terça-feira, 2 de junho de 2026

A Unção com Óleo em Tiago 5.14: Prática Medicinal ou Ritual Místico?

Poucos textos têm sido tão utilizados para sustentar práticas de unção ritualística quanto Tiago 5.14: “Está alguém entre vós doente? Chame os presbíteros da igreja, e estes façam oração sobre ele, ungindo-o com óleo em nome do Senhor.

Em muitos contextos evangélicos contemporâneos, esse versículo é interpretado como se o óleo possuísse alguma virtude espiritual especial, funcionando como instrumento de transmissão de cura, proteção, libertação ou bênção. Em alguns casos, o óleo é levado para residências, veículos e estabelecimentos comerciais com a expectativa de afastar demônios, quebrar maldições, estabelecer curas ou atrair a atuação divina. A substância passa a ocupar um papel que ultrapassa em muito aquilo que o texto efetivamente afirma.

Todavia, uma leitura cuidadosa da passagem, considerando seu contexto imediato, o vocabulário empregado, o uso bíblico do azeite e o pano de fundo cultural do primeiro século, conduz a uma conclusão bastante diferente. Tiago não apresenta o óleo como um elemento místico dotado de poder sobrenatural próprio, mas como um recurso ordinário de cuidado físico, utilizado juntamente com a oração da igreja.

A questão central, portanto, não é saber se havia óleo, mas compreender qual função o óleo exercia no contexto original da passagem.

Por isso, nossa intenção é demonstrar que o texto de Tiago 5.14, com respeito à unção com óleo, deve ser entendida primariamente como uma prática terapêutica e assistencial comum no mundo antigo, acompanhada pela oração pastoral da igreja, e não como um ritual dotado de poder espiritual intrínseco.

É justamente quando compreendemos a verdadeira natureza da enfermidade, da oração e do óleo em Tiago que percebemos que a esperança do crente repousa na graça soberana de Deus e não em elementos materiais.

 

I. O contexto de Tiago enfatiza a oração, não o óleo

 O primeiro aspecto que merece atenção é a estrutura da própria passagem.

O tema dominante de Tiago 5.13-18 não é o óleo, mas a oração. Observe a sequência:

1.       O aflito deve orar (Tg 5.13).

2.       Os presbíteros devem orar (Tg 5.14).

3.       A oração da fé salvará o enfermo (Tg 5.15).

4.       Os crentes devem orar uns pelos outros (Tg 5.16).

5.       Elias é apresentado como exemplo da eficácia da oração (Tg 5.17-18).

O óleo aparece apenas uma vez em toda a seção, enquanto a oração é mencionada repetidamente.

Essa observação é decisiva para a interpretação do texto. Se Tiago estivesse estabelecendo uma doutrina sobre um rito especial de unção, seria natural que o óleo recebesse maior destaque, ou que, pelo menos fosse mencionado tanto quanto a oração. Entretanto, toda a argumentação gira em torno da dependência de Deus mediante a oração.

É por esse motivo que Tiago não afirma: “O óleo salvará o enfermo.”, nem diz: “A unção restaurará o doente.” Pelo contrário: “A oração da fé salvará o enfermo.”. A ênfase inspirada do texto está claramente na ação de Deus respondendo à oração de seu povo e não a uma ação, nem mesmo complementar, do óleo sobre o enfermo.

Assim, é justamente porque a esperança do enfermo repousa em Deus que Tiago direciona nossa atenção para a oração e não para o óleo.

 

II. O vocabulário utilizado favorece um entendimento medicinal

 Uma segunda evidência surge da análise do verbo empregado. A palavra traduzida por “ungindo” deriva do verbo grego aleiphō. Esse detalhe é extremamente significativo. No Novo Testamento existem dois verbos principais relacionados à ideia de unção.

1. Chriō - Esse verbo está associado à consagração religiosa e à investidura espiritual. É utilizado para:

  • Cristo como o Ungido de Deus.
  • A unção do Espírito Santo.
  • Contextos de caráter oficialmente religioso.

 

2. Aleiphō Já esse verbo, que encontramos no texto de Tiago, possui uso cotidiano.

Era empregado para:

  • Aplicação de perfumes.
  • Cuidados corporais.
  • Higiene pessoal.
  • Tratamentos físicos.

