Parte 01 – A quem administrar o sinal da aliança.
Ao longo de toda a história da redenção, Deus não apenas
chamou um povo para Si, mas também determinou sinais visíveis que
identificassem externamente esse povo dentro da administração da aliança. Desde
o Antigo Testamento até a plenitude da nova aliança em Cristo, o Senhor
estabeleceu marcas pactuais pelas quais Sua promessa era oficialmente
confirmada diante da comunidade da fé. O batismo deve ser compreendido
exatamente dentro dessa estrutura pactual e redentiva das Escrituras.
O Novo Testamento jamais apresenta o batismo como ritual
religioso autônomo, mera cerimônia simbólica criada posteriormente pela igreja,
nem simples expressão emocional de uma decisão individual. Pelo contrário. O
próprio Cristo o instituiu solenemente ao ordenar: “Ide,
portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e
do Filho, e do Espírito Santo;” (Mateus 28.19). Desde o princípio,
portanto, o batismo pertence à ordem visível da igreja e à administração
pública da aliança estabelecida por Deus.
Na tradição reformada, o batismo é compreendido como sinal e
selo da aliança da graça. Ele não produz regeneração automaticamente,
como se houvesse poder inerente na água ou eficácia mecânica no rito em si
mesmo. A tradição reformada historicamente rejeitou a noção sacramentalista
conhecida como ex opere operato, segundo a qual a graça seria
comunicada automaticamente pelo simples ato sacramental independentemente da fé
e da operação soberana do Espírito Santo. Contudo, também rejeitou o extremo
oposto que reduz o batismo a mero símbolo vazio sem realidade espiritual
objetiva, ou sem necessidade de sua administração. O batismo é instrumento real
instituído por Cristo, pelo qual Deus confirma visivelmente Suas promessas ao
Seu povo dentro da administração da aliança.
É exatamente dentro dessa continuidade que a relação entre
circuncisão e batismo deve ser entendida.
A argumentação paulina em Colossenses 2.11–12 e em Romanos 4
é decisiva para compreender o batismo como sinal da nova aliança em
continuidade tipológica com a circuncisão, não como mera inovação ritual
isolada, mas como deslocamento histórico-salvífico do mesmo princípio pactual.
A circuncisão
apontava para purificação, separação pactual e pertencimento ao povo da
promessa; o batismo surge agora sob a plenitude da nova aliança como sinal
correspondente da união com Cristo consumada em Sua morte e ressurreição.
Isso não implica uma repetição mecânica ou uma simples
substituição externa entre sinais, como se o batismo fosse apenas uma
transposição formal da circuncisão. A Escritura revela, antes, uma progressão
orgânica na administração da mesma aliança da graça. A circuncisão, enquanto
sinal instituído em Gênesis 17, funcionava como marca visível de pertença ao
povo da aliança no contexto da administração tipológica e nacional de Israel.
Ainda assim, desde o Antigo Testamento, sua abrangência não era rigidamente
étnica, pois o estrangeiro incorporado ao povo deveria também receber o sinal
da circuncisão, sendo integrado plenamente à comunidade pactual (cf. Gn
17.12–13; Êx 12.48–49), o que demonstra que, mesmo em sua forma antiga, o
princípio era já inclusivo mediante incorporação ao pacto.
Contudo, essa estrutura encontra sua ampliação escatológica
e universal em Cristo. Na nova aliança, inaugurada pelo Mediador definitivo, a
pertença ao povo de Deus não é mediada por fronteiras nacionais ou por uma
tipologia etno-civil, mas pela união com Cristo mediante fé, realidade agora
confessada e selada no batismo (Cl 2.11–12). Assim, o que antes estava restrito
à economia tipológica de Israel torna-se visivelmente universal na
administração neotestamentária, sem alteração do princípio pactual subjacente.
Dessa forma, não há ruptura de essência entre os sinais, mas
continuidade na substância da aliança e transformação na sua administração
histórica. Deus continua, em ambos os testamentos, confirmando externamente Sua
promessa mediante sinais visíveis instituídos por Ele mesmo; o que se altera é
a forma de administração, agora plenamente cristocêntrica e universalizada em
Cristo, no qual todas as sombras encontram sua consumação.
Essa estrutura aparece repetidamente nas Escrituras. Em
Gênesis 17, Deus estabelece Sua aliança com Abraão e ordena que o sinal seja
aplicado não apenas ao patriarca crente, mas também aos seus filhos. O sinal da
aliança nunca foi restrito exclusivamente àqueles capazes de formular profissão
verbal madura de fé. O princípio sempre envolveu a administração visível da
promessa ao povo da aliança e à sua descendência.
