“E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para
profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres.”
(Efésios 4.11)
A existência dos ofícios na igreja não surge da criatividade
institucional humana nem de mera necessidade organizacional posterior ao
período apostólico. A própria estrutura ministerial da igreja procede da
autoridade soberana de Cristo vista antes e depois de sua ressurreição. O
Senhor que comprou Sua igreja com Seu sangue também determinou os meios pelos
quais ela seria preservada, ensinada, governada, corrigida e edificada ao longo
da história da redenção. Por isso, o Novo Testamento jamais apresenta a igreja
como realidade desorganizada, amorfa ou entregue ao individualismo religioso
autônomo. Cristo não apenas salva um povo; Ele governa esse povo mediante meios
ordinários estabelecidos por Sua própria autoridade.
Essa realidade, porém, não surge apenas após a ressurreição.
Os próprios evangelhos já demonstram que Cristo preparava progressivamente a
estrutura de Sua igreja ainda durante Seu ministério terreno. O livro de Atos
não apresenta a criação improvisada de uma instituição religiosa nova, mas o
desenvolvimento histórico daquilo que o próprio Cristo já vinha estabelecendo
soberanamente. O Senhor afirma em Mateus 16: “Edificarei
a minha igreja.” (Mt 16.18)
A declaração é profundamente significativa. Em primeiro
lugar, a igreja pertence a Cristo, Ele diz: “minha igreja”. Desta maneira, ela não
pertenceu aos apóstolos; nem agora aos líderes, a instituições humanas,
tampouco pertence a qualquer homem em particular.
Além disso, Cristo fala da igreja em perspectiva futura, “edificarei”. Isso demonstra que, embora o povo da
aliança já existisse anteriormente sob a antiga administração pactual, a igreja
seria agora conhecida de maneira mais plena e definitiva sob a nova aliança
inaugurada pelo próprio Messias. É nesse contexto que a tradição reformada
historicamente compreendeu a conhecida afirmação da Confissão de Fé de
Westminster de que “fora da igreja visível não há possibilidade ordinária de
salvação” (CFW 25.2). Tal formulação não significa que a igreja institucional possua
poder autônomo para salvar, nem que a graça de Deus esteja mecanicamente presa
à estrutura visível da igreja como ensinou o romanismo. O sentido da declaração
é que Cristo normalmente reúne, preserva, alimenta e conduz Seu povo mediante
os meios de graça confiados à Sua igreja visível: a pregação da Palavra, os
sacramentos, a disciplina e a comunhão dos santos. Desprezar deliberadamente a
igreja visível significa desprezar precisamente os meios ordinários
estabelecidos pelo próprio Cristo para edificação e preservação espiritual de
Seu povo.
Ainda nesse mesmo contexto, Cristo fala das “chaves do reino”: “Dar-te-ei
as chaves do reino dos céus.” (Mt 16.19). Aqui já aparecem
embrionariamente a autoridade ministerial, a disciplina eclesiástica, o governo
espiritual, a administração da igreja visível e a autoridade declarativa ligada
ao evangelho. Essa linguagem prepara diretamente aquilo que posteriormente se
desenvolve mais claramente na vida da igreja apostólica.
Pouco depois, em Mateus 18, Cristo expõe de forma ainda mais
explícita elementos fundamentais da estrutura eclesiástica da nova aliança: “Se teu irmão pecar contra ti...” (Mt 18.15ss). O
texto é absolutamente decisivo porque pressupõe claramente uma igreja visível
organizada e identificável. Cristo afirma: “Dize-o à
igreja.” (Mt 18.17).
A igreja aparece aqui como assembleia pública reconhecível,
possuindo autoridade espiritual legítima para exercer disciplina, correção e
governo. O Senhor ainda acrescenta: “Tudo o que
ligardes na terra terá sido ligado no céu.” (Mt 18.18). Essa
linguagem conecta-se diretamente às chaves do reino mencionadas anteriormente e
demonstra que Cristo estabeleceria uma igreja dotada de autoridade ministerial
subordinada à Sua Palavra. É precisamente nesse sentido que comentamos
anteriormente acerca da afirmação da C.F.W. sobre o modo ordinário pelo qual
Deus salva e preserva Seu povo por meio da igreja.