 Encontramos esse verbo sendo aplicado nessas situações em:

  • Mateus 6.17.
  • Marcos 16.1.
  • Lucas 7.38.
  • Lucas 7.46.

 Nenhum desses textos descreve uma cerimônia de consagração religiosa ou qualquer tipo de uso religioso do óleo.

 Portanto, quando Tiago utiliza aleiphō, ele escolhe justamente o termo normalmente associado ao cuidado comum do corpo. Se o objetivo de Tiago fosse enfatizar uma unção sacramental ou ritualística, seria muito mais natural a utilização do outro verbo e não esse do qual ele fez uso.

O próprio verbo escolhido aponta para uma ação prática e terapêutica. É justamente porque Tiago descreve um cuidado concreto com o enfermo que utiliza um verbo associado ao tratamento físico e não à consagração ritual.

 

III. O óleo possuía reconhecido uso medicinal no mundo bíblico

 O uso terapêutico do óleo era amplamente conhecido no mundo antigo. O azeite era empregado como recurso medicinal para tratamento de ferimentos, inflamações e diversas enfermidades.

A própria Escritura testemunha essa realidade.

Em Isaías 1.6, ao descrever a condição de Israel, o profeta menciona feridas que não foram: “amolecidas com óleo”. O uso é claramente medicinal.

Já em Lucas 10.34 na parábola do bom samaritano lemos: “e, aproximando-se, tratou-lhe os ferimentos, aplicando-lhes óleo e vinho.” O samaritano não está realizando um ritual religioso, está prestando socorro. O óleo aparece como instrumento terapêutico.

 

3.1 O testemunho histórico

 Autores gregos e romanos do período frequentemente registram o uso medicinal do azeite. Era um dos recursos mais acessíveis e comuns para o cuidado dos enfermos.

Consequentemente, quando os leitores originais de Tiago ouviam a referência ao óleo, a associação mais natural não era com um ritual místico, mas com um procedimento comum de tratamento.

É justamente porque Deus normalmente age através de meios ordinários que Tiago une oração sincera e cuidado medicinal prático em favor do enfermo.

 

IV. Os presbíteros aparecem como representantes do cuidado pastoral

 Alguns argumentam que a presença dos presbíteros exige uma interpretação sacramental do texto. Contudo, essa conclusão não é necessária. O enfermo é orientado a chamar os presbíteros porque se encontra em uma situação que exige cuidado espiritual da igreja.

Os presbíteros representam:

  •  A assistência pastoral.
  • O encorajamento espiritual.
  • A intercessão da congregação.
  • O cuidado dos santos para com os aflitos.

 O texto não transforma os presbíteros em sacerdotes distribuidores de poder sacramental. Sua função continua sendo pastoral.

Assim como um pastor pode visitar um enfermo em um hospital sem transformar medicamentos em elementos sagrados, os presbíteros de Tiago acompanham o enfermo enquanto oram e prestam assistência.

O texto descreve o cuidado integral da igreja para com seus membros. É  justamente porque a igreja deve cuidar do homem inteiro que Tiago une assistência pastoral, oração e cuidado físico em uma mesma cena.

 

V. O Novo Testamento não atribui poder espiritual intrínseco ao óleo

 A passagem alcança seu ponto mais importante quando observamos aquilo que Tiago efetivamente atribui ao Senhor. O texto declara: “...e o Senhor o levantará...” (Tg 5.15). A cura procede do Senhor. O poder pertence ao Senhor, a restauração vem do Senhor. O óleo não recebe qualquer atribuição de eficácia espiritual própria.

 

5.1 O perigo da superstição religiosa

 Quando elementos materiais passam a receber confiança espiritual, ocorre uma substituição prática da dependência de Deus pela dependência de objetos. Essa tendência acompanha a história humana desde os tempos mais antigos. Frequentemente a idolatria não começa com a rejeição explícita de Deus, mas com a transferência de atributos divinos para coisas criadas.

