“Ninguém
pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer...” (João
6.44)
“Mas
Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou,
estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo...”
(Efésios 2.4-5)
“Necessário
vos é nascer de novo.” (João 3.7)
Após tratarmos da pessoa e da
obra de Cristo, surge naturalmente uma pergunta inevitável: como a redenção
conquistada por Cristo é aplicada ao pecador? Cristo morreu, ressuscitou,
venceu o pecado, a morte e Satanás. Mas de que maneira essa obra alcança
concretamente os eleitos na história?
Isso é extremamente importante
porque preserva aquilo que já foi estabelecido anteriormente acerca da
soberania divina, da depravação humana e da eficácia da obra de Cristo. O homem
caído não apenas necessita de ajuda espiritual externa. Ele necessita de vida.
Como vimos ao tratar da queda, a Escritura descreve o homem natural como
espiritualmente morto, escravizado ao pecado, inimigo de Deus e incapaz de
sujeitar-se verdadeiramente à lei divina.
Paulo afirma: “o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus”
(1 Coríntios 2.14).
E Cristo declara: “ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer”
(João 6.44).
Observe cuidadosamente: Cristo
não diz que o homem apenas “não quer” vir. Ele afirma com todas as letras que o
homem “não pode”. O problema da
humanidade caída não é mera falta de informação religiosa. É incapacidade moral
e espiritual produzida pelo pecado. Por isso a aplicação da redenção é obra
sobrenatural de Deus.
A Escritura distingue entre o
chamado externo do evangelho e o chamado eficaz do Espírito Santo.
O chamado externo ocorre sempre
que o evangelho é proclamado. Homens são convocados ao arrependimento e à fé.
Esse chamado é verdadeiro, sincero e universal na pregação do evangelho. Cristo
ordenou que o evangelho fosse anunciado a todas as nações. Entretanto, nem
todos os que ouvem externamente respondem salvificamente. Isso já havia sido
demonstrado pelo próprio Cristo na parábola do semeador. Muitos ouvem externamente;
poucos produzem fruto verdadeiro.
Por quê? Porque a conversão
verdadeira depende da operação eficaz do Espírito Santo no coração. É
exatamente isso que Paulo descreve em Romanos 8.30: “E aos que predestinou, a esses também chamou...” Esse chamado
não pode ser mero convite externo, porque todos os predestinados chamados nesse
texto chegam inevitavelmente à justificação e glorificação. Trata-se, portanto,
de chamado eficaz.
O chamado eficaz é a operação
soberana de Deus pela qual o Espírito Santo vivifica o pecador eleito, ilumina
sua mente, remove sua cegueira espiritual e o conduz infalivelmente a Cristo. Isso
nos conduz diretamente à regeneração.
Cristo declara a Nicodemos: “Necessário vos é nascer de novo” (João 3.7).
Observe a linguagem utilizada por
Cristo. O novo nascimento não aparece como reforma moral gradual, aprimoramento
psicológico ou simples mudança de comportamento religioso. Trata-se de um novo nascimento.
A Escritura usa outros termos para definir essa mesma situação, como: regenerar
(1 Pe 1.23); arrependimento = mudança de mente – metanóia (Mt 3.8, At
2.38); vivificar – dar vida (Ef 2.5); novo coração (Ez 36.26); Tirar o coração
de pedra (Ez 36.26); circuncisão do coração (Dt 30.6, Rm 2.29); ressurreiçao - a
espiritual (Ef. 2.6); nova criatura (2 Co 5.17); iluminação espiritual (2 Co
4.6; Hb 6.4); conversão (At 3.4);
Tudo isso aponta para uma verdade
central: A salvação bíblica não é mero ajuste comportamental, reforma religiosa
externa ou decisão psicológica autônoma. A regeneração é ato sobrenatural de
Deus pelo qual o Espírito Santo comunica vida espiritual ao pecador morto,
iluminando sua mente, transformando seu coração e conduzindo-o infalivelmente à
fé em Cristo.
Por isso a Escritura jamais
apresenta a conversão verdadeira como simples “aceitação intelectual” de ideias
religiosas. O evangelho anuncia ressurreição espiritual, nova criação e
nascimento vindo do alto. Exatamente o motivo pelo qual esse novo nascimento
não é ato produzido pelo próprio nascituro. Assim como ninguém produz seu
nascimento físico, o homem também não produz seu nascimento espiritual.
A regeneração é ato soberano do
Espírito Santo. Por isso Cristo compara a operação do Espírito ao vento: “O vento sopra onde quer...” (João 3.8). O Espírito
não age condicionado pela vontade autônoma do homem caído. Ele opera
soberanamente segundo o decreto eterno de Deus.