O Novo Testamento jamais revoga explicitamente esse
princípio pactual envolvendo os filhos dos crentes. Pelo contrário. Pedro, no
sermão de Pentecostes, ao concluir a necessidade do batismo ele afirma: “Pois para vós outros é a promessa, para vossos filhos e para
todos os que ainda estão longe, isto é, para quantos o Senhor, nosso Deus,
chamar.” (Atos 2.39). A linguagem permanece profundamente pactual e
ecoa diretamente a estrutura abraâmica da aliança.
A própria lógica da soberania divina reforça esse princípio.
Em muitos contextos modernos, o batismo passou a ser condicionado quase
exclusivamente à capacidade intelectual de formular publicamente determinada
profissão consciente de fé. Contudo, a estrutura da aliança nas Escrituras
nunca esteve fundamentada primariamente na autonomia decisória humana, mas na
iniciativa soberana de Deus que chama para Si um povo. Desde Abraão, o Senhor
estabelece Sua promessa antes mesmo da plena compreensão daquele que recebe o
sinal da aliança. O princípio pactual nasce da revelação divina e não da
capacidade humana de reivindicá-la autonomamente.
É justamente nesse ponto que surge uma das objeções mais
frequentes contra o batismo infantil. Muitos afirmam que o batismo exigiria
necessariamente profissão pública consciente de fé, apelando principalmente
para textos como Marcos 16.16 “quem crer e for
batizado”, e para os relatos do livro de Atos, nos quais conversões
adultas normalmente aparecem seguidas do batismo. Segundo essa leitura, somente
indivíduos capazes de formular conscientemente sua fé poderiam legitimamente
receber o sinal da nova aliança.
Contudo, esse argumento enfrenta sérias dificuldades diante
da própria estrutura pactual revelada nas Escrituras. Na antiga aliança, os
meninos circuncidados ao oitavo dia evidentemente não possuíam compreensão intelectual
madura acerca do significado espiritual do rito que recebiam. Ainda assim, Deus
ordenava explicitamente sua circuncisão (Gn 17.12). A legitimidade do sinal
jamais esteve fundamentada primariamente na capacidade cognitiva do receptor,
mas na promessa soberana do próprio Deus.
Além disso, a legislação mosaica mostra que estrangeiros
adultos que desejassem participar da páscoa deveriam ser circuncidados
juntamente com todos os homens de sua casa (Êx 12.48). Assim, o mesmo princípio
pactual abrangia tanto adultos conscientes quanto seus descendentes inseridos
na administração da aliança. A estrutura nunca foi individualista.
Essa objeção, contudo, quando levada à sua coerência
interna, produz uma implicação teológica decisiva. Se a validade do sinal
pactual e a pertença visível à comunidade da aliança dependem necessariamente
de algum grau de resposta consciente de fé — seja ela explicitamente formulada
ou implicitamente exercida — então todos aqueles que são permanentemente
incapazes de atos cognitivos de assentimento, discernimento ou resposta
intencional não poderiam, por definição, cumprir o critério exigido para
participação ordinária no sinal nem para a confissão que o acompanha. O
problema ultrapassa o campo sacramental e atinge diretamente a compreensão da
soberania da graça divina.
O ponto aqui não é reduzir a questão a linguagem verbal, mas
reconhecer que qualquer forma de “resposta de fé”, mesmo implícita, pressupõe
algum nível de agência cognitiva mínima. Se essa condição é tornada
constitutiva da inclusão sacramental e, por extensão, da pertença ordinária ao
povo visível de Deus, então indivíduos que não possuem tal capacidade não
apenas ficam fora da administração do sinal, mas são colocados numa categoria
de exclusão estrutural dos meios ordinários pelos quais a fé é normalmente
confessada e selada.
Levada ao seu termo lógico, essa estrutura desloca o eixo da
economia pactual de uma iniciativa graciosa que também inclui aqueles privados
de capacidade de resposta para uma condição cuja realização depende, ainda que
minimamente, de agência cognitiva. É precisamente esse deslocamento que revela
a tensão interna da objeção: ao universalizar a exigência de resposta
consciente como critério constitutivo, ela reconfigura indevidamente os limites
da administração visível da graça.