Por esse motivo, a Escritura não define idolatria apenas como prostrar-se diante de imagens. Idolatria também consiste em atribuir a objetos, símbolos ou elementos materiais aquilo que pertence exclusivamente ao Senhor. O exemplo mais impressionante encontra-se em 2 Reis 18.4. Séculos antes, Deus havia ordenado a Moisés a confecção da serpente de bronze (Nm 21.8-9). A serpente possuía um propósito legítimo dentro do plano divino. Contudo, posteriormente Israel passou a oferecer incenso diante dela.

O que havia acontecido?

Um instrumento legítimo transformou-se em objeto de confiança religiosa. A serpente não foi destruída porque era originalmente má, mas porque o povo passou a atribuir a ela aquilo que pertencia somente a Deus. O mesmo princípio aparece em toda a crítica profética do Antigo Testamento. Os profetas denunciavam constantemente a tendência humana de confiar em objetos visíveis em vez de confiar no Deus invisível.

Jeremias denuncia a confiança em ídolos feitos por mãos humanas (Jr 10.3-5).

Isaías ridiculariza o homem que transforma um pedaço de madeira em objeto de confiança espiritual (Is 44.9-20).

Habacuque pergunta: “Que aproveita o ídolo?” (Hc 2.18).

O problema fundamental sempre foi o mesmo: transferir para coisas criadas a confiança que pertence exclusivamente ao Criador.

 

 5.2 A aplicação ao uso místico do óleo

Nesse ponto surge uma importante implicação apologética.

 Quando certos grupos evangélicos atribuem ao óleo poder para expulsar demônios, proteger residências, quebrar maldições, afastar espíritos malignos ou transmitir curas e bênçãos espirituais, a lógica religiosa empregada torna-se essencialmente a mesma encontrada em outras tradições religiosas.

No catolicismo popular, muitos atribuem à água benta uma eficácia espiritual ligada ao próprio elemento material.

Em diversos movimentos espíritas e espiritualistas, banhos de descarrego são utilizados com a expectativa de remover influências espirituais negativas mediante o uso de substâncias específicas.

Embora os objetos sejam diferentes, a estrutura da crença permanece idêntica. Em todos esses casos existe a convicção de que determinado elemento material atua como veículo especial de proteção, purificação ou libertação espiritual.

Essa mesma lógica pode ser observada em diversas práticas difundidas no neopentecostalismo contemporâneo. Não é incomum encontrar campanhas em que se orienta o fiel a colocar um copo com água sobre, ou ao lado da televisão para receber uma suposta transmissão de bênçãos espirituais, levar uma miniatura de tijolo para representar a conquista da casa própria, apresentar uma pequena chave simbolizando o automóvel desejado, ou mesmo trazer a carteira de trabalho para ser ungida com a expectativa de obtenção de emprego ou prosperidade financeira. Tais práticas não encontram fundamento no ensino apostólico nem no culto estabelecido pelas Escrituras. Mais do que isso, elas introduzem elementos materiais aos quais se passa a associar expectativas espirituais específicas. O problema não é apenas a crença de que esses objetos possuam algum poder oculto, mas o próprio fato de serem transformados em instrumentos religiosos sem qualquer instituição bíblica.

Quando símbolos criados pelos homens passam a ocupar espaço na experiência religiosa como meios para obtenção de bênçãos, proteção, prosperidade ou intervenção divina, reproduz-se exatamente o princípio que tantas vezes foi condenado pelos profetas: a tentativa de aproximar-se do poder de Deus por meio de elementos materiais que Ele jamais ordenou. O resultado inevitável é o deslocamento gradual da confiança da Palavra e das promessas de Deus para objetos visíveis que oferecem ao homem a ilusão de controlar ou canalizar a ação divina.

A água é diferente do óleo e ambos são diferentes das ervas, mas o princípio do erro permanece o mesmo: A confiança deixa de repousar exclusivamente em Deus e passa a ser parcialmente depositada em um objeto.

Por essa razão, quando o óleo é transformado em amuleto religioso, ele deixa de ser o óleo de Tiago 5 e passa a funcionar segundo a mesma lógica supersticiosa encontrada em diversas manifestações religiosas ao longo da história.

A teologia bíblica rejeita essa mentalidade, pois a bênção pertence a Deus, a proteção pertence a Deus, a libertação pertence a Deus, cura pertence a Deus. O poder jamais pertence ao objeto.

