“Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra.”
(Mateus
28.18)
A doutrina da autoridade da igreja ocupa posição central na
eclesiologia bíblica porque trata diretamente da forma como Cristo governa Seu
povo neste mundo. Não se trata de questão meramente administrativa,
institucional ou organizacional. Em última análise, trata-se da própria
continuação do governo do Senhor Jesus Cristo sobre Sua igreja mediante os
meios que Ele mesmo estabeleceu.
Ao longo da história, dois erros opostos surgiram
repetidamente. De um lado, o clericalismo, que concentra autoridade indevida em
determinados homens ou estruturas eclesiásticas, atribuindo-lhes prerrogativas
que pertencem exclusivamente a Cristo. De outro lado, o individualismo
religioso, que rejeita qualquer forma legítima de governo espiritual e
transforma a vida cristã numa experiência autônoma, independente da igreja
visível e de seus oficiais.
As Escrituras rejeita tanto um extremo quanto o outro.
Cristo não entregou Sua igreja nem à tirania dos homens nem à autonomia do
indivíduo. Ele próprio permanece sendo o único Rei, Cabeça e Senhor da igreja,
governando-a mediante Sua Palavra e através dos ofícios que instituiu.
1. Cristo é a única Cabeça da Igreja
Toda discussão sobre autoridade eclesiástica deve começar
por esta verdade fundamental: Cristo é a única Cabeça da igreja. Paulo escreve:
“E pôs todas as coisas debaixo dos pés e, para ser o
cabeça sobre todas as coisas, o deu à igreja, a qual é o seu corpo, a plenitude
daquele que a tudo enche em todas as coisas.” (Ef 1.22-23). A autoridade
da igreja não nasce dos oficiais, dos concílios, das confissões ou das
instituições eclesiásticas. Toda autoridade legítima procede de Cristo.
Contudo, é necessário evitar uma compreensão equivocada
dessa verdade. Quando o Novo Testamento afirma que Cristo recebeu autoridade
após Sua ressurreição e exaltação, isso não significa que anteriormente Ele
fosse destituído dessa autoridade.
O próprio Cristo declara: “E,
agora, glorifica-me, ó Pai, contigo mesmo, com a glória que eu tive junto de
ti, antes que houvesse mundo.” (Jo 17.5). A passagem demonstra que o
Filho possuía glória eterna antes da encarnação. Como Segunda Pessoa da
Trindade, jamais deixou de possuir soberania, majestade e domínio sobre todas
as coisas. João afirma: “No princípio era o Verbo, e
o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Todas as coisas foram feitas por
intermédio dele...” (Jo 1.1-3). Paulo acrescenta: “Pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a
terra...” (Cl 1.16). Portanto, quando Cristo declara: “Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra.”
(Mt 28.18), não devemos concluir que Ele passou a possuir autoridade apenas
naquele momento.
A teologia reformada historicamente distinguiu entre:
- o reino essencial de Cristo;
- o reino mediatorial de Cristo.
Como Deus eterno, Cristo sempre possuiu autoridade absoluta
sobre todas as coisas. Como Mediador, entretanto, após Sua humilhação, morte,
ressurreição e ascensão, Ele é publicamente entronizado e investido na
administração histórica do Reino Messiânico prometido nas Escrituras.
Por isso Paulo escreve: “Pelo que
também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo
nome.” (Fp 2.9). A exaltação não cria uma autoridade anteriormente
inexistente. Ela manifesta publicamente a glória do Redentor vitorioso. Aquele
que assumiu forma de servo é agora revelado diante de toda a criação como Rei
dos reis e Senhor dos senhores. Assim, toda autoridade da igreja deriva dessa
autoridade mediatorial de Cristo.
2. Cristo governa Sua Igreja pela Sua Palavra
O governo de Cristo não é exercido mediante novas
revelações, experiências místicas ou autoridade autônoma dos homens. Ele
governa Sua igreja pela Sua Palavra. O próprio Senhor declarou: “As palavras que eu vos tenho dito são espírito e são vida.”
(Jo 6.63); e ainda: “Se vós permanecerdes na minha
palavra, sois verdadeiramente meus discípulos.” (Jo 8.31).
A autoridade da igreja, portanto, é ministerial e
declarativa. Ela não cria verdade, ela não produz doutrina, ela não legisla em
nome próprio, ela apenas declara aquilo que Deus já revelou. A igreja não
possui autoridade para falar onde Deus permaneceu em silêncio nem para silenciar
onde Deus falou. Sua tarefa consiste em anunciar fielmente a Palavra do Rei.
3. As chaves do Reino
O Novo Testamento utiliza a linguagem das chaves para
descrever a autoridade confiada por Cristo à Sua igreja. Em Mateus 16.19 lemos:
“Dar-te-ei as chaves do reino dos céus; o que
ligares na terra terá sido ligado nos céus; e o que desligares na terra terá
sido desligado nos céus.” Posteriormente, a mesma autoridade é
atribuída à igreja reunida: “Em verdade vos digo que
tudo o que ligardes na terra terá sido ligado no céu...” (Mt 18.18).
