10. O dever cristão de oração pelas autoridades
Se o magistrado civil é uma instituição estabelecida por
Deus, segue-se naturalmente que a igreja possui responsabilidades espirituais
para com aqueles que exercem a autoridade pública. Entre essas
responsabilidades, destaca-se a oração. Paulo exorta: “Antes de tudo, pois, exorto que se use a prática de súplicas,
orações, intercessões, ações de graças, em favor de todos os homens, em favor
dos reis e de todos os que se acham investidos de autoridade, para que vivamos
vida tranquila e mansa, com toda piedade e respeito.” (1Tm 2.1-2)
A força dessa exortação torna-se ainda mais evidente quando
lembramos o contexto histórico em que foi escrita. Paulo não estava vivendo sob
um governo cristão. Não havia um império comprometido com os valores do
evangelho. Pelo contrário, o Império Romano tornava-se progressivamente, e cada
vez mais, hostil à fé cristã, e o próprio Nero provavelmente ocupava o trono
quando essa carta foi escrita.
Ainda assim, o apóstolo não ordena que a igreja amaldiçoe os
governantes.
Não ordena que a igreja abandone a oração por eles.
Não ordena que a igreja os trate como se estivessem fora do
alcance da providência divina.
A ordem é clara: orar. Orar para que Deus conceda sabedoria,
para que a justiça prevaleça, para que a ordem seja preservada, para que a
igreja possa cumprir sua missão sem impedimentos desnecessários.
Essa mesma realidade aparece no Antigo Testamento. Quando
Judá foi levado para o exílio, o Senhor ordenou por intermédio de Jeremias: “Procurai a paz da cidade para onde vos desterrei e orai por
ela ao Senhor; porque na sua paz vós tereis paz.” (Jr 29.7). Mesmo
vivendo em Babilônia, o povo de Deus deveria buscar o bem comum da sociedade em
que estava inserido. Essa orientação permanece válida para a igreja em todas as
épocas.
Esse princípio ilustra uma verdade mais ampla acerca da
unidade das Escrituras. As doutrinas do Novo Testamento não surgem
desconectadas da revelação anterior, como se os apóstolos introduzissem
ensinamentos inteiramente novos e sem fundamento prévio. Pelo contrário, a
revelação do Novo Testamento desenvolve, esclarece e aplica aquilo que Deus já
havia revelado anteriormente. Não é por acaso que Cristo e os apóstolos
constantemente fundamentam seus ensinos nas Escrituras do Antigo Testamento.
Expressões como “está escrito”, “para que se cumprisse o que fora dito pelo
profeta”, “como está escrito na Lei”, ou outras semelhantes aparecem
repetidamente ao longo do Novo Testamento, demonstrando que a fé cristã está
edificada sobre uma revelação progressiva, coerente e unificada. A ordem para
orar pelas autoridades em 1Timóteo 2, portanto, não constitui uma inovação
apostólica, mas a continuidade de um princípio que já se encontrava claramente
estabelecido nas Escrituras do Antigo Testamento.
Assim, o cristão pode discordar de governantes, pode
denunciar injustiças e pode resistir a leis pecaminosas quando estas exigem
desobediência a Deus. Contudo, jamais pode abandonar o dever de interceder
pelas autoridades constituídas, independentemente da época em que vive, pois
essa responsabilidade acompanha o povo de Deus ao longo de toda a história da
redenção.
11. A participação dos cristãos na vida pública
Outro erro recorrente consiste em imaginar que a piedade
cristã exige completo afastamento das responsabilidades públicas da sociedade. As
Escrituras não sustentam esse pensamento, tampouco o comportamento. Ao longo da
história da redenção encontramos homens piedosos ocupando funções relevantes em
governos e administrações civis.
Há claro exemplos como o de José que tornou-se governador do
Egito. A narrativa de Gênesis registra que, após interpretar os sonhos de
Faraó, foi elevado à posição de autoridade sobre todo o reino: “Disse Faraó a José: Vês que te faço autoridade sobre toda a
terra do Egito.” (Gn 41.41). Podemos também apontar a Daniel que exerceu
funções governamentais sob diferentes impérios. “Então,
o mesmo Daniel se distinguiu destes presidentes e sátrapas, porque nele havia
um espírito excelente...” (Dn 6.3). Ainda podemos citar a Neemias que
serviu como oficial do rei da Pérsia. “Eu era
copeiro do rei.” (Ne 1.11).