Ao mesmo tempo, o próprio Cristo estabelece limites claros
para essa autoridade. Em Lucas 22, ao tratar da futura liderança da igreja, o
Senhor rejeita explicitamente modelos tirânicos de governo religioso: “Os reis dos gentios dominam sobre eles... entre vós não será
assim.” (Lc 22.25-26).
A autoridade na igreja jamais possuiria natureza despótica,
clericalista ou absolutista. Os oficiais não governam como senhores autônomos,
mas como servos do Supremo Pastor. O modelo ministerial neotestamentário é
pastoral, conciliar e sacrificial, não monárquico e dominador.
É precisamente nesse ponto que o Novo Testamento entra em
profundo contraste com o desenvolvimento posterior do clericalismo romano e da
doutrina papal. A estrutura eclesiástica construída séculos depois em torno da
supremacia universal do bispo de Roma não encontra fundamento legítimo na
organização apostólica revelada nas Escrituras. O Novo Testamento não apresenta
Pedro como o primeiro monarca supremo da igreja universal, tampouco estabelece
qualquer sucessão petrina infalível.
O principal texto utilizado historicamente para sustentar o
papado encontra-se em Mateus 16.18: “Também eu te
digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja...”.
A interpretação romana entende que Pedro seria a própria pedra fundamental da
igreja e que sua autoridade continuaria posteriormente nos bispos de Roma.
Contudo, essa leitura encontra sérios problemas exegéticos, contextuais e
teológicos.
Em primeiro lugar, o próprio contexto da passagem aponta
para a confissão feita por Pedro acerca da identidade messiânica de Cristo: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.” (Mt 16.16). A resposta de Cristo não exalta Pedro como
fundamento absoluto da igreja, mas reconhece a revelação divina concedida
acerca da verdadeira identidade do Messias. Além disso, o próprio
desenvolvimento da frase revela uma mudança significativa no discurso de
Cristo. Ao dirigir-se pessoalmente a Simão, Jesus utiliza a segunda pessoa do
singular: “tu és Pedro” (σὺ εἶ Πέτρος). Contudo, ao falar sobre o
fundamento da igreja, Cristo altera a construção e utiliza um demonstrativo: “e sobre esta pedra...” (καὶ ἐπὶ ταύτῃ τῇ πέτρᾳ). A mudança não é
irrelevante. O foco do discurso desloca-se do homem Pedro para aquilo que
acabara de ser confessado e revelado acerca de Cristo. O demonstrativo “esta” aponta para a realidade imediatamente
estabelecida no contexto: a confissão da identidade messiânica do Filho de Deus
e não necessariamente para a pessoa individual de Pedro como fundamento supremo
e permanente da igreja.
Além disso, o texto grego emprega distinção significativa
entre Πέτρος (Petros) e πέτρα
(petra). Ainda que discussões
linguísticas existam acerca da nuance exata, o restante do Novo Testamento
deixa absolutamente claro que o verdadeiro fundamento último da igreja é o
próprio Cristo.
O próprio Pedro posteriormente escreve: “Chegando-vos para ele, a pedra que vive...” (1Pe
2.4). E ainda: “Eis que ponho em Sião uma pedra
angular, eleita e preciosa.” (1Pe 2.6). A expressão “pedra angular” possui enorme importância na
linguagem arquitetônica antiga. Tratava-se da principal pedra estrutural da
construção, responsável por alinhar, sustentar e orientar todo o edifício. Era
a pedra fundamental sobre a qual a estabilidade da estrutura dependia. Ao
aplicar essa imagem a Cristo, o Novo Testamento não deixa espaço para
compreender qualquer homem como fundamento supremo da igreja. Os próprios
apóstolos são descritos como parte da estrutura edificada, enquanto Cristo
permanece sendo a Pedra Angular que sustenta, une e governa todo o edifício
espiritual do povo de Deus. Pedro, em seu próprio texto, não direciona a igreja
para si mesmo como fundamento supremo, mas para Cristo como Pedra Angular.
Paulo confirma a mesma realidade: “Porque ninguém pode lançar outro fundamento, além do que foi
posto, o qual é Jesus Cristo.” (1Co 3.11). E novamente: “Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo
ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular.” (Ef 2.20).
Observe que mesmo quando os apóstolos aparecem ligados ao
fundamento da igreja, Cristo continua sendo identificado como a Pedra Angular
sustentadora de toda a estrutura espiritual. O fundamento apostólico é
ministerial e derivado; Cristo permanece sendo o fundamento absoluto e
principal.