E aqui aparece uma das diferenças
mais profundas entre a teologia reformada e sistemas centrados no
livre-arbítrio autônomo. A Escritura não apresenta o homem como espiritualmente
neutro aguardando apenas informação suficiente para decidir-se por Deus. O
homem já nasce em carne, mas espiritualmente morto. E mortos não cooperam em
sua própria ressurreição espiritual – conversão.
Isso destrói a ideia moderna de
que a regeneração seria mero resultado da decisão humana. A fé salvadora não
produz o novo nascimento; é justamente o inverso, o novo nascimento é que produz
a fé salvadora. João afirma: “todo aquele que crê
que Jesus é o Cristo é nascido de Deus” (1 João 5.1).
A própria estrutura do texto aponta
que o novo nascimento precede a fé verdadeira. Isso aparece inclusive na
construção verbal utilizada por João. O verbo “crê”
encontra-se no presente, indicando o exercício atual da fé, enquanto a
expressão “é nascido” encontra-se em
forma verbal que aponta para uma ação já realizada anteriormente, num dado
momento passado, mas com resultados no presente. Em outras palavras: aquele
que atualmente crê demonstra que anteriormente já nasceu de Deus. A fé não
aparece como causa do novo nascimento, mas como evidência dele. Primeiro
Deus vivifica; depois o homem crê.
Isso também corrige reducionismos
evangelísticos extremamente comuns. A conversão bíblica não é mero apelo
emocional, experiência psicológica intensa ou simples repetição de fórmulas
religiosas. O evangelho não chama homens apenas a “tomarem uma decisão”. Ele
anuncia aquilo que Deus realiza soberanamente em pecadores mortos.
Ezequiel já havia profetizado
isso: “dar-vos-ei coração novo e porei dentro de vós
espírito novo...” (Ezequiel 36.26). Observe cuidadosamente mais uma
vez o mesmo princípio presente em todos os textos que tratam do novo
nascimento: é Deus quem remove o coração de pedra e concede coração de carne. A
iniciativa sempre pertence inteiramente à graça divina.
Aqui também é necessário corrigir
uma compreensão extremamente equivocada sobre a obra eficaz do Espírito Santo e
sobre aquilo que historicamente a teologia reformada chamou de graça
irresistível. Muitos afirmam que o homem possui capacidade de resistir
eficazmente à ação salvadora interna do Espírito Santo, impedindo que Deus
concretize Sua própria intenção de salvar. Frequentemente utilizam como
fundamento Atos 7.51, quando Estêvão declara diante do Sinédrio: “Vós sempre resistis ao Espírito Santo; assim como fizeram
vossos pais, também vós o fazeis.”
Entretanto, o contexto da fala de
Estêvão não trata de uma operação interna regeneradora do Espírito sendo
frustrada pela autonomia da vontade humana. O foco do texto é outro. Estêvão
está acusando aqueles homens de resistirem continuamente à revelação divina
trazida pelos profetas e pelos mensageiros enviados por Deus.
Isso fica absolutamente claro nos
versículos seguintes: “Qual dos profetas vossos pais
não perseguiram? Eles mataram os que anteriormente anunciavam a vinda do Justo,
do qual vós agora vos tornastes traidores e assassinos, vós que recebestes a
lei por ministério de anjos e não a guardastes.” (Atos 7.52-53)
Perceba cuidadosamente o
argumento de Estêvão. A resistência daqueles homens não consistia em impedir
uma operação regeneradora soberana do Espírito em seus corações, mas em
rejeitar externamente a Palavra de Deus proclamada pelos profetas (vocação externa
– já tratada), pelos mensageiros divinos e, finalmente, pelo próprio Cristo. Eles
resistiam:
- à pregação;
- à revelação;
- à verdade anunciada;
- e aos homens vocacionados por Deus para proclamá-la.
O texto não
ensina que o Espírito Santo tenta regenerar alguém e fracassa diante da suposta
autonomia final da vontade humana.
Aliás, essa ideia produz enormes problemas teológicos. Se o Espírito Santo deseja regenerar eficazmente alguém, mas depende finalmente da autorização da criatura caída para concluir Sua obra, então o homem possuiria poder decisivo superior à própria eficácia divina. Isso destruiria completamente aquilo que já vimos anteriormente sobre:
- soberania de Deus;
- eleição;
- depravação total;
- incapacidade moral;
- e salvação monergística (Deus é autor único e soberano para salvação).
Retornaríamos
inevitavelmente a um modelo em que Deus oferece possibilidade de salvação, mas
o homem determina soberanamente o resultado final.
Mas a Escritura ensina exatamente
o oposto. O homem morto em pecados não coopera com sua própria ressurreição espiritual.
A regeneração não é negociação entre Deus e o pecador caído. É ato soberano de
vivificação realizado pelo Espírito Santo.
