3. O que acontece no momento da morte?
Após compreender a origem da morte e sua derrota em Cristo,
surge naturalmente uma das perguntas mais antigas da humanidade: o que acontece
imediatamente após a morte?
Ao longo da história, diversas respostas foram oferecidas.
Alguns afirmam que a alma permanece inconsciente até a ressurreição. Outros
ensinam sucessivas reencarnações. Há ainda aqueles que defendem que o homem
deixa completamente de existir. Entretanto, a Escritura apresenta uma resposta
distinta de todas essas concepções.
A Bíblia ensina que, no momento da morte, ocorre a separação
entre corpo e alma. O corpo retorna ao pó, cumprindo a sentença pronunciada em
Gênesis, enquanto a alma continua existindo conscientemente diante de Deus.
Salomão descreve esse momento dizendo: “...e o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a
Deus, que o deu.” (Ec 12.7)
Observe que o texto distingue claramente dois aspectos da
natureza humana.
O corpo retorna à terra.
O espírito comparece diante de Deus.
Essa verdade aparece de maneira ainda mais clara na
crucificação. Ao ladrão arrependido, Jesus declara: “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso.”
(Lc 23.43).
Cristo não promete um estado de inconsciência.
Não promete um repouso sem percepção.
Não promete uma permanência no túmulo.
A promessa é imediata: Hoje, comigo,
no paraíso.
Paulo expressa exatamente a mesma esperança: “...tendo o desejo de partir e estar com Cristo, o que é
incomparavelmente melhor.” (Fp 1.23)
Observe cuidadosamente o pensamento de Paulo. Ele apresenta
apenas duas possibilidades: permanecer na carne; ou partir para estar com
Cristo. Não há qualquer terceira etapa intermediária de inconsciência.
O mesmo ensino reaparece em outra carta: “...preferindo deixar o corpo e habitar com o Senhor.”
(2Co 5.8). Mais uma vez encontramos apenas duas condições :habitar no corpo, ou
habitar com o Senhor. A morte física representa precisamente essa transição.
4. O estado intermediário
Embora o crente vá imediatamente para junto de Cristo ao
morrer, a Escritura também ensina que esse ainda não é o estado definitivo da
redenção. Existe aquilo que historicamente a teologia cristã chamou de “Estado
Intermediário”.
O Estado Intermediário compreende o período entre a morte do
indivíduo e a ressurreição final. Durante esse período, a alma permanece
plenamente consciente, enquanto o corpo aguarda a ressurreição.
Essa realidade é ilustrada de maneira muito clara por Cristo
ao narrar o episódio do rico e de Lázaro (Lc 16.19-31). Após a morte de ambos,
lemos: “Aconteceu morrer o mendigo e ser levado
pelos anjos para o seio de Abraão; morreu também o rico e foi sepultado. No
inferno, estando em tormentos, levantou os olhos e viu ao longe Abraão e Lázaro
no seu seio.” (Lc 16.22-23)
O relato prossegue mostrando ambos plenamente conscientes. O
rico recorda sua vida passada, reconhece Abraão e Lázaro, dialoga, sente
tormento, demonstra preocupação com seus irmãos que ainda permaneciam vivos e
ouve a resposta de Abraão acerca da suficiência das Escrituras (Lc 16.24-31).
Nada na narrativa sugere inconsciência, extinção da personalidade ou qualquer
espécie de "sono da alma". Pelo contrário, o texto pressupõe
continuidade da identidade pessoal e plena consciência após a morte física.
A visão de João confirma essa mesma realidade. Ele escreve: “Vi debaixo do altar as almas daqueles que tinham sido mortos
por causa da palavra de Deus...” (Ap 6.9). Observe alguns detalhes.
João não vê corpos ressuscitados. Ele vê
almas. Essas almas: falam, clamam, adoram, recebem consolação, aguardam o
cumprimento final dos decretos divinos. Tudo isso demonstra plena consciência.
O autor de Hebreus também descreve a igreja celestial
dizendo: “...à universal assembleia e igreja dos
primogênitos arrolados nos céus... e aos espíritos dos justos aperfeiçoados.”
(Hb 12.22-23). Os santos já desfrutam da presença de Deus. Contudo, ainda
aguardam a ressurreição do corpo.
É importante compreender que o estado intermediário não
constitui a esperança suprema do cristão. A esperança cristã nunca foi
simplesmente "ir para o céu". A esperança bíblica é muito maior, afinal
ela inclui: a ressurreição do corpo, a renovação da criação, os novos céus e a
nova terra, a habitação eterna de Deus com Seu povo. O céu atual é glorioso, mas
ainda não representa a consumação definitiva da redenção.
