CONTINUAÇÃO
5. Os limites da autoridade do Estado
Se as Escrituras ensinam que a autoridade civil procede de
Deus, elas também ensinam com igual clareza que essa autoridade não é absoluta.
O magistrado é ministro de Deus, não substituto de Deus. Sua autoridade é real,
mas derivada; legítima, mas limitada; elevada, mas subordinada ao Senhor que a
concedeu.
O erro mais perigoso na compreensão do Estado consiste em
transformar uma autoridade delegada em autoridade suprema. Quando isso ocorre,
o governo passa a reivindicar prerrogativas que pertencem exclusivamente a
Deus. A história está repleta de exemplos desse tipo de usurpação. Imperadores
foram adorados como deuses. Reis reivindicaram autoridade espiritual absoluta.
Estados modernos passaram a legislar como se fossem a fonte última da
moralidade. Em todos esses casos, a criatura procurou ocupar o lugar do
Criador.
As Escrituras jamais concedem tal posição ao magistrado.
Quando Israel recebeu instruções acerca da monarquia, o
próprio rei foi colocado debaixo da Lei de Deus: “Também,
quando se assentar no trono do seu reino, escreverá para si um traslado desta
lei num livro, do que está diante dos sacerdotes levitas. Tê-lo-á consigo e
nele lerá todos os dias da sua vida, para que aprenda a temer o Senhor, seu
Deus, a fim de guardar todas as palavras desta lei e estes estatutos, para os
cumprir; para que o seu coração não se eleve sobre os seus irmãos e não se
aparte do mandamento, nem para a direita nem para a esquerda...” (Dt
17.18-20)
Observe a profundidade do texto. O rei não está acima da
Lei. O rei encontra-se debaixo da Lei. Ele governa, mas também deve obedecer.
O mesmo princípio aparece no Salmo 2: “Agora, pois, ó reis, sede prudentes; deixai-vos advertir,
juízes da terra. Servi ao Senhor com temor e alegrai-vos nele com tremor.
Beijai o Filho para que se não irrite...” (Sl 2.10-12). Os
governantes não são chamados a receber adoração, são chamados a adorar. Eles
próprios permanecem sujeitos ao governo de Cristo.
Por isso, toda autoridade civil encontra seus limites na
própria autoridade de Deus. Nenhum magistrado possui direito de exigir aquilo
que Deus proíbe ou de proibir aquilo que Deus ordena.
·
O Estado não governa a consciência.
·
O Estado não define a verdade.
·
O Estado não determina o conteúdo da fé.
·
O Estado não ocupa o lugar da igreja.
·
O Estado não substitui o senhorio de Cristo.
6. Quando obedecer a Deus antes dos homens
Precisamente porque a autoridade civil possui limites, as
Escrituras também reconhecem situações extraordinárias nas quais o povo de Deus
deve recusar obediência ao magistrado. Esse princípio não nasce de espírito
revolucionário. Nasce da própria soberania de Deus. Quando uma autoridade
humana exige aquilo que contradiz a Palavra de Deus, a obediência ao Senhor
torna-se prioritária.
As parteiras hebreias constituem um dos primeiros exemplos
dessa realidade. Faraó ordenou: “Quando servirdes de
parteiras às hebreias... se for filho, matai-o...” (Êx 1.16). Mas o
texto continua: “As parteiras, porém, temeram a Deus
e não fizeram como lhes ordenara o rei do Egito...” (Êx 1.17). Elas
desobedeceram ao rei porque obedeceram a Deus.
Séculos mais tarde, os amigos de Daniel enfrentaram situação
semelhante. Diante da ordem para adorar a imagem de ouro levantada por
Nabucodonosor, responderam: “Se o nosso Deus, a quem
servimos, quer livrar-nos, ele nos livrará... Se não, fica sabendo, ó rei, que
não serviremos a teus deuses...” (Dn 3.17-18). Daniel igualmente
recusou submeter-se ao decreto que proibia a oração: “Daniel, pois, quando soube que a escritura estava assinada,
entrou em sua casa... três vezes por dia, se punha de joelhos, e orava...”
(Dn 6.10)
O Novo Testamento mantém exatamente o mesmo princípio. Quando
as autoridades judaicas proibiram a pregação do evangelho, Pedro e João
responderam: “Julgai se é justo diante de Deus
ouvir-vos antes a vós outros do que a Deus.” (At 4.19). Pouco depois
afirmaram: “Antes, importa obedecer a Deus do que
aos homens.” (At 5.29). Veja que os apóstolos não estavam rejeitando
toda autoridade civil ou religiosa. Estavam apenas reconhecendo que existe uma
autoridade superior à qual todas as demais devem se submeter.