O ponto decisivo, portanto, não é estabelecer uma regra
mecânica de inclusão ou exclusão com base em capacidades cognitivas, mas
afirmar a liberdade soberana de Deus na aplicação de Sua graça. A Escritura não
apresenta a ação salvífica de Deus como dependente de um limiar mínimo de racionalidade
ou de expressão consciente, mas como inteiramente subordinada ao Seu
beneplácito.
Isso se torna particularmente evidente em passagens como
Lucas 1.15–44. Já no anúncio a Zacarias, é declarado que João Batista seria “cheio do Espírito Santo desde o ventre materno”,
indicando uma atuação divina anterior a qualquer exercício de consciência
discursiva. Em seguida, o próprio texto descreve o reconhecimento de Cristo por
João ainda no ventre, quando Isabel, cheia do Espírito Santo, interpreta o
movimento do filho como resposta à presença do Messias. O foco do texto não é
estabelecer um padrão normativo de experiência, mas revelar a iniciativa
soberana de Deus que precede e transcende os marcos ordinários da consciência
humana.
Assim, esses episódios não funcionam como regra universal,
mas como manifestação paradigmática de que Deus não está vinculado às
limitações naturais da agência cognitiva do homem para operar eficazmente a Sua
graça. Eles servem como testemunho de que a economia da salvação é governada
primariamente pela ação livre do Espírito Santo, e não pela capacidade humana
de resposta consciente, ainda que esta normalmente acompanhe a fé em sua
expressão ordinária.
Desse modo, qualquer construção teológica que condicione
rigidamente a pertença aos meios da graça à plena capacidade de resposta consciente
incorre no risco de restringir aquilo que a própria Escritura apresenta como
pertencente à soberania absoluta de Deus na aplicação da redenção.
Além disso, há também uma fragilidade exegética importante
na leitura frequentemente feita de Marcos 16.16. Muitos tratam a conjunção “e” em “quem crer e for
batizado” como se ela estabelecesse obrigatoriamente uma cronologia
rígida entre fé consciente e posterior administração do sinal. Contudo, o texto
pode perfeitamente expressar a soma ordinária dos elementos da vida cristã sem
estabelecer regra cronológica absoluta para toda circunstância da administração
da aliança. A própria Escritura apresenta construções distintas. Cristo, ao
falar com Nicodemos, afirma: “quem não nascer da
água e do Espírito...” (João 3.5), invertendo inclusive a ordem
normalmente exigida pelos credobatistas em sua leitura cronológica rígida. O
eixo central do texto não é estabelecer mecânica temporal absoluta, mas afirmar
a necessidade da obra divina aplicada ao homem.
Além disso, diversos episódios no Novo Testamento descrevem
batismos de casas inteiras (Atos 16.15; Atos 16.31–34; 1 Coríntios 1.16).
Embora tais textos não sejam prova isolada e absoluta da presença de crianças
em cada caso, revelam claramente que a lógica da aliança continua operando em
termos familiares e comunitários, e não meramente individualistas.
Além disso, a ausência de qualquer declaração apostólica
explícita de ruptura com o princípio pactual anteriormente estabelecido por
Deus em relação à inclusão dos filhos no povo da aliança possui relevância
histórica e teológica significativa. Se a administração da nova aliança
implicasse uma descontinuidade radical nesse ponto, com a exclusão dos filhos
dos crentes da comunidade visível do pacto, seria razoável esperar algum tipo
de instrução apostólica clara, sobretudo em um contexto de transição histórica
tão profundo quanto o da passagem de Israel para a Igreja.
No entanto, o Novo Testamento não apenas carece de uma
proibição desse tipo, como também preserva elementos estruturais que nos
direcionam à uma continuidade pactual. A
promessa dirigida “a vós e a vossos filhos”
em Atos 2.38–39 ecoa diretamente a formulação pactual do Antigo Testamento,
enquanto a prática doméstica do batismo em múltiplos contextos (At 16.15;
16.33; 1Co 1.16) reflete o padrão corporativo característico da administração
pactual anterior. Além disso, Jesus mesmo acolhe crianças como pertencentes ao
Reino em sua dimensão presente, sem qualquer indicação de exclusão da esfera
visível da comunidade da aliança (Mc 10.14).
