sexta-feira, 4 de setembro de 2026

A “esquerda evangélica” e o ministério do falatório

 Paulo, com aquela delicadeza pastoral que os apóstolos tinham, chamou certas discussões religiosas de “loquacidade frívola” (1Tm 1.6). Hoje talvez fosse necessário atualizar a expressão: lives intermináveis, vídeos diários, indignações semanais e uma quantidade impressionante de palavras destinadas a provar que não é necessário ouvir aquilo que a Bíblia já disse.

É o milagre do desigrejamento moderno: o sujeito abandona a Igreja porque não quer ouvir homens falando e, imediatamente, passa a produzir horas de conteúdo para que milhares de outros o ouçam.

Não quer pastor, mas quer seguidores.

Não quer presbíteros, mas quer audiência.

Não quer disciplina, mas quer engajamento.

Não quer submissão, mas exige que todos levem sua opinião a sério.

Não quer doutrina, mas tem uma doutrina muito bem definida sobre por que ninguém deveria ter autoridade doutrinária.

E assim surge a nossa peculiar “esquerda evangélica” - não política, evidentemente, mas à esquerda do padrão deixado por Cristo e pelos apóstolos.

É uma esquerda que não precisa necessariamente negar a Bíblia. Basta reinterpretá-la até que ela deixe de exigir qualquer coisa inconveniente.

Hebreus 10.25 vira apenas uma recomendação cultural.

Hebreus 13.17 torna-se uma relíquia de outro tempo.

Atos 2.42 é admirado como história, mas não como modelo.

1 Coríntios 12–14 descreve uma Igreja organizada, com dons, culto e ordem - porém, aparentemente, os apóstolos ainda não tinham descoberto o modelo superior: cada crente por si, conectado ao Wi-Fi e independente da Igreja local.

E que ninguém ouse falar em pecado, disciplina ou autoridade! Isso seria “institucionalismo”, “legalismo”, “controle” ou qualquer outro rótulo que permita escapar elegantemente da pergunta mais simples de todas:

“O que Cristo mandou?”

A estratégia é extraordinariamente eficiente: em vez de submeter a própria vida ao texto bíblico, submete-se o texto bíblico ao próprio gosto.

E quando a Escritura diz “obedecei aos vossos guias e sede submissos para com eles” (Hb 13.17), alguém rapidamente aparece para explicar por que, naquele caso específico, a Bíblia não pode estar querendo dizer exatamente o que disse.

Afinal, a liberdade cristã precisa ser defendida, principalmente contra os mandamentos de Cristo.

E aqui está a parte mais curiosa: os mesmos que acusam a Igreja de ter “tradições humanas” frequentemente constroem uma tradição própria, cuidadosamente mantida por vídeos, frases de efeito e interpretações particulares. Só existe uma diferença: a tradição deles vem acompanhada da convicção de que não é tradição.

Paulo viu esse fenômeno muito antes das redes sociais. Alguns, diz ele, “se desviaram”, entregando-se à “loquacidade frívola” (1Tm 1.6).

Que diagnóstico atualíssimo!

Fala-se de Igreja sem querer ser Igreja.

Fala-se de pastoreio sem querer ser pastoreado.

Fala-se de comunhão sem querer conviver com irmãos.

Fala-se de liberdade enquanto se permanece escravo da própria opinião.

Fala-se contra a autoridade enquanto se constrói uma pequena autoridade pessoal na internet.

É uma nova ordem eclesiástica: “Não quero congregar, mas quero que vocês se reúnam em torno de mim para ouvir por que congregar é desnecessário.”

E talvez a ironia mais amarga esteja justamente aí: o homem que acusa a Igreja de produzir “religiosos” pode acabar produzindo discípulos de si mesmo.

Cristo, porém, não chamou homens para fazerem discípulos de suas próprias interpretações. Mandou fazer discípulos dele, ensinando-os a guardar “todas as coisas” que ordenou (Mt 28.19–20).

Portanto, não basta perguntar: “Onde está escrito que eu tenho de fazer isso?”

A pergunta cristã é muito mais incômoda:

“Onde Cristo disse que eu estou autorizado a deixar de fazê-lo?”

Porque o problema do coração humano nunca foi simplesmente falta de informação. É a velha disposição de “ser como Deus”, decidindo por si mesmo o que deve aceitar e o que pode descartar.

Uns rejeitam a norma moral gravada no coração; outros rejeitam a norma eclesiástica e doutrinária entregue por Cristo aos seus apóstolos.

Mudam-se os argumentos.

Mudam-se os slogans.

Mudam-se as plataformas.

Mas a velha rebelião continua extraordinariamente atual.

E Paulo continua tendo uma palavra para esse espetáculo:

"loquacidade frívola."

Muito discurso.

Muita indignação.

Muita autoconfiança.

E, frequentemente, pouquíssima disposição para simplesmente obedecer à Palavra. Aliás, esta é selecionada dentre aqueles textos incômodos à soberba da auto suficiência.


Rev. Julio Pinto 

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