É justamente porque somente o Senhor possui poder para restaurar, proteger, curar e libertar que nenhum elemento material pode ocupar o lugar da confiança que pertence exclusivamente a Deus.

 

Conclusão

 Tiago 5.14 não estabelece um rito místico de cura mediante óleo consagrado. O contexto da passagem, o vocabulário empregado, o uso bíblico do azeite e o fluxo do argumento apontam para uma realidade muito mais simples e profundamente pastoral.

O óleo aparece como um meio ordinário de cuidado físico. A oração aparece como expressão da dependência da igreja. O Senhor aparece como o verdadeiro agente da restauração. O texto não opõe oração e tratamento. Não opõe fé e meios ordinários, não opõe providência divina e cuidado humano. Pelo contrário, Tiago mostra que Deus frequentemente opera por meio dos recursos comuns de sua providência, enquanto seu povo ora e confia em sua graça.

A história bíblica também nos alerta sobre o perigo permanente da idolatria. Sempre que homens passam a atribuir virtudes espirituais a objetos materiais, repetem o mesmo erro denunciado pelos profetas e ilustrado tragicamente pela serpente de bronze. O coração humano possui uma inclinação constante para transformar instrumentos em amuletos, símbolos em talismãs e meios em objetos de confiança.

Por isso, a esperança da igreja não repousa em óleo ungido, água benta, objetos consagrados ou qualquer outro elemento material. A esperança da igreja repousa exclusivamente em Cristo, o Senhor ressuscitado, aquele que governa todas as coisas por sua providência soberana, ouve as orações de seu povo e continua sendo o único que pode verdadeiramente levantar o enfermo, restaurar o abatido e salvar o pecador. Somente nele está a confiança que jamais pode ser depositada em qualquer coisa criada.

 

Rev. Júlio Pinto 

TEMA 44 - A AUTORIDADE DE CRISTO E O GOVERNO DA IGREJA

Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra.

(Mateus 28.18)

 

A doutrina da autoridade da igreja ocupa posição central na eclesiologia bíblica porque trata diretamente da forma como Cristo governa Seu povo neste mundo. Não se trata de questão meramente administrativa, institucional ou organizacional. Em última análise, trata-se da própria continuação do governo do Senhor Jesus Cristo sobre Sua igreja mediante os meios que Ele mesmo estabeleceu.

Ao longo da história, dois erros opostos surgiram repetidamente. De um lado, o clericalismo, que concentra autoridade indevida em determinados homens ou estruturas eclesiásticas, atribuindo-lhes prerrogativas que pertencem exclusivamente a Cristo. De outro lado, o individualismo religioso, que rejeita qualquer forma legítima de governo espiritual e transforma a vida cristã numa experiência autônoma, independente da igreja visível e de seus oficiais.

As Escrituras rejeita tanto um extremo quanto o outro. Cristo não entregou Sua igreja nem à tirania dos homens nem à autonomia do indivíduo. Ele próprio permanece sendo o único Rei, Cabeça e Senhor da igreja, governando-a mediante Sua Palavra e através dos ofícios que instituiu.

 

1. Cristo é a única Cabeça da Igreja

 

Toda discussão sobre autoridade eclesiástica deve começar por esta verdade fundamental: Cristo é a única Cabeça da igreja. Paulo escreve: “E pôs todas as coisas debaixo dos pés e, para ser o cabeça sobre todas as coisas, o deu à igreja, a qual é o seu corpo, a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas.” (Ef 1.22-23). A autoridade da igreja não nasce dos oficiais, dos concílios, das confissões ou das instituições eclesiásticas. Toda autoridade legítima procede de Cristo.

Contudo, é necessário evitar uma compreensão equivocada dessa verdade. Quando o Novo Testamento afirma que Cristo recebeu autoridade após Sua ressurreição e exaltação, isso não significa que anteriormente Ele fosse destituído dessa autoridade.