Além disso, Jesus mesmo acolhe crianças como pertencentes ao
Reino em sua dimensão presente, sem qualquer indicação de exclusão da esfera
visível da comunidade da aliança (Mc 10.14). Essa dinâmica se torna ainda mais
elucidativa quando observada à luz da parábola do joio e do trigo (Mt 13.24–30;
36–43). Ali, Cristo descreve o “campo”
como o âmbito histórico do Reino, no qual o trigo é semeado pelo Filho do
Homem, enquanto o joio é introduzido pelo inimigo; ambos coexistem até o tempo
determinado da colheita final, sem que aos servos seja concedida a prerrogativa
de uma separação imediata com base em critérios perceptíveis no presente.
O ponto teológico central da parábola não está na
equivalência das naturezas, mas na administração soberana do Reino em sua
manifestação histórica. O joio, embora seja revelado como tal apenas no
desfecho escatológico, permanece durante todo o processo inserido na esfera
visível do campo do Reino, sem que isso comprometa a distinção final
estabelecida pelo Juiz. De modo análogo, a criança, inserida na ordem pactual e
no contexto da promessa divina, não é definida pela sua capacidade atual de
resposta consciente, mas pela ação soberana de Deus que governa a composição do
Seu povo ao longo da história redentiva.
Assim, tanto no caso do joio quanto no da criança, o eixo
interpretativo não reside na autonomia humana nem na capacidade de
autoidentificação com o pacto, mas na liberdade divina que determina os sinais
e as formas de pertencimento à sua aliança visível. A Escritura
consistentemente desloca o fundamento da pertença da iniciativa humana para o
decreto e a ação eficaz de Deus, seja na permissão de uma convivência histórica
entre justos e ímpios no âmbito visível do Reino, seja na inclusão de filhos da
promessa sob o sinal da aliança.
Em ambos os casos, portanto, tanto do adulto quanto da
criança, é a soberania de Deus, e não a disposição subjetiva ou a maturidade
cognitiva do indivíduo, que estabelece os contornos do sinal externo de
pertencimento à comunidade da aliança, até a consumação final em que o próprio
Deus revelará plenamente a distinção entre aqueles que lhe pertencem de fato e
aqueles que apenas coexistiram na esfera visível do seu Reino.
Dessa forma, o peso não recai apenas sobre um “silêncio” do
texto, mas sobre a continuidade de categorias pactualmente carregadas que
atravessam a revelação bíblica. A expectativa natural, dentro desse quadro, não
é a de uma ruptura abrupta sem explicitação, mas a de uma reconfiguração
cristológica da mesma estrutura pactual, agora ampliada e universalizada em
Cristo.
Assim, a continuidade do princípio de inclusão familiar na
administração visível da aliança permanece, no mínimo, pressuposta ao longo do
testemunho apostólico, sem qualquer sinal textual equivalente de revogação ou
suspensão desse padrão teológico estabelecido.
Outra objeção bastante comum afirma que a nova aliança seria
composta exclusivamente por regenerados verdadeiros. Segundo essa leitura,
diferentemente de Israel no Antigo Testamento, a igreja da nova aliança não
poderia conter participantes apenas externos da comunidade pactual. Consequentemente,
o sinal da aliança deveria ser administrado apenas àqueles cuja conversão
regeneradora fosse previamente demonstrada.
Entretanto, essa interpretação entra em tensão direta com a
própria realidade bíblica da administração da aliança tanto no Antigo quanto no
Novo Testamento. Ainda em Deuteronômio, Moisés já distinguia claramente entre
circuncisão externa e realidade espiritual interna ao ordenar a Israel: “circuncidai, pois, o vosso coração” (Dt 10.16).
Isso demonstra que já existiam, dentro do povo visível da aliança, pessoas que
possuíam o sinal externo sem necessariamente possuírem a realidade espiritual
correspondente.
O mesmo padrão permanece no Novo Testamento. Cristo ensina
repetidamente que, no reino administrado historicamente neste mundo, coexistem
verdadeiros e falsos participantes. A parábola do joio e do trigo é explícita
nesse ponto (Mt 13.24–30). O joio está presente “no
reino” até a consumação final. A inserção visível na administração
da nova aliança não assegura automaticamente regeneração verdadeira.
Essa questão se torna ainda mais importante diante da
tendência moderna de reduzir completamente a fé cristã à experiência individual
privada. Em muitos contextos contemporâneos, o batismo passou a ser tratado
quase exclusivamente como testemunho subjetivo do indivíduo diante da igreja.
Contudo, nas Escrituras, o batismo não aponta primariamente para aquilo que o
homem declara acerca de si mesmo, mas para aquilo que Deus declara
objetivamente acerca da Sua aliança e das Suas promessas em Cristo.