Além disso, a própria atuação histórica de Pedro no Novo
Testamento desmonta completamente a ideia de supremacia papal. Em Atos 15, no
chamado Concílio de Jerusalém, Pedro participa da discussão, mas não governa a
assembleia como monarca universal da igreja. O próprio texto afirma que “havendo grande debate” (At 15.7), Pedro toma então
a palavra não como autoridade suprema encerrando unilateralmente a questão, mas
como um dentre aqueles que participavam da deliberação conciliar acerca do
problema levantado. Sua fala integra o debate da assembleia, oferecendo
testemunho acerca da ação de Deus entre os gentios.
Além disso, o desenvolvimento posterior do capítulo
demonstra claramente que Pedro não atua como moderador nem como autoridade
final do concílio. Pelo contrário, é Tiago quem assume a condução conclusiva da
decisão ao afirmar: “Pelo que, julgo eu não devemos
perturbar aqueles que, dentre os gentios, se convertem a Deus.” (At
15.19). É também a partir dessa formulação que se estrutura a orientação
posteriormente enviada às igrejas.
A decisão oficialmente comunicada não aparece como decreto
exclusivo de Pedro, mas como resolução colegiada dos apóstolos e presbíteros
reunidos. O modelo apresentado em Atos é conciliar e presbiterial, não
monárquico e papal. Da mesma forma, o texto também não sustenta um modelo
congregacionalista radical no qual um único pastor governa isoladamente a
igreja local segundo autoridade pessoal autônoma. O padrão neotestamentário
revela pluralidade de presbíteros, deliberação conjunta, submissão mútua à
Palavra e decisões tomadas no contexto da comunhão conciliar da igreja. A
autoridade ministerial jamais aparece concentrada na figura de um líder
independente, mas exercida corporativamente por oficiais reconhecidos e
submetidos ao senhorio de Cristo e à autoridade das Escrituras.
Da mesma forma, Paulo relata em Gálatas 2.11 que resistiu
publicamente a Pedro “face a face” porque
ele havia se tornado repreensível. Tal episódio seria praticamente inconcebível
caso Pedro ocupasse posição de autoridade infalível e suprema sobre toda a igreja.
Além disso, o próprio Pedro identifica-se humildemente como
“presbítero”: “Rogo, pois, aos presbíteros que há entre vós, eu, presbítero como eles...”
(1Pe 5.1). Ele jamais reivindica trono universal, jurisdição absoluta ou
supremacia monárquica sobre os demais oficiais da igreja.
Esse contraste também expõe outro erro profundamente ligado
ao clericalismo romano: o sacerdotalismo. O Novo Testamento jamais apresenta os
ministros da igreja como sacerdotes mediadores que oferecem novamente
sacrifícios diante de Deus. O sacerdócio levítico encontrou seu cumprimento
definitivo em Cristo. Ele é o único Mediador entre Deus e os homens (1Tm 2.5),
o verdadeiro Sumo Sacerdote eterno (Hb 7–10), aquele que ofereceu um único e
perfeito sacrifício pelos pecados de Seu povo.
Por isso, os oficiais da igreja não ocupam posição redentiva
entre Deus e os homens. Eles servem ministerialmente ao povo da aliança
mediante a pregação da Palavra, administração dos sacramentos, disciplina e
cuidado pastoral. A autoridade ministerial existe para servir à igreja sob o
senhorio de Cristo, jamais para substituir o próprio Cristo.
A grande comissão reforça ainda mais essa realidade: “Toda autoridade me foi dada no céu e na terra.”
(Mt 28.18). A autoridade da igreja nasce da autoridade do Cristo exaltado. Em
seguida, Cristo ordena: “Ide, portanto, fazei
discípulos... batizando-os... ensinando-os a guardar todas as coisas que vos
tenho ordenado.” (Mt 28.19-20).
Aqui aparece organicamente toda a estrutura embrionária da
igreja e é desenvolvida e aplicada posteriormente à igreja pelo próprio Cristo exaltado:
• autoridade ministerial;
• administração sacramental;
• ensino doutrinário;
• continuidade da igreja;
• sucessão ministerial legítima.