Portanto, a submissão cristã jamais é cega, é consciente, reverente
e é limitada pela própria Palavra de Deus. Quando Estado e Escritura entram em
conflito direto, o cristão deve permanecer ao lado da Escritura.
7. A relação entre igreja e Estado
Uma das questões mais importantes da teologia política
cristã consiste em compreender corretamente a relação entre igreja e Estado. As
Escrituras ensinam que ambas as instituições procedem de Deus. Contudo, não
foram criadas para desempenhar as mesmas funções.
O Estado recebeu a espada X A
igreja recebeu as chaves.
O Estado administra justiça civil X A
igreja administra os meios de graça.
O Estado protege a ordem pública X A igreja proclama o evangelho.
O próprio Cristo ensinou esse princípio quando afirmou: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.”
(Mt 22.21). A declaração não estabelece autonomia absoluta entre as esferas,
como se Deus governasse apenas a religião enquanto César governasse o restante
da vida. Pelo contrário. Ambos pertencem a Deus. Mas cada esfera possui
competências distintas.
O próprio Cristo declarou: “O meu
reino não é deste mundo.” (Jo 18.36). Seu reino certamente governa
este mundo, mas não mediante os mecanismos próprios dos reinos terrenos. A
igreja não avança por coerção política, avança pela Palavra, pelo Espírito e
pela graça.
Ao mesmo tempo, Romanos 13 demonstra que o Estado também
serve aos propósitos divinos. Assim, igreja e Estado não são inimigos, mas também
não são a mesma instituição. São administrações distintas da providência de
Deus.
8. O erro do erastianismo
Ao longo da história, uma das grandes distorções dessa
relação foi o chamado erastianismo. O erastianismo ensina que o Estado possui
autoridade suprema sobre a igreja. Nesse modelo, governantes civis passam a
controlar: doutrina, disciplina, ordenações, governo eclesiástico, culto. Em
vez de Cristo governar Sua igreja por meio dos oficiais que Ele mesmo instituiu,
o governo civil passa a exercer controle espiritual.
As Escrituras rejeitam esse conceito. O próprio Cristo
declarou: “Também eu te digo que tu és Pedro, e
sobre esta pedra edificarei a minha igreja...” (Mt 16.18). A igreja
pertence a Cristo, não pertence ao Estado.
Igualmente, Paulo escreve aos presbíteros de Éfeso: “Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito
Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a igreja de Deus...”
(At 20.28). Observe que foi o Espírito Santo quem constituiu os oficiais da
igreja. Não foi César, nem o Senado e também não foi o Estado.
Por isso, a igreja deve respeitar a autoridade civil em sua
esfera legítima, mas jamais pode entregar ao Estado a autoridade espiritual que
pertence exclusivamente a Cristo.
9. O erro da teocracia eclesiástica
O erro oposto consiste em permitir que a igreja assuma
funções que Deus entregou ao Estado. Se o erastianismo submete a igreja ao
Estado, a teocracia eclesiástica procura submeter o Estado à administração
direta da igreja. Historicamente, isso produziu confusões graves entre
autoridade espiritual e autoridade civil. Contudo, Cristo jamais entregou à
igreja a espada civil.
Quando Pedro tentou defender o Senhor mediante violência
física, Cristo respondeu: “Embainha a tua espada;
pois todos os que lançam mão da espada à espada perecerão.” (Mt
26.52). Paulo emenda dizendo que: “... as armas da
nossa milícia não são carnais...” (2Co 10.4). A igreja possui
autoridade verdadeira, mas é autoridade espiritual.
A igreja deve: proclamar, ensinar, exortar, disciplinar, administrar
sacramentos; ela não governa por coerção civil. Cristo governa Sua igreja
mediante Sua Palavra e Seu Espírito. Por isso, a solução bíblica não está nem
no domínio do Estado sobre a igreja, nem no domínio da igreja sobre o Estado. Ambos
permanecem debaixo do senhorio de Cristo, exercendo funções distintas dentro da
ordem estabelecida por Deus.
(Continua na Parte III: oração pelas autoridades,
participação cristã na vida pública, Cristo como Rei das nações e o juízo de
Deus sobre governantes e povos.)
Rev. Júlio Pinto
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