O próprio Cristo declara: “E, agora, glorifica-me, ó Pai, contigo mesmo, com a glória que eu tive junto de ti, antes que houvesse mundo.” (Jo 17.5). A passagem demonstra que o Filho possuía glória eterna antes da encarnação. Como Segunda Pessoa da Trindade, jamais deixou de possuir soberania, majestade e domínio sobre todas as coisas. João afirma: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele...” (Jo 1.1-3). Paulo acrescenta: “Pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra...” (Cl 1.16). Portanto, quando Cristo declara: “Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra.” (Mt 28.18), não devemos concluir que Ele passou a possuir autoridade apenas naquele momento.

A teologia reformada historicamente distinguiu entre:

  • o reino essencial de Cristo;
  • o reino mediatorial de Cristo.

Como Deus eterno, Cristo sempre possuiu autoridade absoluta sobre todas as coisas. Como Mediador, entretanto, após Sua humilhação, morte, ressurreição e ascensão, Ele é publicamente entronizado e investido na administração histórica do Reino Messiânico prometido nas Escrituras.

Por isso Paulo escreve: “Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome.” (Fp 2.9). A exaltação não cria uma autoridade anteriormente inexistente. Ela manifesta publicamente a glória do Redentor vitorioso. Aquele que assumiu forma de servo é agora revelado diante de toda a criação como Rei dos reis e Senhor dos senhores. Assim, toda autoridade da igreja deriva dessa autoridade mediatorial de Cristo.

 

2. Cristo governa Sua Igreja pela Sua Palavra

 

O governo de Cristo não é exercido mediante novas revelações, experiências místicas ou autoridade autônoma dos homens. Ele governa Sua igreja pela Sua Palavra. O próprio Senhor declarou: “As palavras que eu vos tenho dito são espírito e são vida.” (Jo 6.63); e ainda: “Se vós permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos.” (Jo 8.31).

A autoridade da igreja, portanto, é ministerial e declarativa. Ela não cria verdade, ela não produz doutrina, ela não legisla em nome próprio, ela apenas declara aquilo que Deus já revelou. A igreja não possui autoridade para falar onde Deus permaneceu em silêncio nem para silenciar onde Deus falou. Sua tarefa consiste em anunciar fielmente a Palavra do Rei.

 

3. As chaves do Reino

 

O Novo Testamento utiliza a linguagem das chaves para descrever a autoridade confiada por Cristo à Sua igreja. Em Mateus 16.19 lemos: “Dar-te-ei as chaves do reino dos céus; o que ligares na terra terá sido ligado nos céus; e o que desligares na terra terá sido desligado nos céus.” Posteriormente, a mesma autoridade é atribuída à igreja reunida: “Em verdade vos digo que tudo o que ligardes na terra terá sido ligado no céu...” (Mt 18.18).

As chaves não representam poder autônomo, mas autoridade ministerial. A igreja não decide arbitrariamente quem será salvo ou condenado; ela apenas reconhece e declara aquilo que Deus estabelece por meio do evangelho. Quando a Palavra é pregada fielmente, os crentes são consolados, os pecadores são chamados ao arrependimento, os rebeldes são advertidos e a disciplina é exercida. Nesse sentido, o exercício das chaves manifesta-se principalmente na proclamação pública da Palavra e na disciplina eclesiástica. Os sacramentos são administrados dentro dessa mesma autoridade ministerial, não como instrumentos dotados de eficácia automática, mas como sinais e selos visíveis das promessas do evangelho, cuja eficácia depende da operação do Espírito Santo e da fé daquele que os recebe.

 

4. A autoridade da igreja não pertence a Pedro

 

O sistema papal constrói sua pretensão de supremacia principalmente sobre Mateus 16. Contudo, a própria passagem refuta tal interpretação. Pedro confessa: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.” (Mt 16.16). A resposta de Cristo dirige-se inicialmente a Pedro: “Tu és Pedro...” (Mt 16.18); mas logo muda para: “...e sobre esta pedra edificarei a minha igreja.

A mudança é significativa. Cristo utiliza a segunda pessoa ao dirigir-se a Pedro e imediatamente utiliza o pronome demonstrativo ao referir-se à pedra. A atenção do texto desloca-se de Pedro para aquilo que acabara de ser confessado. A base da igreja não é Pedro em si mesmo, mas a verdade revelada acerca da identidade de Cristo. O restante do Novo Testamento confirma essa interpretação.