Isso não significa que o homem
regenerado permaneça passivo na conversão. Pelo contrário. Uma vez regenerado,
ele crê voluntariamente, arrepende-se voluntariamente e vem voluntariamente a
Cristo. Entretanto, sua vontade somente passa a agir corretamente porque foi
previamente libertada da escravidão espiritual do pecado. É nova criatura que
ressuscitou para a vida espiritual e, agora, consegue não apenas “enxergar” a
Deus, mas também sua própria miséria e, com isso, voltar-se verdadeiramente
para Deus.
Como vimos anteriormente ao
tratar da queda, após a corrupção produzida pelo pecado, o homem tornou-se
incapaz de qualquer bem espiritual salvador. Agora, pela regeneração, o
Espírito Santo quebra o domínio dessa escravidão. É aqui que a formulação
clássica de Agostinho de Hipona continua extremamente útil:
Ø
Antes da queda: possível pecar ou não;
Ø
Após a queda: impossível não pecar;
Ø
Após a regeneração: torna-se possível não pecar;
Ø
Após a glorificação: impossível pecar.
Essa expressão não significa que
Deus arraste pecadores mecanicamente contra sua vontade ou viole
coercitivamente sua personalidade. Significa, antes, que o Espírito Santo atua
de modo tão eficaz na regeneração que o pecador, outrora inimigo de Deus, passa
agora livre e voluntariamente a desejar Cristo, amar a verdade e voltar-se para
o evangelho.
O homem continua vindo
voluntariamente, mas somente porque agora foi vivificado. A graça não destrói a
vontade; ela liberta a vontade da escravidão do pecado. Por isso Cristo afirma:
“Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim”
(João 6.37). Perceba que o texto:
Não diz que “talvez venha”;
Não diz que “poderá vir”;
Mas afirma que “virá”.
A eficácia da salvação repousa no
poder soberano de Deus. E isso nos conduz à união com Cristo. Toda a salvação é
aplicada ao crente porque ele é unido espiritualmente a Cristo. A união com
Cristo é uma das doutrinas mais centrais e profundas da salvação bíblica.
O crente participa dos benefícios
da obra de Cristo porque está unido ao próprio Cristo. Por essa união:
- Sua morte torna-se nossa morte para o domínio do pecado (Romanos 6.6);
- Sua justiça torna-se nossa justiça, sendo-nos imputada (2 Coríntios 5.21);
- Sua vida é comunicada espiritualmente ao Seu povo (João 15.5);
- Sua filiação torna-se o fundamento de nossa adoção (Gálatas 4.4-5);
- e Sua ressurreição garante nossa futura glorificação (1 Coríntios 15.20-23).
A união com Cristo é espiritual, pactual, vital e redentiva. E é exatamente dessa união que fluem:
- justificação;
- adoção;
- santificação;
- perseverança dos santos;
- e glorificação final.
Isso também destrói outro erro moderno extremamente comum: querer os benefícios de Cristo sem união verdadeira com o próprio Cristo. Muitos desejam:
- perdão sem arrependimento;
- salvação sem Senhorio;
- conforto sem santificação;
- glória sem mortificação do pecado
Mas o Cristo bíblico não se divide.
- Aquele que justifica também santifica, porque a fé que une o pecador a Cristo jamais permanece sem frutos de santidade.
- Aquele que salva também reina, é Senhor sobre todos.
- Aquele que remove a culpa também inicia a mortificação da corrupção.
A fé salvadora jamais permanece
sozinha. Ela produz arrependimento, amor a Deus, submissão à Palavra,
mortificação do pecado e perseverança na verdade.
Isso também corrige uma distorção
extremamente comum em nossos dias: reduzir o cristianismo a mera experiência
espiritual subjetiva desvinculada da verdade objetiva revelada nas Escrituras,
da vida da igreja visível e dos meios ordinários de graça estabelecidos pelo
próprio Cristo.
O mesmo Cristo que salva Seu povo
também governa Seu povo. A salvação bíblica não conduz o homem a uma
espiritualidade autônoma, individualista ou desligada dos meios que o próprio
Deus estabeleceu para edificação da igreja. O Senhor ressurreto continua
exercendo Seu governo sobre os Seus por meio da Palavra pregada, dos
sacramentos, da oração, da igreja visível e do ministério legitimamente
instituído. A regeneração não conduz o homem ao isolamento espiritual, mas o
incorpora ao corpo de Cristo, onde os santos são instruídos, corrigidos,
alimentados e conduzidos pelo próprio Senhor através dos meios ordinários de
graça que Ele determinou para Sua igreja.
E isso prepara naturalmente os próximos grandes temas da redenção aplicada já citados:
- justificação;
- adoção;
- santificação;
- perseverança dos santos;
- e glorificação final.
Porque aquele que Deus chama
eficazmente, Ele também justifica. E aquele que Ele justifica, glorificará
infalivelmente.
Rev. Júlio Pinto
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