As chaves não representam poder autônomo, mas autoridade
ministerial. A igreja não decide arbitrariamente quem será salvo ou condenado;
ela apenas reconhece e declara aquilo que Deus estabelece por meio do
evangelho. Quando a Palavra é pregada fielmente, os crentes são consolados, os
pecadores são chamados ao arrependimento, os rebeldes são advertidos e a
disciplina é exercida. Nesse sentido, o exercício das chaves manifesta-se
principalmente na proclamação pública da Palavra e na disciplina eclesiástica.
Os sacramentos são administrados dentro dessa mesma autoridade ministerial, não
como instrumentos dotados de eficácia automática, mas como sinais e selos
visíveis das promessas do evangelho, cuja eficácia depende da operação do
Espírito Santo e da fé daquele que os recebe.
4. A autoridade da igreja não pertence a Pedro
O sistema papal constrói sua pretensão de supremacia
principalmente sobre Mateus 16. Contudo, a própria passagem refuta tal
interpretação. Pedro confessa: “Tu és o Cristo, o
Filho do Deus vivo.” (Mt 16.16). A resposta de Cristo dirige-se
inicialmente a Pedro: “Tu és Pedro...”
(Mt 16.18); mas logo muda para: “...e sobre esta
pedra edificarei a minha igreja.”
A mudança é significativa. Cristo utiliza a segunda pessoa
ao dirigir-se a Pedro e imediatamente utiliza o pronome demonstrativo ao
referir-se à pedra. A atenção do texto desloca-se de Pedro para aquilo que
acabara de ser confessado. A base da igreja não é Pedro em si mesmo, mas a
verdade revelada acerca da identidade de Cristo. O restante do Novo Testamento
confirma essa interpretação.
5. Cristo é a Pedra Angular
Pedro posteriormente escreve: “Chegando-vos
para ele, a pedra que vive...” (1Pe 2.4); e acrescenta: “Eis que ponho em Sião uma pedra angular, eleita e preciosa.”
(1Pe 2.6). A pedra angular não era mero ornamento arquitetônico. Era a
principal pedra da construção. Dela dependiam o alinhamento, estabilidade, direção e integridade
estrutural. Toda a edificação era organizada em relação a ela.
Por isso Paulo afirma: “Edificados
sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a
pedra angular.” (Ef 2.20). Observe a ordem. Os apóstolos fazem parte
do fundamento histórico da igreja. Mas Cristo permanece sendo a pedra angular. Sem
Ele, toda a estrutura desmorona.
6. O Concílio de Jerusalém e o modelo presbiterial
Atos 15 fornece o exemplo mais importante de governo da
igreja no Novo Testamento. O problema apontado nessa passagem envolvia a
relação entre judeus e gentios convertidos. A questão foi levada aos apóstolos
e presbíteros. Durante a altercação, Lucas registra que: “Havendo grande debate, Pedro tomou a palavra...”
(At 15.7). Observe que Pedro fala como participante da discussão; ele não
aparece presidindo a reunião, não emite decreto papal e não encerra
unilateralmente a controvérsia. Ao contrário, contribui com um argumento entre
outros apresentados.
Quem exerce a função moderadora daquela reunião presbiteral
e apresenta a conclusão formal é Tiago: “Pelo que,
julgo eu...” (At 15.19). Posteriormente, a carta enviada às igrejas
não é apresentada como decisão de Pedro, mas colegiada como se vê: “apóstolos e presbíteros... pareceu-nos bem, chegados a pleno acordo... Enviamos,
portanto... pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não vos impor...” (At 15.23, 25, 27, 28). O modelo apresentado é
conciliar e presbiterial, não papal.
Essa mesma estrutura aparece em outras passagens do Novo
Testamento. Ao escrever a Timóteo, Paulo o exorta: “Não
te faças negligente para com o dom que há em ti, o qual te foi concedido
mediante profecia, com a imposição das mãos do presbitério.” (1Tm
4.14). É significativo que o texto não mencione uma investidura proveniente de
um suposto bispo universal, nem de uma autoridade monárquica superior à igreja,
nem de uma igreja local apenas, mas de um corpo de presbíteros reunidos. A
ordenação ministerial aparece vinculada à ação colegiada do presbitério.
O Novo Testamento apresenta, portanto, um padrão
consistente: Cristo governa Sua igreja por meio de oficiais legitimamente
constituídos; esses oficiais atuam de forma colegiada; questões locais são
tratadas pelos presbíteros das igrejas; e questões mais amplas são deliberadas
em assembleias de presbíteros e demais oficiais reunidos. O governo da igreja
não é monárquico nem centrado em um único homem, mas representativo, conciliar
e presbiterial.
De igual forma, o Concílio de Jerusalém não constitui um
episódio isolado na história apostólica. Ele revela o princípio permanente de
governo que posteriormente continuaria a ser refletido nos presbitérios e
concílios da igreja: nem monarquia clerical, nem democracia eclesiástica, mas
governo colegiado exercido por presbíteros sob a autoridade suprema de Cristo,
o único Rei e Cabeça da Igreja.