Isso não elimina a necessidade da fé pessoal. A tradição
reformada jamais ensinou que o simples recebimento externo do batismo salva
alguém automaticamente. Assim como muitos circuncidados em Israel permaneceram
incrédulos, também há batizados que jamais demonstram verdadeira regeneração. O
sacramento não substitui a necessidade do novo nascimento. O sinal visível não
garante automaticamente a realidade espiritual interna.
A tradição reformada sempre distinguiu cuidadosamente entre
pertencimento externo à administração visível da aliança e regeneração interna
operada soberanamente pelo Espírito Santo. Nem todo circuncidado em Israel
possuía verdadeira fé salvadora, assim como nem todo batizado necessariamente
demonstra regeneração genuína. Ainda assim, Deus continuava ordenando a
aplicação do sinal da aliança ao Seu povo visível. Isso ocorre porque os
sacramentos não existem primariamente para confirmar a autonomia espiritual do
homem, mas para testemunhar objetivamente a fidelidade da promessa divina dentro
da história da redenção.
Outra objeção frequente procura romper completamente
qualquer continuidade entre circuncisão e batismo, entre Israel e igreja, ou
entre Antigo e Novo Testamento. Essa leitura, frequentemente associada ao
dispensacionalismo moderno, fragmenta a unidade progressiva da história da
redenção e nega continuidade pactual entre as administrações da aliança.
Contudo, as próprias Escrituras demonstram continuidade orgânica entre os
pactos, culminando precisamente na relação direta estabelecida por Paulo entre
circuncisão e batismo em Colossenses 2.11–12.
Também se tornou comum a objeção de que o batismo infantil
violaria o livre-arbítrio do indivíduo, já que ninguém deveria receber o sinal
da aliança antes de escolher conscientemente participar dela. Contudo, essa
leitura desloca o eixo da aliança da soberania divina para a autonomia
psicológica do homem. Nas Escrituras, o povo de Deus nunca nasce primariamente
da autodeterminação humana, mas da iniciativa soberana do Senhor que chama para
Si um povo dentro da história.
Outra objeção recorrente afirma que não existe mandamento
explícito no Novo Testamento ordenando diretamente o batismo infantil. Contudo,
esse argumento ignora que, durante séculos, os filhos dos crentes estiveram
incluídos na administração da aliança sem qualquer controvérsia. Se houvesse
ruptura tão radical na Nova Aliança, seria esperado que os apóstolos
declarassem explicitamente a exclusão daqueles que antes pertenciam
visivelmente ao povo pactual. O silêncio apostólico, nesse contexto, favorece
continuidade e não ruptura.
Também se tornou extremamente comum reduzir o batismo a
simples testemunho psicológico individual. Nessa visão moderna, o sacramento
seria apenas dramatização pública da experiência subjetiva de conversão.
Contudo, as Escrituras apresentam o batismo como sinal objetivo da promessa
divina dentro da administração da aliança, pertencente à igreja visível e não
meramente à interioridade emocional do indivíduo.
Alguns ainda afirmam que crianças não poderiam exercer fé
verdadeira. Contudo, esse argumento acaba subordinando a operação soberana da
graça à maturidade intelectual humana. As Escrituras jamais estabelecem a
capacidade cognitiva como limite absoluto da ação de Deus. O próprio padrão da
circuncisão ao oitavo dia, já demonstram que o sinal da aliança não depende
primariamente da plena consciência racional do receptor.
Por outro lado, a tradição reformada também reconhece que o
simples apelo à antiguidade histórica da prática não constitui fundamento final
da doutrina. Ainda assim, é relevante observar que o batismo infantil aparece
muito cedo na história da igreja pós-apostólica. Os testemunhos patrísticos e a
prática dos primeiros séculos demonstram que o pedobatismo não constitui
invenção medieval tardia, mas prática amplamente conhecida no cristianismo
antigo.
O batismo, portanto, possui dimensão profundamente
eclesiológica. Ele não diz respeito apenas à experiência privada do indivíduo
diante de Deus, mas à inserção visível na comunidade da aliança. Ninguém batiza
a si mesmo. O sacramento pertence à igreja reunida e administrada sob
autoridade legítima estabelecida por Cristo e não revogada ou esvaziada de sua importância
pelos apóstolos.