Nenhum desses exemplos apresenta participação pública como
incompatível com fidelidade espiritual. Pelo contrário. Todos demonstram que
Deus pode usar Seus servos em diferentes esferas da vida social.
A pergunta que deve reger essa questão nunca pode estar em
torno de simplesmente participar ou não participar. A questão é participar sob
o senhorio de Cristo. A Escritura não exige que todo cristão se envolva
diretamente em funções políticas. Mas também não proíbe que o faça.
O princípio fundamental permanece o mesmo: qualquer vocação
legítima deve ser exercida para a glória de Deus.
Esse princípio aparece de forma particularmente clara nas
instruções de Paulo aos coríntios. O apóstolo escreve: “Foste chamado sendo escravo? Não te preocupes com isso; mas,
se ainda podes tornar-te livre, aproveita a oportunidade. Porque o que foi
chamado no Senhor, sendo escravo, é liberto do Senhor; semelhantemente, o que
foi chamado sendo livre é escravo de Cristo... Cada um permaneça diante de Deus
naquilo em que foi chamado.” (1Co 7.21-24). Observe que Paulo não
exige mudança imediata da condição social, econômica ou profissional como
requisito para servir a Cristo. O evangelho não destrói automaticamente as
vocações legítimas nas quais o homem se encontrava quando foi chamado. Antes,
santifica-as e as submete ao senhorio de Cristo.
O escravo convertido podia servir a Deus como escravo; o
homem livre podia servir a Deus como homem livre. Se surgisse oportunidade
legítima para melhorar sua condição, poderia aproveitá-la. Entretanto, sua
utilidade para o Reino não dependia dessa mudança. O fator determinante não era
a posição ocupada, mas a fidelidade a Cristo dentro dela.
O mesmo princípio aplica-se às diversas esferas da vida
pública. O cristão não é obrigado a abandonar uma vocação legítima simplesmente
porque se converteu. Seja como agricultor, comerciante, magistrado, militar,
professor, servidor público ou ocupante de função política, permanece a mesma
exigência: exercer sua vocação debaixo da autoridade de Cristo, obedecendo à
Sua Palavra e buscando a glória de Deus. A questão central nunca é meramente
onde o cristão está, mas como ele serve ao Senhor no lugar onde foi colocado
por Sua providência.
12. Cristo como Rei das nações
Uma das maiores deficiências da teologia moderna consiste em
restringir o senhorio de Cristo à esfera privada da religião. As Escrituras
apresentam quadro muito mais amplo. Cristo não é apenas Rei da igreja, é Rei do
universo. O Salmo 2 descreve a rebelião das nações contra Deus e contra Seu
Ungido: “Os reis da terra se levantam, e os
príncipes conspiram contra o Senhor e contra o seu Ungido...” (Sl
2.2). Entretanto, a resposta divina é não deixa dúvidas: “Eu, porém, constituí o meu Rei sobre o meu santo monte Sião.”
(Sl 2.6). O salmo continua: “Pede-me, e eu te darei
as nações por herança e as extremidades da terra por tua possessão.”
(Sl 2.8).
O Novo Testamento identifica esse Rei como o próprio Cristo.
Após Sua ressurreição, o Senhor declara: “Toda a
autoridade me foi dada no céu e na terra.” (Mt 28.18). Essa
autoridade não representa uma concessão que Cristo jamais possuíra
anteriormente como Filho eterno de Deus. Como o próprio Senhor afirma em Sua
oração sacerdotal: “E, agora, glorifica-me, ó Pai,
contigo mesmo, com a glória que eu tive junto de ti, antes que houvesse mundo.”
(Jo 17.5).
A exaltação descrita no Novo Testamento refere-se à
manifestação pública, histórica e mediatorial da glória e autoridade que
pertenciam ao Filho desde toda a eternidade. O Cristo encarnado, crucificado e
ressurreto é entronizado como Mediador diante de toda a criação. Paulo nos
ajuda dizendo: “Acima de todo principado, e
potestade, e poder, e domínio, e de todo nome que se possa referir...”