7. Contra o congregacionalismo
Atos 15 também refuta outro erro. A decisão não foi tomada
por um homem sozinho. Mas também não foi tomada mediante democracia
congregacional. A igreja não aparece governada por voto popular irrestrito de
todos os seus membros. A autoridade é exercida pelos oficiais reunidos:
apóstolos nomeados diretamente por Cristo e presbíteros que já exerciam governo
nas igrejas locais, conforme o padrão que vinha sendo estabelecido ao longo da
expansão da igreja. Lucas registra essa organização ao afirmar: “E, promovendo-lhes, em cada igreja, a eleição de presbíteros,
depois de orar com jejuns, os encomendaram ao Senhor em quem haviam crido.”
(At 14.23). O mesmo argumento é fortalecido pela investidura de Timóteo ao
pastorado pela “imposição de mãos do presbitério”.
O Concílio de Jerusalém, a eleição presbiteral e a autoridade do presbitério na investidura ao pastorado revelam, portanto, uma
igreja já estruturada sob governo de oficiais legitimamente constituídos. As
deliberações não procedem de um monarca eclesiástico, nem de assembleias
governadas pela vontade da maioria, mas de homens investidos de autoridade
ministerial para governar a igreja segundo a Palavra de Deus. O padrão
apostólico é governo por presbíteros. Não era monarquia clerical, nem
democracia eclesiástica, mas governo colegiado.
8. Os oficiais recebem autoridade de Cristo
Cristo não apenas governa Sua igreja. Ele também concede
oficiais para servi-la. Paulo escreve: “E ele mesmo
concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e
outros para pastores e mestres.” (Ef 4.11). Observe cuidadosamente. O
texto não apresenta inicialmente uma lista de dons, mas apresenta homens dados
à igreja. Os dons servem ao ofício, não são os ofícios que surgem dos dons. Cristo
primeiro chama homens para depois os capacita para o serviço.
9. Como Deus chama Seus oficiais
O chamado ao ministério pertence primariamente a Deus. Atos
13 fornece o exemplo clássico: “Separai-me, agora,
Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho chamado.” (At 13.2). O
Espírito Santo realiza o chamado não é a igreja que cria ministros. A igreja
apenas reconhece aqueles que Deus chamou.
10. Como a igreja reconhece os oficiais
Embora o chamado proceda de Deus, seu reconhecimento ocorre
publicamente na igreja. Timóteo recebeu: “a
imposição das mãos do presbitério.” (1Tm 4.14). A ordenação não
transmite poder mágico, ela reconhece oficialmente aquilo que Deus já operou. Então:
a igreja reconhece aqueles a quem Deus chama.
11. Os limites da autoridade eclesiástica
A autoridade da igreja é real, mas não é ilimitada. Nenhum
oficial pode criar doutrina, alterar sacramentos, acrescentar mandamentos, pode
obrigar consciências além da Escritura. Pedro declara: “Importa obedecer a Deus antes que aos homens.” (At
5.29). Toda autoridade eclesiástica permanece subordinada à Palavra.
12. A falibilidade dos concílios
Os concílios também possuem autoridade, mas não são infalíveis.
Somente as Escrituras são infalíveis. Os próprios apóstolos demonstram isso
quando constantemente apelam à Palavra de Deus como padrão supremo.
Portanto temos que ter a consciência de que os concílios
podem errar, presbitérios podem errar, os sínodos podem errar, mas a Escritura
permanece sendo a regra final.
13. A submissão devida aos oficiais
Ainda assim, os crentes não possuem liberdade para desprezar
a autoridade legítima da igreja. O autor de Hebreus escreve: “Obedecei aos vossos guias e sede submissos para com eles...”
(Hb 13.17). A submissão não é cega, mas também não é opcional. Por que ela decorre
do próprio governo de Cristo exercido através dos oficiais que Ele estabeleceu.
14. A autoridade da igreja e o modo ordinário da salvação
Nesse contexto compreende-se também a conhecida afirmação da
Confissão de Fé de Westminster acerca da igreja visível. A confissão declara
que fora da igreja visível não há possibilidade ordinária de salvação. Isso não
significa que a igreja salva e nem que a instituição possui poder redentor.
Essa afirmação significa que Cristo ordinariamente opera por
meio da pregação, dos sacramentos, da disciplina e da comunhão dos santos. Desprezar
deliberadamente a igreja é desprezar os meios que o próprio Cristo estabeleceu
para o cuidado de Seu povo.
Conclusão
Toda autoridade legítima na igreja pertence originalmente a
Cristo. Ele é:
·
o único Rei;
·
o único Cabeça;
·
o único Legislador;
·
o único Mediador;
·
o único Senhor da igreja.
Os oficiais não substituem Cristo.
Os concílios não substituem Cristo.
Os presbitérios não substituem Cristo.
A igreja não cria autoridade própria.
Ela vive debaixo da autoridade daquele que declarou:
“Toda a autoridade me foi dada no
céu e na terra.” (Mt 28.18)
Por isso, a verdadeira autoridade eclesiástica não conduz à exaltação
dos homens, mas à submissão cada vez mais profunda da igreja ao governo de seu
Rei glorificado.
Soli Deo Gloria.
Rev. Júlio Pinto
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