Essa realidade também confronta diretamente a
espiritualidade autônoma tão difundida em nossos dias. Muitos desejam Cristo
sem igreja, fé sem comunhão visível, espiritualidade sem submissão ao povo da
aliança. Contudo, o Novo Testamento constantemente apresenta os crentes
reunidos em comunidade visível, perseverando “na
doutrina dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão e nas orações”
(Atos 2.42). O batismo marca exatamente essa inserção pública e visível no
corpo da igreja.
Além disso, o próprio significado espiritual do batismo está
inseparavelmente ligado à união com Cristo. Paulo afirma em Romanos 6.3–4 que
os crentes foram batizados em Sua morte. O sacramento aponta para participação
na obra redentiva de Cristo: Sua morte, sepultamento e ressurreição. Não é a
água que produz essa união, mas o Espírito Santo que aplica eficazmente os
benefícios da redenção aos eleitos. O batismo, porém, atua como sinal visível
dessa realidade invisível.
Nesse sentido, o batismo aponta simultaneamente[i]:
·
para purificação do pecado;
·
para união com Cristo;
·
para inserção na comunidade da aliança;
·
para pertencimento ao povo visível de Deus;
·
e para a promessa da graça divina confirmada
externamente.
A própria natureza pública do batismo também impede que ele
seja tratado como prática meramente individual ou opcional. Cristo ordenou que
Sua igreja batizasse discípulos. O desprezo consciente do batismo não
representa mera diferença litúrgica secundária, mas resistência prática à ordem
estabelecida pelo próprio Senhor da igreja.
Ao mesmo tempo, a tradição reformada também rejeitou os
erros romanistas relacionados ao batismo. A água batismal não possui poder
mágico, nem atua independentemente da fé e da obra soberana do Espírito. A
regeneração pertence exclusivamente à ação divina. O sacramento confirma
objetivamente a promessa de Deus, mas sua eficácia espiritual plena ocorre
segundo o tempo, propósito e operação soberana do Espírito Santo.
Da mesma forma, a tradição reformada também rejeitou a
tendência anabatista e seus desdobramentos modernos, que acabam subordinando
excessivamente o sacramento à manifestação intelectual plenamente desenvolvida
do indivíduo. Embora a fé pessoal seja indispensável à salvação, o fundamento
da aliança jamais repousou sobre a maturidade cognitiva do homem, mas sobre a
promessa soberana de Deus. O Senhor continua sendo livre para operar Sua graça
segundo Seu propósito, inclusive no contexto dos filhos pertencentes
externamente à comunidade da aliança, chamando-os progressivamente à realidade
da fé viva em Cristo.
Por outro lado, o reducionismo memorialista moderno também
falha ao transformar o batismo em simples símbolo psicológico da experiência
individual. Nas Escrituras, os sacramentos nunca aparecem como sinais vazios.
Deus realmente utiliza meios visíveis para confirmar Sua Palavra ao Seu povo.
A própria estrutura da história redentiva testemunha essa
continuidade. No Antigo Testamento, Deus separava visivelmente Seu povo
mediante o sinal da circuncisão; no Novo Testamento, continua distinguindo Seu
povo mediante o batismo. A administração muda em sua forma histórica, mas
permanece o mesmo princípio pactual: Deus reunindo para Si uma comunidade
visível dentro da história, marcada por Sua promessa, sustentada por Sua
Palavra e conduzida soberanamente até a consumação final da redenção.
Assim, o batismo deve ser compreendido dentro da grande
unidade da história da redenção. O mesmo Deus que chamou Abraão, separou
Israel, instituiu sinais pactuais e preservou Seu povo ao longo das eras
continua hoje reunindo para Si uma igreja visível mediante Cristo. O batismo
permanece como marca visível da inserção do batizado na aliança, testemunhando
que Deus continua formando um povo para o Seu nome até a consumação final da
redenção.
[1] Ao
empregar a expressão “aponta simultaneamente”, não se pretende afirmar uma
correspondência histórica direta ou a descrição de um evento empírico
necessariamente ocorrido em cada ato batismal, mas indicar o caráter sacramental
e significante do rito. Trata-se de linguagem teológica que descreve a
função do sinal enquanto meio instituído por Deus para representar, selar e
aplicar promessas espirituais, sem que isso implique identidade automática ou
mecânica entre o sinal externo e a realidade espiritual significada em todos os
casos particulares.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
A todos os leitores peço que deixem seus comentários. Todos os comentários estarão sendo analisados segundo um padrão moral e ético bíblicos e respondidos à medida que se fizer necessário.