(Ef 1.21). E continua: “E pôs todas as coisas
debaixo dos pés e, para ser o cabeça sobre todas as coisas, o deu à igreja.”
(Ef 1.22).
João igualmente descreve Cristo como: “A fiel testemunha, o primogênito dos mortos e o soberano dos
reis da terra.” (Ap 1.5). E mais adiante emenda: “Rei dos reis e Senhor dos senhores.” (Ap 19.16)
·
Portanto, nenhum governante exerce autoridade
independente.
·
Nenhum parlamento legisla acima de Cristo.
·
Nenhuma corte está além de Seu governo.
·
Nenhuma nação escapa ao Seu domínio.
·
Toda autoridade humana existe sob o cetro do Rei
exaltado.
13. O juízo de Deus sobre governantes e povos
A mesma Escritura que ensina o governo providencial de Deus
sobre as nações também ensina Seu juízo sobre elas. Nenhum povo permanecerá
eternamente acima da justiça divina. Nenhum império escapará ao tribunal do
Senhor. Temos essa certeza não somente pela fé que espera, mas porque a própria
história bíblica fornece inúmeros exemplos do exercício dessa justiça na
história. Os mesmos reis que Deus levanta, Ele também derruba. As mesmas nações
que prosperam sob Sua providência podem ser abatidas quando persistem em sua
soberba, idolatria e rebelião contra Sua Lei.
·
O Egito foi julgado.
·
A Assíria foi julgada.
·
Babilônia foi julgada.
·
Israel foi julgado.
·
Judá foi julgado.
O Senhor declarou contra a Assíria: “Ai da Assíria, cetro da minha ira...” (Is 10.5). Pouco
depois, o mesmo Deus que utilizou a Assíria para disciplinar Israel anuncia
juízo contra ela. Babilônia tornou-se instrumento do castigo divino contra
Judá. Entretanto, posteriormente, também recebeu condenação.
O caso de Nabucodonosor ilustra de forma impressionante esse
princípio. Após exaltar-se em orgulho, declarou: “Não
é esta a grande Babilônia que eu edifiquei...” (Dn 4.30); e imediatamente
veio a sentença divina. Ao final do episódio, o próprio rei reconhece: “Segundo a sua vontade, ele opera com o exército do céu e os
moradores da terra; não há quem lhe possa deter a mão...” (Dn 4.35).
·
Os governantes podem ignorar essa realidade.
·
As nações podem zombar dela.
·
Mas nenhuma delas conseguirá escapar ao
julgamento de Deus.
·
O Senhor continua governando a história.
Conclusão
A doutrina bíblica do magistrado civil preserva
simultaneamente duas verdades fundamentais.
·
Primeiro, o Estado é uma instituição legítima
estabelecida por Deus.
·
Segundo, o Estado não é absoluto.
·
O magistrado é ministro de Deus, mas continua
sendo servo.
·
A igreja deve respeitar as autoridades civis, mas
jamais deve adorá-las.
·
O cristão deve obedecer às leis legítimas, mas
jamais deve obedecer ao pecado.
·
A igreja não governa o Estado.
·
O Estado não governa a igreja.
·
Ambos permanecem debaixo do senhorio de Cristo.
Ao final da história, reis e súditos, governantes e
governados, magistrados e cidadãos comparecerão diante do mesmo tribunal. Por
isso a advertência do Salmo 2 continua ecoando através dos séculos: “Agora, pois, ó reis, sede prudentes; deixai-vos advertir,
juízes da terra. Servi ao Senhor com temor e alegrai-vos nele com tremor.
Beijai o Filho para que se não irrite e não pereçais no caminho...”
(Sl 2.10-12)
·
O Estado existe por Deus.
·
O magistrado serve diante de Deus.
·
As nações pertencem a Deus.
·
E Cristo reina sobre todos.
Soli Deo Gloria.
Rev. Júlio Pinto
Nenhum comentário:
Postar um comentário
A todos os leitores peço que deixem seus comentários. Todos os comentários estarão sendo analisados segundo um padrão moral e ético bíblicos e respondidos à medida que se fizer necessário.