 

5. Cristo é a Pedra Angular

 

Pedro posteriormente escreve: “Chegando-vos para ele, a pedra que vive...” (1Pe 2.4); e acrescenta: “Eis que ponho em Sião uma pedra angular, eleita e preciosa.” (1Pe 2.6). A pedra angular não era mero ornamento arquitetônico. Era a principal pedra da construção. Dela dependiam o alinhamento,  estabilidade, direção e integridade estrutural. Toda a edificação era organizada em relação a ela.

Por isso Paulo afirma: “Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular.” (Ef 2.20). Observe a ordem. Os apóstolos fazem parte do fundamento histórico da igreja. Mas Cristo permanece sendo a pedra angular. Sem Ele, toda a estrutura desmorona.

 

6. O Concílio de Jerusalém e o modelo presbiterial

 

Atos 15 fornece o exemplo mais importante de governo da igreja no Novo Testamento. O problema apontado nessa passagem envolvia a relação entre judeus e gentios convertidos. A questão foi levada aos apóstolos e presbíteros. Durante a altercação, Lucas registra que: “Havendo grande debate, Pedro tomou a palavra...” (At 15.7). Observe que Pedro fala como participante da discussão; ele não aparece presidindo a reunião, não emite decreto papal e não encerra unilateralmente a controvérsia. Ao contrário, contribui com um argumento entre outros apresentados.

Quem exerce a função moderadora daquela reunião presbiteral e apresenta a conclusão formal é Tiago: “Pelo que, julgo eu...” (At 15.19). Posteriormente, a carta enviada às igrejas não é apresentada como decisão de Pedro, mas colegiada como se vê: “apóstolos e presbíteros... pareceu-nos bem, chegados a pleno acordo... Enviamos, portanto... pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não vos impor...” (At 15.23, 25, 27, 28). O modelo apresentado é conciliar e presbiterial, não papal.

Essa mesma estrutura aparece em outras passagens do Novo Testamento. Ao escrever a Timóteo, Paulo o exorta: “Não te faças negligente para com o dom que há em ti, o qual te foi concedido mediante profecia, com a imposição das mãos do presbitério.” (1Tm 4.14). É significativo que o texto não mencione uma investidura proveniente de um suposto bispo universal, nem de uma autoridade monárquica superior à igreja, nem de uma igreja local apenas, mas de um corpo de presbíteros reunidos. A ordenação ministerial aparece vinculada à ação colegiada do presbitério.

O Novo Testamento apresenta, portanto, um padrão consistente: Cristo governa Sua igreja por meio de oficiais legitimamente constituídos; esses oficiais atuam de forma colegiada; questões locais são tratadas pelos presbíteros das igrejas; e questões mais amplas são deliberadas em assembleias de presbíteros e demais oficiais reunidos. O governo da igreja não é monárquico nem centrado em um único homem, mas representativo, conciliar e presbiterial.

De igual forma, o Concílio de Jerusalém não constitui um episódio isolado na história apostólica. Ele revela o princípio permanente de governo que posteriormente continuaria a ser refletido nos presbitérios e concílios da igreja: nem monarquia clerical, nem democracia eclesiástica, mas governo colegiado exercido por presbíteros sob a autoridade suprema de Cristo, o único Rei e Cabeça da Igreja.

 

7. Contra o congregacionalismo

 

Atos 15 também refuta outro erro. A decisão não foi tomada por um homem sozinho. Mas também não foi tomada mediante democracia congregacional. A igreja não aparece governada por voto popular irrestrito de todos os seus membros. A autoridade é exercida pelos oficiais reunidos: apóstolos nomeados diretamente por Cristo e presbíteros que já exerciam governo nas igrejas locais, conforme o padrão que vinha sendo estabelecido ao longo da expansão da igreja. Lucas registra essa organização ao afirmar: “E, promovendo-lhes, em cada igreja, a eleição de presbíteros, depois de orar com jejuns, os encomendaram ao Senhor em quem haviam crido.” (At 14.23). O mesmo argumento é fortalecido pela investidura de Timóteo ao pastorado pela “imposição de mãos do presbitério”.