Além disso, o texto demonstra que os apóstolos não
receberiam liberdade para inventar doutrinas novas. Sua função consistiria em
transmitir fielmente o ensino de Cristo: “ensinando-os
a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado.”
Isso se torna fundamental para a compreensão do próprio conceito de autoridade ministerial no Novo Testamento. A autoridade dos oficiais nunca é autônoma; ela é ministerial, declarativa e sempre subordinada à Palavra de Cristo. Nesse sentido, Paulo desenvolve a questão ao afirmar acerca do ministério pastoral: “Estas coisas, irmãos, apliquei-as figuradamente a mim mesmo e a Apolo, por vossa causa, para que por nosso exemplo aprendais isto: não ultrapasseis o que está escrito, a fim de que ninguém se ensoberbeça a favor de um em detrimento de outro” (1 Coríntios 4.6).
Essa realidade aparece novamente em João 20: “Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio.” (Jo 20.21). Cristo estabelece representantes ministeriais autorizados a proclamar oficialmente o evangelho. A igreja não nasce como realidade anárquica, mas como corpo governado mediante oficiais legitimamente chamados.
Também em João 21, Cristo diz a Pedro: “Apascenta as minhas ovelhas.” (Jo 21.17). Aqui
aparece claramente a natureza pastoral do ministério cristão. O oficialato não
existe para dominação pessoal, mas para alimentação espiritual, cuidado e
proteção do rebanho de Cristo.
As Escrituras também distinguem cuidadosamente entre ofícios
extraordinários e temporários, e ofícios ordinários e permanentes. Os
apóstolos, profetas e evangelistas pertencem à fase fundacional da igreja apostólica.
Paulo afirma que a igreja foi edificada “sobre o
fundamento dos apóstolos e profetas” (Ef 2.20). Um fundamento não é
continuamente relançado. Os apóstolos possuíam características que não poderiam
ser repetidas posteriormente:
• testemunho direto (ocular) do Cristo ressurreto;
• autoridade inspirada (Escritura);
• sinais apostólicos (fundamentando o envio assim como foi
com Moisés);
• função fundacional (pertenciam ao período de fundação da
igreja no mundo).
Por isso, não existe continuidade apostólica no sentido
romano ou neopentecostal. A tentativa moderna de restaurar “apóstolos”
constitui profunda confusão acerca da natureza extraordinária e temporária
desse ofício.
É nesse contexto que Efésios 4 assume enorme importância: “E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para
profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres.”
(Ef 4.11). O texto não apresenta mera lista abstrata de dons espirituais, mas
homens dados por Cristo à igreja para exercício de ofícios específicos. O foco
principal não repousa inicialmente nos dons em si, mas nas pessoas separadas
soberanamente por Cristo para o serviço ministerial. Os dons equipam esses homens
para o desempenho do ofício recebido.
Isso corrige tanto o clericalismo quanto o individualismo
moderno. O ministério não nasce de autopromoção religiosa, preferência pessoal
ou autodeclaração subjetiva. Cristo chama homens ao serviço de Sua igreja. Essa
realidade aparece claramente em Atos 13: “Disse o
Espírito Santo: Separai-me, agora, Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho
chamado.” (At 13.2)
Observe a ordem:
• o chamado parte de Deus;
• o Espírito separa;
• a igreja reconhece;
• os oficiais impõem as mãos.
O homem não se auto-ordena. O chamado interno precisa ser
reconhecido externamente pela igreja. Por isso, o Novo Testamento
constantemente associa o exercício legítimo do ministério ao reconhecimento
público e eclesiástico.
Essa dimensão aparece de modo particularmente importante na
vida de Timóteo: “Não te faças negligente para com o
dom que há em ti, o qual te foi concedido mediante profecia, com a imposição
das mãos do presbitério.” (1Tm 4.14). O texto demonstra a existência
estrutural da igreja com um colegiado de presbíteros, com o ofício recebendo um
reconhecimento público, a autoridade do presbitério em realizar a ordenação
ministerial, tudo isso mostrando a continuidade legítima daquilo que Cristo afirmou
de que “edificaria a sua igreja”.
Essa sucessão ministerial, porém, não possui natureza papal
ou apostólica romana. A autoridade não deriva de linhagem sacramental
infalível, mas da fidelidade contínua da igreja à Palavra de Deus e à ordem
estabelecida por Cristo.