É importante observar que, em todas essas passagens, aqueles
que já partiram são descritos como estando conscientes, porém ainda aguardando
a consumação final. Isso demonstra que a morte não encerra a existência humana,
tampouco constitui o estado definitivo dos redimidos. O homem permanece
incompleto enquanto corpo e alma permanecem separados, razão pela qual a
esperança cristã culmina não apenas na vida da alma com Cristo, mas na
ressurreição gloriosa do corpo, quando a redenção alcançará sua plena
consumação. Esse equilíbrio preserva a antropologia bíblica, que não considera
o homem como mera alma aprisionada em um corpo, mas como uma unidade criada por
Deus, cuja restauração será completa somente na ressurreição final.
5. Uma refutação ao "sono da alma"
Ao longo da história, alguns grupos ensinaram que, após a
morte, a alma permanece inconsciente até o dia da ressurreição. Essa doutrina
costuma ser chamada de “sono da alma”. Entretanto, ela encontra sérias
dificuldades diante das Escrituras.
Primeiramente, a promessa feita ao ladrão: “Hoje estarás comigo no paraíso.” (Lc 23.43). Se a
alma permanecesse inconsciente, a palavra "hoje"
perderia completamente seu significado.
Em segundo lugar: Paulo deseja: “...partir
e estar com Cristo...” (Fp 1.23). Se a morte fosse seguida por
milhares de anos de inconsciência, dificilmente Paulo poderia afirmar que
partir seria "incomparavelmente melhor".
Além disso: Apocalipse 6 apresenta almas conscientes e Hebreus
12 apresenta espíritos aperfeiçoados. Lucas 16 descreve tanto o rico quanto
Lázaro conscientes após a morte. Embora essa passagem utilize linguagem
parabólica, ela continua pressupondo consciência após a morte e jamais
inconsciência absoluta.
Portanto, a doutrina do sono da alma não encontra apoio
consistente no conjunto do ensino bíblico.
6. Uma refutação ao aniquilacionismo
Outra doutrina que ganhou espaço em alguns círculos é o “aniquilacionismo”.
Segundo essa concepção, os ímpios deixam de existir após o juízo ou, em algumas
versões, imediatamente após a morte. Mais uma vez, essa posição não se
harmoniza com o testemunho das Escrituras.
O próprio Cristo fala repetidamente do castigo eterno. Em
Mateus 25.46 declara: “E irão estes para o castigo
eterno, porém os justos, para a vida eterna.” Observe a simetria do
texto. A mesma palavra "eterna"
qualifica tanto a vida dos salvos quanto o castigo dos ímpios. Não existe
qualquer fundamento exegético para atribuir duração infinita apenas à vida dos
justos e duração limitada ao castigo dos ímpios. Ambos são apresentados como
realidades definitivas e perpétuas, embora de natureza completamente distinta:
um consiste na bem-aventurança eterna da comunhão com Deus; o outro, na punição
eterna sob o Seu justo juízo. Não existe fundamento exegético para tornar
eterna apenas uma das duas realidades.
Além disso, em Marcos 9.48 Cristo fala do lugar: “...onde não lhes morre o verme, nem o fogo se apaga.”
O Apocalipse igualmente descreve o juízo eterno utilizando
linguagem incompatível com simples extinção da existência (Ap 20.10-15).
Assim, a esperança cristã não consiste na destruição da
existência humana, mas na plena manifestação da justiça e da misericórdia de
Deus.
7. O corpo do crente continua aguardando a ressurreição
Embora a alma do crente esteja imediatamente com Cristo, seu
corpo permanece na sepultura. Esse fato explica por que o cristianismo sempre
tratou o sepultamento com dignidade. O corpo não é uma prisão da alma, como
ensinavam alguns filósofos gregos. Ele faz parte da boa criação de Deus, afinal
de contas ele foi criado pelo Senhor, foi assumido pelo Filho na encarnação, é
templo do Espírito Santo, e será glorificado na ressurreição.
Por essa razão, Paulo afirma: “Semeia-se
corpo natural, ressuscita corpo espiritual...” (1Co 15.44). E aos
tessalonicenses escreve: “Porque o Senhor mesmo...
descerá dos céus... e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro.”
(1Ts 4.16). Observe que a esperança cristã não termina quando a alma entra na
presença do Senhor. Ela continua aguardando o dia em que corpo e alma serão
novamente reunidos, agora livres de toda corrupção. É somente nesse momento que
a redenção alcançará sua plena consumação.
Assim, a morte, embora já derrotada por Cristo quanto ao seu
poder condenatório, continua sendo uma separação temporária entre corpo e alma.
Contudo, essa separação não será permanente. O mesmo Senhor que recebeu a alma
dos Seus filhos em Sua presença também ressuscitará seus corpos no último dia,
restaurando integralmente aquilo que o pecado havia desfeito. Por isso, a
esperança cristã não repousa apenas na vida após a morte, mas na gloriosa
promessa da ressurreição, quando todo o homem redimido participará plenamente
da vitória definitiva de Cristo sobre o último inimigo.
(Continua na Parte III: As implicações pastorais da morte, o
luto cristão, o temor da morte, a esperança da ressurreição e a conclusão do
tema.)
Rev. Júlio Pinto
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