Salvador” separado de Seu senhorio soberano.

Por isso, a salvação aparece nas Escrituras como consequência da união verdadeira com Cristo pela fé. E essa união envolve necessariamente reconhecimento de Sua autoridade, rendição diante de Seu governo e sujeição à Sua Palavra. O evangelho apostólico não oferece um Cristo moldado às preferências do homem natural, mas anuncia o Rei exaltado diante de quem todo joelho deve se dobrar (Filipenses 2.10-11).

Ao mesmo tempo, não existe esperança para pecadores fora dEle. Porque somente Cristo: satisfaz perfeitamente a justiça divina, remove verdadeiramente a culpa, quebra o domínio do pecado, derrota Satanás; vence a morte e reconcilia o homem com Deus. Tudo converge para Ele.

·        A criação aponta para Ele.

·        A providência é governada por Ele.

·        A aliança da graça é estabelecida nEle.

·        As promessas encontram cumprimento nEle.

·        A redenção é realizada por Ele.

·        E a consumação final ocorrerá sob Seu reino eterno.

Por isso Paulo afirma: “porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas” (Romanos 11.36)

 E isso nos conduz naturalmente ao próximo grande tema que vai tratar da obra de Cristo:  Sua humilhação, obediência, expiação, morte e ressurreição.


Rev. Júlio Pinto