O Novo Testamento também demonstra que os termos
“presbítero”, “bispo” e “pastor” não descrevem três hierarquias distintas, mas
aspectos diferentes do mesmo ofício ministerial. Em Atos 20, Paulo chama os “presbíteros” da igreja de Éfeso (At 20.17) e logo
depois os mesmos presbíteros são identificados como “bispos” encarregados de “pastorear”
o rebanho (At 20.28). O mesmo padrão aparece em Tito 1 e 1 Pedro 5.
Cada termo enfatiza aspecto distinto do mesmo ofício:
• O termo presbítero aponta para maturidade e dignidade do
ofício;
• O termo bispo aponta para a supervisão do trabalho na
igreja local;
• O termo pastor direciona ao cuidado do rebanho.
Essa unidade demonstra a irrazoabilidade de estruturas
hierárquicas artificiais desenvolvidas posteriormente no episcopalismo
monárquico.
Além disso, o padrão apostólico revela pluralidade de
presbíteros nas igrejas locais. O Novo Testamento consistentemente fala de
presbíteros no plural, evitando concentração absoluta de autoridade em um único
homem. Esse princípio protege a igreja contra personalismo, autoritarismo e
tirania espiritual.
Dentro do presbiterato, as Escrituras ainda indicam
distinção funcional entre presbíteros especialmente dedicados ao ensino e
outros envolvidos principalmente no governo da igreja: “Devem ser considerados merecedores de dobrados honorários os
presbíteros que presidem bem, com especialidade os que se afadigam na palavra e
no ensino.” (1Tm 5.17)
O diaconato, por sua vez, surge como ofício voltado
especialmente ao serviço, misericórdia e preservação da ordem prática da
igreja, conforme Atos 6 e 1 Timóteo 3. Contudo, o diaconato jamais aparece como
função espiritualmente inferior. Trata-se de ofício santo dentro do corpo de
Cristo.
As qualificações dos oficiais da igreja evidenciam que o
ministério não se sustenta em aptidões externas, mas em virtudes espirituais
concretas, formadas pela ação da Palavra e do Espírito. Estas virtudes podem
ser resumidas da seguinte forma:
• Piedade: refere-se a uma vida de comunhão real com Deus,
marcada por reverência, oração e dependência contínua. Não é apenas
religiosidade externa, mas devoção sincera que orienta todas as decisões do
oficial.
• Domínio próprio: indica a capacidade de governar os
próprios desejos, impulsos e reações à luz da vontade de Deus. O oficial não é
guiado por instintos ou paixões, mas por sobriedade e equilíbrio espiritual.
• Fidelidade doutrinária: envolve firmeza na sã doutrina,
com discernimento para preservar o ensino apostólico sem concessões ao erro.
Trata-se de coerência entre crença, ensino e defesa da verdade bíblica.
• Governo da própria casa: expressa a capacidade de exercer
liderança espiritual no lar com ordem, cuidado e testemunho consistente. A vida
doméstica torna-se evidência prática da aptidão para cuidar da igreja.
• Maturidade espiritual: aponta para um caráter já
consolidado na fé, com estabilidade, humildade e discernimento. Não se trata de
perfeição, mas de um caminhar amadurecido que revela consistência ao longo do
tempo.
A autoridade ministerial permanece derivada e limitada. Os
oficiais não possuem direito de legislar novas doutrinas nem governar
arbitrariamente a consciência do povo de Deus. Cristo continua sendo o único
Senhor da igreja.
Ao mesmo tempo, as Escrituras também ordenam submissão
legítima aos oficiais fiéis: “Obedecei aos vossos
guias e sede submissos para com eles...” (Hb 13.17). O
individualismo religioso moderno frequentemente rejeita qualquer forma de
autoridade eclesiástica. Contudo, Cristo não estabeleceu uma igreja sem
governo, sem disciplina e sem oficiais.
Ainda assim, a existência de autoridade espiritual jamais
elimina a realidade da falibilidade humana. Oficiais permanecem homens
pecadores e imperfeitos. Contudo, Cristo preserva Sua igreja mesmo mediante
vasos frágeis. A fidelidade da igreja repousa finalmente não na perfeição de
seus líderes, mas na fidelidade contínua de seu Senhor ressurreto, que
prometeu: “Eis que estou convosco todos os dias até
à consumação do século.” (Mt 28.20).
Rev. Júlio Pinto
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