O Concílio de Jerusalém, a eleição presbiteral e a autoridade do presbitério na investidura ao pastorado revelam, portanto, uma igreja já estruturada sob governo de oficiais legitimamente constituídos. As deliberações não procedem de um monarca eclesiástico, nem de assembleias governadas pela vontade da maioria, mas de homens investidos de autoridade ministerial para governar a igreja segundo a Palavra de Deus. O padrão apostólico é governo por presbíteros. Não era monarquia clerical, nem democracia eclesiástica, mas governo colegiado.

 

8. Os oficiais recebem autoridade de Cristo

 

Cristo não apenas governa Sua igreja. Ele também concede oficiais para servi-la. Paulo escreve: “E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres.” (Ef 4.11). Observe cuidadosamente. O texto não apresenta inicialmente uma lista de dons, mas apresenta homens dados à igreja. Os dons servem ao ofício, não são os ofícios que surgem dos dons. Cristo primeiro chama homens para depois os capacita para o serviço.

 

9. Como Deus chama Seus oficiais

 

O chamado ao ministério pertence primariamente a Deus. Atos 13 fornece o exemplo clássico: “Separai-me, agora, Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho chamado.” (At 13.2). O Espírito Santo realiza o chamado não é a igreja que cria ministros. A igreja apenas reconhece aqueles que Deus chamou.

 

10. Como a igreja reconhece os oficiais

 

Embora o chamado proceda de Deus, seu reconhecimento ocorre publicamente na igreja. Timóteo recebeu: “a imposição das mãos do presbitério.” (1Tm 4.14). A ordenação não transmite poder mágico, ela reconhece oficialmente aquilo que Deus já operou. Então: a igreja reconhece aqueles a quem Deus chama.

 

11. Os limites da autoridade eclesiástica

 

A autoridade da igreja é real, mas não é ilimitada. Nenhum oficial pode criar doutrina, alterar sacramentos, acrescentar mandamentos, pode obrigar consciências além da Escritura. Pedro declara: “Importa obedecer a Deus antes que aos homens.” (At 5.29). Toda autoridade eclesiástica permanece subordinada à Palavra.

 

12. A falibilidade dos concílios

 

Os concílios também possuem autoridade, mas não são infalíveis. Somente as Escrituras são infalíveis. Os próprios apóstolos demonstram isso quando constantemente apelam à Palavra de Deus como padrão supremo.

Portanto temos que ter a consciência de que os concílios podem errar, presbitérios podem errar, os sínodos podem errar, mas a Escritura permanece sendo a regra final.

 

13. A submissão devida aos oficiais

 

Ainda assim, os crentes não possuem liberdade para desprezar a autoridade legítima da igreja. O autor de Hebreus escreve: “Obedecei aos vossos guias e sede submissos para com eles...” (Hb 13.17). A submissão não é cega, mas também não é opcional. Por que ela decorre do próprio governo de Cristo exercido através dos oficiais que Ele estabeleceu.

 

14. A autoridade da igreja e o modo ordinário da salvação

 

Nesse contexto compreende-se também a conhecida afirmação da Confissão de Fé de Westminster acerca da igreja visível. A confissão declara que fora da igreja visível não há possibilidade ordinária de salvação. Isso não significa que a igreja salva e nem que a instituição possui poder redentor.

Essa afirmação significa que Cristo ordinariamente opera por meio da pregação, dos sacramentos, da disciplina e da comunhão dos santos. Desprezar deliberadamente a igreja é desprezar os meios que o próprio Cristo estabeleceu para o cuidado de Seu povo.

 

Conclusão

 

Toda autoridade legítima na igreja pertence originalmente a Cristo. Ele é:

 

·        o único Rei;

·        o único Cabeça;

·        o único Legislador;

·        o único Mediador;

·        o único Senhor da igreja.

 

Os oficiais não substituem Cristo.

Os concílios não substituem Cristo.

Os presbitérios não substituem Cristo.

A igreja não cria autoridade própria.

Ela vive debaixo da autoridade daquele que declarou:

 

Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra.” (Mt 28.18)

 

Por isso, a verdadeira autoridade eclesiástica não conduz à exaltação dos homens, mas à submissão cada vez mais profunda da igreja ao governo de seu Rei glorificado.

 

Soli Deo Gloria.

 

Rev. Júlio Pinto